Rompendo o ciclo: como a desigualdade educacional molda gerações na Baixada Fluminense
- Alunos UVA

- 2 de dez. de 2025
- 9 min de leitura
Por Gabriel Goulart e Ellen Izabelle
A compradora de um hospital da Baixada Fluminense, Luiza Goulart, de 54 anos, hoje sonha em cursar seu ensino superior enquanto acerta as compras para mais um dia de cirurgia no serviço. Entre a compra de um catéter e outro, a estoquista pensa no futuro não conquistado de cursar seu tão sonhado curso de serviço social. Após ter sido adotada quando criança, Luiza sempre foi muito prestativa e solícita, ajudando sempre todos aqueles que podia, isso reflete nos seus sonhos atuais, onde a prática do cuidado social abraça com sua forma de levar a vida.
Trabalhando há 28 anos no mesmo lugar, ela sente que sua vida profissional está parada no tempo. Dia após dia, ela se vê sentada na mesma cadeira, comprando os mesmos itens, seguindo a mesma rotina que, aos poucos, tornou-se verdadeiramente desgastante.
"Como uma menina adotada, tudo veio muito depoia para mim... Eu ainda sonho com o dia que vou trabalhar na área que eu gosto"
Dentro de uma sala gelada, com a presença constante da chefe, observando cada minuto de seu desempenho, Luiza ainda pensa em um dia levantar seu tão desejado diploma de assistente social. Esse sonho se intensifica ainda mais, ao observar que o hospital onde trabalha está, aos poucos, encerrando suas atividades, deixando a compradora em um estado permanente de insegurança, temendo o que poderá acontecer com sua carreira depois de tanto tempo de dedicação. Sem uma graduação, aos seus 54 anos, e tendo terminado o ensino médio aos 40 anos, ela ainda espera a oportunidade de alcançar seus objetivos. Mais do que uma mudança profissional, busca a chance de se reinventar e de, enfim, ocupar o lugar que sempre sonhou.
A trajetória de Luiza não é um caso isolado. Sua dificuldade em avançar profissionalmente e concluir uma graduação reflete uma realidade muito mais ampla na Baixada Fluminense. Isso se confirma pelas respostas do Censo Demográfico realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que revelam um cenário preocupante, mostrando que quatro municípios fluminenses estão entre os menores percentuais de adultos com ensino superior no Brasil. Belford Roxo, Queimados, São João de Meriti e Magé não chegam a 10% da população com formação universitária. Belford Roxo, por exemplo, lidera a lista, com apenas 5,7% dos moradores de 25 anos ou mais tendo concluído um curso de graduação, um número significativo para uma cidade com cerca de 500 mil habitantes.
A vida dos que não chegaram lá e de seus filhos
Ester da Silva, de 60 anos, vive atualmente em São João de Meriti, na Baixada Fluminense. Trabalhando como cozinheira, Ester passa o dia entre panelas e temperos para conseguir colocar sustento dentro de casa. Enquanto isso, seu filho, João Vitor da Silva, de 20 anos, recém aprovado na UFRJ, estuda Farmácia e busca trilhar um futuro diferente de sua mãe.
Ao preparar os alimentos na cozinha quente, Ester lembra de sua infância no Piauí, onde estudou até o quarto ano do ensino fundamental, antes de se mudar para o Rio de Janeiro, ainda jovem, onde conseguiu terminar os estudos. Ester fez o supletivo para concluir o fundamental 2 e, assim, conseguir entrar no mercado de trabalho. Ela lembra que quando entrou no Ensino Médio, cursou apenas dois anos, pois foi nesse período que conheceu e se casou com seu ex-marido, dando início a vida familiar. Agora, com a necessidade de trabalhar e cuidar da casa, os estudos ficaram em segundo plano, afinal, naquela época era comum que mulheres precisassem escolher entre a formação e o trabalho para manter a casa.
Hoje, atuando na cozinha, Ester se sente orgulhosa e realizada por ver seu filho conquistar um caminho que lhe trará retorno no futuro seguindo por um caminho que ela sempre desejou, mas não conseguiu concretizar. João Vitor, um menino negro, morador de comunidade, atravessa a cidade de ônibus a caminho de mais um dia de aula na maior universidade do país. O jovem se encontra realizado cursando o que sempre quis, onde estudou a base no colégio de ensino técnico.
A história dele acompanha uma tendência nacional. Conforme as estatísticas, ele faz parte do aumento de escolarização que acontece nas regiões do país. Nas últimas décadas, o número de brasileiros com ensino superior triplicou, passando de 6% em 2000 para 18,4% em 2022, último ano em que o censo foi feito. Ainda assim, esse avanço não é distribuído de forma igual pelo país, deixando municípios da Baixada Fluminense, como São João de Meriti, entre as regiões com os menores índices de graduação no Brasil.

Embora a trajetória de João Vitor represente esse avanço no acesso à educação de forma geral, essa é uma realidade ainda distante para grande parte das famílias da Baixada Fluminense. Outras histórias da região mostram como essas conquistas seguem desiguais, principalmente quando comparamos com o município do Rio de Janeiro, onde o número de cidadãos com acesso ao ensino superior é muito maior, chegando a cerca de 24%. Em Duque de Caxias, por exemplo, Priscila Lima, de 43 anos, vive um cenário que ajuda a ampliar esse retrato.
Cuidando da casa enquanto o filho reveza o tempo entre o trabalho em home office para uma multinacional e a conclusão do TCC de Administração, Priscila acompanha com orgulho a rotina de Matheus, de 20. No calor da cidade, enquanto organiza a sala para começar mais um dia de sua vida familiar, iniciada aos 22 anos, ela se lembra dos momentos em que era adolescente, quando cursou o segundo grau como técnico em enfermagem. Passou pela rede particular no início dos estudos e concluiu o ensino fundamental na escola pública. A formação técnica, novamente no ensino privado, só foi possível graças ao esforço do pai, que insistiu para que a filha tivesse oportunidades melhores. Hoje ela reflete sobre as mudanças no acesso à educação e reconhece que, diferente do que viveu, as novas gerações encontram caminhos mais amplos com novas oportunidades e programas de ensino.
Seu filho, Matheus, trabalhando para uma empresa de São Paulo e finalizando sua faculdade, hoje observa os esforços que sua mãe fez para garantir um futuro de qualidade para o filho, que mudou as perspectivas colocadas em cima de um menino negro periférico. A realidade de Belford Roxo, marcada por altos índices de pobreza e desemprego, ainda limita o acesso a uma educação de qualidade, especialmente ao ensino superior. A desigualdade fica evidente quando se observa a distribuição de universidades públicas no estado: em 2022, o Município do Rio de Janeiro contava com 17 instituições de ensino superior, enquanto toda a Baixada Fluminense reunia apenas duas. Além disso, os cursos disponíveis não englobam todas as atividades, possuindo apenas nove cursos de graduação.

De acordo com o Mapa da Desigualdade da Região Metropolitana, o Rio de Janeiro está entre as cidades mais desiguais do mundo. Um estudo realizado em 2023, por pesquisadores da Casa Fluminense, organização dedicada à construção de ações e políticas públicas voltadas para a redução das desigualdades sociais, mostra que 10 municípios da Baixada, entre os 22 que compõem a Região Metropolitana do Rio, concentram os piores indicadores de desenvolvimento humano e social do estado.
Os caminhos da educação na Baixada Fluminense
Questões como violência, evasão escolar, mobilidade urbana deficiente, falta de investimento público e infraestrutura precária compõem um cenário que, há décadas, compromete o acesso à educação de qualidade na Baixada Fluminense. Esses problemas estruturais não apenas afetam o cotidiano dos estudantes, mas também corroem, pouco a pouco, a possibilidade de que esse direito constitucional seja plenamente assegurado. Para milhares de jovens, a escola deixa de ser um espaço de desenvolvimento e perspectiva de futuro para se tornar um ambiente de resistência diária.
Mesmo com a construção de novas unidades escolares nos últimos anos, a ausência de manutenção contínua e de recursos adequados transforma boa parte desses ambientes em lugares onde aprender se torna um desafio. Muitas escolas não possuem biblioteca, computadores, acesso à internet de qualidade ou salas climatizadas, condições básicas para acompanhar o ritmo de ensino exigido hoje. Além disso, falhas simples, mas essenciais, como bebedouros sem água gelada ou banheiros em estado degradante, criam um ambiente que compromete a permanência dos alunos.
Essa precariedade ultrapassa as paredes da sala de aula e atinge diretamente a vida dos estudantes. Em regiões onde a violência é constante, muitos jovens deixam de frequentar a escola por medo de conflitos armados que se tornam parte de suas rotinas. Somado a isso, a péssima mobilidade urbana dificulta ainda mais o acesso devido à falta de transporte, linhas reduzidas ou ônibus em más condições.
Consequentemente, o abandono escolar se torna um fenômeno previsível. Jovens que encontram pouco incentivo no ambiente escolar e que vivem sob pressão econômica acabam entrando precocemente no mercado de trabalho. Trocam livros por empregos instáveis para ajudar na renda de casa e, com isso, o sonho do ensino superior se torna ainda mais distante.
Os dados reforçam esse quadro preocupante. “Em 20 dos 22 municípios da Região Metropolitana, há pelo menos uma escola pública sem água, energia, esgoto e/ou alimentação. Em Nilópolis, cerca de 14% das escolas públicas não têm ao menos um desses serviços básicos. Escolas sem esses serviços refletem um acesso precarizado à educação em um contexto de racismo ambiental no ambiente escolar”, aponta o estudo da Casa Fluminense.

A base do problema
Outra problemática central é a alfabetização dos alunos, responsabilidade direta dos municípios. Muitos jovens chegam ao ensino médio com lacunas profundas na educação básica, que comprometem todo o processo de aprendizagem. Embora obtenham boas notas nos boletins, resultado, muitas vezes, de um sistema de aprovação automática ou avaliações pouco rigorosas, grande parte deles não sabe interpretar textos, escrever com autonomia ou realizar cálculos fundamentais.
Esse cenário é confirmado diariamente por Suzana Caspary, presidente da Fundação Santa Bárbara, instituição sem fins lucrativos localizada em Nova Iguaçu que acolhe crianças em situação de vulnerabilidade, abandono ou maus-tratos. Ao receber novos acolhidos, ela observa um padrão que se repete ano após ano.
“Eu vejo as crianças chegando aqui sem saber ler e escrever, mas com boas notas no boletim. Como elas apresentam um bom rendimento escolar nos documentos, não é possível solicitar um mediador ou reforço escolar para elas. E elas continuam passando de ano, mas sem saber o básico.”
A contradição entre o desempenho registrado e o aprendizado real impede que essas crianças tenham acesso a apoio pedagógico adequado, perpetuando defasagens que se acumulam ao longo da vida escolar. Esse déficit, não enfrentado nos primeiros anos, acompanha os estudantes até a adolescência e chega ao ensino médio, onde se torna ainda mais evidente.
Como consequência, o desempenho no Enem, que é porta de entrada para o ensino superior, é afetado diretamente, reduzindo as chances de aprovação dos jovens em universidades públicas e limitando o acesso às oportunidades educacionais que poderiam romper o ciclo de desigualdade na região.
Ao ser procurada pela nossa equipe para comentar o baixo índice de moradores com acesso ao ensino superior na cidade, a Secretaria de Educação de Nova Iguaçu respondeu:
“A Prefeitura de Nova Iguaçu esclarece que o ensino médio é de responsabilidade do Governo do Estado do Rio de Janeiro. No âmbito municipal, a prioridade da Secretaria de Educação é assegurar que os estudantes da educação infantil, do ensino fundamental e da Educação de Jovens e Adultos (EJA) concluam cada etapa com a formação necessária para avançar ao ensino médio plenamente preparados.”

Questionada também sobre as ações voltadas a incentivar os alunos a seguirem para o ensino superior e sobre programas de formação técnica ou profissionalizante que funcionem como alternativa ou complemento à graduação, a prefeitura informou:
“Para apoiar o ingresso no ensino superior e técnico, o município mantém o Preparatório Municipal, que oferece gratuitamente cursos pré-vestibular e pré-técnico para jovens da rede pública e pessoas em situação de vulnerabilidade, ampliando o acesso a universidades e escolas técnicas. A rede municipal também desenvolve ações de recomposição de aprendizagem e práticas pedagógicas que fortalecem a trajetória escolar e incentivam a continuidade dos estudos.”
As histórias de Luiza, Ester e Priscila revelam, cada uma a seu modo, os desafios persistentes enfrentados pelas famílias da Baixada Fluminense na luta pelo acesso ao diploma de ensino superior. Entre sonhos adiados, rotinas exaustivas e trajetórias interrompidas pela desigualdade estrutural, essas mulheres simbolizam uma geração que teve oportunidades ainda mais reduzidas e precisou abrir mão do próprio futuro acadêmico para garantir o dos filhos. Enquanto jovens como João Vitor e Matheus Lima conseguem, com esforço e apoio familiar, construir um futuro melhor, a realidade da região mostra que o caminho para a universidade ainda está longe de ser acessível para todos. Mesmo assim, a cada conquista individual, cresce a esperança de que as próximas gerações encontrem um cenário menos desigual, e que o sonho da graduação deixe de ser exceção para, finalmente, se tornar um direito plenamente realizado.

Priscila Lima, 43 anos, mãe do Matheus Lima, é formada em técnico de enfermagem e hoje cuida da casa e da família em Duque de Caxias.

Luiza Goulart, 54 anos, mãe e estoquista do Hospital das Clínicas. Moradora de Nova Iguaçu, divide a vida com os cuidados da casa e com o trabalho.

Ester da Silva, 60 anos, moradora de São João, atua como cozinheira e intercala com as tarefas domésticas.




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