Bilhete Universitário de Maricá: A Importância do Projeto na vida de jovens universitários
- Alunos UVA

- 2 de dez. de 2025
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Em uma cidade onde estudar significa atravessar madrugadas, ônibus cheios e longas distâncias, o Bilhete Universitário se tornou o apoio que mantém milhares de jovens na universidade apesar dos atrasos e incertezas.
Por Anna Clara Barude e Nathália Costa

Ainda está escuro quando Anna Luisa Vieira, estudante de jornalismo de 21 anos, sai de casa para ir ao ponto de ônibus. Ela costuma caminhar rápido porque sabe que, se perder o primeiro coletivo, a viagem até a universidade fica ainda mais demorada. Algumas casas ainda têm as luzes apagadas, outras já começam a movimentar o café da manhã. No ponto, ela encontra sempre as mesmas pessoas: estudantes sonolentos, trabalhadores apressados, mães com mochila e lancheira nas mãos.
A rotina é cansativa, mas é a única forma de chegar à faculdade. O trajeto exige tempo e paciência, e Anna sabe que qualquer atraso pode fazer diferença. Foi por isso que a demora na recarga do Bilhete Universitário, no início de 2025, causou tanto medo.
“Os atrasos no pagamento geram transtornos sérios para quem depende exclusivamente desse benefício para frequentar as aulas.”
Ela lembra desse período com um certo aperto. Conferia o celular todos os dias para ver se o saldo tinha caído. Pedia carona quando dava. Faltou aula quando não teve jeito. Para ela, o BU nunca foi um extra. É o que permite que a rotina siga funcionando.
A Longa Viagem até o Futuro
Para muitos jovens de Maricá, estudar sempre significou partir cedo, pegar ônibus lotados e enfrentar longos trajetos. Uma pesquisa realizada em 2018 por estudantes da UFRJ e da UFF mostrou que a maior parte dos universitários brasileiros depende exclusivamente do transporte público e, com isso, encara viagens demoradas, baldeações, atrasos e superlotação. É uma rotina cansativa, que exige resistência física e emocional.
Foi para mudar um pouco essa realidade que o Bilhete Único Universitário nasceu. Em 2012, o programa surgiu como uma alternativa ao antigo Ônibus Universitário, que não acompanhava a vida real dos estudantes. A coordenadora Kátia Martins, uma das responsáveis pela criação da política pública, explica o porquê da mudança.
“O que acontecia: tinha que sair muito cedo, às vezes o aluno não tinha uma aula ou tinha uma aula vaga e ficava até o horário do ônibus. O ônibus quebrava às vezes, que é normal, natural, infelizmente.”
Com o tempo, a proposta se mostrou mais eficiente e mais justa. O que começou com pouco mais de 380 alunos hoje atende mais de cinco mil. O impacto é sentido diretamente no bolso e na rotina. Isabella Bottino, estudante de Publicidade de 21 anos, está entre eles.
“Seria difícil manter a frequência estudantil, considerando que o custo com passagens de ônibus é muito alto e, sem o benefício, esses valores comprometeriam parte da minha renda”, afirmou a universitária.

A importância do programa também aparece em pesquisas acadêmicas sobre mobilidade estudantil no país. O estudo “Factors associated with the mobility of college students in Brazil: An analysis using a gravity model”, publicado em 2022 pelos pesquisadores Tatiane Pelegrini, Carla Sá e Marco Túlio Aniceto França no periódico Higher Education, dos Países Baixos, aponta que a distância e o custo do deslocamento são dois dos principais fatores que dificultam o ingresso e a permanência no ensino superior. Em outras palavras, quanto mais longe o estudante mora, maior é a chance de desistir. Por isso, políticas como o BU fazem diferença real na trajetória de jovens como Anna Luisa e Isabella.
Quando o Cartão Falha: o atraso que quase tirou muitos da sala de aula
No início de 2025, algo inesperado aconteceu. As recargas do Bilhete Único atrasaram por quase três meses. Para quem depende exclusivamente do benefício, esse período foi marcado por medo, incerteza e muitos cálculos mentais sobre como chegar à universidade. Anna Luisa lembra de acessar o aplicativo várias vezes por dia na esperança de que o saldo fosse atualizado. Cada ida ao ponto de ônibus parecia uma aposta.
A situação também preocupou pais, professores e coordenadores de curso. Estudantes que não tinham outra opção passaram a pegar caronas, dividir transporte com amigos e, em alguns casos, faltar. A rotina se tornou ainda mais pesada para quem já enfrentava longas viagens.

O Subsecretário de Educação, Victor Silveira, admite que aquele foi um momento difícil para todos: “Acho que o desafio maior é fazer chegar a bolsa pra quem realmente precisa… Ter todo o controle da gestão, que é uma coisa que no ambiente burocrático é difícil, ter que contratar empresa, fazer as recargas mensalmente. Essa parte toda do controle, da gestão, é o que é realmente mais desafiador.”
Segundo ele, o atraso aconteceu durante a mudança de gestão do programa, que deixou a Secretaria de Assistência Social e passou para a Secretaria de Educação. Além disso, o início de um novo governo exigiu mais cuidado e rigor.
“…tudo foi feito com muito cuidado realmente pra conseguir dar uma segurança jurídica para gestão, mas também, uma segurança para os alunos de que o programa ia continuar.”
Essas dificuldades também fazem parte de um cenário nacional. Em 2022, a pesquisadora Rosana Heringer analisou uma década de políticas de permanência estudantil no Brasil e mostrou que, apesar de avanços importantes, ainda faltam ferramentas sólidas para acompanhar os estudantes e evitar evasão. No mesmo ano, outro levantamento nacional apontou que muitas universidades federais carecem de indicadores claros para medir o impacto da assistência estudantil. Ou seja, os desafios de Maricá não são isolados. Eles fazem parte de um conjunto de problemas estruturais que atravessa o país.
Entre Desafios e Caminhos Possíveis
Apesar dos desafios, o Bilhete Universitário continua sendo uma das políticas públicas mais importantes para os jovens da cidade. Kátia e Victor relatam que recebem diariamente mensagens de estudantes agradecendo o programa e contando como o BU mudou suas vidas.
Contudo, eles também reconhecem que ainda há pontos que precisam melhorar. Os dois citaram que sempre existe espaço para ajustes, especialmente nas etapas de inscrição, recadastramento e comunicação com as universidades. Kátia reforçou que manter um contato direto com as instituições de ensino é essencial para acompanhar a situação acadêmica dos estudantes e garantir que o benefício esteja sempre alinhado à realidade deles.
“Acho que esses são os próximos passos…”, disse o subsecretário, ao mencionar o esforço para aperfeiçoar essas frentes e fortalecer o diálogo com os centros universitários.
A participação dos estudantes junto às ações do Bilhete Único Universitário, assim como dos outros projetos da cidade, também é vista como fundamental. São eles que conhecem o trajeto, as dificuldades e o impacto que cada atraso ou avanço traz para o dia a dia. Eles são, ao mesmo tempo, o motivo e o termômetro do programa.
Para Anna Luisa e Isabella, cada manhã continua começando cedo demais, mas a possibilidade de seguir estudando faz tudo valer a pena. O BU não é apenas um cartão guardado na mochila. É a garantia de que ela poderá continuar construindo sua história, mesmo que o caminho seja longo e cansativo.
No fim, o Bilhete Universitário de Maricá é sobre permanência. Sobre futuro. Sobre a chance de um estudante olhar para a estrada escura antes do amanhecer e saber que, apesar de tudo, ele vai conseguir chegar.




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