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Atletas lutam para conciliar o esporte de alto rendimento com os estudos

  • Foto do escritor: Alunos UVA
    Alunos UVA
  • 4 de dez. de 2025
  • 8 min de leitura

Conheça as histórias e os desafios de brasileiros que levam a vida dupla de atleta e universitário, no país e no exterior

Por: Guilherme Veiga e Gabriel Ferreira


João Pedro Azevedo (esquerda) e Sofia Oliveira (direita) levam a bandeira do Brasil ao topo no cenário internacional, em diferentes modalidades (Fotos: Reprodução/Redes sociais)
João Pedro Azevedo (esquerda) e Sofia Oliveira (direita) levam a bandeira do Brasil ao topo no cenário internacional, em diferentes modalidades (Fotos: Reprodução/Redes sociais)

A rotina de sacrifícios, escolhas e prioridades


De manhã, atividades na academia e na pista de atletismo. À tarde, uma sessão de fisioterapia e mais uma de treinos. À noite, aula presencial na faculdade. Essa é a rotina de um medalhista de bronze no salto triplo nos Jogos Mundiais Universitários de 2025 e estudante de Educação Física.


Aos 23 anos, João Pedro Azevedo representa o Núcleo Desportivo de Atletismo do Instituto Ideal Brasil, projeto social baseado em Jardim Sulacap, Zona Oeste do Rio de Janeiro, em competições nacionais e internacionais. Ao mesmo tempo em que evolui na sua modalidade, alcançando novos resultados e marcando presença constantemente no pódio, luta para conciliar a conflituosa vida do esporte de alto nível com os estudos.



“É bem complicado. A vida do atleta, quase todo mundo sabe que é bem cansativa, ainda mais a dos atletas de alto rendimento, que treinam em dois períodos. Eu acabei de terminar o treino da manhã, tem a parte da tarde, fora a parte da fisioterapia, da mobilidade. O atleta de alto nível precisa estar sempre ‘no fio da navalha’”, desabafa.

João Pedro está no último período de Educação Física na UniSãoJosé, em Realengo, mesma região onde treina. E como todo bom e velho universitário nessa fase da graduação, está focado no Trabalho de Conclusão de Curso.


Mesmo assim, o jovem não deixa de lembrar uma oportunidade deixada para trás em prol do sonho de se consolidar como um expoente do salto triplo brasileiro.


“Teve um momento em que eu estava treinando firme e não tinha tempo de descanso na parte da tarde, eu tinha que ir para o estágio na academia. Aí eu tive que abdicar do meu tempo no estágio para dar prioridade à vida de atleta. A dona da academia me entendeu, ela até me apoia”, revela.

A opção por priorizar o atletismo neste momento não se deu do dia para a noite. João Pedro foi inserido no esporte aos nove anos, incentivado pela mãe, mas foi a partir dos 12, após tentar se arriscar no futebol e não obter sucesso, que passou a se dedicar à modalidade, através do projeto social a qual é filiado até hoje.


A virada de chave, no entanto, veio com a conquista do terceiro lugar no Campeonato Brasileiro Interclubes Sub-23 em 2022, depois de um ano longe das pistas.


“Fui para o Exército em 2021, servi durante um ano obrigatório e voltei a treinar enquanto esperava um emprego. Teve a competição sub-23 em setembro, e eu fui medalhista. Eu nem esperava. Ali, eu falei: ‘ainda dá para buscar grandes resultados no esporte’”, relata o atleta, que viria a ser campeão do mesmo torneio dois anos depois.

João Pedro tem uma carreira curta, porém vitoriosa. Atualmente, sua melhor marca pessoal é de 16,62 m, atingida na final do Troféu Brasil deste ano, que lhe rendeu o bronze. Mas para além dos longos saltos e das medalhas, existe um jovem de 23 anos movido a sonhos como o de conhecer o mundo através do esporte.


“É uma das coisas que eu mais gosto: viajar. O esporte é a única coisa que me proporciona isso. Fui para a Colômbia no Sul-Americano Sub-23, e esse ano fui para o Mundial Universitário na Alemanha. Foram 12 dias incríveis, uma experiência que vou levar para a vida toda. Conhecer a estrutura da Alemanha, o modo dos atletas se portarem”, recorda sobre as recentes viagens internacionais a trabalho.


O esporte universitário nos Estados Unidos


Sofia Oliveira, de 20 anos, desfruta desde julho de 2024 do sonho americano, um ideal de busca incessante por sucesso e prosperidade por meio de determinação e trabalho árduo. Nos Estados Unidos, a jovem carioca cursa Enfermagem na Palm Beach Atlantic University, localizada na cidade de West Palm Beach, no estado da Flórida, ao mesmo tempo em que atua no time de vôlei da instituição de ensino.


Com 1,75 m, ela é apenas uma pequena peça na engrenagem de um grande maquinário: o sistema de bolsas esportivas norte-americano, responsável por formar profissionais bem sucedidos, independente da área de atuação, e lançar holofotes a atletas de renome, independente da modalidade. A cultura do incentivo à prática esportiva, que é perpetuada desde cedo nas escolas, se consolida no ambiente acadêmico como uma ferramenta que facilita a entrada na graduação dos sonhos, o que atrai não apenas os próprios nativos como também estrangeiros.


Sofia acumula 107 sets disputados em 31 jogos na primeira temporada pela PBA, com 71 pontos (Foto: Arquivo Pessoal)
Sofia acumula 107 sets disputados em 31 jogos na primeira temporada pela PBA, com 71 pontos (Foto: Arquivo Pessoal)

“O esporte universitário é levado muito a sério. A gente leva como se fosse profissional, porque faz parte da nossa bolsa, da nossa vida. E, se você quiser, você pode levar como se fosse mesmo sua profissão, mas essa não é a minha vontade”, conta a ponteira canhota, uma das três brasileiras da equipe ao lado da líbero Eduarda Dutra e da auxiliar técnica Luiza Andrade, já antecipando-se à pergunta sobre qual carreira deseja seguir.


Fortemente influenciada pelos pais, que também se aventuraram no vôlei, Sofia deu os primeiros passos em quadra aos oito anos de idade no Grajaú Tênis Clube. Depois, teve duas passagens pelo Flamengo e uma pelo Fluminense. Além disso, serviu a seleção estadual de base por cinco anos e representou a Elite Rede de Ensino, colégio onde estudou entre os ensinos Fundamental II e Médio, em campeonatos nacionais e sul-americanos escolares.


Um ano antes de deixar o país rumo à terra do Tio Sam, se sagrou campeã brasileira interclubes sub-19 e foi eleita melhor ponteira do torneio sub-21 pelo Rubro-Negro Carioca. Fora das quadras, deu outro passo importante: ingressou na faculdade de odontologia, custeada pelo próprio clube.


No entanto, foi o convite para estudar e jogar no exterior e, claro, o bom e velho conselho dos pais que reacenderam essa vontade na jovem.


“Um dia, a gente estava voltando para casa e eles me perguntaram: ‘Tem certeza que você vai deixar essa oportunidade passar? De conhecer uma nova cultura, de ir para um país diferente jogar, sendo que você sempre quis fazer isso’. Meus pais foram os grandes incentivadores”, revela.

Sofia contou com a ajuda de uma agência de intercâmbio esportivo para encontrar a universidade ideal, que se alinhasse aos interesses, ambições e valores dela. A consultoria, por meio da disponibilização de highlights e outras informações relacionadas ao desempenho esportivo do atleta, realiza o trabalho de captação de propostas junto às faculdades, que oferecem as bolsas e fazem o recrutamento.


“Eu fiquei encantada pelo programa. É uma faculdade cristã, então os valores são muito importantes aqui, as meninas também são fantásticas, a estrutura é maravilhosa. A agência me conectou com a faculdade”, comenta a atleta, que chegou a jogar contra seu treinador, Jeff Huebner, quando ainda estava no Flamengo e disputou um amistoso com a Texas Woman’s University, durante visita da equipe à Cidade Maravilhosa.

Neste momento, é a Enfermagem que fala mais alto no coração de Sofia. Apesar do destaque obtido enquanto atleta de base nos times do Rio de Janeiro e da conquista do título nacional pela Florida SouthWestern State College, sua faculdade anterior, a jovem almeja concluir o curso e se estabelecer na área da saúde.


“Quando eu era pequenininha, eu tinha essa vontade de jogar profissionalmente. Mas a partir do momento em que eu fui entendendo como funciona jogar vôlei profissional, principalmente no Brasil, eu achei que não seria tão válido para mim. Claro que se houver uma oportunidade para jogar um ano em uma dessas ligas que estão crescendo absurdamente, eu estou aberta, mas acho que não para sempre. O futuro é muito incerto, mas eu quero trabalhar com pessoas, nos hospitais”, desabafa.

A atleta usa como referência na resposta a LOVB, liga profissional norte-americana que, mesmo tendo sido criada recentemente, já atrai investidores e nomes da primeira prateleira do vôlei mundial.


Estando intrinsecamente ligados por um sistema de concessão de bolsas, que são renovadas anualmente, esporte e estudos não podem estar desbalanceados ou abaixo da métrica de desempenho. É necessário conciliá-los, pois um depende do outro.


“Aqui, nos Estados Unidos, não tem muito para onde correr. Se você não tem boas notas, você não pode jogar. E eles incentivam muito, não parece ser uma obrigação. Você faz porque gosta, e porque quer melhorar. Então, aqui tem esses valores que se encaixam, de ser uma boa estudante e uma boa atleta ao mesmo tempo. As bolas são feitas anualmente. Eu não posso falar que tenho quatro anos certos, depende muito do que acontece no ano e, obviamente, das notas”, explica Sofia, que tem previsão de formação no final de 2028.


Na Palm Beach Atlantic University, alunos recém-admitidos precisam ter um mínimo de quatro horas de estudo semanais comprovadas para estarem aptos a jogar.


“A gente tem que tirar foto quando está estudando e mandar para o nosso técnico, por exemplo. Mas eu estudo muito mais que isso. Eu moro do lado da biblioteca, então depois do treino a gente vai direto e fica estudando até às 23h”, detalha.

Esportivamente, a rotina de Sofia ainda comporta quatro dias de atividades, com cerca de duas horas de treino, mais academia. Seu time disputa de duas a três partidas por semana.


A importância da saúde mental e do equilíbrio para o desempenho


Com 13 anos de experiência no atendimento especializado a atletas de alto rendimento, a psicóloga Lilian Giacon considera que o sono é parte essencial de uma plena e equilibrada rotina de afazeres esportivos e acadêmicos. Porém, quando as demandas não estão alinhadas, são comuns as alterações de comportamento, concentração e humor, que, consequentemente, interferem no desempenho de ambas as áreas.


“Pode acabar aparecendo um cansaço maior, porque muitas vezes não tem muito tempo para estudar. Às vezes não vai ter como fazer muitas negociações de flexibilidade, então o atleta vai ter que abrir mão de alguma coisa para ter o estudo, nesse caso. Podem aparecer alterações de concentração, por dormir menos ou com menor qualidade, gerando aquela procrastinação, o humor pode ficar um tanto oscilante para uma irritabilidade. Alterações de apetite, também relacionadas a uma preocupação mais constante, como provas e trabalhos”, avalia a especialista.


Ainda sobre a ansiedade e a preocupação geradas pela quantidade ou a dificuldade das tarefas que ficam fora de conciliação, Lilian Giacon pontua que o atleta, ao viajar para atender a compromissos esportivos como eventos e competições, deixa a vertente acadêmica de lado, acumulando mais e mais pendências.


“Para quem está em um nível competitivo mais avançado, muitas vezes vai para outros países, fica semanas, às vezes até mais de um mês fora. Por mais que seja uma boa experiência, as coisas ficam e depois elas precisam ser resolvidas. Tudo isso também acaba sendo uma sobrecarga, é meio que uma demanda quase invisível. E, por consequência, isso vai repercutindo no comportamento, muitas vezes numa queda de desempenho”, comenta.

A psicóloga conta as principais estratégias de organização mental e das obrigações diárias para melhorar a rotina e trazer mais flexibilidade para o atleta universitário.


“Gestão de tempo, primeiramente. Sempre pensar como está seu dia, como você está distribuindo, o que você está fazendo. Ter um tempo de prazer e lazer, porque isso dá aquela recarga na nossa energia. Planejar os estudos. Eu gosto muito de usar a Técnica Pomodoro para estabelecer um tempo para você fazer o seu estudo”, analisa.

Um dos exercícios de aprimoramento da concentração aplicados pela profissional com seus pacientes consiste em mentalizar tudo que desvirtua o foco e não é relevante no momento de treino ou competição, e guardar em uma “caixa”, que só é aberta novamente fora do ambiente esportivo.


“Antes de entrar para o treino, você vai pensar como você está se sentindo naquele momento, quais são suas preocupações, e depositar tudo naquele recipiente. No treino, você consegue ter mais foco, concentração e consciência”, explica a especialista.


Cada renúncia tem um propósito maior


Entre agendas que começam cedo, como a de João Pedro, e responsabilidades que atravessam o dia, como as de Sofia, fica evidente que a conciliação entre esporte e estudo exige disciplina quase cirúrgica. As rotinas de pressão constante se dividem entre treinos, viagens, provas e trabalhos. Ainda assim, eles encontram na própria trajetória a certeza de que cada renúncia tem um propósito maior: o sonho que os move desde a infância.


A rotina pesada, que muitas vezes é vista como obstáculo, torna-se justamente o caminho que molda o caráter, fortalece as ambições e transforma possibilidades em futuro, independente do destino que cada um escolha seguir.

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