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Reviver Rio: o desafio do povoamento e da vida urbana no coração do Centro

  • Foto do escritor: Alunos UVA
    Alunos UVA
  • 1 de dez. de 2025
  • 11 min de leitura

Entre promessas de revitalização e a disputa por espaço, o projeto busca reacender a vida no coração histórico do Rio, mas enfrenta o dilema entre reocupar e exclui.


Por: Ana Beatriz do Carmo e Antônio Carlos Leite


A fachada de um prédio antigo exibe um banner amarelo do 'MUCA/Ocupação Gilberto Domingos' com a pauta 'Reviver Centro com os CAMELÔS'. A imagem documenta a manifestação pela inclusão do comércio informal na área central. Foto:Antônio Carlos Leite
A fachada de um prédio antigo exibe um banner amarelo do 'MUCA/Ocupação Gilberto Domingos' com a pauta 'Reviver Centro com os CAMELÔS'. A imagem documenta a manifestação pela inclusão do comércio informal na área central. Foto:Antônio Carlos Leite

Um centro que insiste em viver

Nas manhãs cinzentas que antecedem o verão carioca, o Centro do Rio ainda pulsa entre prédios históricos, comércios populares, igrejas e becos que guardam séculos de histórias.

Mas, por trás do vaivém de ambulantes, turistas e servidores públicos, há uma tensão silenciosa: o desafio de repovoar o coração da cidade sem apagar a vida que ali sempre existiu.

O Projeto Reviver Rio, criado em 2021, prometia atrair novos moradores e dinamizar a região. Três anos depois, entre setembro de 2022 e setembro de 2025, novas licenças de construção, reformas em imóveis históricos e incentivos para uso residencial de edifícios comerciais mudaram a paisagem do Centro.

De acordo com dados oficiais do Portal da Transparência da Prefeitura do Rio de Janeiro, compilados pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento(SMDU), mais de 5.500 novas unidades residenciais foram licenciadas com os benefícios da Lei Complementar 229/21.


Evolução das licenças (2022–2025)
Evolução das licenças (2022–2025)

O crescimento foi impulsionado principalmente por retrofits e novos empreendimentos residenciais, especialmente nas áreas da Lapa, Cinelândia, Praça XV e Zona Portuária.

Mais de R$ 10 milhões foram arrecadados em contrapartidas urbanas até setembro de 2025.

> Contrapartidas urbanas arrecadadas: R$ 10.262.897,99 (até Set/2025)

O olhar da professora Geisa Elmokdisi Bordenave (UERJ).

Para a professora Geisa Elmokdisi Bordenave, do Departamento de Política Social da UERJ, o programa precisa ser analisado com cuidado:

" O projeto Reviver Rio não apenas fala muito de infraestrutura, mas traz como principal objetivo atrair novos moradores. Essa ideia de revitalização está associada ao vazio como se não houvesse vida ou moradores no Centro e isso é uma falácia. Há vida, há resistência. O problema é quem o poder público deseja atrair para ocupar esse espaço."

Ela ressalta que, apesar do crescimento de unidades residenciais, poucas são destinadas à

Habitação de Interesse Social, e que a lógica de mercado prioriza investidores e a classe média.


A Verdadeira Revitalização

"Revitalizar o Centro seria investir em infraestrutura para quem já mora ali. Essa seria a verdadeira forma de reconstruir o Centro com as pessoas e para as pessoas."


Turistificação e desigualdade

Entre 2022 e 2025, o Reviver Rio também impulsionou o turismo e o comércio de lazer na região portuária. Contudo, a “turistificação” priorização de espaços voltados ao visitante e

ao consumo ameaça a convivência urbana:

"O turismo é importante, claro, mas será que esse é o único caminho para um Centro com vida nas ruas? Hoje o foco parece ser o investidor, não o morador. E isso tem um preço: o aumento da população em situação de rua e o afastamento de quem vivia ali antes."


Professora Geisa Elmokdisi Bordenave, do Departamento de Política Social da Uerj
Professora Geisa Elmokdisi Bordenave, do Departamento de Política Social da Uerj

A Visão Institucional: Atrair e Reocupar

A Prefeitura do Rio, por meio de seus secretários, defende a urgência do programa para reverter o esvaziamento. Segundo a visão institucional, o Reviver Rio é a peça central para o futuro do Centro:

"A história do Rio de Janeiro está impressa em seu centro. Os prédios e as ruas são um pedaço dela. Reocupá-lo ou dar uma nova destinação também é garantir que essa história não caia no esquecimento. O carioca está redescobrindo o Centro."


Citação representativa de Secretário Municipal, enfatizando a importância histórica e o redesenvolvimento

Representantes da SMDU afirmam que o aumento de 150% no potencial construtivo para Habitação de Interesse Social (HIS) em áreas como Castelo e Cinelândia demonstra o esforço em equilibrar a equação social:

"A transferência de potencial nas unidades residenciais foi de 40% para 100%, e para as unidades destinadas para a habitação social foram para 150%".


A Voz da Comunidade: além da estética Urbana

Para o morador Lucas Nunes a revitalização proposta é apenas uma estética. Segundo ele,

"Acredito que a revitalização que eles propõem é muito

voltada para a estética urbana e para uma lógica mais econômica".

Mas, considerando a realidade da população do Rio de Janeiro, ele pensa que o foco deveria estar mais na

revitalização do verde algo mais natural e sustentável.

"Já há muitos anos temos sinais claros dos efeitos do aquecimento global e do calor intenso que enfrentamos, especialmente aqui no Rio. Por isso, seria importante pensar em projetos que incentivem o plantio de árvores, a criação de áreas verdes e até jardins no subsolo, para ajudar a amenizar as altas temperaturas e melhorar a qualidade de vida da cidade."


O Historiador: Revitalização como Eco do Passado

O Prof. Estevam Silva, Historiador, contextualiza o Reviver Rio dentro de uma longa cronologia de intervenções que, embora modernizadoras, sempre alteraram o perfil social

do bairro.

"De fato, historicamente vemos intervenções governamentais no Centro do RIo que modificam seu perfil físico e redefinem as características dos habitantes do bairro. Se olharmos tudo o que aconteceu no espaço urbano do bairro e os movimentos populacionais

que tais obras acarretaram, notaremos que o bairro é alvo das instâncias públicas a cada vez que o país deseja um novo passo rumo ao crescimento econômico. Podemos citar as reformas com a vinda da Família Real para o bairro, a reforma Pereira Passos na Primeira República e até mesmo a construção da Avenida Presidente

Vargas durante o primeiro governo deste presidente. Não há como dissociar da imaginação as obras que alteram o Centro do RIo de tempos em tempos."


Fora isso, o Centro sempre foi almejado como local de residência pelo carioca. No período Joanino, imigrante europeus se acotovelavam com alforriados para residir nesta área, não só por conta da proximidade como o mandatário da nação e suas repartições públicas, mas também pela série de facilidades que o espaço urbano do Centro oferecia por ser o local dos principais negócios, oportunidades de trabalho, proximidade com o porto, concentração de espaços culturais, redações de jornais e muitas outras coisas mais. Atualmente, o bairro ainda conta com um aeroporto e é sempre privilegiado pela implementação de novas modalidades de transporte público lembremos que a malha ferroviária brasileira se iniciou no bairro. Por conta de tudo isso morar no Centro do RIo foi, é e será o objetivo de muitos quando decidem onde será a localização de sua residência na cidade. Morar no Centro do Rio é um momento cantado em verso e prosa por gente de prestígio nacional na cultura.

Belchior menciona seu período de moradia na Rua André Cavalcante na letra de ''Fotografia 3x4''. Agepê falou da tranquilidade da Rua Teotônio Regadas ao cantar ''Moro Onde Não Mora Ninguém.'' Chiquinha Gonzaga foi batizada na Igreja de Santana e morou na atual Rua do RIachuelo enquanto compôs alguns de seus maiores sucessos. O Centro é mais que um bairro, é um desejo no fundo da mente carioca.


As reformas no bairro, principalmente o 'Bota Abaixo' de Pereira Passos e a obra da Presidente Vargas já haviam modificado tremendamente o perfil do bairro o 'gentrificando' até certo ponto, pois as populações de baixa renda foram aos poucos sendo removidas do bairro e empurradas para os subúrbios. A reforma de Passos teve como efeito colateral o crescimento na favelização da cidade comprovada pelas diferenças no censo após 1906.

No século XX o bairro começou a perder seu perfil residencial e as últimas transformações feitas já no século XXI produziram a perda da funcionalidade residencial do bairro. Agora somente centro financeiro, porém cada vez mais desabitado, já que as moradias populares agora não existiam mais. O que de certa forma, espelha o êxodo que já vem sendo sentido na capital fluminense há anos. O bairro conta agora com uma infraestrutura superior a muitos bairros da cidade, mesmo alguns dos que concentram moradores de renda mais alta; mas é um bairro vazio pois seus espaços de convivência foram sendo empobrecidos paulatina e metodicamente em nome de uma modernização e protagonismo financeiro. O auto intitulado 'Centrista' não consegue mais se ver no bairro. As rodas de capoeira e samba, tão populares na década de 80 desapareceram, apagando a cultura e a convivência desse morador de perfil mais popular. O projeto atual deseja contemplar o espaço residencial popular, mas saltam aos olhos o enorme número de condomínios que são erigidos no bairro. Pode-se dizer que isso ainda é um eco da obra da Vargas que terminou de empurrar a população e cultura popular para os subúrbios ao destruir a Praça XI, por exemplo. Uma boa amostra disso é a Rua de Santana, que une a Vargas com a Frei Caneca. A atual contagem da rua começa aproximadamente no número 70, pois os números iniciais estão agora sob a sede do Metrô. Inclusive, na esquina da Santana que ficava na vizinhança da Central havia um cinema de bairro. Tal qual a Rua das Flores, cenário do primeiro capítulo do livro 'Memórias de um Sargento de Milicias', e residência de 'Tia Ciata', a Rua de Santana foi aleijada em nome da infraestrutura. Se a banda de Rap paulista Racionais MC retornar à Rua de Santana, dificilmente reconhecerá o cenário de seu primeiro videoclip. Esses fatos são apenas indícios da perda de memória do 'Centrista' e de seus espaços de convivência, o que será difícil de recuperar, então só nos resta aguardar o novo perfil de morador que virá para cá com a revitalização e os efeitos socioculturais deste movimento populacional.

Revitalizar sem descaracterizar?! O plano diretor da revitalização teria de ser muito cuidadoso com a população para conseguir isso, haja visto, que toda a reforma que atinge o Centro o modifica, sinal dos tempos. A cada intervenção do poder público sobre o bairro, este muda de rosto e personalidade. A delicadeza necessária para reformar, e até modernizar sem trazer um grande impacto, seria fruto de um grande foco no morador, e não somente no efeito que o poder público almeja. Nenhuma das reformas feitas no bairro deixou seus moradores ilesos. Mesmo a recuperação do formato original da Praça da Cruz Vermelha trouxe enormes embaraços a quem insistiu em permanecer em sua vizinhança, mas já naquele momento a reforma expulsou muitos moradores que partiram por conta da obra e da falta de segurança em circular no canteiro de obra em que a praça se transformou por anos. O reflexo disso é seu abandono atual, quase não há crianças frequentando a Cruz Vermelha nos fins de semana, pois esta está tomada por moradores de rua. Desde a administração municipal anterior o bairro todo está assim. Um sintoma é que muito de seu comércio local está se modificando, não que este esteja assumindo um novo norte, está encolhendo já que o morador consumidor não está mais no bairro e nem circula por suas ruas.

Toda a obra de revitalização tem este objetivo por norte: Recuperar cantões estagnados a fim de dinamizar o espaço urbano de alguma maneira. A questão sobre o Centro é: Como devolver o caráter historicamente residencial do Centro, que também sempre foi um

entroncamento financeiro para a cidade? Como equilibrar essa dupla função do bairro? Que aliás, também era um centro nervoso cultural do país. Sem ter isso em mente, o poder público fará apenas mais uma obra de infraestrutura no bairro e o manterá em

esvaziamento.

O nome já diz, Centro. Ele é o fiel da balança da cidade. É responsável pelo equilíbrio entre os subúrbios e a Zona Sul. Se algo está planejado para a cidade, deve emanar e encontrar harmonia em sua zona central. O centro é o elo, o entroncamento viário onde a cidade encontra seu núcleo. É sempre um local delicado, e tudo de bom ou ruim que ali acontece emana para o resto da urbi. Tanto que os ingleses ao implantarem sua gare no centro de Londres, notaram que a parte anterior da estação logo entrou em estagnação. De pronto, eles implementaram o comércio na área evitando a deterioração do centro londrino e este foi a marca de Londres no período Eduardiano. Sem um centro bem organizado qualquer cidade fenece. Mas o nosso Centro é uma questão delicada, como mencionei anteriormente, pois apesar de ser um bairro historicamente residencial, é também o núcleo nervoso econômico, cultural e até mesmo político da cidade. O morador do Centro é um privilegiado, pois tudo o que acontece na cidade e por vezes no país ele assiste em primeira mão bastando abrir a porta de casa.

O plano de revitalização previu em seus primeiros momentos a ocupação de imóveis por moradores de baixa renda e também do casarões do RIo Antigo. O que demonstrava um desejo de manter o perfil do residente da área. Porém agora condomínios começam a subir por todo o lado, isso provocará uma mistura socioeconômica no bairro, como a que havia até o 'Bota Abaixo'. Sendo otimistas, podemos esperar um Centro com espaço tanto para o popular quanto para o mais sofisticado, economicamente falando. Mas há sempre o fantasma da gentrificação que pode aparecer mediante a revalorização dos imóveis residenciais do bairro. Já que os de maior poder aquisitivo, desejarão residir mais perto de seu local de trabalho, que tenderá ser também no bairro. Ao se buscar sobre a história do bonde no Centro, podemos assistir essa mistura, mas também a forte tendência de gentrificação, o que novamente provocaria um êxodo para os subúrbios.

O problema da moradia na cidade do RIo de Janeiro pode muito bem ser divisado ao olharmos para a Avenida RIo Branco de Pereira Passos. Vivemos encurralados entre o mar e o morro, o que provoca um contraste natural belíssimo, mas nos lega pouco espaço. Vá até a avenida em vários horários do dia e note que a cidade cresceu na única direção em que a natureza lhe permitiu, para cima. O espaço para o morador acabou naquela cercania há mais de um século, o transeunte cada dia mais perde espaço para o trânsito, em dados horários diurnos o chão da avenida escurece já que a luz solar não toca mais o chão.

Com isso, a RIo Branco está se tornando inóspita para o carioca, já que cada dia menos permite o convívio social. É exatamente isso que está acontecendo com o bairro, daí seu esvaziamento, daí estar vazio durante as noites e nos finais de semana. As festas juninas de ruas e igrejas pelas quais o bairro também era prestigiado, sumiram. Ao privilegiar o espaço humano, o residente que singra o bairro a pé e consome no comércio local, os problemas que tanto afligem os ativistas logo estariam sanados. Mas o ativismo de revitalização um dia foram higienistas e hoje nos deixam um legado de falta de espaço para a convivência humana, também devemos tomar conta de certos ufanismos pseudopolíticos que podem nos levar a um descaminho e rompimento do contato entre o humano e a cidade.

O professor Estevam Silva destaca que a gentrificação do Centro não começou agora moradores antigos vêm percebendo há anos a descaracterização do bairro. Ele lembra que “condomínios executivos subiam onde antes estavam comércios e casas tradicionais” e que a nova verticalização alterou até a relação com o ambiente: “hoje da minha janela não vejo mais a Igreja da Candelária por conta de novos edifícios empresariais que barram o vento da madrugada”.


Segundo ele, essas mudanças encareceram tanto o custo de vida que “meus amigos quase todos deixaram o bairro por conta dos valores de aluguel”. Escolas tradicionais, como o Liceu de Artes e Ofícios e a Mabe, fecharam porque “não suportavam mais suas despesas fixas mantendo mensalidades acessíveis”.


Para Estevam, mesmo que o bairro ganhe um novo perfil, isso não garante que o sentimento de pertencimento volte. Ele reforça que o poder público precisa atuar com cuidado para preencher lacunas que afastam moradores segurança, serviços, escolas e espaços de convivência. Caso contrário, como ele adverte, “O que se verá será um novo ‘Bota Abaixo’ com ares de progressismo urbano contemporâneo.”


Professor Estevam Silva. Historiador
Professor Estevam Silva. Historiador

Reviver é também permanecer

Mais do que prédios e fachadas, o desafio do Reviver Rio é devolver à região central o direito de ser habitada por todos. Os números mostram avanços físicos mais de 5.500

novas moradias licenciadas e R$ 10 milhões arrecadados em contrapartidas urbanas, mas também expõem o abismo entre planejamento e realidade social.

Enquanto novas torres se erguem nas antigas avenidas, permanece a pergunta que ecoa das janelas das ocupações, dos camelôs e das praças históricas:

Reviver para quem?




1 comentário


Renata Feital
Renata Feital
06 de dez. de 2025

Meninos, amei a reportagem. Muito bem apurada. Eu ainda mexeria um pouco no texto, mas as fontes usadas foram muito boas! Parabéns!

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