Criminalidade em alta: Grande Tijuca vive rotina de medo
- Alunos UVA

- 2 de dez. de 2025
- 6 min de leitura
Relatos de comerciantes, taxistas e porteiros revelam a insegurança crescente no bairro da Tijuca. Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) confirmam aumento expressivo nos roubos e furtos em 2025.
Por Mariana Monteiro e Raquel Velozo


Era fim de tarde na Rua Ibituruna, na Tijuca. Tatiana Lima, comerciante autônoma de 29 anos, arrumava sua banca improvisada quando percebeu o movimento brusco de dois jovens em bicicletas. Em segundos, um celular foi arrancado das mãos de uma estudante que saía da faculdade. A cena, que poderia ser excepcional, tornou-se parte da rotina da região. Tatiana já não se surpreende: quase todo mês presencia assaltos ou tentativas, sempre nos horários de maior fluxo de pessoas. Para ela e outras mulheres que trabalham nas ruas, o medo é constante e a solidariedade entre colegas autônomos é a única forma de enfrentar a vulnerabilidade.
A Tijuca, tradicional bairro da Zona Norte do Rio, vive um cotidiano marcado pela violência. Comerciantes, taxistas e porteiros relatam que assaltos se tornaram frequentes e que a ausência de policiamento é visível.
O taxista Marcos Braga, de 64 anos, circula diariamente pela região e descreve a insegurança como total. Ele evita rodar em determinados horários e observa atentamente quem se aproxima, ajustando sua rotina para escapar dos momentos mais arriscados. Em alguns pontos ainda é possível avistar uma viatura, mas essa presença é rara e insuficiente diante da extensão do bairro.

Júlio Vicente, porteiro de 49 anos, está na Tijuca há apenas seis meses, mas já convive com a rotina marcada pela violência. Ele observa jovens em bicicletas que, em movimentos rápidos, arrancam celulares das mãos de pedestres. As mulheres, em especial, são alvos frequentes. Durante sua jornada, Júlio percebe a ausência quase total de policiamento: desde as primeiras horas da manhã, apenas uma viatura passou pelo local.
Nesse contexto, os moradores e trabalhadores da Tijuca continuam a buscar maneiras de adaptar suas rotinas para lidar com o medo, que passou a ser uma constante no dia a dia. A sensação de desamparo se mistura com a esperança de que medidas de segurança mais efetivas sejam implementadas, trazendo de volta ao bairro a paz que, para muitos, parece cada vez mais inatingível. Até que isso ocorra, a população encontra apoio na própria comunidade para enfrentar a violência — uma forma de resistência que, embora indispensável, ressalta ainda mais a necessidade urgente de ações concretas por parte das autoridades.
As informações mais recentes divulgadas pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) reforçam que a sensação de fragilidade e vulnerabilidade em relação à segurança no estado do Rio de Janeiro não é apenas uma impressão subjetiva dos moradores, mas sim algo sustentado por dados concretos e verificáveis. De acordo com o levantamento referente ao período de janeiro a setembro de 2025, foram registrados 19.780 assaltos a celulares, número que representa um aumento expressivo de 25,6% em comparação com o mesmo intervalo de 2024.
Além disso, também foram contabilizados 34.456 furtos de aparelhos, resultado que aponta para uma elevação de 22,2%, conforme noticiado pelo jornal O Globo.
O cenário de criminalidade se agrava ainda mais quando observado o impacto sobre o comércio. O total de roubos cometidos contra estabelecimentos comerciais apresentou um crescimento significativo de 67% em apenas um ano, segundo um levantamento detalhado publicado pelo portal G1 no mês de agosto, reforçando a percepção de que a violência tem atingido diferentes setores da sociedade.
Na região atendida pelo 6º Batalhão de Polícia Militar (6º BPM), a situação também demonstra piora notável. Somente no mês de outubro de 2025, os assaltos a celulares registraram um aumento de 60% em comparação com outubro de 2024, saltando de 131 para 210 ocorrências. Esse patamar representa, inclusive, o maior índice de assaltos já registrado para o mês desde o início da série histórica, iniciada no ano de 2020, evidenciando uma tendência preocupante de crescimento contínuo da criminalidade na área.

Já na 19ª DP, foram registrados 578 furtos em outubro de 2025, em contraste com 415 no ano anterior, representando um aumento de 163 casos, ou seja, 39%.

Entre estatísticas e realidade
O contraste é evidente: os números oficiais mostram crescimento nos crimes patrimoniais e violentos, enquanto os relatos locais dão rosto e voz a essas estatísticas. A insuficiência de policiamento coincide com os dados sobre déficit de efetivo da Polícia Militar, já apontados em relatórios anteriores.
Segundo esses levantamentos, a Polícia Militar do Rio tem déficit estimado de mais de 17 mil agentes, cerca de 30% abaixo do efetivo recomendado, e apenas metade dos policiais atua diretamente no policiamento ostensivo.
Esse déficit ajuda a explicar a percepção dos moradores e trabalhadores da Tijuca sobre a falta de policiamento visível. Como relatou Júlio Vicente, porteiro de 49 anos, ele ficou desde às 6h da manhã até ver apenas uma viatura passar. A carência de efetivo torna difícil manter rondas regulares em todas as áreas da cidade, especialmente em bairros fora das zonas turísticas.
A população, por sua vez, desenvolve estratégias próprias de sobrevivência: redes de apoio entre comerciantes, intuição para escolher horários e locais menos arriscados, e até mudanças de hábitos, como evitar caminhar à noite ou antecipar saídas.
Impacto econômico e social

Além do medo, comerciantes relatam queda no movimento e prejuízos financeiros. Paulo Henrique explica que clientes evitam circular em determinados horários e que sua banca já sofreu perdas significativas. A insegurança afasta consumidores e desestimula o comércio. Paulo diz que já presenciou inúmeras vezes assaltos nas redondezas de sua banca e que a mesma já foi assaltada várias vezes em um ano e meio de atividade na Tijuca. O comerciante afirma:
“Falta polícia na rua, a gente até vê algumas, mas não é o suficiente… Tem que aumentar a corporação na rua”

A mobilidade também é afetada: taxistas como Marcos evitam certas ruas e horários, limitando a oferta de transporte. Porteiros como Júlio relatam que moradores mudam hábitos, antecipando saídas ou evitando caminhar à noite.
“Motoqueiros, bicicletas, carros, transeuntes… todo mundo está sujeito. Eu uso a intuição, evito rodar em certos horários e observo bem quem se aproxima.”
“Muito assalto, molecada passando de bicicleta e puxando telefone. Muito assalto a mulheres.”
Esse impacto econômico e social é reforçado por estudos acadêmicos sobre violência urbana, como os publicados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). O Atlas da Violência 2024 evidencia que a insegurança está diretamente associada à retração da atividade econômica em áreas afetadas. Bairros com altas taxas de homicídios e crimes patrimoniais tendem a sofrer queda no comércio local, desvalorização imobiliária e redução de investimentos privados, já que empresas evitam instalar-se em regiões consideradas de risco.
Contexto histórico
A Tijuca figura como o oitavo bairro mais populoso do Rio de Janeiro, embora tenha registrado queda no número de moradores segundo os levantamentos do IBGE. Em 2000, contava com 163.636 habitantes; no Censo de 2010, manteve-se praticamente estável, com 163.805. Já em 2022, os dados apontaram uma redução significativa, chegando a 142.909 residentes, conforme o Censo Demográfico 2022 do IBGE.
No campo cultural, a Tijuca guarda raízes profundas. É o berço da escola de samba Unidos da Tijuca e de grandes nomes da música brasileira, como Tim Maia. Hoje, o bairro se apresenta como um espaço onde tradição e modernidade convivem lado a lado. Suas ruas arborizadas, o comércio vibrante, a forte presença da classe média e uma memória urbana marcada por contrastes fazem da Tijuca um verdadeiro retrato da cidade. É um lugar em que os ecos do passado ainda ressoam, mesmo diante das constantes transformações da metrópole.
Atualmente, porém, segundo relatos frequentes de comerciantes, trabalhadores e frequentadores da região, a percepção predominante é a de abandono, descaso e falta de presença efetiva das forças de segurança.
"Não, eu não me sinto segura. Ainda mais sendo mulher, né?"
Afirma Tatiana Lima.
Esse contraste histórico entre o passado e o presente ajuda a explicar a forte indignação dos moradores, que guardam a memória de um bairro vibrante, ativo, cheio de vida e considerado seguro, mas que agora se vê marcado por um clima persistente de insegurança e medo. Reportagens anteriores do G1 também já haviam destacado a queda na sensação de segurança em diferentes áreas da Zona Norte, reforçando a percepção coletiva de que a Tijuca perdeu o protagonismo e a reputação que mantinha como uma das regiões mais tranquilas da cidade.

Conclusão analítica
A Tijuca vive hoje um paradoxo: bairro tradicional e central, mas marcado por uma rotina de medo e insegurança. Os relatos de comerciantes, taxistas e porteiros revelam o impacto direto da violência na vida cotidiana, enquanto os dados oficiais confirmam a escalada dos crimes patrimoniais.
Reforçar o policiamento, investir em tecnologia e fortalecer redes de apoio são caminhos possíveis para devolver à Tijuca a sensação de segurança que já foi sua marca registrada.
Mais do que números, a reportagem mostra que a insegurança tem rosto, voz e consequências reais. E que soluções precisam ser construídas coletivamente para transformar o cotidiano de medo em uma rotina de confiança e pertencimento.
NOTAS
Em nota, a Polícia Militar do Rio de Janeiro (PMERJ), afirmou que o 6° BPM vem adotando diversas medidas voltadas à prevenção de crimes na sua área de atuação. E que o planejamento do policiamento na região é realizado de acordo com a mancha criminal, com equipes aumentando as abordagens e revistas, além do emprego de efetivo extra através do Regime Adicional de Serviço.




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