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O Efeito Dominó da Desinformação

  • Foto do escritor: Alunos UVA
    Alunos UVA
  • 2 de dez. de 2025
  • 10 min de leitura

A propagação de notícias falsas não afetou a saúde da população do Rio apenas durante a pandemia, ela compromete campanhas e cuidados médicos até hoje.

Por João Manuel Regis e Julia Bohrer


 Como toda manhã, o celular vibra antes mesmo do despertador tocar. Ainda deitado, Walter olha sua barra de notificações, que nunca permanece vazia. Enquanto se arruma para o trabalho, se mantém atento ao noticiário na TV. No trajeto até o trabalho, entre uma estação e outra, ele começa a checar fontes, responder contatos, alinhar apurações. Ao chegar na redação, o debate é intenso, o tempo é curto e a pressão por publicar é constante. Em meio à pressa que ameaça atropelar a prudência, Walter reforça uma regra que se tornou quase um lema pessoal: “Apesar do grande número de informações, o jornalista tem o dever de ouvir mais do que falar, dar a devida atenção a cada matéria e lembrar que o jornalismo não se faz sozinho”.


Walter Farias, repórter da editora O Globo, 33 anos.
Walter Farias, repórter da editora O Globo, 33 anos.

A desinformação começou como tantas outras histórias que nascem silenciosas nas redes sociais: uma mensagem curta, sem fonte, compartilhada em velocidade de tempestade. Em poucas horas, a fake news cruzou os bairros do Rio de Janeiro, ocupou grupos de família, entrou em timelines e se tornou, para muitos, verdade absoluta. O que parecia apenas mais um ruído digital logo se mostrou um problema concreto. Influenciou as decisões do dia a dia, moldou conversas, mudou a relação que as pessoas tinham com a verdade. Ela afetou a confiança em serviços públicos, interferiu na saúde de crianças e ainda motivou uma corrida desenfreada atrás de medicamentos que nem sequer tinham eficácia comprovada e que vieram a se tornar itens de alta procura durante a pandemia, prejudicando aqueles que realmente precisavam. Esse efeito dominó expôs a vulnerabilidade da informação em tempos de compartilhamentos impulsivos e incerteza da verdade. 


Quando cada carioca pode ser uma fonte, cada celular pode viralizar uma notícia, aquilo que deveria ser algo para ajudar, se torna uma arma, que machuca e danifica a sociedade. Informações falsas, discursos contraditórios e ondas de desinformação, passaram a valer mais que dados e fatos num mundo onde a mentira passou a se espalhar mais rápido do que qualquer verdade.


Agora, anos após a maior alta de desinformação que o país já viu, o que restou foram os frutos da árvore da inverdade. A informação que antes era centrada em instituições e especialistas, hoje está fragmentada. E o desafio de entender o que realmente é verdade, passou a fazer parte do dia a dia de todos, revelando não só como consumimos notícias de forma errada, mas também um novo ambiente de medo e desconfiança.


Mas como solucionar esse problema? Mesmo após a pandemia, notícias falsas sobre a vacina continuam circulando. Uma alta de golpes domina a internet, com mais de 281 mil casos de estelionato digital ocorridos em 2024, a Agência Lupa, uma das principais fontes do combate à desinformação do país, mostra que as fake news seguem ocorrendo diariamente e precisam ser solucionadas.


Nesse contexto, o Ministério da Saúde lançou, em 2023, cartilhas para auxiliar a população a identificar uma fake news e para saber se o cidadão já foi vítima de alguma delas. Porém, segundo a Lupa, a sua efetividade e a falta de transparência por parte do sistema são evidentes e mostram que o sistema falha em atender a população. 


Um caso real é o do senhor Amaro José, de 67 anos, que já foi vítima de um golpe que ocorreu através do Whatsapp. Ele recebeu um contato que se passava pela plataforma Serasa e só foi perceber que havia caído em um golpe, cerca de 24 horas depois.


Amaro José, 67 anos.
Amaro José, 67 anos.

“ Eu recebi no WhatsApp uma oferta do Serasa, estava até com a foto do Serasa, que se tivesse alguma conta pendente, eu acertaria essa dívida. Eu tinha uma situação pendente e fiz o pagamento e acabei perdendo o dinheiro que eu paguei na época. Só fui perceber que era falsa 24 horas depois, que eu fui pesquisar e não recebi notícia nenhuma do pagamento que eu tinha feito.” 


A cegueira das fake news


A desinformação se tornou algo comum entre os cariocas. Em uma cidade extremamente conectada e ativa na internet, onde mensagens e postagens atravessam as redes sociais em poucos segundos, as fake news se tornaram um fenômeno social. A circulação de notícias falsas teve seu auge durante a pandemia da Covid-19, a grande onda trouxe a popularização de medicamentos sem eficácia e até o receio das pessoas quanto às vacinas, que até então, sempre tiveram sua relevância nacional. Após o período pandêmico, ocorreram as eleições presidenciais de 2022, onde uma onda de informações falsas alterou e inventou muitas mentiras para a população.


Dentro desse contexto, o cidadão comum hoje enfrenta dificuldade para distinguir o que é verdade e o que é mentira. Plataformas, especialmente redes sociais como X, Instagram, Facebook e Whatsapp, por exemplo, se tornaram mais populares e ao mesmo tempo, os maiores propagadores de fake news, e a fronteira entre o fato e a inverdade se tornou muito fácil de ser borrada. Para muitos, inclusive, basta que a notícia seja plausível, para se tornar verdade.


Esse cenário compromete também o trabalho daqueles que vivem da verificação e da apuração de fatos. Jornalistas, que sempre tiveram o papel de informar e trabalhar diariamente para que a verdade chegasse às pessoas, hoje, se veem diante de um público fragmentado, polarizado e muito resistente ao processo de checagem. A dificuldade não é mais apenas em desmentir boatos, mas em convencer as pessoas que aquela informação é ou não verdadeira.


O Jornalista Raphael Kapa, da Agência Lupa, especializada em checagem de informações, fala um pouco sobre como é feito esse processo hoje, junto às ferramentas de checagem e às táticas de apuração de fatos.


“O processo de checagem de uma desinformação tem várias camadas. Tem muito apoio da população, verificando o que deveria ser checado. Há também ferramentas de análise que verificam se há alguma trend que pode ser alvo de desinformação. E a partir daí a gente analisa se é algo pontual e se devemos dar atenção ou se vamos prestar um serviço, ao checar e bloquear aquela desinformação para que ela não passe adiante.”

Por ter se tornado um fenômeno social que causou uma mudança sobre aquilo que é verdade ou não, há também a dificuldade para comprovar para o carioca que tal informação, não é verdade.


“Sempre há uma resistência. Sempre quando há uma fake news boa ela tem um sentido social, então, quando você quebra isso, você não está quebrando só a fake news, você está quebrando um valor de pessoa. Você não pode apenas  afirmar que aquilo é falso, você tem que ter proximidade, mostrar que aquilo foi instituído propositalmente. E que o erro não é dela e sim de quem fez com que aquilo fosse compartilhado.”

Por fim, vale a reflexão sobre como podemos mudar e reduzir a grande onda de fake news que aflora o Rio de Janeiro e o Brasil.


“A leitura mais crítica tem que ser feita em diferentes idades e de diferentes formas. Precisamos ter educação midiática nas escolas com áreas de conhecimento conjuntas, não pode ser apenas em uma área de conhecimento, é necessário ter oficinas, em diferentes bairros do Rio, para a terceira idade, que é o um alvo muito suscetível à golpes. Além da necessidade de uma formação de conhecimento de mídias para a fase adulta que muitas vezes não tem tempo de uma formação mais clássica, mas pode através das redes aprender a como se “vacinar” contra golpes e desinformação nas redes.”

Quando rumores apagam a proteção



A desinformação além de afetar áreas importantes do nosso cotidiano causa grandes impactos à saúde, especialmente à saúde infantil. Os acontecimentos ocorridos em meio a pandemia, como a resistência do público em vacinar seus filhos e a dificuldade em confiar em fontes oficiais, refletem diretamente na saúde da população e no cotidiano dos profissionais da saúde até os dias de hoje. A crença que mais ganhou força, foram as fake news sobre a vacinação. Elas se disseminaram por meio das redes sociais, principalmente em grupos de WhatsApp, hoje representam um desafio concreto para médicos que precisam convencer os pais a seguirem o calendário de vacinação dos filhos.


Para compreender melhor os desafios da saúde e da maternidade, e como as dificuldades se manifestam na prática, conversamos com a dona de casa

Brenda Veiga, de 31 anos, e com a neonatologista Márcia Estrella que acompanha de perto os efeitos da desinformação no ambiente clínico. 


Neonatologista Márcia Estrela, 59 anos.
Neonatologista Márcia Estrela, 59 anos.

“Muita gente acaba acreditando em coisas que não são verdade, e isso afeta a vida das pessoas, principalmente das crianças.” Disse Márcia, ao apresentar sua visão.

A desconfiança extrema de muitos pais acabou abrindo espaço para decisões equivocadas em relação à vacinação, escolhas que colocam em risco não apenas a saúde das próprias crianças, mas também a de todos ao redor. Quando o assunto é vacinação infantil, o problema ganha contornos ainda mais delicados, já que envolve vidas em pleno desenvolvimento. No dia a dia, médicos e especialistas enfrentam a resistência de famílias que, influenciadas por boatos e desinformação nas redes, hesitam ou até recusam seguir o calendário vacinal recomendado pelo Ministério da Saúde. Essa postura compromete diretamente o bem-estar e a proteção das crianças, além de fragilizar a saúde coletiva. 


“As mães precisam se conscientizar, os pediatras precisam orientar, porque circulam mensagem absurdas que vacina causa doenças, que causa autismo e até recentemente vi um caso que ocasionou um tumor cerebral na criança. E com isso, as mães ficam com um medo absurdo e deixam de vacinar as crianças. A vacina é o único modo de evitar doenças como sarampo, meningite, e outras, só podem ser prevenidas com a vacina.”

Uma mãe que seguiu essa dica a risca, é a Brenda. Ela foi gestante durante o auge da pandemia da covid-19 e conta que teve medo durante a gravidez, principalmente em ser infectada com o vírus. Apesar disso, ela sempre acreditou na eficácia das vacinas, se vacinou e também vacinou sua filha, assim que a vacina estava disponível.


Brenda Veiga, 31 anos.
Brenda Veiga, 31 anos.

“Eu descobri a gravidez em dezembro de 2020. Estava bem no auge da pandemia e eu senti muito medo, muita insegurança porque foi uma gravidez que não foi planejada. A todo momento, eu tinha medo de pegar COVID, tinha medo de um parto prematuro, então eu saía pouco de casa, tentava me cuidar o máximo. Depois que ela nasceu eu tomei a vacina. Eu nunca tive medo da vacina, nunca tive medo de nada disso. Pouco depois ela também foi vacinada contra a COVID.”

Essa hesitação, alimentada pelo medo e pela desinformação, cria uma barreira entre profissionais da saúde e responsáveis. Muitos médicos relatam a dificuldade de reconstruir a confiança, explicar evidências científicas e orientar os pais a respeito da saúde de seus filhos, inclusive sobre os riscos reais de doenças já controladas no país. O que contribui para um cenário de conflito e afastamento crescente entre pais e profissionais de saúde onde, no fim, quem mais sofre as consequências são as crianças. De modo que houve uma queda de 75% no número de crianças imunizadas por ano entre 2021 e 2025.


Dados de doses de vacina aplicadas em crianças por ano. Fonte: Centro de inteligência epidemiológica da cidade Rio de Janeiro 
Dados de doses de vacina aplicadas em crianças por ano. Fonte: Centro de inteligência epidemiológica da cidade Rio de Janeiro 

Estrela deixa um recado aos pais de como se informarem de maneira segura.


“ Então, acho que o mais importante é perguntar ao seu médico, procurar se informar, procurar fontes seguras, artigos, porque não adianta cair nessas fakes news, só vai atrapalhar o desenvolvimento da criança. Fontes seguras, OMS, entra no site e procura, Fiocruz, conselho regional de medicina. São veículos reconhecidos e que dão para você usar de base por aí. A orientação que eu dou, não só para pacientes mas também para amigos meus, quando compartilham alguma coisa, é procurar se aquilo é verdade, estudar, perguntar ao médico.”

Brenda seguiu por esse caminho, e contou que fez o acompanhamento junto ao seu médico, não dando atenção ao que circulava por aí.


“ Eu fiz acompanhamento toda a gravidez, de pré-natal e todas as minhas dúvidas eu tirava com o médico, eu procurava não dar ouvidos ao que as pessoas falavam, as especulações, fake news, essas coisas.”


A ilusão da cura fácil


A saúde segue sendo uma das áreas mais afetadas pela fake news na cidade do Rio. Durante a pandemia, hospitais não só tiveram que lidar com superlotação e o avanço da Covid-19, mas também com informações e uma série de boatos que se espalharam pelos cidadãos. A desinformação se materializou nos corredores e salas de emergência, e influenciou decisões que deveriam ter sido tomadas com base na ciência.


A cloroquina, medicamento antes utilizado para o tratamento da malária, chegou a ser autorizado e recomendado pelo Ministério da Saúde. O fato é que a cloroquina nunca teve sua eficácia comprovada. Uma pesquisa realizada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), coletou dados na época da pandemia e concluiu que os pacientes com Covid-19 tratados com a cloroquina, apresentaram maior tempo de internação em comparação com os outros tratamentos. Isso evidencia o quão prejudicial a fake news consegue ser e a importância de realizar pesquisas com fontes primárias, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), que chegou a esclarecer que a cloroquina não era recomendada para a Covid, informação essa, que foi ignorada pelo Governo Brasileiro da época.


Dados sobre o uso da Cloroquina e Hidroxicloroquina no tratamento da COVID- 19 Fonte: ABC Cardiol, arquivos brasileiros de cardiologia
Dados sobre o uso da Cloroquina e Hidroxicloroquina no tratamento da COVID- 19 Fonte: ABC Cardiol, arquivos brasileiros de cardiologia


É dentro desse cenário que a enfermeira Juliana Galvão, de 38 anos, relata como foram os dias no hospital durante o período pandêmico. Segundo uma pesquisa do grupo Afya Educacional, disponível na revista Medicina S/A, 89% dos médicos da linha de frente à Covid, estavam psicologicamente desgastados.


“ O maior desafio foi o começo, porque a gente não sabia como lidar com vírus. A gente não sabia se intubar antes ou depois, não sabia o que ia acarretar. Então o começo foi muito tenso. Era pesado, especialmente por conta da demanda, o desgaste físico e emocional, você ter que ver jovens entubando, pais, mães, era bem trabalhoso, principalmente mentalmente.”

Ela conta que pacientes receberam orientações médicas e duvidavam da equipe do hospital. Comportamento esse, tido como comum durante a pandemia, especialmente por todo o medo e desconfiança nas notícias que circulavam pela internet na época.


“ Quando eles falavam que o médico não prescrevia ela ficavam revoltados. Esse foi o principal problema, sobre recusar as orientações médicas. Recusavam, muitos achavam que tinha que ser jeito deles, não entendiam como era o tratamento de fato. Então, às vezes, tomavam vacina e a vacina dava algum efeito colateral, um efeito normal, mas eles ficavam tensos.”

Juliana também apontou a importância das informações verdadeiras, especialmente para profissionais da saúde, como ela.


“ É muito válido e não podemos falar qualquer coisa, tanto profissional da saúde quanto qualquer pessoa que tenha contato com a população. Tem que ter muito cuidado, especialmente em uma pandemia. ”

As fake news atravessam telas, alcançam casas, moldam decisões e em situações críticas, podem até determinar quem vive e quem adoece. A experiência da Juliana mostra o quão prejudicial e perigoso foram e ainda são as notícias falsas que circulam pela internet. O episódio da pandemia deixou claro que combater a desinformação é fundamental, uma tarefa que na saúde recai sobre médicos, enfermeiros e toda a equipe que luta para restaurar vidas.


1 comentário


Renata Feital
Renata Feital
06 de dez. de 2025

Ficou muito boa a matéria! Parabéns pelas fontes buscadas e por entender como uma reportagem como essa é importante!

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