O Efeito Dominó da Desinformação
- Alunos UVA

- 2 de dez. de 2025
- 10 min de leitura
A propagação de notícias falsas não afetou a saúde da população do Rio apenas durante a pandemia, ela compromete campanhas e cuidados médicos até hoje.
Por João Manuel Regis e Julia Bohrer
Como toda manhã, o celular vibra antes mesmo do despertador tocar. Ainda deitado, Walter olha sua barra de notificações, que nunca permanece vazia. Enquanto se arruma para o trabalho, se mantém atento ao noticiário na TV. No trajeto até o trabalho, entre uma estação e outra, ele começa a checar fontes, responder contatos, alinhar apurações. Ao chegar na redação, o debate é intenso, o tempo é curto e a pressão por publicar é constante. Em meio à pressa que ameaça atropelar a prudência, Walter reforça uma regra que se tornou quase um lema pessoal: “Apesar do grande número de informações, o jornalista tem o dever de ouvir mais do que falar, dar a devida atenção a cada matéria e lembrar que o jornalismo não se faz sozinho”.

A desinformação começou como tantas outras histórias que nascem silenciosas nas redes sociais: uma mensagem curta, sem fonte, compartilhada em velocidade de tempestade. Em poucas horas, a fake news cruzou os bairros do Rio de Janeiro, ocupou grupos de família, entrou em timelines e se tornou, para muitos, verdade absoluta. O que parecia apenas mais um ruído digital logo se mostrou um problema concreto. Influenciou as decisões do dia a dia, moldou conversas, mudou a relação que as pessoas tinham com a verdade. Ela afetou a confiança em serviços públicos, interferiu na saúde de crianças e ainda motivou uma corrida desenfreada atrás de medicamentos que nem sequer tinham eficácia comprovada e que vieram a se tornar itens de alta procura durante a pandemia, prejudicando aqueles que realmente precisavam. Esse efeito dominó expôs a vulnerabilidade da informação em tempos de compartilhamentos impulsivos e incerteza da verdade.
Quando cada carioca pode ser uma fonte, cada celular pode viralizar uma notícia, aquilo que deveria ser algo para ajudar, se torna uma arma, que machuca e danifica a sociedade. Informações falsas, discursos contraditórios e ondas de desinformação, passaram a valer mais que dados e fatos num mundo onde a mentira passou a se espalhar mais rápido do que qualquer verdade.
Agora, anos após a maior alta de desinformação que o país já viu, o que restou foram os frutos da árvore da inverdade. A informação que antes era centrada em instituições e especialistas, hoje está fragmentada. E o desafio de entender o que realmente é verdade, passou a fazer parte do dia a dia de todos, revelando não só como consumimos notícias de forma errada, mas também um novo ambiente de medo e desconfiança.
Mas como solucionar esse problema? Mesmo após a pandemia, notícias falsas sobre a vacina continuam circulando. Uma alta de golpes domina a internet, com mais de 281 mil casos de estelionato digital ocorridos em 2024, a Agência Lupa, uma das principais fontes do combate à desinformação do país, mostra que as fake news seguem ocorrendo diariamente e precisam ser solucionadas.
Nesse contexto, o Ministério da Saúde lançou, em 2023, cartilhas para auxiliar a população a identificar uma fake news e para saber se o cidadão já foi vítima de alguma delas. Porém, segundo a Lupa, a sua efetividade e a falta de transparência por parte do sistema são evidentes e mostram que o sistema falha em atender a população.
Um caso real é o do senhor Amaro José, de 67 anos, que já foi vítima de um golpe que ocorreu através do Whatsapp. Ele recebeu um contato que se passava pela plataforma Serasa e só foi perceber que havia caído em um golpe, cerca de 24 horas depois.

“ Eu recebi no WhatsApp uma oferta do Serasa, estava até com a foto do Serasa, que se tivesse alguma conta pendente, eu acertaria essa dívida. Eu tinha uma situação pendente e fiz o pagamento e acabei perdendo o dinheiro que eu paguei na época. Só fui perceber que era falsa 24 horas depois, que eu fui pesquisar e não recebi notícia nenhuma do pagamento que eu tinha feito.”
A cegueira das fake news
A desinformação se tornou algo comum entre os cariocas. Em uma cidade extremamente conectada e ativa na internet, onde mensagens e postagens atravessam as redes sociais em poucos segundos, as fake news se tornaram um fenômeno social. A circulação de notícias falsas teve seu auge durante a pandemia da Covid-19, a grande onda trouxe a popularização de medicamentos sem eficácia e até o receio das pessoas quanto às vacinas, que até então, sempre tiveram sua relevância nacional. Após o período pandêmico, ocorreram as eleições presidenciais de 2022, onde uma onda de informações falsas alterou e inventou muitas mentiras para a população.
Dentro desse contexto, o cidadão comum hoje enfrenta dificuldade para distinguir o que é verdade e o que é mentira. Plataformas, especialmente redes sociais como X, Instagram, Facebook e Whatsapp, por exemplo, se tornaram mais populares e ao mesmo tempo, os maiores propagadores de fake news, e a fronteira entre o fato e a inverdade se tornou muito fácil de ser borrada. Para muitos, inclusive, basta que a notícia seja plausível, para se tornar verdade.
Esse cenário compromete também o trabalho daqueles que vivem da verificação e da apuração de fatos. Jornalistas, que sempre tiveram o papel de informar e trabalhar diariamente para que a verdade chegasse às pessoas, hoje, se veem diante de um público fragmentado, polarizado e muito resistente ao processo de checagem. A dificuldade não é mais apenas em desmentir boatos, mas em convencer as pessoas que aquela informação é ou não verdadeira.
O Jornalista Raphael Kapa, da Agência Lupa, especializada em checagem de informações, fala um pouco sobre como é feito esse processo hoje, junto às ferramentas de checagem e às táticas de apuração de fatos.
“O processo de checagem de uma desinformação tem várias camadas. Tem muito apoio da população, verificando o que deveria ser checado. Há também ferramentas de análise que verificam se há alguma trend que pode ser alvo de desinformação. E a partir daí a gente analisa se é algo pontual e se devemos dar atenção ou se vamos prestar um serviço, ao checar e bloquear aquela desinformação para que ela não passe adiante.”
Por ter se tornado um fenômeno social que causou uma mudança sobre aquilo que é verdade ou não, há também a dificuldade para comprovar para o carioca que tal informação, não é verdade.
“Sempre há uma resistência. Sempre quando há uma fake news boa ela tem um sentido social, então, quando você quebra isso, você não está quebrando só a fake news, você está quebrando um valor de pessoa. Você não pode apenas afirmar que aquilo é falso, você tem que ter proximidade, mostrar que aquilo foi instituído propositalmente. E que o erro não é dela e sim de quem fez com que aquilo fosse compartilhado.”
Por fim, vale a reflexão sobre como podemos mudar e reduzir a grande onda de fake news que aflora o Rio de Janeiro e o Brasil.
“A leitura mais crítica tem que ser feita em diferentes idades e de diferentes formas. Precisamos ter educação midiática nas escolas com áreas de conhecimento conjuntas, não pode ser apenas em uma área de conhecimento, é necessário ter oficinas, em diferentes bairros do Rio, para a terceira idade, que é o um alvo muito suscetível à golpes. Além da necessidade de uma formação de conhecimento de mídias para a fase adulta que muitas vezes não tem tempo de uma formação mais clássica, mas pode através das redes aprender a como se “vacinar” contra golpes e desinformação nas redes.”
Quando rumores apagam a proteção
A desinformação além de afetar áreas importantes do nosso cotidiano causa grandes impactos à saúde, especialmente à saúde infantil. Os acontecimentos ocorridos em meio a pandemia, como a resistência do público em vacinar seus filhos e a dificuldade em confiar em fontes oficiais, refletem diretamente na saúde da população e no cotidiano dos profissionais da saúde até os dias de hoje. A crença que mais ganhou força, foram as fake news sobre a vacinação. Elas se disseminaram por meio das redes sociais, principalmente em grupos de WhatsApp, hoje representam um desafio concreto para médicos que precisam convencer os pais a seguirem o calendário de vacinação dos filhos.
Para compreender melhor os desafios da saúde e da maternidade, e como as dificuldades se manifestam na prática, conversamos com a dona de casa
Brenda Veiga, de 31 anos, e com a neonatologista Márcia Estrella que acompanha de perto os efeitos da desinformação no ambiente clínico.

“Muita gente acaba acreditando em coisas que não são verdade, e isso afeta a vida das pessoas, principalmente das crianças.” Disse Márcia, ao apresentar sua visão.
A desconfiança extrema de muitos pais acabou abrindo espaço para decisões equivocadas em relação à vacinação, escolhas que colocam em risco não apenas a saúde das próprias crianças, mas também a de todos ao redor. Quando o assunto é vacinação infantil, o problema ganha contornos ainda mais delicados, já que envolve vidas em pleno desenvolvimento. No dia a dia, médicos e especialistas enfrentam a resistência de famílias que, influenciadas por boatos e desinformação nas redes, hesitam ou até recusam seguir o calendário vacinal recomendado pelo Ministério da Saúde. Essa postura compromete diretamente o bem-estar e a proteção das crianças, além de fragilizar a saúde coletiva.
“As mães precisam se conscientizar, os pediatras precisam orientar, porque circulam mensagem absurdas que vacina causa doenças, que causa autismo e até recentemente vi um caso que ocasionou um tumor cerebral na criança. E com isso, as mães ficam com um medo absurdo e deixam de vacinar as crianças. A vacina é o único modo de evitar doenças como sarampo, meningite, e outras, só podem ser prevenidas com a vacina.”
Uma mãe que seguiu essa dica a risca, é a Brenda. Ela foi gestante durante o auge da pandemia da covid-19 e conta que teve medo durante a gravidez, principalmente em ser infectada com o vírus. Apesar disso, ela sempre acreditou na eficácia das vacinas, se vacinou e também vacinou sua filha, assim que a vacina estava disponível.

“Eu descobri a gravidez em dezembro de 2020. Estava bem no auge da pandemia e eu senti muito medo, muita insegurança porque foi uma gravidez que não foi planejada. A todo momento, eu tinha medo de pegar COVID, tinha medo de um parto prematuro, então eu saía pouco de casa, tentava me cuidar o máximo. Depois que ela nasceu eu tomei a vacina. Eu nunca tive medo da vacina, nunca tive medo de nada disso. Pouco depois ela também foi vacinada contra a COVID.”
Essa hesitação, alimentada pelo medo e pela desinformação, cria uma barreira entre profissionais da saúde e responsáveis. Muitos médicos relatam a dificuldade de reconstruir a confiança, explicar evidências científicas e orientar os pais a respeito da saúde de seus filhos, inclusive sobre os riscos reais de doenças já controladas no país. O que contribui para um cenário de conflito e afastamento crescente entre pais e profissionais de saúde onde, no fim, quem mais sofre as consequências são as crianças. De modo que houve uma queda de 75% no número de crianças imunizadas por ano entre 2021 e 2025.

Estrela deixa um recado aos pais de como se informarem de maneira segura.
“ Então, acho que o mais importante é perguntar ao seu médico, procurar se informar, procurar fontes seguras, artigos, porque não adianta cair nessas fakes news, só vai atrapalhar o desenvolvimento da criança. Fontes seguras, OMS, entra no site e procura, Fiocruz, conselho regional de medicina. São veículos reconhecidos e que dão para você usar de base por aí. A orientação que eu dou, não só para pacientes mas também para amigos meus, quando compartilham alguma coisa, é procurar se aquilo é verdade, estudar, perguntar ao médico.”
Brenda seguiu por esse caminho, e contou que fez o acompanhamento junto ao seu médico, não dando atenção ao que circulava por aí.
“ Eu fiz acompanhamento toda a gravidez, de pré-natal e todas as minhas dúvidas eu tirava com o médico, eu procurava não dar ouvidos ao que as pessoas falavam, as especulações, fake news, essas coisas.”
A ilusão da cura fácil
A saúde segue sendo uma das áreas mais afetadas pela fake news na cidade do Rio. Durante a pandemia, hospitais não só tiveram que lidar com superlotação e o avanço da Covid-19, mas também com informações e uma série de boatos que se espalharam pelos cidadãos. A desinformação se materializou nos corredores e salas de emergência, e influenciou decisões que deveriam ter sido tomadas com base na ciência.
A cloroquina, medicamento antes utilizado para o tratamento da malária, chegou a ser autorizado e recomendado pelo Ministério da Saúde. O fato é que a cloroquina nunca teve sua eficácia comprovada. Uma pesquisa realizada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), coletou dados na época da pandemia e concluiu que os pacientes com Covid-19 tratados com a cloroquina, apresentaram maior tempo de internação em comparação com os outros tratamentos. Isso evidencia o quão prejudicial a fake news consegue ser e a importância de realizar pesquisas com fontes primárias, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), que chegou a esclarecer que a cloroquina não era recomendada para a Covid, informação essa, que foi ignorada pelo Governo Brasileiro da época.

É dentro desse cenário que a enfermeira Juliana Galvão, de 38 anos, relata como foram os dias no hospital durante o período pandêmico. Segundo uma pesquisa do grupo Afya Educacional, disponível na revista Medicina S/A, 89% dos médicos da linha de frente à Covid, estavam psicologicamente desgastados.
“ O maior desafio foi o começo, porque a gente não sabia como lidar com vírus. A gente não sabia se intubar antes ou depois, não sabia o que ia acarretar. Então o começo foi muito tenso. Era pesado, especialmente por conta da demanda, o desgaste físico e emocional, você ter que ver jovens entubando, pais, mães, era bem trabalhoso, principalmente mentalmente.”
Ela conta que pacientes receberam orientações médicas e duvidavam da equipe do hospital. Comportamento esse, tido como comum durante a pandemia, especialmente por todo o medo e desconfiança nas notícias que circulavam pela internet na época.
“ Quando eles falavam que o médico não prescrevia ela ficavam revoltados. Esse foi o principal problema, sobre recusar as orientações médicas. Recusavam, muitos achavam que tinha que ser jeito deles, não entendiam como era o tratamento de fato. Então, às vezes, tomavam vacina e a vacina dava algum efeito colateral, um efeito normal, mas eles ficavam tensos.”
Juliana também apontou a importância das informações verdadeiras, especialmente para profissionais da saúde, como ela.
“ É muito válido e não podemos falar qualquer coisa, tanto profissional da saúde quanto qualquer pessoa que tenha contato com a população. Tem que ter muito cuidado, especialmente em uma pandemia. ”
As fake news atravessam telas, alcançam casas, moldam decisões e em situações críticas, podem até determinar quem vive e quem adoece. A experiência da Juliana mostra o quão prejudicial e perigoso foram e ainda são as notícias falsas que circulam pela internet. O episódio da pandemia deixou claro que combater a desinformação é fundamental, uma tarefa que na saúde recai sobre médicos, enfermeiros e toda a equipe que luta para restaurar vidas.




Ficou muito boa a matéria! Parabéns pelas fontes buscadas e por entender como uma reportagem como essa é importante!