Quem cuida de quem ensina?

Atualizado: 7 de dez. de 2025
A crise na saúde mental dos professores abala o sistema educacional
Por: Maria Rita Peçanha e Veronica Cruz
Salas de aula lotadas, alunos indisciplinados e professores exaustos: esse é o cenário de muitas escolas no Brasil atualmente. Ilka Nogueira, de 37 anos, é professora de história no município do Rio de Janeiro. Ela conta que, desde que se entende por gente, sempre quis ser professora: “Nunca quis ter outra profissão. Eu lembro que minha mãe dizia que eu já brincava de dar aula para as bonecas”. Entretanto, mesmo expressando o seu amor pela profissão, Ilka descreve a realidade atual da sala de aula com preocupação:
“Os alunos, eles estão chegando cada vez mais sem limites. Eu tenho turmas que está muito difícil conseguir dar aula, é só apagar incêndio”, relata.
De acordo com um relatório divulgado em 2023 pelo Fundacentro, a experiência relatada por Ilka não é um caso isolado. A análise buscou compreender as condições de trabalho atuais que estão adoecendo os professores no Brasil, e mostrou que os transtornos mentais e comportamentais estão entre as principais causas de afastamento docente no país, com destaque para depressão, ansiedade e síndrome de burnout.
Mas por que os professores estão adoecendo?
A professora e pesquisadora Irene Reis, de São Paulo, é mestre em educação e especialista em Neurociência e Comportamento, e analisa os principais fatores relacionados ao adoecimento mental docente. De acordo com a especialista, a primeira grande queixa dos educadores é a falta de reconhecimento profissional e financeiro. Ela explica que muitos professores precisam fazer duplas ou triplas jornadas de trabalho, no intuito de complementar a renda para conseguir se manter, o que gera sobrecarga de trabalho, esgotamento físico e emocional: “Virou até meme, né? Professor com catálogo de Avon na sala de aula, professor fazendo rifa, vendendo bugigangas no meio da sala dos professores e vendendo bolo de pote, porque a profissão que ele escolheu não é suficiente”, comenta a especialista.
Em relação a sobrecarga vivida pelos educadores, a professora Ilka Nogueira relata que enfrenta dificuldades diante da crescente inclusão de alunos em sala de aula sem que haja o suporte e a capacitação necessária para atender as necessidades individuais de cada estudante. Para Irene Reis, enquanto existir salas com 30 a 40 alunos para cada professor, o processo de inclusão não será efetivo.
Irene Reis é fundadora da consultoria Reinventando a Educação, que atua em conjunto de diretores, coordenadores e líderes educacionais oferecendo formação estratégica e ações práticas para uma gestão escolar mais humanizada. (Foto: Reprodução)
Plataformização da Educação:
Outro fator para o qual a especialista alerta é a falta de autonomia pedagógica causada pela crescente integração de plataformas digitais no ensino, que ditam o planejamento das aulas e controlam o desempenho de professores e alunos por meio de algoritmos. De acordo com Irene, mesmo após a pandemia, os alunos estão cada vez mais sendo inseridos em plataformas digitais, e essa prática está transformando os professores em meros aplicadores de materiais:
“Isso engessa, isso é ilegal, porque a lei fala sobre livre cátedra, e a lei determina que o professor use o material pedagógico como apoio e não como prisão. Porque quem sabe o que precisa ser feito em sala de aula, de fato, é o professor, sobretudo aquele que está bem formado”, ressalta.
Para a pesquisadora, se um professor não tem autonomia, ele jamais poderá ter ferramentas ou subsídios para formar os seus alunos em autonomia. Paralelo a isso, milhões estão sendo investidos em plataformas, enquanto o cenário de muitas escolas públicas ainda é marcado pela precarização, com salas de aula superlotadas e sem ar-condicionado, estrutura física inadequada e falta de recursos didáticos: “A gente começa uma educação pelas plataformas, sem adequar as escolas para ter computador de qualidade, e internet de fato para todos”, comenta.
Violência e perseguição:
E para além das condições precárias e da desvalorização profissional, com a polarização política partidária, também surgiram muitas queixas de educadores que falam sobre a violência, perseguição e o desrespeito no ambiente escolar. Os relatos de professores sofrendo com agressões físicas e verbais, com ameaças que chegam de alunos ou até mesmo de familiares e colegas, são cada vez mais comuns.
A professora Ilka Nogueira, por exemplo, relembra um episódio de violência vivenciado por uma de suas ex-colegas de profissão há muitos anos atrás, em uma das escolas em que trabalhou: na época, alguns alunos que não gostavam da postura rígida do diretor, resolveram tacar uma bomba em um banheiro que acreditavam ser exclusivo dele. Mas o espaço era compartilhado por toda a equipe, e a professora em questão, que estava lá dentro na hora, acabou perdendo parte da audição devido ao impacto provocado pela bomba.
Situações como essa não ficaram no passado, e têm contribuído para o aumento dos casos de adoecimento mental entre os profissionais da educação. O cenário é alarmante, visto que no Brasil, os transtornos mentais são uma das principais causas de afastamento no trabalho: de acordo com dados do Ministério da Previdência Social, somente em 2024, foram registrados 472 mil afastamentos por saúde mental.
Diante do cenário atual, qual será o futuro da educação?
Dentro da sala de aula, em meio a tantas turbulências, há profissionais que sonham em ter um futuro melhor pensando em recalcular a rota. Há também crianças que um dia terão que escolher uma profissão. Mas será que para os jovens dessa geração ainda vale a pena ser professor, diante de tantas problemáticas enfrentadas?
Ariana da Silva, de Minas Gerais, é professora da rede pública de educação infantil há 17 anos, e comenta que não se arrepende de ter escolhido o magistério como carreira. Entretanto expõe que a cada dia que passa, a luta em sala de aula está maior. De acordo com ela, para além das demandas exigidas pela profissão, as questões familiares dos alunos também dificultam o trabalho. São crianças indisciplinadas, pais que exigem demais e responsabilidades que não competem ao professor. A entrevistada relata que faz terapia e utiliza suplementos e medicamentos, afirmando que o corpo não aguenta passar pela rotina escolar: “...Se a indisciplina não fosse tanta, a demanda seria muito mais fácil de suprir”, descreve a professora.
Ariana também acredita que as necessidades dos professores têm sido deixadas de lado, já que o foco está sendo direcionado apenas para os resultados que envolvem as metodologias de ensino, com pautas levantadas em reuniões que nunca possuem soluções. Nesse contexto, o sistema tem contribuído para uma rotina escolar prejudicial aos educadores, e antes, o que era um sonho, vira um peso:
“... A saúde mental da gente vai ficando muito prejudicada. Você desanima, e tem hora que você pensa assim: ‘Gente, eu vou voltar para quê? Eu vou fazer diferença em quê?’ (...) A gente não é ouvido, infelizmente”, ressalta a educadora.
Assista a seguir: no vídeo, a pesquisadora em educação Irene Reis mostra por que é incoerente falar de aprendizagem quando a saúde mental dos professores não é priorizada.
Já o professor Felipe Souza, do Rio de Janeiro, possui quatro anos de carreira, e atualmente dá aulas exclusivamente para escolas particulares. No entanto, sua realidade é semelhante. De acordo com ele, a sala de aula é afetada pelas diversas camadas sociais, desde a diferença de criação dos alunos, o contexto do bairro, e o cenário escolar. Felipe também afirma que os pais estão mais exigentes no que esperam da escola, e a coordenação cobra resultados de forma rigorosa. Por outro lado, os professores se encontram no meio de um fogo cruzado, tendo que lidar com mais de 40 alunos em um único ambiente, alunos estes que, segundo o professor, não conseguem ficar longe das telas. “Eu acho que todo esse conjunto é a cereja do bolo para a exaustão do professor”, comenta o educador.
No tocante ao futuro na profissão, Felipe Souza conta que, diante do desgaste e do cansaço da profissão, não se enxerga trabalhando a vida toda como docente:
“Eu não sou o cara que me vejo sendo professor a vida toda… vendo o desgaste que é hoje, vendo o cansaço que é hoje, eu não consigo me ver com 40 e poucos anos, 50 anos lidando com essa dinâmica de sala de aula (...) Eu não falo exatamente em desistir, mas eu penso talvez em ter ali uma matrícula no público, né, dando aula duas, no máximo três vezes na semana e depois fazer outra coisa”, declara o jovem
O impacto da crise da saúde mental dos professores no ecossistema escolar:

“Professores doentes são sinais de uma sociedade doente” - Álvaro Fonseca
De acordo com Álvaro Fonseca, do Paraná, que é professor, consultor educacional e especialista em formação docente, quando um professor adoece, não é apenas ele que é afetado, mas todo o ecossistema escolar. Segundo Álvaro, é muito difícil para os professores reconhecerem que estão doentes e pedirem ajuda. Eles começam dando sinais claros de desmotivação, diminuindo a carga horária, evitando tarefas além do básico e aprovando todos os alunos automaticamente para evitar pressões externas.
“A gente tem que levar a sério realmente os pedidos de socorro. É difícil um professor falar ‘estou precisando de ajuda’ (...) Quando o professor começa a dizer que está desistindo, é um sinal de que realmente tem alguma coisa errada com ele, ou com ela”, comenta o especialista.
E com o aumento do número de afastamentos, faltam professores em sala, os educadores presentes dificilmente estão saudáveis mentalmente para dar aula, e progressivamente a qualidade de ensino cai. A grande dúvida que ecoa pelos corredores escolares é quem irá continuar o legado. Para a professora Ariana da Silva, o futuro é preocupante: “A gente vê todo mundo adoecendo, querendo sair da profissão, ninguém querendo entrar”. E o professor Felipe Souza, também compartilha da mesma visão:
“Eu particularmente já conheço vários colegas que já estão fazendo a transição de carreira e os que não estão fazendo transição de carreira, conheço alguns que já estão buscando afastamento, pedindo licença (…) e aí quando você vai pros alunos, você faz uma leve pesquisa e pergunta ‘quem quer ser professor’, ninguém quer ser professor”, exclama.

Há uma saída?
Mentes sobrecarregadas pelo excesso de demandas, baixa remuneração, cobranças excessivas e dupla função. Todos esses fatores contribuem para o desgaste mental do educador. O professor Álvaro Fonseca, especialista em formação docente, afirma que a saúde mental do professor é uma questão estrutural da desvalorização da profissão. O que a torna desvalorizada não é apenas a baixa remuneração, mas também as cobranças excessivas internas e externas. Na visão do especialista, a profissão docente é tratada como se fosse algo sagrado ou uma vocação, e por isso, a sociedade costuma romantizar o cenário da educação, questionando e cobrando de maneira excessiva aos professores que ousam reclamar de suas condições trabalhistas.
“...Agora tem um discurso que eu tenho visto muito se o professor reclama. É ‘ah, então muda de profissão’. Como se eu não pudesse ser feliz na profissão que eu quero, né? Tipo, ou eu aguento o que tá acontecendo ou eu mudo. Eu não posso querer ficar onde estou, mas feliz, né?”, comenta o especialista acerca da profissão.
Atualmente, o Brasil possui políticas públicas e governamentais que auxiliam aos professores, como a chamada “Política de Bem-Estar, Saúde e Qualidade de Vida no Trabalho e Valorização dos Profissionais da Educação", criada em 2023. Além disso, a Secretaria de Educação Básica (SEB) informou através da Lei de Acesso a Informação, que existem ações de formação voltadas para a promoção da saúde mental e prevenção do adoecimento psicológico de professores, listando alguns cursos ofertados para os profissionais na plataforma Avamec, tais como:
Bem--Estar no Contexto Escolar;
A importância do Corpo na Docência;
Promovendo a Saúde Mental no Ambiente Escolar;
Atuação na Resposta e Reconstrução da Comunidade Escolar após Ataque de Violência Extrema.
Contudo, o conjunto de ações estabelecidas não está sendo efetivo. Irene Reis destaca que a classe não precisa criar mais iniciativas, mas sim fazer com que estes programas funcionem.
“Se a gente conseguisse dar conta de botar em prática as políticas públicas que já existem, e se a gente pudesse dar conta de ser no mínimo ético e respeitar a Constituição Federal, só a Constituição Federal, já estava bem bom, porque a Constituição federal, artigo 205 diz que a educação é para todos, incluindo pros professores, que também precisam ter tempo para se educar”, comenta a especialista.
No fim, os professores permanecem desamparados, lutando por respeito e salários dignos. Entre um quadro e cadeiras com milhares de histórias, aguardam a esperança de um dia poderem ser 100% felizes na profissão que escolheram.





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