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Quando o digital falha, o palco salva

  • Foto do escritor: Alunos UVA
    Alunos UVA
  • 1 de dez. de 2025
  • 8 min de leitura

Como artistas independentes estão encontrando nos espaços culturais o que o digital não entrega


Por Maria Clara Coelho e Sofia Magalhães


 Por muito tempo a promessa parecia simples, com a internet, qualquer artista poderia alcançar o mundo. Mas para quem vive da música independente, especialmente, longe dos grandes centros urbanos, a realidade é mais dura. A tecnologia abriu portas, sim, mas também criou novas formas de exclusão. E no meio disso tudo, uma resposta inesperada ganhou força, os espaços culturais voltaram a ser o coração da sobrevivência artística.

   Nesta reportagem, mergulhamos nos bastidores da autopromoção musical no Rio de Janeiro contemporâneo e ouvimos plataformas musicais, instituições de direitos autorais, artistas independentes e produtores culturais para entender onde, afinal, essa música resiste, cresce e se sustenta.


O mito da democratização digital

  

A sensação geral é de que essa é a era mais acessível para lançar uma música e distribuí-la em dezenas de plataformas. Mas essa democratização tem limites e eles não são pequenos. O algoritmo, oculto, mas jamais imperceptível, dita o que aparece, o que viraliza e quem permanece no limbo digital. Para os artistas independentes isso se traduz na falta de recursos para impulsionamento de faixas, pressão para seguir "trends" passageiras e a concorrência com um volume diário de lançamentos sem precedentes. Hoje em dia o alcance é mais competitivo, mesmo com milhões de "uploads", menos de 1% dos artistas no Spotify atingem ganhos de seis dígitos, de acordo com os dados do relatório Loud and Clear. https://loudandclear.byspotify.com/pt-BR/ 

   E essa disputa não exige apenas criatividade, necessita de estrutura, organização e uma lógica de carreira que muitos artistas, principalmente os que estão começando, ainda não tiveram oportunidade de construir.

  É nesse ponto que trazemos a experiência de Verrijota para iluminar a questão, começou sua trajetória no hip hop em 2022, além de cantor, também atua como “beatmaker”  na zona oeste do Rio de Janeiro, em Jacarepaguá.. Antes de pensar em viralizar ou “vencer o algoritmo”, ele precisou lidar com a etapa que hoje define quem consegue se manter de pé nesse ecossistema, a profissionalização. 

  Para sobreviver no cenário musical atual, o artista precisa, essencialmente, virar um empreendedor do próprio projeto, não apenas um criador. Isso significa assumir a gestão completa da carreira, cuidar da produção musical, do planejamento de lançamento, registro de obras e monetização. Para ele, a maior barreira foi transformar o projeto em empreendimento:  “Foi difícil enxergar que isso é de fato um trabalho e não só algo que eu gosto de fazer. Precisei estipular metas e organizar meus projetos”, diz.


 

Verrijota em show no espaço cultural Areninha Jacob Bandolim em Jacarepaguá    (Fotografia de Marcello Passini)
Verrijota em show no espaço cultural Areninha Jacob Bandolim em Jacarepaguá    (Fotografia de Marcello Passini)


Mas essa multifuncionalidade gera um custo significativo. O principal deles é o esgotamento, por conta das jornadas de trabalho excessivas e do estresse de centralizar todas as responsabilidades. Além disso, a diluição constante do foco e a necessidade de alternar tarefas complexas comprometem a qualidade em áreas que exigem a real criatividade, limitando o potencial de crescimento do projeto. Há também o risco de que o artista desvie sua atenção da criação autêntica para focar apenas nas métricas exigidas pelos algoritmos. 

   Esse acúmulo de funções, gera custos emocionais e criativos. Uma pesquisa acadêmica  da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) já identificava esse fenômeno: músicos brasileiros são, em grande parte, pluri-ativistas, acumulando funções e desgastes.


Entraves no sistema 


O ECAD, Escritório Central de Arrecadação e Distribuição é quem garante o pagamento por execuções públicas em bares, rádios, transmissões e eventos. A instituição explica que a distribuição desses valores segue padrões internacionais e decisões das sete associações musicais que compõem sua Assembleia Geral.



  Mas um detalhe é essencial, o artista que não é filiado não recebe.

Apesar de afirmar que não há distinção entre independentes e artistas "mainstream", a própria estrutura revela o problema, boa parte dos independentes sequer consegue entrar no sistema ou acompanhar a burocracia necessária para garantir seus direitos. 

 Produtores culturais que atuam diretamente com artistas pequenos, também evidenciam essa realidade . Para a produtora Renata Morais, que integra a equipe da Areninha Jacob de Bandolim, coordenando as produções e iniciativas culturais, nos resume essa frustração: “Quem já está mais  na mídia tem maior retorno, tem um retorno mais positivo e quem não está, não tem. Como eu trabalho com os pequenos, o ECAD é sempre uma insatisfação.” Ela reforça que o sistema, além de desigual, ainda é atrasado: “Tudo é muito lento, muito papel,muita ficha. Enquanto outras plataformas são modernas e transparentes, o ECAD segue muito complicado. Isso atrapalha demais”. Do ponto de vista da produção de eventos, a percepção é de que a organização ainda opera de forma lenta, burocrática e pouco adaptada ao universo independente.


Produtora cultural Renata Morais

Além disso, existem outras práticas como a comprovação de setlists, demora na atualização de repertório, pouca orientação sobre como acompanhar execuções públicas e desconhecimento sobre o próprio direito autoral. Em muitos espaços culturais da periferia, a fiscalização é limitada, o que diminui a arrecadação geral  e, consequentemente, o repasse aos músicos. Em um universo onde cada centavo conta, essa dificuldade de acesso aprofunda desigualdades


E como o streaming faz parte da estrutura?

Se o ECAD representa o modelo tradicional, o Spotify é o símbolo da nova economia musical. E os números mostram isso. Segundo dados enviados pela plataforma, entre 2014 a 2024, os pagamentos anuais para a indústria musical subiram de US$1 bilhão para mais de US$10 bilhões. Só no ano passado, artistas independentes geraram mais de US$5 bilhões no Spotify, sendo quase metade de todo o montante. A plataforma sozinha arrecadou cerca de 1/3 da receita global de streaming, mas mais de 50% da receita é de artistas independentes, segundo o MIDiA. O streaming ampliou as possibilidades, ao menos para quem consegue vencer a barreira inicial de ser encontrado.

Apesar dos números impressionantes, a maior parte desse dinheiro não chega aos artistas que estão começando, principalmente no Brasil. Segundo o relatório da plataforma, apenas uma fração mínima dos 10 milhões de artistas que têm música no aplicativo alcança valores que sustentam uma carreira.

Isso acontece porque não existe pagamento fixo por stream, a divisão é percentual, se um artista representa 1% dos "streams" globais, então ele receberá 1% da receita distribuída naquele período.

Então a é lógica: não existe pagamento por "stream", e sim, por popularidade. 



Mas por trás dessas cifras bilionárias existe um ponto central que é, o "streaming" não premia apenas quem faz música boa. Ele exalta quem se encaixa na lógica do algoritmo. A disputa não é somente estética, é estrutural. Para alcançar relevância, artistas são empurrados a lançar músicas curtas, manter alta frequência de lançamentos, criar faixas pensadas para "playlists", seguir tendências sonoras globais disputando segundos de atenção em telas que decidem o que “merece” ser ouvido.

É nessa engrenagem que muitos artistas independentes sentem que a criatividade fica em segundo plano, substituída por uma corrida constante para agradar a máquina. Quem não se molda pode simplesmente não aparecer. E quem se molda corre o risco de perder a própria identidade artística.

Mesmo assim, ainda existem artistas dispostos a ser autênticos e Verrijota é um exemplo disso: “Não tenho me preocupado tanto com o que está rolando na cena. Prefiro desenvolver minha identidade e explorar minha originalidade. É mais possível se destacar num nicho e furar a bolha, do que ser mais um fazendo o que todo mundo está fazendo. Antes eu via a galera se engajando com projetos e com a identidade por trás deles. Hoje, com tanta informação rápida, consomem mais singles do que um álbum inteiro.” Mesmo assim, ele não desanima: “É muito mais sobre a mensagem que eu quero passar do que o retorno. Quando conquistei meu público, entendi que era hora de colocar minha originalidade nos projetos.”

No "streaming", autenticidade virou estratégia de sobrevivência.


Quem de fato entrega território, comunidade e presença?


A apuração da reportagem revelou um paradoxo: quanto mais digital se torna o consumo musical, mais essenciais se tornam os espaços culturais físicos. Para artistas independentes de rap, funk, MPB e eletrônica, esses espaços não são apenas palcos, são ecossistemas inteiros de desenvolvimento artístico.

A percepção é unânime entre quem circula neles. Renata Morais explica: “Os artistas procuram os espaços culturais porque ali você tem contato direto com as pessoas. É o calor, é ver como isso chega no público. No "streaming" você vê números, no palco você vê gente”. Segundo ela, esse contato físico não apenas fortalece o artista, ele também consolida o projeto: “Uma coisa é falar que estão te ouvindo. Outra é ver ali , na sua frente, que estão realmente te ouvindo. O espaço cultural dá essa prova física”

Eles funcionam como uma vitrine ao vivo, permitindo que o público real conheça o artista antes mesmo do algoritmo saber que ele existe. Criam um laboratório criativo, testando a música, performance, "flow" e presença de quem está começando. São a porta de entrada para grandes oportunidades, descobrem editais, "feats", shows e gravações, através principalmente de trocas presenciais. Permitem um refúgio que protege das "trends", já que, no palco, ninguém precisa performar para agradar um gráfico de retenção.

No Rio, espaços como a Arena Carioca Dicró, as Lonas Culturais, o Centro da Música Carioca Artur da Távola, o Viaduto de Madureira, as rodas independentes na Tijuca e batalhas como a Batalha do Méier funcionam como engrenagens fundamentais para artistas que não conseguem acessar o circuito comercial.

E é nessa camada presencial que entram as políticas públicas. Editais como a Lei Paulo Gustavo, a Aldir Blanc 1 e 2, o FOCA, Fomento à Cultura Carioca e os programas estaduais de incentivo se tornaram, para muitos independentes, a principal fonte de orçamento para lançar "EPs", vídeo clipes e turnês pequenas. Sem eles, a cena simplesmente não existiria.

A produtora reconhece a importância dos editais, mas aponta suas limitações: “As leis de incentivo são essenciais, mas não têm continuidade. Elas te beneficiam naquele momento e acabou. A cena precisa de permanência.”E ela também destaca um problema central: a barreira de entrada.“Se você não tiver alguém que saiba escrever muito bem, você não consegue. Aí vira um funil: sempre os mesmos nomes, sempre os mesmos projetos.”

Além disso, muitos espaços que recebem os artistas beneficiados pelos editais não têm estrutura adequada, criando um ciclo onde o financiamento existe, mas o ambiente cultural não acompanha.

Verrijota em show no espaço cultural Areninha Jacob Bandolim em Jacarepaguá                     (Fotografia de Marcello Passini)
Verrijota em show no espaço cultural Areninha Jacob Bandolim em Jacarepaguá                     (Fotografia de Marcello Passini)

O sonho que vira coletivo


Apesar da pressão, da velocidade do mercado e dos limites impostos pelas plataformas, algo mantém esses artistas vivos e pulsando nas cenas independentes: o vínculo afetivo com quem caminha junto. O rapper resume esse impulso: “Além de ser apaixonado pelo que faço, não paro porque esse sonho já não é só meu. Teve muita gente envolvida, gente que me apoiou de todas as formas possíveis. Esse sonho já é nosso.” E talvez seja justamente isso que nenhuma plataforma, algoritmo ou relatório consiga medir, a força de um sonho que se torna coletivo e que, nos palcos dos espaços culturais, precários, improvisados, mas vivos, a música independente, segue encontrando seu caminho mesmo quando o digital falha.

A investigação sobre a sobrevivência da música independente no Rio de Janeiro mostra que, apesar de vivermos imersos numa promessa de alcance global pelo digital, é no encontro físico, que a cena realmente se sustenta. O algoritmo pode até ser o filtro que define quem aparece no "feed", mas é o público real que define quem permanece.

Entre burocracias de direitos autorais, modelos de monetização que privilegiam poucos, exigências de constante autopromoção e uma economia criativa estruturada para acelerar conteúdo, o artista independente se vê obrigado a ser gestor, produtor, empreendedor e criador ao mesmo tempo. Esse acúmulo, que desgasta e exclui, evidencia que a tecnologia democratizou a distribuição, mas não democratizou as condições de permanência.

No fim, a força que mantém essa cena viva não vem apenas de número e sim da coletividade apesar das estruturas frágeis. Quando o digital falha e ele falha para muitos, são as comunidades que salvam. É ali, nesse encontro entre vulnerabilidade e potência, que a música independente segue encontrando seus caminhos, ocupando espaços e reafirmando que existir artisticamente é, antes de tudo, um ato de resistência compartilhada.



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