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Cultura além do centro: desafios do público periférico para acessar eventos culturais

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    Alunos UVA
  • há 2 dias
  • 7 min de leitura

Atualizado: há 6 horas


Por: Anna Clara Mele e Rômulo Marinho


A arte sempre foi e continua sendo uma ferramenta de autoexpressão que promove criatividade e fortalecimento de laços e da identidade cultural. No entanto, a maioria dos espaços e atividades artísticas, como teatro, museus, shows e festas populares, é influenciada por marcadores sociais e econômicos, como raça e moradia.


Isso se mostrou ainda mais evidente em uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2019, em que 44% da população negra e parda vivia em cidades sem cinema, em comparação a 34% da branca; 37%, em cidades sem museus, e a branca, 25%.



Gráfico sobre levantamento do IBGE
Gráfico sobre levantamento do IBGE

Os locais mais negligenciados no que diz respeito à democratização do acesso a eventos culturais são as comunidades periféricas, que segundo Luíze Tavares, organizadora de uma versão popular de eventos da conhecida cultura geek, PerifaCon, são vistas de maneira distorcida e não entendidas como centros de cultura e investimento.


“Normalmente, o foco em cursos ou até acesso à educação na periferia fica em trabalhos manuais e operacionais, mas nunca artísticos”, disse ela.


Antes de entrar nas principais razões para a limitação de espaços culturais a moradores da favela, é preciso compreender de quais maneiras a arte se torna essencial na construção da identidade e desenvolvimento sociais na vida dessas pessoas:


  • Através dela, crianças e jovens podem criar uma sensação de pertencimento e se expressar de forma inovadora;

  • Novas oportunidades profissionais para a música, teatro e literatura podem aparecer através do contato com ela;

  • Com a participação e inclusão desses moradores, a representatividade de diferentes vozes e talentos é mais facilmente reconhecida.


Infelizmente, a desigualdade social e racial ainda é uma grande barreira que impede essa possibilidade.


Preços superfaturados e inacessibilidade geográfica são os maiores obstáculos para pessoas da comunidade acessarem convenções ligadas ao entretenimento


A experiência de ir a uma apresentação artística já foi considerada um momento espontâneo de celebração coletiva, mas hoje, especialmente para pessoas de baixa renda, é algo que exige planejamento financeiro e emocional. Segundo dados da BBC, em 2024, os valores de ingressos subiram 23% na média internacional, tendo acumulado quase 50% desde o início da pandemia da COVID-19. Além disso, também no ano passado, o bilhete de entrada de um único dia no Lollapalooza Brasil chegou a R$1320, o equivalente a um salário mínimo.


Com valores tão elevados, muitos brasileiros que não querem abrir mão de ir a esses eventos acabam recorrendo ao parcelamento, chegando até mesmo a desenvolver dependências financeiras. Em meio a isso, estão moradores periféricos que lutam arduamente para combater a exclusão e elitização recorrentes nesses espaços, comparecendo a shows e festas mesmo sem usufruir de todos os recursos necessários para tal.


Outro problema também diretamente ligado a empecilhos de alto custo é a localização por vezes distante e inacessível de shows, teatros, cinemas e festas populares. Enquanto esses equipamentos culturais tradicionais ficam normalmente em áreas centrais e nobres (como o Museu do Amanhã), as comunidades se encontram nas zonas periféricas. O tempo de deslocamento de um ao outro pode chegar a até duas horas de transporte público, o que acaba por desencorajar o comparecimento a essas ocasiões.


Caroline Brum, estudante de enfermagem da Uniabeu, apontou os contratempos que enfrenta ao tentar acessar shows e festividades culturais:


“A passagem já é mais cara, e o ônibus tem intervalos maiores. Se você perder um, é mais meia hora, uma hora pra vir o outro. Tem a distância, metrô e trem lotados, tem horários de pico que não tem como a gente entrar. São essas as dificuldades.”


Logo em seguida, Luan Carvalho, estudante de odontologia da Universidade Nova Iguaçu, trouxe a questão da segurança em meio ao deslocamento:


“Por conta da distância ou do trajeto em si, ele não é totalmente seguro em boa parte dos casos, onde você fica meio que à mercê da situação, dependendo do dia e do horário.”


Rômulo Marinho, em entrevista com Caroline e Luan
Rômulo Marinho, em entrevista com Caroline e Luan

Puxando esse gancho, no que diz respeito à longa distância, a inacessibilidade a transportes como Uber e BRT é outro exemplo que afasta residentes periféricos de atividades performáticas. Dentre os motivos para tal, estão: 


  • O custo elevado das corridas e passagens;

  • A segurança precária em áreas de vulnerabilidade social, que reduz a oferta de motoristas (citada por Luan Carvalho);

  • O aumento da tarifa dinâmica durante a noite (horário típico de eventos culturais).


A 6ª edição da pesquisa Hábitos Culturais, realizada pelo Observatório Fundação Itaú, aponta que violência e falta de dinheiro estão entre os principais motivos que afastam cerca de 30% dos brasileiros dessas celebrações. Dentre os que citam a violência, 23% apontam a insegurança no transporte público.


Ausência de iniciativas que busquem incluir moradores de comunidades dentro do campo artístico causa distanciamento por parte dessa população


É importante que a educação e a introdução à cultura aconteçam desde cedo na vida dos jovens para que tenham maior repertório e conhecimento ao longo da vida. Infelizmente, essa não é a realidade dos estudantes em escolas públicas, onde o incentivo ao saber universal ainda é escasso. 


Por mais que existam iniciativas que têm por objetivo romper essa barreira e fortalecer o desenvolvimento integral de alunos, como o estudo “Arte e Cultura nas Escolas”, recentemente um levantamento dessa mesma ação indicou que visitas a espaços como museus ainda são pouco frequentes, tendo 39% dos gestores entrevistados afirmado que as instituições de ensino raramente promovem essas ações. Em contrapartida, 85% dos alunos participantes da pesquisa foram a pelo menos uma atividade cultural com suas escolas no último ano.


Os principais motivos pelos quais essa falta de incentivo acontece são a falta de recursos financeiros (82%), a falta de equipamentos culturais na cidade (14%) e indisciplina dos alunos (4%).


Na maioria das vezes, quando a introdução à arte chega a ocorrer de fato, pessoas pretas e pardas e/ou periféricas logo percebem mais um contratempo: os elementos e figuras que veem são predominantemente voltados à cultura europeia, com quase nenhuma representação referente ao que vivem no dia a dia.


A representatividade compreende a presença ativa de sujeitos com agência, voz própria e capacidade de tomar as decisões que afetarão significativamente suas vidas. Porém, não é de hoje que a mídia opta por valorizar esses discursos somente quando vêm de indivíduos não pertencentes a grupos minoritários, assim fazendo com que pessoas não brancas e moradoras de favelas permaneçam invisibilizadas e sem falas autônomas que sejam apropriadamente ouvidas.


O ator Vitor Paiva, aluno da Escola Wolf Maya, quando questionado se achava que o público periférico consegue enxergar representatividade e pertencimento nos espaços culturais ou se ainda é algo muito distante para eles, respondeu:


“Eu acredito que, talvez, existam casos em que eles enxergam, sim. Se você procurar, vai achar, mas ainda é minoritário. Como a maioria das pessoas que seguem essa carreira vem de famílias de grana, acaba ficando restrito a esse mundo, e isso também não desperta muito interesse da população como um todo.”


Ator Vitor Paiva
Ator Vitor Paiva

Depois, Paiva ressaltou a importância de se falar com os moradores de comunidades para que a cultura chegue até elas e desperte um interesse e identificação nas artes.


Perante um sistema que não reconhece a luta e autonomia do povo periférico, novas soluções podem mudar o cenário


Seja dificuldade de locomoção ou falta de diversidade na indústria, todos os motivos para existir o combate à falta de acesso a eventos e atividades culturais por parte de grupos periféricos apontam para a necessidade de políticas públicas que compreendam como uma exigência de justiça social e redistribuição de poder podem fazer a diferença na vida de pessoas marginalizadas, sendo elas residentes das periferias ou não.


Felizmente, recentes iniciativas vêm buscando mudar essa realidade, como é o caso da recém-aplicada Lei Rouanet, que tem por objetivo viabilizar as culturas tradicionais de povos originários e locais, o que também se aplica às comunidades. Através dela, projetos e atividades gratuitas são disponibilizadas nas favelas, como oficinas e aulas de música, dança e teatro.


Ainda assim, um levantamento do Observatório Ibira, em parceria com a Universidade Federal do ABC, revelou que apenas 1,38% dos recursos da Lei Rouanet chegaram à periferia de São Paulo entre os anos de 2014 e 2023. Essa análise comprova que, mesmo quando programas periféricos são aprovados, a dificuldade de captar recursos e de combater a exclusão é enorme.


Diante disso, grupos sinalizam a urgência de práticas democráticas mais inclusivas, que enxerguem e percebam a a importância da diversidade de saberes e experiências de vida. Depois, vendo que tais políticas dificilmente se mostram 100% eficazes, eles buscam uma solução mais viável e certeira: a participação direta ao encabeçar empreendimentos próprios.


Um exemplo muito conhecido e renomado no meio artístico é o AfroReggae, uma ONG que busca ampliar oportunidades para jovens de favelas e grupos estigmatizados e menos favorecidos, além de promover impacto social e inclusão por meio da arte. Em 2019, foi uma das 91 instituições selecionadas pela UNESCO para receber os recursos da campanha Criança Esperança, dando assim oportunidade para os participantes da Orquestra AfroReggae de expandir seu trabalho de espalhar os ritmos das favelas para diversos lugares do Brasil e também fora do país.


"O apoio do Criança Esperança ao projeto da Orquestra AfroReggae significa levar a música clássica à favela de Vigário Geral e abrir horizontes para crianças e jovens na música. Além de trabalhar os ritmos das favelas na música clássica, mostramos que é possível, sim, tocar Beethoven, mas por que não tocar também Claudinho e Buchecha? Essa diversidade faz com que o AfroReggae e o Criança Esperança tenham sinergia em busca de um país melhor.", contou William Reis, coordenador executivo do AfroReggae. 


Orquestra AfroReggae (Fonte: Reprodução)
Orquestra AfroReggae (Fonte: Reprodução)

O Instituto Pombas Urbanas é um grupo teatral de Tiradentes que atua em projetos de teatro comunitário e impulsiona a produção artística local na periferia de São Paulo. Seu trabalho se estende a mais de 20.000 beneficiados anualmente e estimula crescimento e criatividade através da oferta de oficinas gratuitas de artesanato, capoeira e dança tanto para iniciantes quanto avançados.


Conclusão geral


A falta de acesso a eventos e festividades culturais por parte do povo periférico se dá por inúmeras razões sociais, políticas e econômicas, sendo a maior delas a negligência por parte de órgãos públicos, que não percebem essas pessoas como um grupo autônomo, cuja voz precisa ser ouvida. E mesmo que tenham surgido iniciativas que buscam alterar essa realidade, é preciso que figuras influentes e o próprio povo (seja ele periférico ou não) se unam para que a arte chegue até as comunidades para que seus moradores tomem melhor conhecimento do que ela tem a oferecer e se sintam incluídos de uma vez por todas.






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