Como o TikTok e o Instagram influenciam o consumo de jovens e adolescentes
- Alunos UVA

- 28 de nov. de 2025
- 8 min de leitura
Das trends aos influenciadores, o que circula no feed se transforma rapidamente em desejo de compra
Por Thalyta Neme e Jéssica Lins

As redes sociais deixaram de ser apenas um espaço de entretenimento para se tornarem uma engrenagem funcional na formação do desejo, da opinião e do consumo entre jovens e adolescentes. Em telas que nunca descansam, marcas investem em vídeos curtos, influenciadores com discursos atraentes, narrativas de pertencimento e um padrão de vida superestimado.

Um pacote visual cuidadosamente planejado para captar a atenção de um público cada vez mais conectado à imagem dos produtos, como explica a publicitária Viviane Costa.
É nesse ambiente dominado por algoritmos que aprendem gostos, humores e comportamentos que os jovens e adolescentes constroem referências, opiniões e, muitas vezes, sua própria identidade. Entre esses jovens está a estudante Larissa Santos, de 17 anos, que faz parte da geração que já nasceu deslizando o dedo na tela.

Larissa relata que passa entre seis e sete horas por dia nas redes sociais e que teve seu primeiro contato com essas plataformas aos oito anos de idade. Consumiu tendências, comprou camisetas, livros e até opiniões, “Muitas das opiniões que eu tinha foram mudadas por conta do posicionamento de outras pessoas”, diz a estudante.
Segundo a publicitária Viviane Costa, as estratégias usadas pelas marcas não acontecem por acaso. Linguagem visual atraente, influenciadores que parecem amigos, vídeos curtos que grudam na memória e narrativas que criam identificação imediata compõem a fórmula que se combina ao funcionamento do algoritmo, aumentando as chances de engajamento e impulsionando o consumo. “Com uma boa estratégia, o sucesso é garantido”, explica a publicitária.
Desta forma, as redes sociais criaram uma nova forma de consumir entre os jovens, um público mais emocional e conectado à imagem dos produtos. As tendências atuais que moldam o futuro da publicidade para esse público (Gen Z, Gen Alpha, adolescentes) incluem forte preferência por vídeos curtos, conteúdo vertical, vídeos conectados, um posicionamento de marca transparente e autêntico, além de experiências imersivas, o que gera identificação e aumento de desejo.
Diante desse cenário de consumo impulsionado, surge o questionamento sobre como as marcas equilibram a intenção de vender com a responsabilidade ética de não incentivar o consumismo excessivo entre adolescentes. A resposta está na comunicação transparente e honesta. Para alcançar esse equilíbrio, as marcas precisam aplicar uma comunicação que não se baseie apenas no produto, mas que vise um incentivo consciente ao consumo, com valores claros.
Alguns jovens têm percebido o tamanho da influência que as redes sociais têm sobre o consumo e sentimento de contentamento, decidindo se afastar da internet para tentar recobrar o próprio poder de decisão. Vídeos no Youtube com títulos encorajadores, ensinamentos e dicas práticas de como se desprender das telas têm se popularizado.

Maria Clara Pereira, de 23 anos, fez a escolha que contraria a maré da sua geração, a de se desconectar das redes sociais. Não foi uma decisão impulsiva, mas o resultado de uma profunda reflexão sobre como plataformas como TikTok e Instagram estavam moldando seus hábitos e decisões.
"Eu percebi que estava vivendo só para esperar a próxima notificação, o próximo vídeo, a próxima compra. Minha cabeça estava sempre acelerada, e eu não conseguia me aprofundar em nada. Precisava resgatar meu tempo, minha atenção e, principalmente, minhas próprias vontades, longe do que o algoritmo queria me vender", contou a jovem.
A influência constante para o consumo costuma ser um dos principais gatilhos, com vídeos e influenciadores ditando tendências e criando desejos muitas vezes desnecessários. Além disso, a enxurrada de vídeos curtos, projetados para prender a atenção por segundos, que mina aos poucos a capacidade de concentração em tarefas mais longas, como estudos, leituras e até assistir um filme completo.
Vivemos em uma época em que a infância e a adolescência eram tradicionalmente imaginadas como tempos de brincadeiras ao ar livre, leituras ou encontros presenciais. Porém esses pensamentos não são mais possíveis, pois os jovens e adolescentes de hoje estão cada vez mais acostumados ao mundo digital. Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, conduzida pelo Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação), 83% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos que acessam a internet têm perfis em redes sociais. Esse dado por si só já aponta para uma transformação profunda, não se trata apenas de acessibilidade, mas de participação ativa e cotidiana em plataformas digitais que moldam comunicação, identidade e relações sociais.
Dentro desse universo conectado, as redes sociais se destacam, a pesquisa mapeou quais plataformas têm uso mais frequente como WhatsApp: 70% dos jovens acessam com grande regularidade, sendo que 53% o usam várias vezes ao dia,YouTube: 66% com frequência elevada (várias vezes ao dia ou todos os dias/quase todos os dias), Instagram: 60% dos entrevistados declararam acessá-lo frequentemente, TikTok: 50% relatam uso várias vezes ao dia ou próximo disso. Esses números revelam que o engajamento dos jovens não é superficial, muitos deles interagem com conteúdos, pessoas e comunidades digitais de forma intensa e regular.
A pressão para se encaixar em padrões digitais
Vivemos em uma época em que a imagem parece falar mais alto do que a essência. Para muitos jovens e adolescentes, estar nas redes sociais é quase uma extensão da própria identidade, um espelho que reflete não apenas quem são, mas quem sentem que precisam ser. Entre filtros, likes e comparações, surge uma pressão silenciosa para se encaixar em padrões digitais que prometem aceitação, mas frequentemente geram insegurança. Nesse jogo de aparências, o simples ato de ser autêntico se torna um desafio, e a busca por pertencimento acaba se confundindo com a necessidade de aprovação virtual.
A construção da identidade entra em confronto com o conteúdo que jovens e adolescentes consomem diariamente, o que acaba estimulando a comparação social, explica Gabriela Parpunelli, psicóloga comportamental. Ela também aponta a correlação entre o uso excessivo das redes sociais e o aumento de quadros de ansiedade e depressão entre os mais jovens.
“ O excesso de estímulos visuais, as comparações e a busca constante por validação geram um desgaste emocional enorme. A mente nunca descansa; está sempre em alerta, tentando acompanhar padrões, novidades e opiniões”, afirma Parpunelli.
Essa inquietação tem até um nome: "Fear of Missing Out" (o medo de ficar de fora) que se trata daquele incômodo que surge ao ver outras pessoas se divertindo, viajando ou conquistando algo nas redes. O sentimento alimenta a ansiedade e a necessidade de estar sempre conectado, com medo de perder algo importante.
Para muitos jovens, essa tentativa constante de “participar de tudo” acaba roubando o presente, esvaziando o prazer das próprias experiências e reforçando o ciclo de comparação. Segundo a psicóloga, uma das formas mais eficazes de combater esse gatilho é o monitoramento consciente do uso das redes sociais pelos pais e responsáveis, com limitação de tempo online e incentivo a atividades offline, como esportes, leituras ou convivência social fora das telas.
Outro ponto que preocupa especialistas é como o uso excessivo das redes sociais altera a capacidade de concentração e o foco prolongado de adolescentes e jovens. As plataformas são estruturadas para oferecer estímulos rápidos, vídeos curtos, notificações e conteúdos imediatos que liberam dopamina e geram sensação de prazer instantâneo.
Com isso, a atenção se torna cada vez mais fragmentada, interferindo diretamente na educação, socialização e saúde mental. A mente se acostuma à velocidade das redes e perde a paciência para atividades que exigem tempo e reflexão. “É um desafio crescente, porque o mundo digital foi feito para não nos deixar parar”, reforça Parpunelli.
Os prejuízos causados pelo consumo excessivo das redes sociais na educação de jovens e adolescentes
Em um mundo dominado pela conexão excessiva, o processo de aprendizado dos jovens e adolescentes tem um grande desafio: o embate entre a velocidade instantânea dos conteúdos digitais e a necessidade de foco e reflexão exigida pela educação. Atualmente, é inegável que as redes sociais impactam tanto negativamente, quanto positivamente a capacidade de aprendizagem dos adolescentes.
O consumo excessivo de telas e redes sociais é cada vez mais prejudicial, pois influencia diretamente as capacidades cognitivas importantes para o aprendizado no cérebro em desenvolvimento, como atenção, percepção e memória. O fluxo constante e acelerado de conteúdos estimulantes, como os vídeos curtos, treina o cérebro a esperar por picos de dopamina constantemente, o que não é natural.
Em janeiro de 2025, início do ano letivo, foi sancionada a lei nº 15.100/2025 que restringe o uso de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais por estudantes em escolas públicas e privadas do ensino básico de todo o Brasil. A medida visa criar um ambiente escolar mais focado no aprendizado e na socialização, além de promover um ambiente mais saudável e concentrado. É uma tentativa do Governo Nacional de manter os alunos atentos e focados nos conteúdos ensinados.

Para a pedagoga Gabriela Faustino, a proibição de celulares durante as aulas nas escolas é a melhor abordagem pedagógica para lidar com o cenário atual, mas não para sempre. “É importante, dentro de uma abordagem pedagógica mais expressiva, traçar estratégias mais equilibradas entre tecnologia e bem-estar, sem renunciar à inovação, mas colocando o foco de volta onde ele deve estar: nas relações humanas, na saúde emocional e no aprendizado verdadeiro”, disse a pedagoga
Atividades que deveriam ser simples, passam a ser difíceis pela incapacidade de manter o foco e o esforço prolongado, como ler um livro ou assistir um filme longo. Além disso, com a grande quantidade de tempo de tela, o excesso de estímulos e a constante alternância de tarefas podem sobrecarregar o cérebro e prejudicar o desempenho cognitivo, afetando a memória a longo prazo.
O uso frequente de dispositivos digitais gera um excesso de estímulos, sobrecarregando o cérebro em desenvolvimento e interferindo em atividades essenciais como descansar e socializar. O resultado desse hábito pode ser visto em sala de aula, onde o aluno apresenta prejuízo acadêmico e dificuldade de concentração nas propostas e atividades.
Embora as redes possam facilitar o acesso à informação e a colaboração, o uso excessivo tem aumentado os problemas emocionais, visto que estudos correlacionam a exposição excessiva às telas com o aumento da ansiedade entre adolescentes. Além de dificultar o aprendizado de conteúdos específicos, o uso indevido do digital afeta o desenvolvimento de habilidades cognitivas essenciais como a leitura crítica, a interpretação de textos longos e o pensamento abstrato.
Diante desses desafios, a escola e a família precisam trabalhar em conjunto. A simples proibição de celulares em sala de aula pode criar um ambiente mais propício ao aprendizado e minimizar distrações no curto prazo, mas a solução definitiva passa pela educação para um uso consciente da tecnologia.
Ainda de acordo com a pedagoga, o corpo docente necessita de incentivos e políticas públicas voltadas às formações para se preparar para lidar com os desafios emocionais e cognitivos da Geração Z e Alpha, que são nativas digitais. A capacitação em habilidades socioemocionais tem se tornado essencial para que os professores possam criar um ambiente de aprendizagem mais acolhedor e apoiar o desenvolvimento integral dos alunos.
“É importante que as escolas estejam preparadas também para essa nova geração, o uso de novas metodologias, que estimulem o protagonismo do aluno, aulas mais dinâmicas e o uso de tecnologia com propósito pedagógico, o que infelizmente não é a realidade da maioria das escolas no país. Muitas escolas, principalmente em áreas rurais e regiões periféricas, não possuem infraestrutura adequada, acesso à internet de qualidade e computadores para todos os alunos”, concluiu a pedagoga Gabriela Faustino.
Os professores também lidam com o peso da desatenção e dificuldade de aprendizado causados pelo uso excessivo do celular em sala de aula. Para a professora de gastronomia, Vitória Melo, é um desrespeito passar a aula inteira mexendo no dispositivo.
“Já aconteceu caso que eu expliquei a situação e a aluna estava mexendo no celular, sem prestar atenção no que eu estava falando, depois ela afirmou não saber sobre o conteúdo que estava sendo passado”, contou a professora.




A reportagem ficou bem apurada, meninas, parabéns!