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Projeto Bosque da Glória e o papel dos Parques Urbanos.

  • Foto do escritor: Alunos UVA
    Alunos UVA
  • 1 de dez. de 2025
  • 7 min de leitura

Revitalização do antigo Parque Municipal Lúcio Costa revive uma história antiga, a cultura popular e preservação ambiental.


Por Ingrid Ponciano e Filipe Alejandro


Aula experimental de capoeira no PMLC.
Aula experimental de capoeira no PMLC.

Num ponto de encontro entre a calmaria da Glória e a vibrante energia da Lapa, um antigo parque esquecido volta a ter atenção. De um lado a história imperial e a brisa da Baía de Guanabara e do outro, a agitação urbana. É nesta fronteira invisível que o histórico Parque Municipal Lúcio Costa, após anos de abandono e lixo acumulado começa a respirar novos ares. Ele está sendo transformado no Bosque da Glória, um projeto que une restauração ambiental, resgate cultural e um novo uso social do espaço. A iniciativa reacende uma discussão profunda e necessária sobre a importância dos parques naturais nas cidades e o abandono desses ambientes. Por que a revitalização desses espaços se tornou urgente diante do crescimento urbano desordenado e da busca incessante por bem-estar? A resposta está na própria dinâmica da cidade moderna. 



A importância desses espaços diante do crescimento urbano

Em tempos de cidades caóticas, marcadas por trânsito intenso, poluição sonora e uma rotina acelerada que consome a saúde mental de seus habitantes, os parques naturais se tornaram uma resposta essencial ao estresse urbano. Mais do que simples áreas de lazer na cidade, eles funcionam como verdadeiros pulmões ecológicos. São redutores naturais das chamadas "ilhas de calor", fenômeno que torna o asfalto e o concreto insuportáveis no verão, além de atuarem como espaços vitais de socialização.

Nas capitais brasileiras, onde a densidade demográfica é alta e os espaços livres são cada vez mais escassos, a relevância desses locais só cresce. O exemplo mais notório é o Parque Ibirapuera, um dos mais importantes do país e mais visitado parque urbano da cidade de São Paulo. Entre janeiro e março de 2025, o espaço recebeu cerca de 4,1 milhões de pessoas. Hoje, o Ibirapuera não é apenas grama e árvores, é uma referência nacional de programação cultural e esportiva. No Rio, o Parque Madureira, terceiro maior da cidade, transformou todo o entorno, impulsionando comércio e convivência. Agora possui quadras de vôlei, basquete, riachos, quiosques e a Arena Carioca, que recebe apresentações culturais. A Quinta da Boa Vista e o Aterro do Flamengo seguem como áreas fundamentais para prática esportiva, educação ambiental e encontros comunitários. 

Uma cidade que investe em espaços verdes consegue minimizar os impactos promovidos pelas mudanças climáticas e poluição. De acordo com o produtor cultural do projeto, Bruno Jacarandá, “os benefícios transcendem o clima, eles tocam a biologia humana”. 

Além desses fatores, esses espaços desempenham o papel de proteger e conservar os ecossistemas naturais. A biodiversidade presente nos parques urbanos costuma apresentar fragmentos de florestas em meio ao caos da cidade.  

 


O contato com áreas verdes tem efeitos diretos na saúde mental e física da população 

Um artigo publicado na Revista Brasileira de Ecoturismo mostra que o contato com a natureza reduz os níveis do hormônio do estresse, o cortisol, diminui a incidência de doenças cardiovasculares e promove a prática de exercícios físicos. Para os moradores das grandes metrópoles, o parque é um escape, um espaço de descompressão onde o ruído da cidade é substituído pelo som da natureza. 

Na pesquisa, foram analisados 211 estudos sobre áreas verdes e constatou-se que 94,03% deles apontaram efeitos positivos do contato com a natureza. Apenas 8,95% relataram efeitos neutros e nenhum apontou algo negativo. 

 


Coesão Social e Inclusão  

Ao analisarmos a função social, é possível pensar nas áreas verdes como espaços de lazer público, uma vez que proporcionam diversas facilidades à população. A realização de atividades culturais, esportivas e educativas, como aulas de capoeira e oficinas de teatro, dentro desses ambientes fortalece os laços comunitários e promove um senso de pertencimento. 

Os parques, no entanto, só desempenham plenamente suas funções quando passam por manutenção constante, investimentos em acessibilidade, segurança ostensiva e uma programação cultural curada. Quando essa engrenagem para, o processo quase sempre leva ao abandono. É a "teoria das janelas quebradas" aplicada ao paisagismo: o descuido gera mais descuido. Esse foi, infelizmente, o cenário que marcou o local que agora busca renascer como Bosque da Glória. 

  


A Genialidade de Burle Marx e Lúcio Costa até o abandono 

Para entender a importância do projeto atual, é preciso olhar para o passado glorioso deste território. O local, situado no coração da Glória, na zona de transição física e cultural para a Lapa, foi criado originalmente em 1939. Vale lembrar que em 1939, o Rio de Janeiro era a capital federal. O parque foi fruto de uma parceria entre o urbanista Lúcio Costa e o paisagista Roberto Burle Marx. Inaugurado por Amaral Peixoto, o projeto que visava facilitar o acesso ao histórico Outeiro da Glória e, simultaneamente, recompor uma paisagem colonial que havia se perdido com o crescimento da cidade. A topografia era acidentada e por isso, utilizou-se de uma engenhosa solução de patamares, rampas e escadas, harmonizando com o local. “As senhoras tinham dificuldades para subir a ladeira da Glória e quando chovia mais ainda. Ao passar do tempo eles foram perdendo os católicos", diz o historiador Gilson Sampaio

"Esses bancos de pedra são todos da época. Todos de 1939".

A arquitetura do Parque Municipal Lúcio Costa não é à toa. Inspiração no complexo inca, de Machu Picchu, a construção dialoga com a montanha. Além disso, o parque também é conhecido popularmente como “Parque da Subida do Outeiro”. Esse apelido se deve ao fato de funcionar como um acesso para a Igreja Nossa Senhora da Glória, que só é revelada por inteiro quando se atinge o último patamar do parque. 

Outra curiosidade compartilhada pelo historiador, e que só acrescenta na bagagem histórica do Parque, é a conexão com a monarquia brasileira. Todos os filhos de Don Pedro I e Don Pedro II foram batizados na Igreja Nossa Senhora da Glória.  

No entanto, com o passar das décadas, a manutenção se tornou irregular e o espaço foi gradualmente caindo no abandono. A falta de segurança, a deterioração do mobiliário urbano e a perda da beleza original transformaram o que era um marco do paisagismo em uma área subutilizada e, por vezes, perigosa. O parque sofre com mato alto, árvores caídas e falta de iluminação, além de ter se tornado um ponto de concentração de usuários de drogas. A última vez que reabriu, com as manutenções em dia, foi em 2023. 

 


Bosque da Glória: Revitalização de um Novo Epicentro Cultural Carioca 

O novo nome, Bosque da Glória, e a estratégia por trás da revitalização, sintetizam a ambição de transformar a área em um polo de algo maior do que ela já foi: uma reconexão cultural e social. O conceito principal é a Rotação Cultural. O foco central é resgatar o legado, mas inseri-lo na dinâmica contemporânea da cidade com um olhar para o futuro do Rio de Janeiro. 

O adotante e idealizador do projeto, Jorge Linhares, que possui mais de 30 anos de atuação em projetos culturais e sociais na cidade do Rio de Janeiro, explicou a dependência da comunidade local de um espaço para lazer e bem-estar. “O Parque Municipal Lúcio Costa é uma vitrine paisagística turística da Glória e da cidade do Rio de Janeiro, e pode ser potencializado de diversas formas. Especialmente atividades de bem-estar e oficinas e eventos culturais.” Além disso, ainda acrescentou, “O projeto surgiu da demanda dos moradores do bairro da Glória por espaços com mais tranquilidade no meio do caos das feiras que acontecem rotineiramente. A partir do projeto AdoteRio, eu vi a oportunidade de criar esse espaço. Efetuamos a adoção do parque e junto com a comunidade local buscamos criar um local de cultura, bem-estar e educação, visando também uma maior integração social e networking entre os vizinhos e a a nossa luta agora é a questão dos patrocinadores e a prefeitura. O custo da revitalização é muito alto e a questão da poda das árvores pode ser resolvida pela Comlurb, mas até isso acontecer é muita pressão”. 


Aual experimental de capoeira no PMLC.
Aual experimental de capoeira no PMLC.

  


A Estrutura da Revitalização, Segurança e Cultura 

O projeto foi desenhado em fases evolutivas para que haja consistência e, é claro, excelência. A estrutura prioriza o básico indispensável, como ações de ordem e limpeza, até a organização paisagística e eventos piloto para testar a capacidade do espaço. O objetivo é garantir que a revitalização seja permanente. 

A segurança é tratada como prioridade zero, visto que é o principal fator para a frequência do público hoje. Será instalada uma estrutura de Câmeras ligadas diretamente ao COR (Centro de Operações Rio), integrando o parque ao sistema de monitoramento da cidade.  

No quesito infraestrutura para eventos culturais, com tecnologia e planejamento o espaço será equipado com sistema de som voltado para o público, garantindo qualidade sem dispersão excessiva de ruído para a vizinhança, e um cenário que valorize a vegetação e a arquitetura de pedra à noite. 


Os Pilares do Projeto e o Apelo Comunitário 

O projeto se concentra em quatro fases: 



Revitalizar um parque natural é um projeto de alto custo, envolvendo desde o mapeamento do local, instalação elétrica, e até questão de mobilidade. É fundamental entender que o orçamento final não pode ser divulgado antes que todas as etapas de planejamento, detalhamento técnico e licitações estejam formalmente concluídas e aprovadas. A complexidade dos assuntos envolvidos, como a variação do orçamento de materiais e transparência, exige cautela na divulgação dos valores. No entanto, é possível ter uma ideia dos valores envolvidos. Um exemplo de custo, que é possível encontrar em editais da prefeitura já autorizados, é o de poda e manejo de árvores de grande porte. A taxa base de uma remoção, em áreas privadas, é de 125,40 Ufir (Unidade Fiscal de Referência do Estado do Rio de Janeiro), equivalente a R$ 595,75. Isso em uma árvore de pequeno porte. Dependendo do tamanho e estrutura, esse valor pode chegar até a R$ 5,000. Em áreas públicas o manejo das árvores é de responsabilidade de órgãos públicos, como a Fundação Parques e Jardins (FPJ) e a Secretaria Municipal de Conservação e Serviços Públicos (SECONSERVA) e para realizar a poda é preciso de uma autorização da prefeitura.  Qualquer remoção feita sem a devida autorização da FPJ pode resultar em multas que variam de R$ 5 mil a R$ 55 mil, dependendo da área. 


O projeto já conta com apoio comunitário dos moradores locais e busca mais apelo popular para que o sonho consiga se tornar realidade. As redes sociais do Bosque da Glória servem como espaço comunitário para atualizações, divulgações e sugestões do público, que são os verdadeiros beneficiários do parque. Além disso, disponibilizam um formulário de apoio para os simpatizantes da causa. Quanto mais apoio e cobrança à prefeitura, mais rápido o projeto se realizará.  

O Bosque da Glória se apresenta, portanto, não apenas como a recuperação de um patrimônio histórico, mas como uma afirmação do papel vital que os parques desempenham na construção de cidades mais justas, saudáveis e culturalmente ricas.  

 

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