O Impacto das Plataformas de Streaming nas Premiações de Cinema e TV
- Alunos UVA

- 2 de dez. de 2025
- 10 min de leitura
Análise da revolução na distribuição audiovisual que forçou o Oscar e o Emmy a reavaliarem seus critérios, confrontando a experiência tradicional da sala de cinema com a conveniência do consumo algorítmico e a aceleração da produção de conteúdo global.
Por Maria Clara Soares e Victória Vieira
Pôster do novo Quarteto Fantástico exibido em cinema do Rio de Janeiro, representando a alta procura do consumidor que ainda vai ao cinema. Reprodução: Arquivo pessoal
O século XXI redefiniu a forma como consumimos histórias. Se há duas décadas a experiência cinematográfica era sinônimo da escuridão da sala e a projeção em tela gigante, e o entretenimento serializado era ditado pela grade da TV a cabo, a ascensão das plataformas de streaming (Netflix, HBO Max Apple TV+, Prime Video, etc.) alterou radicalmente esse panorama. Não se tratando apenas de um novo canal de distribuição, mas de metamorfose no ecossistema do audiovisual, mudando não só onde vemos filmes e séries, mas também como eles são feitos, promovidos e, crucialmente, julgados.
A conveniência do acesso imediato e a curadoria personalizada por algoritmos transformaram o espectador em seu próprio programador. Com a quebra das janelas tradicionais de exibição, o intervalo rígido entre a estreia no cinema, o "home video" e a TV, o streaming injetou um ritmo frenético de produção e um volume inédito de conteúdo que desafia as fronteiras entre o cinema e a televisão. De repente, grandes blockbusters e filmes de arte estavam disponíveis no mesmo catálogo, competindo pelo tempo do usuário ao lado de séries e documentários.
É neste contexto de profundas transformações que as grandes premiações, como o Oscar e o Emmy, se tornaram o principal campo de batalha. Elas são forçadas a decidir se a excelência artística pode ser desassociada da experiência coletiva da sala de cinema e como o ritmo acelerado de produção de conteúdo se encaixa nos critérios de julgamento centenários preestabelecidos, a questão central não é apenas quem ganha, mas como definimos o que é arte e o que é sucesso na nova era digital.

Inicialmente, a promessa do streaming era a democratização. A facilidade de acesso às produções e a distribuição pareciam ser a chave para cineastas e produtores independentes, que historicamente enfrentavam o "portão" inflexível dos grandes distribuidores e exibidores.
O crítico de cinema e produtor audiovisual Vitor Walden afirma que a realidade é mais matizada. “O streaming abriu algumas portas, sim. Eu trabalhei em algumas produções que foram distribuídas para o Prime Vídeo e não dá para dizer que ficou "mais fácil",” explica Walden. “É uma porta de entrada para o cinema, mas ainda existe o desafio de aparecer dentro do catálogo dessas plataformas, no meio de várias outras produções que podem ser mais relevantes.”
Para Walden, o que se vê é a substituição de um ”porteiro” por outro. O gargalo da distribuição física deu lugar ao filtro da curadoria e, principalmente, do algoritmo.
"O que eu enxergo de bom, e que já pude participar, é que o produtor independente pode lançar seu próprio filme, criar uma audiência, e até negociar direitos com as plataformas. Só que ainda vai existir um funil que agora quem decide o que aparece é o algoritmo." Explica Vitor Walden.

Essa mudança implica que, para além da qualidade da obra, a estratégia de metadados, marketing digital e a capacidade de engajar o público rapidamente se tornaram fatores cruciais para que um filme saia da vasta biblioteca e apareça no topo da tela inicial do assinante.
Conforme aponta a Revisão Bibliográfica da New Science Publishers sobre a influência das plataformas, embora o streaming tenha redefinido o sucesso cinematográfico, produtores europeus, em uma pesquisa recente da REBOOT, demonstraram que a falta de acesso aos dados de audiência das plataformas enfraquece seu poder de barganha. Isso reforça a ideia de que o algoritmo cria um novo tipo de barreira para a produção independente.
Gráfico consumo. Reprodução: infográfico gerado por IA
Oscar e a Adaptação Necessária
A inclusão de filmes produzidos por plataformas de streaming nas categorias principais do Oscar foi, inicialmente, recebida com resistência, especialmente por nomes ligados à experiência cinematográfica tradicional. No entanto, vitórias como Roma (Netflix, 2019) e CODA (Apple TV+, 2022) - que levou o prêmio de Melhor Filme - selaram a inevitabilidade dessa nova era.
Essas vitórias representam que, da mesma forma que as locadoras foram substituídas pelo streaming, essas novas conquistas mostram que o streaming é um novo capítulo de uma nova realidade. De acordo com Vitor, “Talvez a academia tenha percebido que precisava abraçar esse novo formato, da mesma forma que a academia em determinado momento teve que abraçar mais os filmes estrangeiros. Então, eu não diria que foi forçado, mas sim uma adaptação necessária.”
Imagem promocional de CODA, filme que marcou a presença do streaming ao vencer o Oscar de Melhor Filme. Reprodução: Apple TV+
Apesar das vitórias, a barreira da legitimidade em festivais mais tradicionais ainda é perceptível. Ingrid Alves, dubladora e estudante de cinema, acredita que o preconceito persiste.
"A barreira não foi totalmente quebrada. Apesar de existirem títulos que inclusive foram para as telonas por um curto período - como Frankestein e Guerreiras do K-pop, ambos da Netflix - ainda existe um preconceito, especialmente por parte de festivais tradicionais." Afirma Ingrid.
O debate, segundo ela, transcende a qualidade do filme. Toca em questões mais profundas sobre a preservação do "ecossistema" e da experiência coletiva na sala de cinema, o que confere um "status" cultural diferente aos lançamentos tradicionais.
O Festival de Cannes é um exemplo que manteve por anos uma regra polêmica, que exigia que os filmes concorrentes na mostra principal tivessem um lançamento comercial nos cinemas franceses, uma medida explicitamente desenhada para preservar o modelo de janelas de exibição e que efetivamente baniu filmes como Okja (Netflix) da competição principal em 2018. Esse fator pode muitas vezes afetar a experiência do usuário, como conta João Oliveira, cinéfilo, "o "peso" da indicação que a obra recebeu influencia a minha escolha ao decidir consumir uma série ou filme."
A Dinâmica da Demanda e do Algoritmo
A demanda voraz por "conteúdo infinito" das plataformas de streaming impôs um ritmo de produção inédito à indústria audiovisual. A necessidade de alimentar bibliotecas gigantescas com lançamentos semanais levantou preocupações sobre a sustentabilidade e, principalmente, a qualidade artística e técnica das obras.
Ingrid, cuja formação em cinema se alia à prática como dubladora, testemunha de perto esse impacto. ”Sinto que o modelo de produção acelerada do streaming trouxe dois movimentos ao mesmo tempo. Por um lado, ampliou possibilidades - mais histórias, mais perspectivas. Mas, ao mesmo tempo, existe sim um impacto na qualidade quando a demanda é conteúdo a qualquer custo’”.
"O processo artístico corre risco de virar uma "Fábrica de Salsicha" - rápido, repetitivo e, por vezes, descartável. Algumas produções claramente seguem uma lógica de quantidade, não de profundidade, principalmente quando são séries com muitos episódios, ou redublagem de produtos antigos que já estão finalizados e irão entrar no catálogo, como novelas." Explica Ingrid.
Com milhares de títulos disponíveis a um clique, o público se vê em um paradoxo de escolha. Qual é o termômetro de consumo em um universo tão vasto? Seriam as indicações da plataforma, as premiações ou a velha e boa recomendação pessoal?
Para o consumidor desse conteúdo, Brendon Faria, a resposta é clara: o fator mais decisivo é inegavelmente o humano. Em sua jornada pela busca do próximo grande título, ele revela que o peso das sugestões automáticas ou até mesmo o "glamour" de uma estatueta ficam em segundo plano se comparados à opinião do seu círculo social.
É Brendon quem define a regra:
"O que mais pesa para mim é a recomendação de amigos ou redes, pois quando alguém me recomenda uma obra é porque a pessoa já assistiu e gostou da experiência. Isso facilita eu gostar da experiência também, mas claro que isso depende dos argumentos sobre o porque aquela obra é boa ou não."
Essa visão de Brendon Faria é crucial para entender a nova dinâmica do entretenimento: o sucesso, na era do streaming, não é medido apenas pelo número de cliques, mas pela capacidade da obra de gerar conversação e validação social, superando as sugestões automáticas. Apesar de a recomendação pessoal ter um peso significativamente maior em sua decisão, Brendon reconhece que o algoritmo não é totalmente inócuo, pois ele cumpre um papel duplo em sua rotina de consumo. Por um lado, canais de comunicação voltados ao audiovisual e as próprias sugestões da plataforma acabam sendo positivas por apresentarem filmes que ele talvez não iria conhecer por conta própria.
No entanto, a ação negativa reside naquilo que Brendon sente como a criação das "bolhas" de conteúdo. Ao insistir em obras baseadas estritamente no seu histórico de usuário, o algoritmo pode limitar a diversidade de conteúdo e impedi-lo de descobrir verdadeiras joias fora do seu nicho. Além disso, a simples exibição de uma visão prévia ou crítica pode gerar desinteresse prematuro por obras que, segundo sua perspectiva, ele deveria ter a chance de julgar por conta própria.
Estudos como o publicado pela Revista Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (REBECA) sobre o sistema de recomendações da Netflix indicam que a posição do título na interface e a fileira da qual faz parte influenciam significativamente na escolha, o que tem consequências diretas no contato do usuário com a diversidade de produtos. Essa dependência da interface reforça a dificuldade de quebrar a "bolha" gerada pelas preferências passadas.
A Janela de Distribuição: Consumo e a Sala de Cinema
A coexistência entre a tela grande e o streaming reconfigurou o comportamento do consumidor, que agora tem poder de escolha sobre onde e quando ver um lançamento.
Para Brendon Faria, a ida ao cinema ainda é um ato impulsionado pelo ”teor novidade” e pelo FOMO (Fear of Missing Out). ”Sim, ainda frequento as salas de cinema. E um dos principais motivos que me faz sair de casa para ir ao cinema é o teor novidade, porque sou fã de muitas franquias de sucesso e gosto muito de ficar por dentro dos últimos lançamentos, principalmente dos filmes,” diz Faria.

No entanto, ele reconhece que o lançamento direto no streaming afeta a percepção inicial de importância. ”Eu acredito que um lançamento direto para streaming é menos importante quando comparado com o grande público, porque no meu caso, eu opto por assistir a uma me baseando primeiro no elenco, direção e gênero na maioria dos casos e só depois procuro o local onde ela será distribuída.” Ainda que o apelo popular inicial seja maior nos cinemas, Faria cita o exemplo de Guerreiras do K-pop, lançado na Netflix e levado ao cinema após o sucesso, provando que o status cultural pode ser conquistado de forma posterior.
Apesar do apelo da novidade, os dados de consumo apontam para uma mudança clara de hábitos, uma pesquisa recente citada pelo Nexo Jornal revela que 47% dos entrevistados no Brasil que acessam streaming apontaram que esse hábito diminuiu suas idas ao cinema. Apenas 6% afirmaram que suas idas aumentaram. Esse dado reforça o desafio de encontrar o equilíbrio entre a conveniência e a experiência única da tela grande.
Gráfico mostra que apenas 6% dos entrevistados passaram a ir mais ao cinema devido ao streaming . Reprodução: infográfico gerado por IA
O Futuro da Experiência e a Sobrevivência dos Festivais
Com grandes lançamentos chegando ao streaming em questão de semanas ou meses, a pergunta sobre a relevância da sala de cinema e dos festivais de elite se torna pertinente.
Em um mundo onde o ”inédito” é instantaneamente consumível, para Vitor Walden, os festivais não perderam sua função; eles a transformaram.
"Os festivais sempre vão ter um papel essencial, porque eles praticamente 'coroam' as obras, e isso traz uma visibilidade para os projetos e, de certa forma, vai mostrar uma credibilidade para o público." Afirma o cineasta.
O especialista ressalta que o endosso de um grande festival - como a notícia de um filme ser aplaudido de pé por cinco minutos - gera curiosidade e relevância que o algoritmo, sozinho, não consegue replicar. Os festivais continuam sendo vitrines, e as plataformas de streaming têm total consciência disso, utilizando o prestígio para promover suas obras originais.
Ao investir na exibição em festivais de ponta como Veneza ou Toronto, as plataformas não buscam apenas prêmios, mas sim um atestado de qualidade que se destaca em meio ao volume esmagador de conteúdo nos seus catálogos. Esse "selo" facilita a descoberta pelo público, pois transfere a confiança do corpo curador do festival para a obra, funcionando como um contraponto à lógica de recomendação puramente algorítmica.
Para os cineastas, a participação em festivais continua a ser o ápice do reconhecimento, funcionando como um rito de passagem que valida a obra no circuito global, mesmo que seu público principal a assista em casa. Os festivais oferecem a raríssima oportunidade de exibir o filme no formato em que foi concebido, reforçando a conexão com a tradição cinematográfica.
A globalização do conteúdo, impulsionada pelo streaming e facilitada pela dublagem e legendagem, exige uma reflexão sobre o futuro das premiações e o reconhecimento dos profissionais envolvidos.
"Gostaria de ver maior inclusão de categorias ligada à adaptação e dublagem, porque são áreas essenciais na era do streaming, além de novos critérios que considerem o impacto global de uma obra - e não apenas a bilheteria tradicional." Afirma a dubladora Ingrid Alves. "A dublagem e a localização são partes estruturais da experiência de quem consome streaming. Então faria sentido que as premiações começassem a refletir isso."
As premiações, segundo a profissional de cinema, devem ir além do glamour do tapete vermelho e do diretor, reconhecendo o trabalho minucioso que permite que um filme indiano ou uma série sul-coreana chegue ao consumidor brasileiro com excelência técnica. Apesar dos desafios, o setor mantém um otimismo cauteloso. O modelo de assinatura facilitou o consumo cultural, oferecendo mobilidade e liberdade de assistir a qualquer hora.

Ingrid resume o dilema do futuro em duas pontas: ”Minha maior esperança é que o streaming continue abrindo portas: mais diversidade de histórias, mais oportunidades para artistas novos, mais acesso global. Já o meu maior receio é que o ritmo acelerado transforme o processo artístico em algo descartável - tudo muito rápido, esquecível, substituível, ’fábrica de salsicha’, como dizem na dublagem. Mas sigo otimista, pois quando existe demanda por qualidade, sempre há quem faça com cuidado.”
O impacto das plataformas de streaming nas premiações de cinema e TV não foi apenas uma mudança de formato; foi uma redefinição de legitimidade. A era digital forçou a Academia a se adaptar para permanecer relevante, abraçando a qualidade artística independentemente da tela. No entanto, o novo ecossistema exige que a excelência não seja apenas percebida nos grandes prêmios, mas também no enfrentamento do funil algorítmico, na resistência ao ritmo predatório de produção e na valorização do trabalho técnico que globaliza o conteúdo.













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