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Os terreiros como guardiões da memória ancestral

  • Foto do escritor: Alunos UVA
    Alunos UVA
  • 2 de dez. de 2025
  • 12 min de leitura

Como os terreiros preservam saberes ancestrais e enfrentam o apagamento cultural em um país que ainda marginaliza suas tradições

Por Gabrielle Torraca, Maria Eduarda Ladeira e Verusca Diniz


Pontualmente, às 19h30 de uma segunda-feira na Lapa, o tinir de um sino atravessa o silêncio da noite, anunciando o início do ritual. O ar se preenche de um aroma doce e suave, que parece dançar entre as paredes. Um médium atravessa a sala com um defumador, envolvendo as pessoas, uma a uma, com uma fumaça sútil, como mãos invisíveis oferecendo um banho, não de água, mas de energia, limpando, acalmando e tocando algo profundo dentro de cada devoto presente.

Estavam todos descalços, vestidos de branco, homens, mulheres e crianças, todos carregavam suas guias, cordões longos e coloridos que funcionavam como uma espécie de escudo protetor. Após um momento de introspecção e silêncio, começaram a entoar um canto acompanhado por agogôs, xequerês e atabaques. Era um tipo de saudação ao mundo espiritual e ao reino vegetal, uma forma de agradecer pelas bênçãos que as ervas ali queimadas poderiam lhes proporcionar.

Ao fundo da sala, um altar iluminado por velas chamava a atenção. No ponto mais alto, Jesus Cristo parecia observar com ternura o ambiente. À sua direita, encontrava-se Nossa Senhora, e, mais à frente, Santa Bárbara e São Jorge se destacavam, lado a lado com São Jerônimo. Entre essas figuras surgiam as imagens de Iemanjá e a de um caboclo, compondo um mosaico de fé e cultura que preenchia o espaço com história, significado e sincretismo.

Mas ali, no Templo a Caminho da Luz, pulsa algo que excede o sentimento de fé, o terreiro atua também como um espaço de resistência, guardião de saberes, rituais e práticas culturais historicamente desvalorizadas. Segundo o IBGE, em 2010, apenas 0,3% da população brasileira se declarava praticante de religiões de matriz africana, em 2022, esse número subiu para 1%, mostrando que, apesar da perseguição histórica, essas tradições continuam se afirmando e conquistando seu espaço na sociedade.

O médium, professor e pesquisador Arnaldo Carvalho Júnior, 38, do Templo a Caminho da Luz, explica que, embora a sociedade contemporânea se apresente como diversa e comprometida com o respeito às diferenças, essa postura muitas vezes não se concretiza no cotidiano. “A diversidade fica na teoria. Na prática, ela não acontece. Os terreiros cumprem justamente o papel de reafirmar a existência dessas diferenças em um contexto ainda marcado pelo domínio político-religioso católico e evangélico,  realidade que chega a provocar o fechamento de casas em algumas comunidades”, conta ele. Arnaldo destaca que a presença dos terreiros demarca modos distintos de viver e de crer, que devem ser respeitados em um Estado laico, capaz de enfrentar o monopólio religioso.   

Da mesma forma, Rômulo Aragão, 23, frequentador e ogan da Ilé Omi Bagan, afirma que os terreiros desempenham um papel central no enfrentamento ao racismo religioso. Segundo ele, os terreiros são espaços fundamentais, porque é neles que preservamos e celebramos nossa ancestralidade, honrando antepassados que, por muitos anos, foram escravizados e tiveram suas religiões discriminadas e criminalizadas. Para sobreviver, precisavam disfarçar suas crenças e recorrer ao sincretismo no culto aos orixás, caso contrário, eram alvo de violência e até da morte.”

Sob uma outra perspectiva, Gadu Hosken, 29, membro da Tenda de Umbanda Filhos de Pai Pedro da Bahia destaca a importância dos terreiros de Candomblé e Umbanda enquanto  espaços vivos de preservação das memórias e tradições dos povos africanos e seus descendentes. “Neles, é possível resgatar saberes ancestrais que atravessam gerações, desde às danças, passando pela culinária e pelas práticas medicinais. Estar em um terreiro é vivenciar um sentimento de pertencimento e conexão, mesmo após séculos de tentativas de apagamento cultural. Por essa razão, a transmissão desses conhecimentos se torna essencial  para manter viva essa herança”, explica o umbandista.

Os depoimentos, apesar de distintos, revelam uma ideia incomum: Os terreiros de religiões de matriz de africana são os principais responsáveis pela conservação histórica, social e cultural da população brasileira. Que embora se nutra de seus saberes, de forma contraditória, continua a desvalorizá-los, negando suas raízes e sustentando uma suposta laicidade que, na prática, expõe esses espaços à violência e à opressões diárias. Mais do que templos religiosos os terreiros são lugares onde se  preserva memória, identidade e ancestralidade e onde apesar de adversidades vibra uma resistência que se reafirma a cada dia.



Arnaldo Carvalho Júnior, praticante da Umbanda
Arnaldo Carvalho Júnior, praticante da Umbanda
Romulo Augusto De Paula Aragão, praticante da Umbanda
Romulo Augusto De Paula Aragão, praticante da Umbanda

O Brasil que a sala de aula ainda não ensina


De acordo com a Lei 10.639/03 tornou-se obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira em todas as escolas de ensino fundamental e médio do país, tanto públicas quanto privadas. A determinação ampliou o debate sobre ancestralidade e religiosidades de matriz africana dentro do currículo. Contudo, a aplicação segue facultativa. Especialistas afirmam que muitas redes tratam o tema apenas de forma eventual, esvaziando o caráter essencial da decisão. A falta de estrutura e formação docente ainda é considerada uma das principais barreiras.

Para o pesquisador e educador Giovanni Codeça, o problema vai além do cumprimento parcial da lei: envolve a resistência em reconhecer a diversidade religiosa como parte da formação desses indivíduos. “Para os professores, abordar o tema nas universidades ainda é mais possível, já que, na maioria dos casos, é um ambiente mais democrático. Na educação básica, porém, há interferências de gestores, familiares e até mesmo de colegas de profissão, que evitam tratar do assunto por receio de conflitos”, explica Giovanni. Segundo o especialista, isso acaba criando um ambiente escolar em que a ancestralidade africana aparece como “opção”, mantendo assim o currículo centrado na mesma perspectiva eurocêntrica de sempre.

A ausência desses conteúdos afeta diretamente estudantes negros. “Quando a escola reconhece histórias, práticas e memórias afro-brasileiras, ela produz pertencimento”, destaca Giovanni, enfatizando a importância de o jovem se sentir representado para, assim, enxergar-se como parte daquela história. O pesquisador ainda ressalta que o conhecimento ancestral presente nos terreiros fortalece a autoestima desses, ao oferecer referências positivas e constituir bases éticas e culturais para o enfrentamento do racismo. Dessa forma, o ambiente escolar combate à marginalização das religiões de matriz africana e torna-se mais inclusivo.

Ainda de acordo com o especialista, o conhecimento negro na base dos currículos educacionais ainda é pouca representada, sendo necessário reconhecer e legitimar os saberes e tradições advindo dos terreiros. “A incorporação das epistemologias negras na educação contribui para torná-la mais crítica, plural e antirracista”, afirma o pesquisador. Ele destaca ainda a importância desses espaços na luta histórica de combate ao racismo. Para ele, é graças à luta dessa comunidade que hoje é possível discutir e questionar metodologias educativas sob uma perspectiva equitativa.

Apesar do aumento da produção acadêmica sobre o tema, o historiador desabafa: "Dentro das universidades brasileiras, o espaço para estudos sobre ancestralidade e religiões de matriz africana ainda é limitado. Os saberes dos terreiros ocupam pouco ou nenhum espaço". E a falta de investimento é o principal obstáculo para reduzir essa defasagem. Como consequência, a escola básica conta com profissionais pouco preparado para aplicar a lei.


Giovanni Codeça da Silva, praticante da Umbanda, historiador e pedagogo
Giovanni Codeça da Silva, praticante da Umbanda, historiador e pedagogo

O direito de crer (ou não crer)


No calor, percorrendo seis quilômetros e levando duas horas e meia entre o Centro do Rio de Janeiro e São Cristóvão, estavam pessoas que mudariam o futuro do povo do Brasil para sempre. Dentro de carruagens abafadas, havia militares, bacharéis e monarquistas. Ocorria no Paço de São Cristóvão, em 1891, três anos após a Proclamação da República, a primeira Assembleia Constituinte da República do Brasil sob o governo de Marechal Deodoro da Fonseca. Naquele ambiente, não só decretou-se a divisão de poderes utilizada até hoje pelo governo, como também foi instalado uma das principais leis para os cidadãos: a separação oficial entre Igreja e Estado.

Quase cem anos depois, foi promulgada a Constituição de 1988, com artigos que definiam o Brasil como um Estado Laico, permitindo a todos a liberdade de crença religiosa. É essa mesma Constituição que rege até os dias atuais. Porém, a separação oficial entre Igreja e Estado, encontra barreiras na prática cotidiana de uma nação com profundas raízes religiosas. Segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), 2.472 denúncias de casos de intolerância religiosa foram registradas pelo Disque 100 (Disque Direitos Humanos) em 2024. Entretanto, ao comparar dados emitidos posteriormente, que especificavam os números de cada religião afetada, foi revelado um padrão preocupante: as religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda, são as vítimas prioritárias dessa violência.

“Essa é uma religião que já nasceu oprimida”, comenta o professor e pesquisador Arnaldo Carvalho. “A diáspora africana de negros escravizados vêm ao Brasil e precisa fazer uma alocação de sua religião frente ao Catolicismo, que era muito opressor naquela época. Essas religiões africanas, que têm os chamados orixás, acabam tendo que fazer ajustes de sincretismo, misturando santos católicos com a representatividade de alguns orixás”, disse.

O comportamento agressivo contra religiões de matrizes africanas não é exclusivo de ambientes religiosos. A Frente Parlamentar Evangélica (FPE), composta por parlamentares alinhados a lideranças neopentecostais no Congresso Nacional do Brasil, frequentemente tenciona a laicidade do Estado por meio de discursos que desqualificam religiões de matriz africana. No dia 13 de setembro, durante o evento “Celebrai”, em Minas Gerais, o deputado federal e pastor Marco Antônio Feliciano afirmou: “Nenhuma obra de feitiçaria vai governar mais essa terra”, referindo-se a entidades como Exu, Preto Velho e Zé Pelintra. Essa declaração provocou uma representação no Ministério Público por racismo religioso, apontando para uma atuação institucional da bancada que ameaça o respeito à diversidade.

Porém, nem tudo parece perdido para os fiéis e seguidores dessas religiões, principalmente para os que desejam se unir matrimonialmente diante dos Santos e orixás que cultuam.  No dia 29 de outubro de 2025, a CCJ da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ), sob autoria do deputado Átila Nunes, determinou o projeto de lei 6.076/25, reconhecendo a legitimidade de casamento para os seguidores da Umbanda e do Candomblé. 

Arnaldo esclarece diferenças entre religiões de matrizes africanas e conta como a religião afeta sua vida pessoal


O sagrado em tempos de injustiça


O sol forte do meio-dia em Guaratiba, Rio de Janeiro, não penetra as paredes de barro batido, mas o calor humano dentro do terreiro é evidente. Para entender o papel crucial que esses espaços de fé cumprem na estrutura social do Brasil, conversamos com Emanuele Carvalho, Mãe Manu de Oxum, líder espiritual e dirigente do Templo de Umbanda Tsara Paixão Cigana (TUTPC) e do Instituto Axé Mulher. 

Para a Mãe de Axé, o terreiro é, antes de tudo, um “espaço de acolhimento e reconstrução”. Ela desfaz a ideia simples de templo, definindo-o como um epicentro de vida. “É o lugar onde a comunidade se encontra para partilhar fé, alimento, saberes e esperança.” Sua função, ela explica, vai muito além da espiritualidade. “Ele educa, orienta e sustenta emocionalmente muitas pessoas. Dentro do terreiro, há uma pedagogia silenciosa do cuidado e da solidariedade, que atravessa gerações e transforma vidas.”

Mãe Manu de Oxum enfatiza que os terreiros são “guardiões da memória e da tradição afro-brasileira.” Eles preservam a língua, os rituais e a história que foi negada para os povos escravizados. “Quando um terreiro acende uma vela, canta para o Orixá e prepara uma comida sagrada, ele está reafirmando a existência de um povo inteiro.” No entanto, manter essa estrutura viva exige resiliência. Os desafios são o preconceito e a ausência de apoio, mas é nesse contexto que o terreiro se afirma como um espaço de resistência social. “O terreiro é um espaço político, mesmo quando não se apresenta como tal,” afirma, explicando que é ali que o povo “preto e periférico se reconhece, se fortalece e se organiza,” agindo publicamente quando necessário, pois “o silêncio diante da injustiça é uma forma de conivência.”

Mãe Manu de Oxum também leva à frente um projeto social intitulado Instituto Axé Mulher, cuja liderança é formada por mulheres do terreiro da qual faz parte. Mãe Manu explica que a transformação mais profunda vem da “União do Axé”, um conceito de força coletiva que supera a simples distribuição de recursos. “Porque a transformação verdadeira não está apenas no dinheiro, mas na consciência e na partilha.” Para ela, a pobreza material pode ser superada, mas a pobreza espiritual e emocional só se vence com união, fé e solidariedade, sendo essa a base do Instituto, onde “ninguém caminha só.”

A esperança, para Mãe Manu, reside nas pessoas e na certeza de que a luta continua. Ela admite o alto custo desse ativismo, dentre eles o “desgaste físico, emocional e espiritual”, mas afirma que a missão se fortalece a cada ataque. “Cada ataque, cada tentativa de apagamento, reforça o quanto precisamos continuar visíveis e organizados.” O terreiro não apenas sobrevive, mas é uma força motivadora de transformação que, através da fé, da cultura e da organização comunitária, se posiciona ativamente contra as desigualdades, cumprindo o mais profundo papel de um guardião do Axé.


A Mãe Manu de Oxum, praticante da Umbanda e Mãe de Santo do Templo de Umbanda Tsara Paixão Cigana  - Emanuele Carvalho
A Mãe Manu de Oxum, praticante da Umbanda e Mãe de Santo do Templo de Umbanda Tsara Paixão Cigana - Emanuele Carvalho


O axé que mantém viva a identidade negra 


O historiador Lourenço Cardoso, em sua obra “Branquitude acrítica e crítica: A supremacia racial e o branco antirracista”, entende a branquitude como um lugar privilegiado dentro da hierarquia racial, com a capacidade de nomear pessoas não brancas como inferiores: “Portanto, a branquitude é um fenômeno fluído, complexo e contextualmente articulador, produto de uma construção social, cultural e histórica que concede privilégios e vantagens estruturais, poder e ideologia aos brancos.” disse.

As religiões de matrizes africanas ultrapassam a dicotomia de bem e mal, certo e errado. O que é repassado dentro do terreiro são as responsabilidades pelos seus atos, pelo o que está sendo pedido. Os valores, os princípios, são voltados para o senso de comunidade. Não há como falar de fé e justiça sem falar do orixá Xangô, por exemplo, que é a própria sentença.

A mãe pequena Thay de Oxóssi, 30 anos, do terreiro da nação de Ketu, Ilê Asè Igbá Odé, descreve o local como acolhedor, onde sua tradição e sua cultura são repassadas de geração em geração: “A gente tenta preservar nossa cultura por meio de danças, cantigas, falas em Yorubás. A nossa religião é bonita, mas não é isso que as pessoas falam, tem muito preconceito” disse.  

Em um relatório feito pela Comissão de Combate à Intolerância Religiosa da ALERJ, em 2021, 91% das denúncias registradas no Estado do Rio de Janeiro foram direcionadas a terreiros e praticantes das religiões de umbanda ou candomblé. Os casos vão desde injúria e ameaças até depredações de espaços sagrados, mostrando que a violência ultrapassa a esfera simbólica e se materializa na destruição de patrimônios religiosos.

Os jovens têm um papel essencial dentro dos terreiros para manter as tradições vivas e não deixarem que a intolerância religiosa apague as tradições presentes durante décadas. Eles aprendem sobre respeito, hierarquia e pertencimento. Participam das giras, das ações sociais, da comunicação nas redes, e levam o axé para outros espaços. A presença deles garante que a tradição continue viva, atualizada e significativa. O futuro da religião passa por essa juventude consciente e comprometida com a ancestralidade.


Thay de Oxóssi, praticante do Candomblé e Mãe Pequena do terreiro Ilê Asè Igbá Odé - Tainan Queiroz dos Reis
Thay de Oxóssi, praticante do Candomblé e Mãe Pequena do terreiro Ilê Asè Igbá Odé - Tainan Queiroz dos Reis
Médium em transe é amparada por uma dirigente durante ritual de incorporação na Umbanda, enquanto os atabaques conduzem a gira no terreiro - Foto: Verusca Diniz
Médium em transe é amparada por uma dirigente durante ritual de incorporação na Umbanda, enquanto os atabaques conduzem a gira no terreiro - Foto: Verusca Diniz


A intolerância religiosa que faz a fé virar alvo de constante violência


O Templo Caminho da Paz sempre foi um ponto de encontro com a fé. Localizado na Tijuca, acolhimento e tradição se misturavam no meio da correria da Zona Norte do Rio. No entanto, desde dezembro de 2023, o que antes era um espaço de calmaria, passou a conviver com o peso da intolerância religiosa. Frutas são lançadas nos telhados do local constantemente: “Eles jogam uma fruta, esperam um pouco e jogam outra. Ás vezes são duas seguidas e não tem hora certa”, conta Maria Cristina Ferreira, vice-presidente do templo. Os relatos de violência não são isolados a um só bairro. Mãe Merinha abriu a porta do seu espaço sagrado naquela manhã quando sentiu o cheiro de queimado que se espalhava no ar. Pouco a pouco, os olhos foram encontrando o estrago feito nos livros de religiões de matriz africana reduzidos a cinzas ali no chão, as fotografias da família no Candomblé completamente destruídas. Era como se alguém tivesse tentado apagar não só objetos, mas a memória inteira de uma linhagem. “Levei tudo que eu tinha no decorrer desses anos para esse local… é toda uma história de vida do sagrado”, lembra Mãe Merinha. Todas essas informações podem ser encontradas em reportagens na internet quando se busca sobre a constante violência sofrida nos centros religiosos com raízes da africanas. Por esse fator, o combater a violência religiosa se torna muito importante quando se fala de Candomblé e Umbanda. 

O Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, dia 21 de janeiro, faz menção à morte de Gildásia dos Santos e Santos, conhecida como Mãe Gilda de Ogum, fundadora do terreiro Ilê Asé Abassá. O seu terreiro foi alvo de uma matéria intitulada como “Macumbeiros e Charlatões lesam o bolso e vida dos clientes”. E, após o ocorrido, o local foi invadido, depredado, tendo ela sofrido agressões verbais e físicas, o que devido ao seu quadro de saúde já fragilizado, acarretou em sua morte.

As religiões de matrizes africanas se formaram a partir das tradições africanas trazidas pelos povos negros escravizados entre os séculos XVI e XIX. A intolerância religiosa envolve um processo de demonizar, ou seja, tornar algo profano, maligno, as entidades e símbolos das religiosidades africanas.

 “O terreiro é um espaço de resistência, que promove a diversidade e a preservação da memória de outras religiosidades de matrizes africanas. Eu conheci o terreiro há 05 meses e representa um lugar de paz e aconchego pra mim” disse, Emanuelle Cristina Guimarães De Paula Andrade, 18 anos, praticante de religião de matriz africana da umbanda. 

Assim como Emanuelle, Arnaldo também relata um episódio doloroso sofrido no terreiro em que pratica a fé: “Meu terreiro fica na Lapa, e apesar de ser um lugar movimentado e ter uma igreja evangélica a 100 metros dele, já aconteceu de termos a polícia na nossa porta mandado fechar o terreiro em momento de gira, mesmo sendo constitucionalmente errado. Estavam reclamando do barulho da gira. A gente teve um problema que perdurou por dois dias, mas aconteceu e não era para acontecer.” 

O episódio relatado por Arnaldo, onde a polícia é acionada indevidamente para interromper uma cerimônia (“gira”) em um terreiro da Lapa, ilustra a fragilidade do direito ao culto e a seletividade da aplicação da lei no Brasil. A “gira” é o termo central para os rituais da Umbanda e do Candomblé, referindo-se aos encontros regulares de culto, onde ocorrem cantos, danças, incorporações e a comunicação com as entidades espirituais. A interrupção deste momento sagrado por autoridades, sob pretexto de barulho, reflete um tratamento desigual e a persistência de uma mentalidade que considera os cultos de matriz africana como ilegítimos.


Emanuelle Cristina Guimarães de Paula Andrade, praticante da Umbanda
Emanuelle Cristina Guimarães de Paula Andrade, praticante da Umbanda



A Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos do Rio de Janeiro, a Secretaria Municipal de Cultura e o Instituto de Estudos da Religião foram procurados, mas não se manifestaram até o fechamento desta matéria.

1 comentário


Renata Feital
Renata Feital
06 de dez. de 2025

Parabéns! Uma longform com tudo que é preciso, sobretudo com entrevistas! Parabéns pelo empenho de vocês. Gostei muito!

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