Igrejas cristãs redefinem seu olhar sobre o Carnaval
- Alunos UVA

- 1 de dez. de 2025
- 12 min de leitura
Entre condenação e adaptação cultural, igrejas cristãs reavaliam sua relação com a maior festa popular brasileira e seus impactos na juventude
Por Cesar Rocha, Rafael Celestino e Ronaldo da Silva

Parecia apenas mais um domingo comum de culto. As ruas, num primeiro momento, pareciam vazias mas, na realidade, estavam lotadas de foliões pelos mais diversos cantos da cidade. Ao chegar na porta do templo, a surpresa: fechada. O lugar em que o som do louvor e adoração eram preponderantes, agora dá lugar ao barulho dos batuques e gritos de euforia de quem foi pular o carnaval. A celebração que ocorre nos púlpitos agora, por pelo menos algumas semanas, se estende para as ruas. Para alguns, o Carnaval é visto como uma semana para a libertação e celebração, porém, especialmente para os evangélicos, é um período onde a imoralidade se faz ainda mais presente.
“Para muitos evangélicos, o Carnaval é visto como um período de excessos, associado à sensualidade, embriaguez e comportamentos considerados imorais, que vão contra os princípios bíblicos de santidade e moderação”
A afirmação do pastor Fernando Valim, da Igreja Fé Para Todos, indica uma posição clara entre evangélicos e os festejos do carnaval: conviver, mas não pertencer.

Paralelamente a isso, um dado ilustra bem essa transformação da orientação religiosa dos brasileiros e fluminenses. De acordo com o último Censo Demográfico realizado pelo IBGE em 2022, o número de evangélicos no Brasil cresceu 5,2%, passando de 21,7% em 2010 para os atuais 26,9%. Se tratando do Rio de Janeiro, esse número é ainda maior: 32% da população fluminense é evangélica, algo equivalente a 5,5 milhões de pessoas. Nos últimos anos, a religião e o carnaval tentam dividir o mesmo espaço urbano, sendo que até em algumas vezes esses dois mundos tão distintos acabam se entrelaçando ou até mesmo coexistindo.
Você pode conferir o resultado preliminar da amostra do Censo clicando aqui.
No Rio, o Carnaval deixou de ser apenas o palco da “carne” e passou a ser também um espaço de disputa simbólica, política e estética. A cidade que ergue sambódromos e igrejas, terreiros e templos de vidro, é o retrato mais visível do Brasil que dança e ora numa mesma sintonia.
Entender a relação entre a religião e o carnaval não é uma tarefa tão simples. Para isso, é preciso que voltemos um pouco no tempo, mais precisamente para o período colonial. Até então, o catolicismo era a principal religião do Brasil e, muito além disso, era uma reguladora das normas dos cidadãos. Em meio a isso, uma festividade trazida pelos portugueses ganhava força principalmente nas camadas populares do Brasil: o entrudo. A Igreja não a reprimiu, entretanto não a via com muitos bons olhos.
A antropóloga Michelli Cristina Soncini de Souza é conhecedora da relação entre o carnaval e religião e aprofunda mais o tema:
“No período colonial e ao longo do Império, o carnaval brasileiro ainda carregava muito do entrudo português, uma festa de rua ruidosa, corporal, transgressora e profundamente popular. A Igreja Católica, que era a instituição religiosa dominante, olhava para essa manifestação com desconfiança moral, mas ao mesmo tempo a tolerava”
Mas o Rio sempre foi território de mistura. E, com o tempo, essa distância entre o sagrado e o profano começou a diminuir. Dando um salto temporal, chegamos a meados dos anos 80. A chegada e crescimento acelerado das igrejas neopentecostais trouxe um novo olhar: uma postura aberta de condenação.
“Diferentemente da tolerância ambígua católica, muitos desses grupos passam a adotar uma postura aberta de condenação. (...)O carnaval passa a ser narrado como espaço de luxúria, risco moral e “porta de entrada do mal.”

A crítica aberta ao carnaval, comum entre muitos grupos evangélicos no Rio, contrasta com a antiga tolerância ambígua do catolicismo. Retratado como um “território do inimigo”, o período de festa se torna, para essas comunidades, um momento de retração e alerta.
Enquanto a cidade se expande em cores e ruas tomadas, parte das igrejas escolhe o silêncio ou o afastamento, reforçando fronteiras morais em meio ao maior palco da vida carioca.
Blocos de Cristo: quando a fé veste abadá
Se muitas igrejas preferem recolher-se durante o Carnaval carioca, há grupos que decidiram fazer o caminho oposto: levar o culto para a rua, mesmo que de outra forma, outro ritmo, outro corpo. A Batucada Abençoada, bloco que desfila há alguns anos por ruas de todo o Brasil, nasceu exatamente desse impulso, o de não abandonar a fé enquanto a cidade inteira se entrega ao samba e, ao mesmo tempo, proclamar o evangelho por meio do carnaval.
A Batucada Abençoada é um bloco carnavalesco ligado à Igreja Bola de Neve, fundada por Rinaldo Luiz de Seixas Pereira, conhecido como Apóstolo Rina, falecido em novembro de 2024. Essa denominação neopentecostal é conhecida justamente por sua abordagem mais informal e voltada ao público jovem. Foi a partir desse viés da denominação que o movimento carnavalesco cresceu. O repertório não traz marchinhas clássicas nem sambas-enredo consagrados. As melodias são adaptadas de cânticos e hinos conhecidos nas igrejas mais contemporâneas, transformados em levadas de caixa, repique e surdo. A sonoridade é familiar a qualquer frequentador de culto, mas também irresistível para quem só quer dançar no meio da rua. E é aí que a Batucada Abençoada encontra sua particularidade: ela não disputa território com a folia, pelo contrário, ela se insere nela, encontrando uma fresta possível entre a fé e a celebração, onde o tambor funciona tanto como instrumento quanto como símbolo.

Enquanto o Batucada Abençoada tenta conviver nesse meio, outras linhas evangélicas seguem numa linha oposta de afastamento e de não envolvimento. O Pastor Isaque, pastor auxiliar da 3a Igreja do Evangelho Quadrangular, defende que esses dois mundos não devem se envolver:
”Eu aprendi que óleo e água não se misturam, não tem como a igreja se envolver. Vejo algumas igrejas que tem bateria, desfilam e tudo, eu não sou a favor, porque se fomos chamados pra fazer a diferença e ser diferentes, como vamos fazer aquilo que o mundo está fazendo?”
“Não existe mais “a posição cristã”: existem múltiplas vozes, cada uma negociando à sua maneira o que significa viver o carnaval.”
A frase da Michelli explica bem a atual posição da igreja sobre o carnaval: não existe mais uma questão de certo ou errado, se é permitido ou não. A questão maior hoje é como cada denominação vai lidar com a celebração do carnaval. Enquanto denominações mais tradicionais e conservadoras — como a Igreja Universal, por exemplo — vão observar o carnaval com um olhar maior de repreensão, denominações mais contemporâneas e liberais e como a Bola de Neve irão não apenas permitir o festejo, mas também irão, de certa forma, se apropriar da celebração com o propósito de usá-la como um instrumento de evangelismo.
Você pode saber mais sobre o trabalho do Batucada Abençoada acessando o Instagram do movimento nesse link.
Nota: Para a elaboração dessa matéria, procuramos alguns líderes religiosos de denominações neopentecostais para saber suas posições acerca do carnaval e como suas denominações orientam seus fiéis, porém, recebemos como resposta que há uma orientação interna para os pastores não se pronunciarem acerca de alguns assuntos.
O retiro como refúgio: a folia do silêncio
Se de um lado existem cristão que tentam, de alguma forma, conviver no meio do carnaval, seja evangelizando ou curtindo, de um outro lado temos uma parcela de fiéis que evitam essa movimentação. Frequentada principalmente pelo público jovem, os retiros de carnaval são uma estratégia de escape da folia tradicional e, acima de tudo, uma maneira de se conectar com Deus num período de “tentação do inimigo”.
A dinâmica desses eventos geralmente se repete: caravanas de jovens, famílias e até recém-convertidos deixam o Rio ainda na sexta-feira. As malas, ao invés de fantasias, adereços e purpurinas, estão cheias de fé e desejo de se conectarem com o divino. Sai a lógica dos blocos e desfiles e entra uma rotina programada semelhante a um domingo de culto: manhãs de pregação, tardes de confraternização entre os irmãos, noites de louvor. No lugar da cerveja, garrafas d’água; no lugar do trio elétrico, um púlpito com teclado e bateria; no lugar da dispersão, convivência intensa que, para muitos, se torna decisiva em sua trajetória religiosa.
O Pastor Isaque, por exemplo, segue uma linha mais tradicional das igrejas evangélicas durante o feriado do Carnaval: a igreja não caminha ao mesmo lado do mundo, portanto, é importante que os fiéis estejam atentos nesse período. Ele sugere o que os seguidores do evangelho podem fazer nesse período:
“Descansa, curte a sua família, já que tem um feriado e você não tem suas obrigações com trabalho, aproveita curtindo sua família, adorando a Deus, glorificando a Deus pelos dias que ele te deu.”
Mas se engana quem pensa que isso é um fenômeno exclusivo dos evangélicos. Dentro da própria comunidade católica, a ida a retiros no período de Carnaval tem sido uma alternativa para fiéis que, embora não repudiem a festa como outras denominações, preferem o silêncio ao invés da algazarra vivida no carnaval. A Arquidiocese do Rio de Janeiro, por exemplo, realizou nesse ano de 2025 um Retiro de Carnaval voltado justamente para pessoas que queiram vivenciar momentos de fé e renovação espiritual.
O crescimento dos retiros de carnaval tem sido tão grande que, em 2022, o Senado Federal aprovou a PL 509/2020, de autoria da Senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA), que institui a Semana Nacional de Retiros Culturais, a ser comemorado entre a sexta-feira de Carnaval até a Quarta-feira de cinzas. O texto prevê que, durante a Semana, sejam realizadas “atividades ligadas a cultura gospel, como shows, encontros de louvor e orações”. Esse projeto, além de difundir ainda mais a fé cristã no Carnaval, retrata ainda outro aspecto: a presença dos evangélicos no poder.
Entre a Sapucaí e o plenário: o Carnaval sob novos olhos de poder

Nos últimos anos, temos visto o crescimento da presença evangélica na política, principalmente no Congresso Federal. Nas eleições de 2022, a Frente Parlamentar Evangélica, também chamada de “bancada evangélica”, teve um crescimento de 112 deputados federais e 11 senadores para 132 deputados e 14 senadores, um crescimento aproximado de 17% e 20%, respectivamente (veja mais sobre o assunto nesta matéria do jornal Gazeta do Povo de 13/12/2022). No Rio de Janeiro, o cenário não é muito diferente, os dois últimos governadores eleitos no estado são assumidamente cristãos: Wilson Witzel, eleito pelo extinto Partido Social Cristão, e o atual governador Cláudio Castro, que nunca escondeu sua orientação religiosa, como aponta essa matéria do Portal Metrópoles.
Já no município do Rio de Janeiro, em 2016 o ex-bispo da Igreja Universal do Reino de Deus Marcello Crivella foi eleito prefeito do Rio. Sua gestão foi marcada por inúmeras polêmicas, entre elas, sua relação turbulenta com o carnaval, em especial, os desfiles das escolas de samba. Em 2017, seu primeiro ano à frente da Prefeitura, Crivella decretou o corte de aproximadamente 50% das verbas destinadas às 12 escolas de samba do Grupo Especial para o Carnaval do ano seguinte. Naquele ano, a Liga Independente das Escolas de Samba (LIESA), organizadora dos desfiles do Grupo Especial do Rio, ameaçou cancelar os desfiles de 2018 pela falta de recursos. Apenas um mês antes dos desfiles, a prefeitura liberou a verba para as escolas, mas mesmo assim o carnaval daquele ano foi marcado pela falta de recursos e pelas críticas ao prefeito.
A crítica mais contundente no Carnaval daquele ano foi no desfile da Mangueira, que levou pra avenida o enredo “Com Dinheiro ou sem Dinheiro, Eu Brinco!”, que criticava justamente os cortes de verbas promovidas por Marcelo Crivella. O desfile garantiu para a escola a 5ª colocação na classificação daquele ano, além do Prêmio Estandarte de Ouro de Melhor Enredo.
Ouça aqui o clipe oficial do samba-enredo da Mangueira no Carnaval de 2018.
O Brasil e a brasilidade
Falamos muito sobre como os evangélicos tem se relacionado com o carnaval nos últimos anos. Porém, não podemos deixar de falar sobre as origens da festa e, como após anos, essa celebração foi tendo seu valor original apagado pela própria história. Muito antes de o samba-enredo ganhar ares grandiosos no Sambódromo e de os blocos arrastarem multidões pelas ruas do Rio, o carnaval já pulsava em ritmos que não cabiam nos moldes coloniais. As raízes mais profundas da festa no Brasil e, principalmente no Rio de Janeiro, são africanas. São raízes que resistiram, se transformaram e encontraram no espaço urbano um território fértil para a música, o corpo e a celebração.
Embora o entrudo português tenha sido a semente inicial da festa colonial, foi a presença africana que deu ao carnaval brasileiro o compasso, a linguagem corporal e o sentido de coletividade que definiriam a celebração. No século XIX, os batuques de origem banto e iorubá se espalhavam pelos largos, becos e quilombos urbanos. Candomblés, jongos, sembas e outras manifestações negras traziam consigo dimensões religiosas, comunitárias e políticas, tendo sida muitas vezes perseguidas, mas impossíveis de conter. O Rio se tornou o grande laboratório dessa fusão. A Pequena África, região que abrangia áreas como Saúde, Gamboa e Santo Cristo, reuniu libertos, trabalhadores portuários, capoeiristas, tocadores de chocalho e de atabaque. Ali, a música africana encontrou novos arranjos, gerou rodas, improvisos, desafios poéticos.
No início do século XX, essa criatividade negra começou a se espalhar para bairros como Estácio, Praça Onze e Cidade Nova, territórios esses que se tornariam berço do samba carioca. A partir do encontro entre práticas tradicionais africanas e a experiência cotidiana de negros trabalhadores da cidade, nasciam os primeiros blocos organizados, os ranchos, os cordões e, posteriormente, as escolas de samba.
Essas manifestações não eram meramente festivas: eram estratégias de permanência cultural. A cada toque de tambor, afirmava-se uma espiritualidade; a cada canto, preservava-se uma memória. O carnaval carioca só existe porque esses grupos insistiram em ocupar a rua, mesmo sob repressão policial, criminalização do samba e controle moral do Estado.
Por isso, entender o carnaval sem suas matrizes africanas é ignorar o que o sustenta desde o início: o corpo como território político, a rua como espaço de afirmação e a música como linguagem de pertencimento.
Poucas pessoas tem tanta propriedade para falar sobre a influência africana na formação social brasileira como Luiz Antonio Simas, professor, pesquisador e autor de diversos livros que abordam a influência da religião africana na sociedade brasileira. Simas explica que a formação do Brasil como nação partiu de um proposital processo excludente e marginalizador:
"O Brasil, como projeto de Estado-nação, foi projetado para excluir. A exclusão social no Brasil não é resultado de políticas públicas que deram errado, é resultado de políticas públicas que deram certo. A Lei de Terras de 1850 é elaborada para que não haja reforma agrária. A universalização da educação nunca foi desejada. A concentração de renda e a domesticação de corpos não brancos são um projeto de Estado que avançou."

Ele ainda aprofunda dizendo que, como o Brasil é fundado pela lógica da exclusão, a “brasilidade” se dá no processo de protagonismo desses excluídos:
"As brasilidades se operam na construção de modos de vida que dão aos excluídos o protagonismo de suas vidas. O que eu chamo de brasilidade é o campo simbólico de relaboração de maneiras de estar no mundo: as formas como você brinca, como você dança, como você reza, como você chora seus mortos, como você celebra seus mitos. O campo fértil das brasilidades é o campo da festa, da celebração, da reinvenção de sentido de vida a partir de experiências do precário."
Essa leitura do Simas ajuda muito a entender sobre as tensões existentes hoje quando falamos especialmente entre o Carnaval e os evangélicos. Essa dicotomia ajuda a iluminar o cenário atual, em que parte significativa do crescimento evangélico se apoia num imaginário que reafirma fronteiras entre o que é sagrado e o que é profano. Um imaginário que tenta separar mundos, enquanto as brasilidades sempre sobreviveram borrando, cruzando, encruzilhando essas fronteiras.
“A nossa cultura de festa sacraliza o profano e profana o sagrado o tempo inteiro."
No fim, a disputa sobre o carnaval é também uma disputa sobre o país que queremos ser: o Brasil disciplinador — ou a brasilidade que insiste em sobreviver na festa, no corpo, na rua, apesar de tudo.
As várias facetas de um único Rio
Ao analisarmos todas essas camadas, desde as históricas, políticas, culturais até as espirituais, o Rio de Janeiro parece sempre retornar ao mesmo ponto: uma cidade que não sabe ser uma coisa só. A cada fevereiro, quando o calendário aproxima o período do Carnaval, o Rio revela sua natureza mais profunda, feita de contrastes que não se anulam, mas se espremem lado a lado, disputando o mesmo território.
Nas últimas décadas, a ascensão evangélica mudou mais do que os templos do domingo. Mudou a maneira como a própria cidade se imagina durante a folia. O Rio, que sempre pareceu falar língua própria nos dias de festa, viu surgir, ao lado das baterias centenárias, blocos que pregam bênçãos no ritmo do surdo. Viu multiplicarem-se retiros que trocam as ladeiras do Centro por um silêncio voluntário. E viu, também, crescer o debate sobre quem tem direito a ocupar e moldar o maior palco a céu aberto da cidade.
O Carnaval e a religião não se anulam, na realidade, se observam, se respondem, às vezes podem até se estranhar, mas continuam dividindo o mesmo território simbólico. Talvez porque, no Brasil, tanto a festa quanto a fé funcionam como espelhos sociais: revelam aquilo que preferimos esquecer e aquilo que desejamos ser.
Ao final, o que fica é o retrato de uma cidade que aprendeu a ser dois mundos ao mesmo tempo, mesmo que às vezes à revelia de si mesma. O Rio que fecha seus templos no domingo de carnaval é o mesmo que abre suas avenidas para milhões dançarem. E, ao fazer isso, confirma que nenhuma identidade se sustenta sem conflito, e que a disputa pelo sentido da rua, da fé e da festa continuará, ano após ano, a moldar o imaginário de um país inteiro.




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