A experiência de ser artesão no Campo de São Bento
- Alunos UVA

- 2 de dez. de 2025
- 8 min de leitura
De viver a feira como um comprador até aprender à ser um artesão, a experiência pode ser árdua, mas sem dúvidas recompensadora
Por Danilo Dias Cupolillo
Em meio às árvores centenárias e ao clima acolhedor do Campo de São Bento, em Icaraí, Niterói, a tradicional Feira de Artesanato transforma os fins de semana em um ponto de encontro entre cultura, talento local e lazer ao ar livre. Com barracas coloridas e uma variedade de produtos feitos à mão, de bijuterias e artigos de decoração a peças em tecido, madeira e cerâmica, o evento atrai moradores e turistas em busca de originalidade e contato direto com os artesãos da cidade. Mais do que um espaço de comércio, a feira é uma vitrine da identidade cultural, que resiste ao tempo e se renova a cada ano. Aqueles que nunca atravessaram a grande ponte da Guanabara não perdem por esperar um grande evento semanal que reúne muita cultura gastronômica e artística com a cara de Niterói.
Nos fins de semana mais ensolarados, é comum ver famílias inteiras se acomodando nos gramados do Campo, desfrutando da tranquilidade do parque após percorrerem as barracas. Crianças se divertem ao redor do chafariz, enquanto idosos caminham lentamente observando cada detalhe das peças expostas. A própria paisagem arborizada parece dialogar com a atmosfera da feira, tornando-a um lugar onde o artesanal e o natural se complementam. Muitos artesãos relatam que o ambiente é tão simbólico para eles quanto a própria barraca. Trabalhar no Campo é quase uma extensão da vida ao ar livre, o que contribui para uma energia acolhedora tanto para quem vende quanto para quem compra. Para alguns visitantes, a feira é mais do que um passeio eventual, é um ritual de fim de semana, um ponto de pausa na rotina urbana.

UMA ORIGEM ESPONTÂNEA
A grande e famosa feira nasceu no final dos anos 1970, quando artesãos começaram a expor suas criações espontaneamente, aproveitando a movimentação cultural e os eventos já realizados ali, como a Feira de Livros. Entre 1983 e 1987, a Prefeitura estendeu o convite a esses expositores para ocuparem o espaço de forma regular, após o encerramento de uma feira no centro da cidade, fazendo com que o Campo de São Bento se tornasse definitivamente o palco daquela que hoje é considerada a feira mais tradicional de Niterói.
Desde então, o evento cresceu em ritmo constante. Atualmente, conta com mais de 300 barraquinhas e abre os portões todos os sábados, domingos e feriados, das 9h às 15h, atraindo um fluxo intenso de público.
Organizada pela Secretaria das Culturas e pela Casa do Artesão, ela representa muito mais do que um espaço de comércio: é um ponto de encontro comunitário que valoriza talentos locais e mantém viva a tradição do artesanato niteroiense.
O crescimento da feira foi acompanhado por uma mudança gradual na própria percepção sobre o artesanato. Nas décadas de 1980 e 1990, quando a feira começava a ganhar robustez, muitos visitantes buscavam produtos mais simples e utilitários. Com o passar dos anos, o público se tornou mais exigente e atento às técnicas manuais, e isso fez com que os artesãos se especializassem. Alguns passaram a investir em cursos, outros se reinventaram com a chegada de novos materiais e tendências, e muitos preservaram técnicas tradicionais, como a renda de bilro, a cerâmica de baixa temperatura e a marcenaria artesanal. A feira se tornou um espaço onde antigas tradições convivem com a modernidade, e essa dualidade contribui para sua vitalidade constante. Ao mesmo tempo, novos artesãos chegam a cada ano, trazendo perspectivas frescas e expandindo ainda mais o repertório artístico do local.
A ARTE DE SE VENDER A PRÓRPIA VISÃO
Angela Tibau, de 71 anos, uma artesã veterana da feira, conta como começou na feira: com seu pai.
Aqui no campo comecei junto com meu pai, há 37 anos, nós dois trabalhávamos aqui. Meu pai era pintor e a barraca era divida para nós dois. Quando ele faleceu, eu dei continuidade à pintura e à barraca.

Angela trabalha com pinturas mas também já trabalhou com tecidos na feira, e com toda a sua experiência comenta também sobre as melhores épocas de movimento em sua barraquinha.
Época do Dia das Mães e Dia dos Namorados sempre é movimentado, mas a melhor época é o Natal. Outros dias comuns muitas pessoas passam aqui e compram presentes para suas pessoas especiais.

A trajetória de Angela está entre as mais marcantes da feira. Em sua barraca, muitas de suas pinturas retratam justamente cenas do Campo de São Bento: o coreto, o chafariz, as palmeiras imperiais e as próprias barracas da feira que ela frequenta desde a juventude. Ela conta que muitos clientes compram suas obras como lembrança da cidade ou como presente para antigos moradores de Niterói que se mudaram, mas guardam carinho pelo local. Angela gosta de relembrar momentos específicos, como o dia em que um grupo de estudantes de artes passou horas conversando com ela sobre técnica de sombreamento e a convidou para participar de uma oficina na universidade. Ou a surpresa de ver uma de suas pinturas, comprada anos antes, aparecer em uma matéria de televisão sobre decorações residenciais. Para ela, a feira é tanto um palco para vender arte quanto um lugar onde a vida acontece e as memórias se acumulam.
O "ROCAMBOLE DO CAMPO"
Indo para outra esfera da feira, a da gastronomia, a confeiteira Marise Mentor de Albuquerque conta um pouco da sua trajetória e como chegou à criação do rocambole mais tradicional da feira do Campo de São Bento, o Rocambole do Campo.
Estou aqui desde 1995 vendendo rocamboles. Minha receita é da família oriunda de Trajano de Moraes no interior do Rio, então era bem única. O nome de Rocambole do Campo veio dos próprios clientes, que acabaram se acostumando a falar “aquele rocambole do campo…” e daí ficou!

Marise também conta que seu rocambole se tornou tão famoso que até pessoas de cidades vizinhas vêm para o Campo provar seu rocambole, e que por isso sua barraca está sempre muito movimentada.
Hoje Niterói inteira conhece o Rocambole do Campo. Ficou tão conhecido que vendo até para gente de fora, sempre vêm pessoas do Rio, de Araruama, de São Gonçalo, de Maricá e todo mundo conhece! Lembro que vendia para as mães, para as avós e hoje vendo para os netos.

O sucesso do Rocambole do Campo é tão grande que, em certas datas comemorativas, a fila para comprar os doces de Marise começa antes mesmo de ela abrir a barraca. Alguns clientes chegam com caixas especiais para levar encomendas maiores, e outros fazem pedidos antecipados para garantir que não vão perder seus sabores favoritos. Marise recorda a vez em que um turista italiano se encantou pelo rocambole de goiabada e levou três unidades para compartilhar com amigos em Roma. Ela também conta do costume curioso de clientes que levam fotos dos rocamboles para parentes distantes, como forma de instigar a visita à feira. Além disso, seu trabalho inspirou outros confeiteiros da região, e hoje o Campo de São Bento reúne diversas opções gastronômicas que vão de bolos caseiros a empanadas artesanais e cafés especiais, tornando o passeio ainda mais completo.
UM BAQUE CHAMADO COVID - 19
Durante a pandemia de Covid-19 o setor artesanal sofreu um impacto severo: pesquisas conduzidas por parcerias como Sebrae e FGV apontaram quedas de faturamento muito expressivas para pequenos negócios do setor, com retrações que chegaram a patamares de duas casas decimais em muitos casos e alta preocupação entre os empreendedores sobre a continuidade de suas atividades. A dificuldade imediata foi a perda de circulação de público nas feiras e nas praças onde historicamente se dá a maior parte das vendas, o que expôs a vulnerabilidade de uma atividade fortemente dependente do contato presencial. Essas conclusões aparecem nos relatórios de impacto setorial que acompanharam o período mais agudo da crise sanitária.
Em resposta a essas fragilidades e ao choque da pandemia, o poder público e parceiros do setor promoveram uma série de ações de apoio e capacitação. No âmbito federal, o Programa do Artesanato Brasileiro (PAB) atua como a principal política pública de fomento ao setor, coordenando iniciativas de profissionalização, comercialização e valorização das vocações regionais por meio de coordenações estaduais e ações integradas. O PAB tem como função articular capacitações, feiras e oportunidades de mercado para ampliar a visibilidade e a renda dos artesãos.

No nível municipal, exemplos como Niterói mostram iniciativas práticas de apoio: a Casa do Artesão, vinculada à Secretaria das Culturas, mantém cadastros, oficinas, feiras coordenadas e ações para inserir novos expositores em eventos como a Feira do Campo de São Bento. Essas ações locais incluem processos de credenciamento, capacitações pontuais, divulgação das feiras e parcerias com espaços culturais para ampliar as oportunidades de venda e formação profissional. Em muitos municípios, a articulação entre prefeituras, casas do artesão e órgãos culturais foi essencial para manter parte da atividade durante períodos de restrição e para organizar retornos seguros das feiras presenciais.
Rosane Kanas, coordenadora da Casa do Artesão, fala sobre como espaço dá suporte e apoio técnico àqueles artesãos que almejam viver da sua própria arte.
Nosso objetivo é capacitar ainda mais os artesãos, temos frequentemente aqui na Casa do Artesão várias oficinas que fazemos para ajudar esses profissionais a se lançarem nesse mercado. Eles vem com o conhecimento técnico, nós os ensinamos à se vender.
Rosane enfatiza a importância do artesanato não só âmbito cultural e do entretenimento mas também econômico, fomentando o papel dos artesãos profissionais.
Temos que lembrar que o artesanato faz parte de 3% do PIB brasileiro, não é pouca coisa, por isso demos de dar valor a esses profissionais, e esse é nosso objetivo com o projeto.

Nos últimos anos, a dinâmica da feira e do artesanato em Niterói passou por transformações importantes. Em 2021, segundo dados da prefeitura, o número de artesãos atuando nas feiras públicas da cidade aumentou em 50%, chegando a 8.734 profissionais — mesmo em meio ao desafio imposto pela pandemia. Esse crescimento revela não só a resiliência, mas também a relevância crescente do ofício para a economia criativa local, reforçando o caráter comunitário e de subsistência dessas atividades.
Nas oficinas oferecidas pela Casa do Artesão, temas como precificação, fotografia de produto, atendimento ao público e organização financeira são abordados com frequência. Rosane conta que muitos artesãos chegam inseguros sobre como transformar seu trabalho em um negócio sustentável, mas, após alguns meses de orientação, já conseguem estruturar uma identidade de marca e ampliar seus canais de venda. Outro ponto importante é a parceria com escolas e universidades da cidade, que periodicamente realizam visitas e pesquisas acadêmicas sobre a feira, reconhecendo-a como um espaço relevante para estudos culturais, históricos e socioeconômicos. Em datas especiais, como o aniversário de Niterói ou feriados prolongados, a Casa coordena a vinda de artesãos convidados de outros municípios, promovendo um intercâmbio criativo que movimenta ainda mais o parque.
O PONTO DE VISTA DE UM CLIENTE
Daniel Pais, jornalista de 24 anos vai com frequência à feira aos fins de semana. Ele comenta que sai do Méier para ir à casa de sua namorada em Niterói. Os dois aproveitam seu tempos juntos visitando a feira e desfrutando da cultura e da beleza do lugar.
A Feira de Artesanato do Campo de São Bento representa um dos espaços mais vibrantes de expressão cultural em Niterói. Ao reunir artistas, moradores e visitantes em torno da arte feita à mão, ela reafirma o valor do encontro, da criatividade e da produção local. Cada peça exposta carrega não só habilidade, mas também histórias e identidades que ajudam a compor o mosaico cultural da cidade. Em constante movimento, a feira se mantém como um reflexo vivo da alma niteroiense.
Mais do que um evento semanal, a feira se consolidou como patrimônio afetivo e cultural de Niterói. É um lugar onde as histórias individuais se entrelaçam com a história da própria cidade, onde cada barraca guarda não apenas produtos, mas memórias, e onde o simples ato de caminhar entre as fileiras de artesanato se transforma em uma experiência que envolve todos os sentidos. Para quem visita o Campo de São Bento, a feira não é apenas uma atração, é um pedaço vivo da identidade niteroiense, que pulsa e se renova, semana após semana.




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