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Os desafios do estudante universitário em meio à uma dupla jornada

  • Foto do escritor: Alunos UVA
    Alunos UVA
  • 2 de dez. de 2025
  • 8 min de leitura

A realidade de muitos universitários, sejam eles de qualquer faixa etária, é uma dupla jornada desafiadora, porém muitas vezes necessária em um contexto socioeconômico


Por Ricardo Barbosa e Raul César


              


                         Estudar e estagiar é cada vez mais recorrente para universitários                                                (Foto: Raul César)
Estudar e estagiar é cada vez mais recorrente para universitários (Foto: Raul César)

                                   

      

Horas livres dentro de um dia são escassas, ainda mais quando dentro das 24 disponíveis, em 10 você alterna entre trabalho ou estudo, essa é a realidade de Vanessa Sabino, de 42 anos. Estagiando de manhã e estudando a noite, só na locomoção entre casa, estágio e faculdade, mais 2 horas se vão, e pensando que o sono ideal gira em torno de 7 à 8 horas, restariam apenas 4 horas do seu dia para fazeres básicos, como lazer, cuidados pessoais com a saúde e bem estar, entre outros. “ entre esperar a condução e chegar até a faculdade gasto em média, 2 horas,” diz a estudante.


 Enquanto Vanessa está pensando em como fazer um trabalho complexo da faculdade, ela se encontra presa no trânsito, no caminho até seu estágio, onde vai exercer múltiplas funções, muitas vezes que ela nem deveria ser encarregada. O tempo é curto, o comprometimento com objetivos gera preocupações extras, mas mesmo se sentindo por muitas vezes sobrecarregada, ela continua, pois considera o estágio como crucial para sua carreira profissional ter início, e ao mesmo tempo, também ser aprovada e conseguir seu diploma. “Às vezes a rotina acaba ficando estressante e tem dias que só quero chegar em casa e dormir, mas sei que preciso me acostumar e seguir em frente para chegar aonde quero chegar," completa Vanessa.


A estudante também relata como essa dupla jornada acaba fazendo com que escolhas tenham que ser feitas, tendo que deixar de lazeres pessoais de lado “Desde que entrei na faculdade, já tive que abrir mão de viagem em família, aniversários de parentes ou amigos, saídas aos fins de semana, tive que me adequar a essa realidade” conta a Estagiária. Essa triste realidade, é vivida por 37% dos estudantes no Brasil. De acordo com a pesquisa feita pela plataforma de gestão de estágios, Walljobs, em 2023, essa é a porcentagem de universitários que estagiam junto ao estudo.




Vanessa é estagiária no Santuário Cristo Redentor (Vídeo: Raul César)

 


Altayr Derossi, professor, fotógrafo e coordenador do curso de Jornalismo da UVA, admite a dificuldade, mas opina que o estágio é importante e deveria ser feito: “eu vejo o estágio como uma porta de entrada para o mercado de trabalho, todo aluno deveria fazer um estágio, experimentar e errar é fundamental. Não é fácil, tem que ter dedicação e disciplina” diz o professor, ele ainda conta que vivenciou isso e que a dupla jornada faz parte da vida “Eu passei por isso, esse é o momento chave para direcionar sua carreira, a dupla jornada faz parte da vida e do processo,” completa Altayr.



O professor também comenta sobre os benefícios de quem começa a dupla jornada “ o lugar de errar e aprender é no estágio, o lugar para criar casca,” diz ele. O fotógrafo ainda comenta sobre a ajuda que a universidade pode oferecer “A universidade tem vários convênios que nos avisam necessidades de estagiários, e que ajudam esses alunos. No caso do jornalismo, por exemplo, temos 9 projetos que oferecemos dentro da universidade como oportunidade de estágios para alunos, esses são os benefícios,” finaliza o coordenador.


 

                   Altayr coordena e dá aulas no curso de Jornalismo na UVA                              (Foto: Raul César)
Altayr coordena e dá aulas no curso de Jornalismo na UVA (Foto: Raul César)

As opiniões de Vanessa, estagiária, e Altayr, Coordenador, são bem alinhadas no ponto de partida profissional, ambos consideram crucial começar um estágio, independente da situação que envolve os estudos paralelamente. O pontapé inicial da profissionalização é estagiando, e esse pensamento ajuda na hora de encarar as adversidades que aparecem por conta da dupla jornada.


Quando a necessidade fala mais alto


Em contrapartida, existem aqueles casos em que o estudante fica entre um e outro, não suportando a carga e pressão, decidindo abandonar o estudo e focar na carreira profissional. Este é o caso de Vitor da Silva, de 23 anos. Atualmente exercendo a profissão de supervisor de logística, ele conta que a necessidade momentânea falou mais alto, porém não descarta a volta aos estudos. “A conquista do diploma nunca saiu dos meus objetivos, a cada 3 meses, faço um gráfico pessoal para verificar e comparar o tempo que tenho para tentar incluir a faculdade na rotina e conseguir conciliar trabalho e estudo,” relata Vitor. Segundo uma pesquisa da OCDE, presente em uma matéria do G1, um dos principais motivos de desistência do ensino superior, é a falta de condição financeira para se manter, seja por custo na rede privada ou pela falta de remuneração no período. Vitor é um desses, pois precisou largar a faculdade para conseguir seu sustento, como ele mesmo relata: “O comprometimento com objetivos que geram rendas extras virou prioridade, pela necessidade de dinheiro para manter as despesas, além de outras situações voltadas para a melhora financeira, precisava dedicar meu tempo nisso,” completa o ex estudante.



Vitor optou por largar a faculdade de automação industrial        (Foto:Arquivo pessoal)
Vitor optou por largar a faculdade de automação industrial (Foto:Arquivo pessoal)

Vitor também cita outros fatores que contribuíram para a desistência do ensino superior em razão da dupla jornada, “faltava tempo para estudar, o trabalho desgastava e o tempo de locomoção era extremamente alto, acarretado por trânsitos, e um gasto considerável com esse transporte, todo um bolo que, junto da necessidade financeira me fizeram tomar a decisão” afirma Vitor. Vemos uma fala que vai de encontro com as de Vanessa, citando a locomoção como um dos problemas, e um outro fator é exposto, o gasto com transporte, afetando diretamente as finanças pessoais. 





Aspecto mental na perspectiva dos universitários 


Tanto Vanessa quanto Vitor destacam a importância da saúde mental, não só durante todo esse período, mas sempre. Vanessa relata o estresse diário e que já pensou em largar tudo “ Já pensei em desistir,a rotina estressante faz a gente refletir, mas junto disso, também pensei no longo caminho percorrido, nas coisas que já passei, e esse pensamento foi logo afastado” destacada a estagiária. Enquanto Vitor também conta que sua vida social e seu psicológico melhoraram após sair da dupla jornada “O fato de deixar de administrar dois pontos cruciais na vida de uma vez, o estudo e o trabalho, alivia muito a pressão e consequentemente resulta em mais tempo livre para distrair a mente,” complementa Vitor.


Distrair a mente foi um ponto destacado por Vitor, e destacado pela Psicóloga Mônica Mesquita, de 61 anos, que falou sobre como essa rotina costuma gerar consequências no psicológico das pessoas. “Meus pacientes dentro desse quadro na maioria das vezes se sentem muito cansados e ansiosos, pois a jornada dupla entre trabalhar e estudar é muito cansativa e desgasta a cabeça,” diz a psicóloga. 



   Mônica tem 10 anos de carreira na psicologia     (Foto: Arquivo pessoal)
Mônica tem 10 anos de carreira na psicologia (Foto: Arquivo pessoal)

 


Mônica conta que distrair a cabeça, como Vitor disse, seja como for, alivia essa carga de estresse e diminui a ansiedade “é encontrar algo que seja prazeroso para amenizar o cansaço e a ansiedade geradas pela dupla jornada,” indica a doutora. Mas um ponto inusitado tocado por ela, é que o foco total é bom, pois os objetivos estarão mais perto assim, indicando como a dupla jornada se encontra dentro de uma normalidade “procurando focar no sonho de se formar no que deseja se especializar, também acaba em estímulo para que continuem avançando nesse desafio. Pois a grande maioria precisa trabalhar para poder se manter nos seus estudos, ou apenas iniciar a carreira de fato, então não são casos isolados, a maior parte precisa da dupla jornada no caminho, bastando apenas conseguir lidar com ela da melhor forma,” finaliza Mônica.


Conseguimos ver nessa matéria do portal UOL, uma pesquisa da Companhia de Estágios feita em junho de 2024, chegou ao dado que, 1 em cada 10 estagiários já enfrentou problemas emocionais relacionados ao trabalho atual ou anterior. Deixando nítido que essa é uma realidade, e um problema que quem vive essa rotina caótica de fato sofre..



Amostragem dentro da Universidade Veiga de Almeida


Baseando-se nessa problemática, recentemente um levantamento realizado entre 51 alunos da Universidade Veiga de Almeida elaborou uma parcial sobre as principais dificuldades desse cenário e o resultado foi o seguinte:


 

O cansaço físico e mental aparece como o problema mais incômodo, porém todos os elementos em conjunto foi quem mais recebeu votos, mostrando como esse bolo de vida social afetada, ajuste de rotina, pressão, estresse, cansaço mental e físico, é presente na maioria dos estagiários em dupla jornada.


Além disso, 50 estudantes classificaram de 1 a 5, suas respectivas vidas pessoais após início da dupla jornada.



Em uma escala de 1 a 5, todos que participaram da pesquisa tiveram a vida social afetada, seja na escala 2 de pouca diferença até a escala 5 de muita interferência. Nenhum estudante votou na escala 1, evidenciando que a vida social de todos sofreu impacto, seja em menor escala como alguns poucos, ou grande escala, como a maioria.


A pesquisa ajuda a mostrar diretamente as questões de quem trabalha e estuda ao mesmo tempo, são quase que unanimidade, todos sofrem em algum ponto, isso quando não sofrem com todos os pontos.



Ambiente de trabalho bom, é essencial


Um ponto crucial para um bom desempenho e boa atuação, é um ambiente propício para tal, Vanessa também comentou sobre o ambiente que vive, e como isso ajuda a continuar nessa caminhada, mesmo com uma impressão diferente no início, o espaço em que ela está inserida é acolhedor, “Pra falar a verdade, no início achei que não seria, mas depois meu pensamento mudou e percebo que sim, é um ambiente receptivo.” 


Ela opina sobre o próprio estágio, dizendo que tem pontos a evoluir, “Confesso que poderia ser melhor em certas questões, mas acredito que em todo lugar tem pontos positivos e negativos, porém acredito que os positivos são em maioria e também mais relevantes, a bolsa ajuda, as pessoas são acolhedoras e gentis, o ambiente em si, é bem tranquilo”, relata Vanessa.



    Vanessa trablhando em um computador    (Foto:Raul César)
Vanessa trablhando em um computador (Foto:Raul César)

 


A pressão por um trabalho bem feito às vezes é exacerbada, a cobrança em cima de um estudante inexperiente só atrapalha, mas para sorte de Vanessa, esse não é o caso. 

“As exigências são dentro do esperado, nada muito pesado, com uma leve evolução de demandas ao longo do tempo, mas tudo ok, atuo na área do meu curso, aprendi coisas novas em um ambiente profissional, um cenário bem correto pra mim, e imagino que não seja a realidade de todos,” diz Vanessa, e realmente não é. Na mesma pesquisa do site Ojornalismo, feita em Abril de 2024 pela WallJobs, também mostra o dado de que 6,2% dos estagiários no país tem como principal problema o excesso de cargos e sobrecarga de trabalho e responsabilidades.


No geral, a dupla jornada é uma realidade de muitos, ela se tornou um novo padrão para universitários, com uma importante função de dar experiência e casca para um estudante ainda cru no mercado de trabalho, sem histórico, com liberdade para cometer erros e aprender com eles. Mas junto desse molde para o futuro, vem as consequências de uma rotina desgastante, dura, estressante e de muita pressão interna, estudantes visando seu futuro e se pressionando além da conta ou até mesmo sendo pressionados pelos pais. Psicológico afetado, carga emocional alta, causando desistências e abandonos da parte acadêmica, além de aperto financeiro também causando desistências.


Todos esses problemas fazem parte do bolo da dupla jornada, e são eles que os estudantes enfrentam e vão enfrentar se quiserem um início de carreira mais “correto’’, tendo um ambiente de aprendizado profissional, com margem para os erros de um iniciante. Focar no destino é o caminho, e liberar a pressão e ansiedade também, deixar a mente respirar em alguns momentos, aproveitar cada espaço possível de descanso e cuidar muito bem da cabeça, pois com ela nos eixos e com foco, a dupla jornada gera frutos para o futuro próximo, e assim como a maioria das coisas boas, vem com muito esforço, luta e dedicação de quem realmente quer.


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