O teatro que nasce na ausência
- Alunos UVA

- 24 de nov. de 2025
- 8 min de leitura
Atualizado: 1 de dez. de 2025
Por Caroline Fidelis e Carolina Tendrih
Em meio à falta de acessibilidade à cultura na Baixada Fluminense, a arte nasce iluminando e trazendo novas perspectivas de vida através de projetos sociais, que mostram o que é possível quando o teatro chega à periferia. O movimento revela jovens e educadores que resistem, aponta onde a ausência do Estado aprofunda desigualdades, explica por que a cultura ainda é privilégio no Brasil, indica quando essa crise se intensificou, sobretudo após anos de desmonte das políticas culturais, e mostra como iniciativas comunitárias seguem transformando vidas mesmo diante de bloqueios, falta de verba e abandono histórico.


“Eu, como menino periférico, perdi meu pai aos sete anos pelo tráfico de drogas e não tinha nenhuma expectativa de vida.”
É assim que Rodrigo Verol, 29 anos, diretor e professor de teatro, inicia sua história — uma história que não fala só dele, mas de uma Baixada Fluminense inteira que insiste em sobreviver apesar da ausência do Estado.
Quando adolescente, Rodrigo conheceu Júlia, sua atual esposa, que lhe apresentou um “Mundo Novo” , como ele diz, o Instituto Mundo Novo, em Chatuba de Mesquita, onde viu sua primeira aula de teatro no terceiro andar do prédio que abriga a ONG.
“Quando eu vi aquela aula de teatro, eu falei: caramba, é isso que eu quero fazer a vida toda”, o professor lembra.
Rodrigo começou como jovem aprendiz, ajudando voluntariamente nas oficinas. Em 2024, tornou-se coordenador do Projeto Arte com Visão, um braço cultural do Instituto Mundo Novo que oferece aulas de diferentes modalidades de dança e teatro para crianças e adolescentes da Chatuba de Mesquita.
O idealizador do projeto arte com visão percebe que a comunidade não tinha oferta artística. "O projeto nasce como luz em uma ausência." assim surge uma nova alternativa à cultura em Mesquita.
Ali, crianças que convivem diariamente com violência urbana, instabilidade financeira e racismo encontram uma experiência nova: a de contar histórias e de perceber que suas próprias histórias têm valor.
A desigualdade de acesso à cultura no Brasil
A trajetória de Rodrigo não é exceção — é sintoma de uma desigualdade que atravessa a formação cultural do país. Mesmo em 2025, o acesso à arte continua marcado por recortes de raça e renda que moldam quem pode ou não participar da vida cultural brasileira.
Os dados da 6ª Pesquisa Hábitos Culturais, realizada pelo Observatório da Fundação Itaú com apoio técnico do Datafolha, deixam isso evidente. Embora o discurso público sugira que a cultura esteja mais “democrática”, a prática mostra outra realidade: 16% dos brasileiros não participaram de nenhuma atividade cultural presencial no último ano. Esse índice, que já é alto, explode nas classes D/E, onde a ausência da cultura no cotidiano é resultado direto de barreiras econômicas e territoriais.
E quando se olha para o teatro, a linguagem mais associada à experiência artística integral, que exige tempo, deslocamento e ingresso, a desigualdade se aprofunda.
O estudo mostra que, nos últimos 12 meses:
64% dos brasileiros brancos foram ao teatro, contra 51% dos brasileiros negros;
Nas classes mais altas, a diferença é ainda mais gritante: 38% da classe A/B compareceram a peças;

Já entre os mais pobres, apenas 10% da classe D/E tiveram acesso ao teatro. Um número que simboliza não só falta de recursos, mas também ausência histórica de políticas de formação de público.

Esses números revelam que a arte continua sendo um privilégio, não um direito garantido.
E reforçam algo que a história de Rodrigo ilustra com precisão: a cultura não está igualmente distribuída, e isso determina quem pode imaginar, criar e se reconhecer nas narrativas que circulam pelo país.
O dado de frequência mostra o problema em sua forma mais urgente: quem não é visto pela política pública não vê cultura.
Baixada Fluminense: o território que precisa ir ao Rio para ver teatro
Quando perguntado sobre o acesso ao teatro na região Rodrigo suspira antes de responder que “A gente tem um percentual muito grande de brasileiros que nunca foram ao teatro. Na Baixada, esse número aumenta. Aqui o acesso é muito limitado.”
Ele cita que Mesquita, por exemplo, tem pouquíssimos espaços formais. Nova Iguaçu tem o Teatro Silvio Monteiro e o Sesc. Duque de Caxias tem o Teatro Municipal. Mas, no geral, a região inteira depende de galpões adaptados ou de pequenos centros culturais que sobrevivem pela força da comunidade, totalizando 12 espaços culturais para o teatro na baixando.
Para assistir a montagens profissionais, muitas famílias precisam pegar dois transportes até o Centro do Rio. Para jovens periféricos, o custo — e o medo — são barreiras reais.
E Rodrigo ilustra com uma história:
“Em 2022, uma menina chegou com R$ 5,00 amassado na mão e falou: ‘Tio, eu quero muito assistir essa peça, mas eu não sei o que eu faço’. Aquilo me desmontou.”
O caso evidencia o abismo entre o desejo e a possibilidade. A arte, que deveria ser direito, vira luxo.
As barreiras: dinheiro, transporte e medo
A pesquisa Hábitos Culturais identifica que as principais barreiras para presença em atividades culturais são:
34% — questões financeiras (ingresso + deslocamento)
31% — medo de violência
22% — ingresso caro
19% — transporte caro
Na Baixada, onde o transporte é caro e as linhas são limitadas, essas barreiras se intensificam.
Além disso, mulheres negras — público majoritário da região — enfrentam dupla vulnerabilidade: de gênero e racial.
A infância que não vai ao teatro
A crise cultural brasileira se reflete com nitidez na infância. Segundo o Ipea mostra que mais de 70% dos jovens entre 10 e 17 anos nunca foram a uma peça de teatro.
A maioria sequer tem um espaço teatral no bairro. Quando existe, o preço do ingresso ou a falta de transporte inviabiliza a ida.
Nas escolas públicas, atividades culturais viram eventos pontuais, não parte do currículo. Peças escolares são substituídas por apresentações rápidas para redes sociais; professores sobrecarregados deixam de propor experiências sensoriais e coletivas.
O resultado? Uma geração que cresce sem referência simbólica, sem repertório artístico e com atenção fragmentada pelo excesso de telas.
O Brasil é um dos países onde crianças passam mais tempo em frente a telas: mais de 5 horas diárias, segundo a Unicef. A tecnologia, que poderia ser ferramenta, vira escape para uma geração sem alternativas reais de lazer.
Sem políticas de incentivo à cultura local, os jovens são educados por algoritmos.
Enquanto os celulares não saem das mãos de crianças e adolescentes, o palco — espaço de imaginação viva e experiência coletiva — se torna um território distante. O problema é o descaso histórico de um Estado que deixou de cultivar o encontro entre arte e povo.
Os números dimensionam a tragédia: segundo o Fórum Nacional dos Secretários e Dirigentes Estaduais de Cultura, menos de 0,1% dos orçamentos estaduais é destinado à cultura. Em 2022, o Ministério da Cultura sequer existia — rebaixado a Secretaria, sem autonomia nem verba própria. Mesmo com a retomada da pasta e com a Lei Paulo Gustavo em vigor, o atraso estrutural é profundo.
O TikTok como concorrência desleal e o impacto na memória das crianças
Quando questionado à Rodrigo sobre a relação entre redes sociais e o interesse dos jovens. Ele responde sem hesitar:
“A gente estuda pra caramba, e no final compete com quem tem mais seguidor. TikTok virou entretenimento rápido, mas não é dança. Não é teatro. Não é cultura.”
Ele ressalta que a plataforma pode ser ferramenta, não substituto. Mas nas comunidades, onde celulares são mais acessíveis que ingressos, o algoritmo acaba moldando o gosto e diminuindo a atenção.
A partir disso, especialistas em educação e cultura alertam para o fenômeno do encurtamento cognitivo, em que jovens têm dificuldade de sustentar foco prolongado, algo essencial ao teatro.
A municipalização do bloqueio: quando a prefeitura paralisa um projeto aprovado
O Projeto Arte com Visão funcionou em 2024 com recursos da Lei Rouanet e do Fundo da Criança e do Adolescente de Mesquita — uma lei municipal construída por agentes da própria comunidade, Bianca e Bruna Simãozinho, que tocam o Instituto Mundo Novo.
A captação bateu mais de R$ 1 milhão. Mas, segundo Rodrigo, a prefeitura teria paralisado o repasse, mesmo com o dinheiro já assegurado. “É nosso por direito. Foi captado pela gente”, afirma. Embora o recurso tenha sido conquistado pela própria comunidade e destinado a garantir a continuidade das atividades culturais, o bloqueio municipal deixou o projeto em suspenso e uma geração inteira de jovens sem palco.
A paralisação do Arte com Visão não interrompe apenas oficinas e ensaios, interrompe trajetórias. E enquanto a instituição luta na Justiça para reaver o que lhe é devido, ficam à mostra as fissuras de um sistema que cria barreiras entre a comunidade e recursos que já deveriam estar garantindo continuidade, acesso e cultura -- uma luz capaz de transformar realidades num cenário que marginaliza o público alcançado por este projeto.
Teatro como formação cidadã: não só palco, mas produção
Para Rodrigo, teatro é transformação. Como ele diz: “envolve muito mais do que só subir no palco e falar alguma fala”.
Ele ensina crianças e adolescentes a operar luz, som, a compreender cada etapa da produção. “Eu deixo as crianças operarem iluminação para entender que atrás da coxia tem muita coisa acontecendo.” É formação para autonomia e para cidadania.
O professor cita Augusto Boal: “Se você vem assistir um espetáculo e esse espetáculo não faz seu coração borbulhar de emoção e não te transforma, ele não vale de nada”.
As histórias dos artistas do Instituto Mundo Novo reafirmam esse poder de transformação.
Ao final da entrevista, realizada depois da apresentação do musical Matilda no Teatro Sylvio Monteiro, em Nova Iguaçu, vejo crianças, adolescentes e famílias borbulhando de emoção, sorrisos de entrega verdadeira. Jovens desmontam o cenário, ajudam na pós-produção, relembram passos da coreografia. Acima de tudo há pertencimento.

Dados nacionais mostram que o teatro é a prática cultural mais desigual:
A série histórica da Pesquisa Hábitos Culturais mostra:
Em 2022, diferença entre A/B e D/E no acesso ao teatro era de 17 pontos percentuais;
Em 2025, essa diferença subiu para 28 pontos;
Ou seja: quanto mais o tempo passa, menos a população pobre acessa teatro;
E os números de raça acompanham o padrão: pessoas negras continuam sub-representadas como público e como produtores culturais.
A busca por soluções: o que pode mudar o cenário
Apesar do cenário adverso, existem caminhos possíveis. Eis alguns pontuados por especialistas e por pesquisadores de políticas culturais:
Descentralização real de equipamentos culturais
Não basta “abrir um espaço”: é necessário orçamento e programação contínua.
Transporte cultural subsidiado
Em cidades com transporte caro, políticas como vales-cultura integrados ao transporte fazem diferença.
Fomento direto a grupos periféricos
Modelos como:
editais voltados à periferia;
fomento extrafiscal;
parcerias com escolas públicas;
conselhos comunitários de cultura.
Formação de público desde a escola
O teatro escolar é um dos maiores indutores de permanência cultural futura.
Leis municipais transparentes e com auditoria independente
Fundos podem funcionar — desde que exista transparência.
O futuro e a urgência
A desigualdade cultural não é consequência natural, é escolha política.
A Baixada tem artistas excelentes, projetos premiados, resistência, potência. O que falta é investimento contínuo, transparência e políticas públicas que entendam a cultura não como “evento”, mas como direito. O Brasil de 2025 vive imerso em telas, algoritmos, pressa e uma crise profunda de atenção. O teatro oferece o que falta: pausa, escuta, presença. A capacidade de imaginar o que ainda não existe. Se queremos formar cidadãos críticos, criativos e atentos, precisamos garantir que o teatro continue sendo luz — especialmente onde sempre existiu ausência. Rodrigo sabe disso há muito tempo. Desde aquela primeira aula no terceiro andar do prédio comunitário. E repete: “É isso que eu quero fazer a vida toda.” Que o Brasil também queira.




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