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O que acontece por trás das portas das escolas particulares do Rio

  • Foto do escritor: Alunos UVA
    Alunos UVA
  • 1 de dez. de 2025
  • 9 min de leitura

A experiência de docentes cariocas revela o abismo entre o glamour da rede privada e a realidade de uma profissão marcada por adoecimento e invisibilidade.

Por: Marina Avelino e Letícia Rodrigues


Professora conduz atividade em turma do ensino fundamental (Foto Leticia Rodrigues)
Professora conduz atividade em turma do ensino fundamental (Foto Leticia Rodrigues)


Com o andar cansado de quem já vinha caminhando bons metros desde a estação de BRT até a escola, Mariana Marques, 28 anos, entrou no pátio abarrotado de alunos sonolentos e colegas de trabalho exaustos. Era enfim sexta-feira, um pensamento que a acompanhava desde o instante em que abriu os olhos às quatro e meia da manhã, mesmo que isso não mudasse o fato de que ainda teria provas para montar ao longo do fim de semana em que deveria descansar. Respirou fundo antes de se misturar aos jovenzinhos, onde diversas faixas etárias pareciam competir entre si pelo posto de mais desafiadoras. Com um abraço ali, uma piadinha acolá, ela cumprimentava cada um deles espremendo até o último pingo de animação que ainda restava em si, sempre sorrindo, mesmo que pouco.


De frente para sua fila de alunos do oitavo ano, a professora sentia o peso da bolsa machucar o ombro enquanto contava os segundos para poder largá-la sobre a mesa. As filas foram sendo liberadas aos poucos, até chegar a vez de sua turma, que a seguiu desordenadamente rumo à sala. Mal havia batido sete e meia no relógio e as crianças já começavam a recobrar sua energia abalada pelo sono, superando umas às outras no volume de suas vozes. Mariana tentava conter a agitação, repetindo gestos automáticos que já conhecia de cor, mas o resultado era sempre o mesmo: a parcial derrota compartilhada por todos os docentes.


Era o seu sonho lecionar, lembrava-se disso quase diariamente, especialmente nos momentos em que a exaustão batia mais forte. Brincar de escolinha era sua atividade favorita na infância, e seu melhor passeio era acompanhar a mãe, também professora, em suas manhãs e tardes de trabalho. Agora, de frente para seus próprios alunos, sentia que aquela nostalgia trazia um pequeno conforto, como se resgatasse um pedaço da criança que foi. Por alguns minutos, isso bastava para melhorar o dia.


A realidade, no entanto, mostrava-se menos lúdica. O encantamento por acompanhar o progresso dos estudantes convive com desafios que a graduação nunca conseguiu antecipar. “É gratificante ver quando um conteúdo finalmente faz sentido para eles, quando o olhar de dúvida se transforma em entendimento”, diz Mariana. “Mas isso vem junto de desrespeito, exaustão e uma vulnerabilidade que ninguém nos prepara para enfrentar”.


A professora afirma que o peso emocional do trabalho é evidente. Entre jornadas longas, demandas que se acumulam sem aviso e a sensação constante de estar apagando incêndios, o ambiente escolar se tornou um lugar onde a pressão não apenas existe, ela transborda. A cada nova exigência, cresce também o medo de falhar, de não corresponder às expectativas de gestores, famílias e até dos próprios alunos. Em meio a esse cenário, a culpa se instala com facilidade, mesmo quando os problemas claramente ultrapassam qualquer responsabilidade individual. “Frequentemente somos responsabilizados por situações que fogem completamente do nosso alcance. Isso nos deixa vulneráveis. Temos pouco respaldo, somos constantemente cobrados e descartados”, desabafa a docente.


Mas quando questionada sobre abandonar a profissão, Mariana não hesitou: “Já pensei algumas vezes, mas não me vejo fazendo outra coisa. Desde pequena, o amor pela educação já tinha despertado em mim”.


Mariana Marques, 28 anos, professora de matemática (Foto: Marina Avelino)
Mariana Marques, 28 anos, professora de matemática (Foto: Marina Avelino)

Um retrato coletivo


A história de Mariana está longe de ser isolada. Ela compõe o cotidiano silencioso de centenas de docentes da rede privada do Rio de Janeiro. Entre eles está Júlia Oliveira, 22 anos, que apesar da dedicação, afirma não se sentir valorizada. Em todos seus anos de profissão, nunca houve um momento em que, segundo ela, o salário compensasse o esforço ou o desgaste emocional acumulado diariamente.


Na visão de Júlia, a mercantilização das relações escolares corrói o ambiente de trabalho.

“O problema começa quando as escolas passam a tratar pais e responsáveis como ‘clientes’”, afirma.  Para a docente isso faz com que muitas instituições cedam às pressões externas, deixando os professores à mercê das vontades de quem paga.


De acordo com Júlia, muitos pais enxergam professores como seus próprios funcionários, impondo suas vontades sobre eles abusivamente, e isso reflete sobre os filhos que, como alunos, confundem a posição hierárquica da sala de aula, tratando aqueles que deveriam ser autoridade como iguais ou, no pior dos casos, inferiores. Ela expõe que isso resulta em um desinteresse ofensivo por parte dos alunos, assim como na falta de limites em suas falas e ações. O desrespeito, como o maior dos males, é o que mais dificulta o exercício da profissão.

Júlia Oliveira, 22 anos, professora de ensino fundamental I (Foto: Letícia Rodrigues)
Júlia Oliveira, 22 anos, professora de ensino fundamental I (Foto: Letícia Rodrigues)

Essa visão é reforçada e ampliada pelo também professor Leonardo Gonçalves, 29 anos. Em sua perspectiva, a queda na qualidade do ambiente educacional é resultado não só de fatores familiares, mas também de dinâmicas geracionais. Em tom saudoso, Leonardo compara a relação entre pais e filhos, afirmando que a geração atual se distancia grandemente das anteriores: “Tenho encontrado um cenário de pais que abriram mão completamente da autoridade e nivelaram os filhos. Tem casas em que não existe mais hierarquia. Então, como eu, sendo professor, vou conseguir sustentar uma dentro de sala de aula?”.


Apesar de sua forte crítica sobre às atuais dinâmicas familiares, Leonardo também reconhece a dualidade desses relacionamentos, considerando-os complexos. Em meio às fragilidades, alguns avanços notórios e importantes começam a surgir, como a maior abertura para diálogos e a preocupação crescente dos pais em suprir as emoções e necessidades dos filhos. Essas características se contrapõem e ajudam a explicar por que o ambiente escolar se torna um campo de tensões. De acordo com o professor, enquanto aspectos positivos surgem, práticas que deveriam sustentar a autoridade e cooperação acabam se enfraquecendo. 


Citando a Lei nº 15.100/2025, que proíbe o uso de celulares pelos alunos dentro dos limites escolares, o professor revela que grande parte dos pais com quem convive profissionalmente ignora completamente essa nova realidade, autorizando seus filhos a usar seus aparelhos para manter uma comunicação direta. “Ou seja, está tão absurdo que os pais são capazes de desrespeitar uma lei. Pouco se importam que, com isso, colocam o professor em uma posição difícil, em que vai ser cobrado pela direção, em que a autoridade dele em sala de aula vai ser colocada em xeque”, afirma Leonardo. Isso retrata como o zelo e presença atuais estão sendo expostos de forma equivocada, mal colocada.


Somando a isso as tarefas excessivas, turmas cheias e demandas que se estendem muito além da sala de aula, se tem o cenário hostil em que os professores estão inseridos, muito diferente das expectativas semeadas ao longo da graduação. Leonardo se opõe a visão do professor herói tão idealizada, afirmando que, embora seja um sonho presente no coração de muitos educadores, apenas a vontade de fazer a diferença na vida dos alunos não sustenta a profissão. “Professores, acima de tudo, são trabalhadores, com contas para pagar e uma vida além da sala de aula para administrar. Se vende a ideia da “Sociedade dos Poetas Mortos”, de uma grande revolução, mas esse é um peso que não devemos carregar como obrigação”, desabafou.  



Leonardo Gonçalves, 29 anos, professor de artes (Foto: Marina Avelino)
Leonardo Gonçalves, 29 anos, professor de artes (Foto: Marina Avelino)

Essa pressão imposta sobre os docentes leva ao declínio de sua saúde mental. Segundo Leonardo, é uma tarefa difícil se manter saudável diante de tantos desafios e demandas, e o número de professores com o psicológico comprometido cresce a cada dia. Ele afirma que, em seu núcleo profissional, a quantidade de docentes adoecendo fisicamente ao fim do semestre é alarmante, resultado de questões psicossomáticas decorrentes de uma exaustão que não é devidamente amparada

  

Júlia Oliveira complementa esse retrato: “As instituições raramente oferecem suporte psicológico real. O atendimento só é disponibilizado em casos considerados graves, com diagnóstico formal”, relata. Conta ainda que já soube de colegas demitidos após procurarem apoio psicológico oferecido pela própria escola. Para ela, esses episódios expõem a urgência de discutir como a lógica empresarial do ensino privado fragiliza o trabalho docente e ameaça a saúde emocional dos profissionais.



Ciclo de negligência


A análise é reforçada pelo psicólogo escolar David Pereira, 47 anos. Segundo ele, o sofrimento dos professores nasce de um efeito cadeia, em que tudo começa com a relação entre alunos e responsáveis. Alunos negligenciados em qualquer aspecto tendem a ter seus limites deturpados, refletindo em seu comportamento com os docentes. Dentro de seus anos na profissão, o psicólogo afirma ter identificado um padrão comportamental em que pais ausentes absolvem as transgressões dos filhos, descartando a credibilidade e autoridade dos educadores. Essa postura contribui para um ciclo de desvalorização que impacta o trabalho docente e o clima escolar.


Ele também destaca que o combate à sobrecarga emocional dentro das escolas é centralizado nos alunos. As dinâmicas e campanhas em sua maioria são feitas pensando na saúde mental da criança e do adolescente, além de muitas vezes serem organizadas ou auxiliadas pelos próprios professores. Esse foco estrutural impede que a devida atenção seja direcionada aos docentes, ofuscando a urgência de seu amparo. “Muitas vezes, não conseguimos oferecer o suporte necessário aos professores. O ideal seria que tivessem momentos de acolhimento específicos para orientar o caminho da cura emocional”, conclui o psicólogo. 


Além disso, David reforça que a deterioração do bem-estar docente não se limita ao ambiente escolar, mas transborda para a vida pessoal desses profissionais. Segundo ele, muitos chegam ao consultório emocionalmente esgotados, com sensação de impotência diante de um cenário que parece não oferecer respiro. O psicólogo observa que a falta de políticas preventivas e de espaços institucionais de escuta aprofunda esse desgaste, criando um terreno fértil para ansiedade, adoecimento e abandonos precoces da carreira. "Estamos falando de profissionais que cuidam de todos, menos deles mesmos, e isso não é sustentável. Sem incentivo às iniciativas que protejam quem está na linha de frente, o sistema inteiro corre o risco de colapsar", alerta.

David Pereira, 47 anos, psicólogo escolar (Foto: Marina Avelino)
David Pereira, 47 anos, psicólogo escolar (Foto: Marina Avelino)

Dois lados de uma moeda


A crise no cenário educacional retratada atravessa tanto a rede privada quanto a pública, no entanto de formas distintas. Enquanto professores lidam com a crescente sobrecarga emocional, o contexto institucional em que atuam acrescenta camadas próprias de pressão. Na comparação entre esses dois universos, emergem diferenças estruturais, expectativas contrastantes e desafios específicos que moldam o cotidiano dos educadores, tornando nítido como o descaso se transforma, mas não deixa de existir, independente do contexto em que se aborda.


Segundo o Censo Escolar 2021, o Estado do Rio de Janeiro possui 11.352 escolas de educação básica, das quais aproximadamente 41,5% pertencem à rede privada, quase metade do número total. Esses números revelam um cenário educacional vasto e diverso, em que realidades institucionais muito distintas convivem lado a lado. Enquanto a rede pública enfrenta desafios estruturais que passam por falta de recursos, turmas superlotadas e políticas instáveis, a rede privada lida com pressões de outra natureza, como a forte influência das famílias, a lógica empresarial e a expectativa de resultados imediatos. Essa divisão ajuda a compreender como o peso da desvalorização docente se organiza e se intensifica de modos diferentes, moldando não apenas as condições de trabalho, mas também as relações estabelecidas dentro de cada ambiente escolar.

Gráfico: Marina Avelino
Gráfico: Marina Avelino

Essa dualidade é vivida por Yan Fonseca, 33 anos, professor de história que atua tanto na rede privada quanto na pública. Ele relata ter iniciado sua carreira docente em cursos preparatórios particulares e foi motivado a prestar concurso pela estabilidade oferecida na rede pública que, segundo ele, tem a estrutura básica mais vantajosa em termos de remuneração e carreira.


Dentro da rede privada, Yan compartilha que é necessário trabalhar muito além da carga horária padrão para conseguir uma renda minimamente decente e ainda assim não equivale ao esforço e tempo dedicados. “Esse é o princípio da frustração. Você pensa: “Vale a pena aturar toda a hostilidade e descaso pra ganhar o que eu ganho?” Isso vai minando sua vontade de ser produtivo, de estar em uma sala de aula”, relata. 

Yan Fonseca, 33 anos, professor de história (Foto: Marina Avelino)
Yan Fonseca, 33 anos, professor de história (Foto: Marina Avelino)

Essa disparidade reflete na Convenção Coletiva de Trabalho (CCT) firmada entre o Sindicato dos Professores do Rio (Sinpro-Rio) e o Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado do Rio de Janeiro (SINEPE-RJ), em vigor desde abril, que garantiu reajuste de 5,5% no piso salarial dos professores da educação básica do município carioca. O aumento, embora necessário, está longe de suprir as demandas da categoria: profissionais da educação infantil e anos iniciais passam a receber cerca de R$ 16,41 por hora-aula, enquanto os do ensino médio chegam a R$ 27,16, valores que raramente refletem a real carga de trabalho envolvida.


A nova CCT também prevê o pagamento de uma hora de planejamento a cada três aulas ministradas, cobrindo parte das atividades extraclasse. Mas o modelo ainda ignora uma série de tarefas invisíveis, como relatórios individuais, avaliações complexas, atendimentos a famílias, demandas de inclusão. Nada disso é remunerado de forma específica.


Dessa forma, os professores continuam afligidos por políticas educacionais pouco eficazes. Seu esforço, constantemente banalizado, continua sem retorno significativo. Para Yan, além do amor pela profissão, não há muitos fatores que contribuem para a permanência de profissionais na docência. “A gente tem hoje em dia um cenário bastante desanimador, tanto em termos de trabalho quanto em termos de legislação que nos ampare”, conclui. 


Nesse contexto de desalento, surge a necessidade de maior atenção e reconhecimento. Mesmo aos tropeços, a rotina escolar segue seu curso, cabendo aos professores a luta diária para ultrapassarem os desafios e lidarem com o desgaste físico e mental. Entre tantos dilemas, cada professor encontra suas próprias estratégias para prosseguir, mantendo algum senso de normalidade em meio ao caos silencioso que atravessa a categoria. 


É dentro desse cotidiano exigente que Mariana Marques finaliza seu dia de trabalho, organizando suas coisas dentro do armário na sala dos professores, enquanto sente a rotineira dor de cabeça começar a latejar bem no centro da testa. Rindo sozinha ao lembrar de uma piadinha contada por um de seus alunos durante a aula, ela firma a alça de sua bolsa nos ombros e se prepara para andar os bons metros de volta para a estação de BRT. No corredor vazio, apenas o som abafado das turmas chegando para o período da tarde ecoa de longe, acompanhando seus passos levemente arrastados até a saída. Lá fora, o sol impiedoso do início da tarde abraçou seu corpo cansado, lembrando-a de que, apesar de finalizar a semana, apenas dois dias a separavam de mais uma, com novas demandas e o mesmo esforço invisível que insiste em acompanhá-la.



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