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O movimento que une Mesquita pelo Day Running

  • Foto do escritor: Alunos UVA
    Alunos UVA
  • 2 de dez. de 2025
  • 8 min de leitura

Criado por jovens da Baixada, o Day Running transforma a corrida em um espaço de saúde, conexão e pertencimento para moradores de Mesquita, mostrando como iniciativas comunitárias podem ocupar e ressignificar os espaços da periferia.


Por Rafael Zoéga e Pedro Lucas Vieira


Grupo do Day Running reunido em Mesquita antes do treino coletivo que movimenta a Baixada Fluminense. (Foto: Arquivo pessoal)
Grupo do Day Running reunido em Mesquita antes do treino coletivo que movimenta a Baixada Fluminense. (Foto: Arquivo pessoal)

Ainda é cedo quando Diego dos Santos, de 25 anos, amarra o tênis na ciclovia de Mesquita. O sol começa a surgir timidamente por trás dos prédios baixos, iluminando de leve o asfalto úmido da madrugada. A luz dourada projeta sombras longas que se movimentam conforme os primeiros corredores se aproximam. Há quem venha andando devagar, com os olhos ainda pesados de sono, e quem já chegue sorrindo, despertado pela expectativa de mais um treino. O clima que se forma ali não é de competição, mas de encontro. Gente que ri, alonga, conversa, coloca a playlist do treino para tocar em uma caixinha improvisada. Parece simples, mas essa simplicidade carrega o que sustenta o Day Running: a presença.


“A gente criou o Day Running porque sentia falta de algo assim aqui”, diz Diego.


“Não é só sobre correr. É sobre se conectar, fazer parte de alguma coisa.” reflete Diego.

Esse “fazer parte” diz muito sobre Mesquita e sobre a Baixada Fluminense como um todo. Regiões historicamente marcadas pela ausência de políticas públicas de


esporte e lazer acabam criando, por conta própria, projetos que funcionam como pontos de encontro, de cuidado e, em muitos casos, de sobrevivência emocional. Segundo levantamentos do IBGE, grande parte das ações esportivas feitas nas periferias brasileiras nasce justamente da mobilização espontânea dos próprios moradores, que criam espaços de socialização quando o Estado falha em criá-los.


Foi nesse cenário de necessidade e criatividade que o Day Running surgiu em 2022. Nasceu pequeno, sem estrutura, sem patrocínio, sem recursos. Nasceu do desejo de não correr sozinho. O grupo tomou forma a partir de encontros informais, quando Diego e outros amigos perceberam que, apesar de muitas pessoas correrem individualmente em Mesquita, não existia um coletivo que aproximasse essas trajetórias. “A ausência de projetos assim e nossos encontros foram o que motivaram tudo”, conta Diego.


“Cada um tinha sua história com a corrida, e dessas conversas nasceu o projeto.” diz Diego.

O início foi improvisado. Algumas mensagens no Instagram, um story com o horário do treino, a vontade de aparecer e fazer parte. “A gente não tinha nada. Era só a vontade de correr junto, chamar os amigos e ver no que ia dar”, lembra Matheus Oliveira, de 26 anos, professor de Educação Física e cofundador do projeto. Mas bastou uma semana para que novos rostos aparecessem. Pessoas curiosas começaram a chegar, algumas com tênis velhos, outras com pouca experiência, algumas apenas querendo sair de casa por um motivo que não fosse trabalho ou estudo. De repente, os treinos de sábado começaram a ficar cheio. 


Os fundadores do projeto de corrida de Mesquita, Matheus e Diego, em evento recente. O grupo se tornou referência na região por incentivar a prática esportiva na Baixada Fluminense. (Foto: Arquivo pessoal)
Os fundadores do projeto de corrida de Mesquita, Matheus e Diego, em evento recente. O grupo se tornou referência na região por incentivar a prática esportiva na Baixada Fluminense. (Foto: Arquivo pessoal)

Com o tempo, o Day Running se profissionalizou sem perder sua essência comunitária. O grupo se tornou o primeiro da Baixada Fluminense a fechar parceria direta com o Strava, a maior plataforma de métricas esportivas do mundo, um reconhecimento raro para iniciativas periféricas. A visibilidade trouxe convites para eventos antes restritos a corredores da Zona Sul ou atletas de alto rendimento, como desafios promovidos pela Red Bull. Para Diego, isso mostra que há potência na mobilização local.


“É sobre ocupar espaços e mostrar que a Baixada tem voz” afirma Diego.

Da falta de espaços ao fortalecimento de um movimento


O crescimento do Day Running revela a força da mobilização comunitária em uma região que, apesar dos desafios socioeconômicos, constrói coletivamente suas formas de existir e resistir. Em Mesquita, a ciclovia que há alguns anos funcionava apenas como uma rota de deslocamento hoje é também palco para treinos, encontros e processos de cura emocional. A presença constante de corredores muda a paisagem da cidade, ocupando o espaço público de forma positiva e trazendo vida àquele trecho antes vazio nas primeiras horas da manhã.


A prefeitura, mesmo com limitações, tem tentado liberar editais e ações voltadas para esportes e ocupação urbana. Mas é o Day Running que faz esse espaço ganhar sentido. A infraestrutura é limitada, mas o vínculo entre as pessoas compensa o que falta na esfera pública.


“A corrida é o meio, mas o que a gente preza é a conexão entre as pessoas”, analisa Diego.

Em um cenário marcado por desigualdades, insegurança e ausência de políticas esportivas consistentes, criar comunidade é também um gesto político.


Essa força coletiva aparece no discurso de quem participa do grupo. Ewerton Júlio, de 24 anos, estudante, começou por indicação de um amigo. “No início fui só pela socialização. Mas quando fui, gostei do clima e continuei”, explica. Para ele, o Day Running representa um movimento simbólico importante:


“É um projeto gratuito de esporte e lazer feito pelos próprios moradores.” diz Ewerton.

Significa, também, que a Baixada não precisa esperar de fora aquilo que pode construir por si. 


Ewerton Júlio, um dos participantes do projeto de corrida de Mesquita (RJ), em momento de treino e alegria. O grupo incentiva o esporte como ferramenta de transformação social. (Foto: Arquivo Pessoal)
Ewerton Júlio, um dos participantes do projeto de corrida de Mesquita (RJ), em momento de treino e alegria. O grupo incentiva o esporte como ferramenta de transformação social. (Foto: Arquivo Pessoal)

Quando correr vira conexão, pertencimento e afeto


Os treinos do Day Running têm uma atmosfera muito diferente de grupos de corrida tradicionais. Ninguém monitora quem corre mais rápido, ninguém é abandonado. Há corredores experientes, iniciantes e pessoas que alternam corrida e caminhada. Tudo bem. Ali, o ritmo é individual, mas o percurso é coletivo.


“Ali todo mundo é igual. Todo mundo chega junto e sai junto”, explica Matheus. O lema é simples: acompanhar, incentivar, acolher. E esse acolhimento é visível


desde o primeiro dia de quem chega tímido. Sempre tem alguém que se aproxima, pergunta o nome, explica o trajeto, oferece companhia.


Esse clima atraiu participantes como Drielly Villas Boas, de 21 anos, empresária, que descobriu o grupo pelas redes sociais.


“Queria ter um momento meu, sair da rotina e conhecer gente nova” conta a empresária.

“Hoje o Day Running representa cuidado comigo mesma. Me faz bem-estar ali, me movimentar e me conectar.” Para Drielly, o grupo é espaço de leveza em meio à correria diária. 


Buscando fugir da rotina e ampliar seu ciclo social, Drielly, de 21 anos, encontrou no projeto de corrida de Mesquita a oportunidade ideal. (Foto: Arquivo Pessoal)
Buscando fugir da rotina e ampliar seu ciclo social, Drielly, de 21 anos, encontrou no projeto de corrida de Mesquita a oportunidade ideal. (Foto: Arquivo Pessoal)

Para Yuri Ribeiro, de 22 anos, estudante, o que define o Day Running é a sinergia.


“As pessoas torcem umas pelas outras. É um clima leve, de união, de energia boa. Cada treino é uma construção coletiva.” reflete Yuri

Ele destaca que ver outras pessoas se superando o inspira mais do que qualquer planilha de performance. 


O participante Yuri em mais um treino do projeto Day Running. Segundo ele, o ponto alto do grupo é o clima leve dos encontros, que facilita a adesão e a manutenção da rotina de exercícios, tornando o esporte uma atividade prazerosa. (Foto: Arquivo pessoal)
O participante Yuri em mais um treino do projeto Day Running. Segundo ele, o ponto alto do grupo é o clima leve dos encontros, que facilita a adesão e a manutenção da rotina de exercícios, tornando o esporte uma atividade prazerosa. (Foto: Arquivo pessoal)

Entre os mais novos participantes, Erick Luiz Ramos, de 22 anos, universitário, encontrou no Day Running um respiro necessário.


“Minha cabeça tava cheia, tudo embolado: trabalho, faculdade, correria. Um amigo me chamou pra ir ‘só pra experimentar' achei que ia morrer no primeiro quilômetro, mas acabei gostando. Fazer algo por mim me fisgou.” reflete Erick

Erick é um exemplo de como a primeira experiência no projeto de corrida pode ser transformadora. Ele compareceu ao treino inicialmente para "experimentar" e sempre que pode, participa dos treinos. (Foto: Arquivo Pessoal)
Erick é um exemplo de como a primeira experiência no projeto de corrida pode ser transformadora. Ele compareceu ao treino inicialmente para "experimentar" e sempre que pode, participa dos treinos. (Foto: Arquivo Pessoal)


Erick diz que encontrou no grupo algo que não esperava. “Correr virou minha terapia. É quando eu desligo tudo e deixo minha cabeça respirar.” Para alguém que lidava com ansiedade e pressão, a corrida virou ferramenta de cuidado emocional.


O impacto na saúde física e principalmente mental


Embora os benefícios físicos sejam rapidamente perceptíveis, mais fôlego, mais disposição, mais energia, são os relatos sobre saúde mental que mais se repetem entre os corredores. O impacto psicológico do grupo é tão ou mais importante do que o condicionamento físico.


“Parece clichê, mas a gente recebe mensagem todo dia dizendo que os treinos ajudam no estresse, na ansiedade, em dias ruins”, afirma Diego.


“Às vezes a pessoa chega esgotada e sai renovada.” diz Diego

Muitas dessas mensagens chegam pelo Instagram ou WhatsApp do projeto, e surpreendem até os organizadores, que não imaginavam que algo criado entre amigos poderia ter tamanha dimensão emocional.


Matheus também percebe essa mudança. “Tem muita gente afastada do trabalho ou da faculdade por motivos emocionais. E quando chegam aqui, conversam, correm, se sentem parte. Isso muda o dia da pessoa.” Ele diz que, em muitos casos, o grupo vira o único espaço semanal de convivência fora das obrigações.


Esse fenômeno não é isolado. Estudos publicados na base SciELO mostram que práticas esportivas coletivas têm potencial para reduzir sintomas de ansiedade, fortalecer vínculos sociais e melhorar o bem-estar emocional. A presença de um grupo que acolhe, incentiva e valida as emoções dos participantes amplifica esse efeito.


Os depoimentos confirmam isso. “Correr virou minha terapia”, diz Erick. Drielly relata que o grupo é seu lugar de cuidado. Yuri afirma que o impacto emocional é tão marcante quanto o físico. Ewerton vê no Day Running um lugar onde pode ser ele mesmo, sem cobranças.


Tudo isso reforça a importância social de iniciativas esportivas periféricas: elas operam aonde o Estado não chega.


Histórias que marcam o percurso


As memórias mais fortes do Day Running não são as conquistas cronometradas, mas os momentos simples e humanos que surgem espontaneamente.


Erick recorda um dia que o marcou profundamente: a mãe de um amigo decidiu participar de um treino.


“Ela tava insegura, mesmo assim tentou. A cada quilômetro, todo mundo incentivando, apoiando, indo junto. No final, ela completou o percurso e ficou super emocionada. Foi simples, mas me marcou muito ver aquela união.” relata Erick

Essa cena mostra como o grupo transforma insegurança em potência.


Drielly lembra de um treino que terminou com conversas e risadas por horas. “Não teve nada grandioso, mas eu senti que estava com pessoas que me fizeram sentir à vontade.” Essa sensação de acolhimento é recorrente.


Yuri fala sobre o impacto de ver novos integrantes se enturmando rápido. “A pessoa chega tímida e sai abraçada. É bonito ver isso.” Esses pequenos rituais dizem mais sobre o Day Running do que qualquer evento de grande porte.


Ewerton relembra conversas antes de embarcar para uma viagem importante. O grupo se tornou parte da sua vida de maneira tão natural que os treinos viraram uma espécie de despedida simbólica. “Parece bobo, mas correr ali me fazia sentir parte de algo.”


Esses relatos mostram que o Day Running não é apenas um grupo de corrida, mas uma rede de afeto.


Quando a Baixada ocupa o próprio espaço


Participar de eventos de grande porte representa uma vitória para o Day Running e, simbolicamente, para a Baixada Fluminense. “Quando começamos, muita gente zombava, duvidava”, lembra Matheus.


“Hoje estamos com marcas gigantes, atletas profissionais, influenciadores. Isso mostra que o que é feito com o coração dá certo.” afirma Matheus

Esse reconhecimento externo tem um peso simbólico enorme. Significa que iniciativas periféricas, quando fortalecidas, podem ocupar os mesmos espaços que grupos com maior visibilidade. Significa também que a Baixada não precisa aceitar o papel de coadjuvante.


O protagonismo comunitário aparece quando projetos como o Day Running abrem caminho para outros coletivos esportivos, culturais e sociais. O grupo não só representa sua cidade como prova que, quando existe vontade, união e persistência, a periferia também chega longe.


“É sobre pertencer”, diz Diego. “Sobre entender que você não está sozinho.” O Day Running transforma as ruas de Mesquita em um território afetivo, onde pertencimento e identidade se encontram passo a passo.


Passos que deixam marcas


O treino termina quando o sol já está se despedindo. Os corredores se reúnem para tirar a foto do dia, aquele ritual que celebra mais do que o desempenho: celebra a presença, a persistência e a comunidade. Enquanto risadas ecoam pela ciclovia, pequenas promessas são feitas para o próximo encontro. “Semana que vem estou aqui”, “vamos melhorar o pace”, “vou trazer um amigo”.


A ciclovia, agora mais vazia, segue sendo o palco onde Mesquita encontra respiro, movimento e vínculo. Cada passo deixa uma marca discreta, mas coletiva. Ali, correr não é apenas um ato físico; é uma forma de existir no mundo, de reivindicar espaço, de construir afeto.


No Day Running, cada chegada é compartilhada, cada quilômetro é conquista e cada manhã é um lembrete de que a força da comunidade transforma trajetórias individuais. E na Baixada Fluminense, onde tantas vezes falta estrutura, correr junto pode ser um ato de resistência silenciosa, mas poderosa. 



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