Entre a tela e o apito: O impacto do VAR nas decisões e na reputação da arbitragem brasileira
- Alunos UVA

- 2 de dez. de 2025
- 6 min de leitura
A tecnologia que chegou com a promessa de tornar o futebol mais justo, é responsável por inúmeras polêmicas e discussões sobre a reputação da arbitragem no Brasil.
Por José Soares e Alan Matos

Foto: Gilson Lobo/AGIF
Uma das maiores polêmicas envolvendo arbitragem, sem dúvidas é o gol de mão de Diego Armando Maradona nas quartas de final da Copa do Mundo de 1986, contra a Inglaterra. O lance que ficou conhecido como "La mano de Dios", marca um dos maiores erros de arbitragem da história do futebol, com um gol marcado pelo craque argentino usando a mão e que classificou a sua seleção para a semifinal da competição, que posteriormente sagrou-se campeã do mundo pela primeira vez.
Esse lance evidencia que a tecnologia veio pra auxiliar na tomada de decisões da arbitragem e evitar injustiças. Entretanto, diversas discussões sobre a efetividade dessas ferramentas são pautadas nos debates entre torcedores e, principalmente, entre a mídia.

Foto: Bob Thomas/Getty Images
O VAR (sigla usada para "Video Assistant Referee", que significa "Árbitro Assistente de Vídeo"), foi utilizado pela primeira vez no Brasil, na final do campeonato pernambucano de 2017, na partida entre Salgueiro x Sport. Naquela ocasião, a ferramenta foi utilizada para confirmar a anulação de um gol a favor do Salgueiro, e posteriormente, foi sendo implementada de forma gradual em competições nacionais e internacionais, começando nas quartas de final da Copa do Brasil de 2018, pela CBF, e também nas quartas de final da Libertadores e Copa Sul-Americana do mesmo ano, pela CONMEBOL.
Com o passar do tempo, correções foram sendo feitas para melhorar o seu desempenho, e o VAR passou de uma novidade, para uma realidade do futebol brasileiro, se tornando cada vez mais protagonista em lances decisivos. Mesmo com o apoio da tecnologia, erros continuam recorrentes, gerando debates constantes a respeito da qualidade da arbitragem brasileira.
A tecnologia vista da arquibancada
A opinião dos torcedores a respeito do VAR é controversa, muito por conta das atuações confusas e polêmicas. Lucas Tardit, torcedor fanático do Vasco da Gama, deu a sua opinião a respeito:
"Na minha opinião, o futebol ficou mais justo, mas continua confuso. O VAR não deixou perfeito.
Para Lucas, além do VAR ter aparições confusas, a demora e a falta de transparência no momento da revisão, gera uma sensação de favorecimento a alguns clubes específicos.
"Quando é um lance claro, os torcedores entendem, mas normalmente falta clareza, e a demora para a revisão atrapalha o espetáculo, tanto no estádio, quanto na TV."
Um lance na partida entre Vasco x Internacional, pela 36ª rodada do campeonato brasileiro de 2020, foi citado pelo torcedor como a decisão mais errônea do árbitro de vídeo no futebol brasileiro. O lance em questão foi um gol marcado pelo volante colorado Rodrigo Dourado, em posição de impedimento. Naquela ocasião, o VAR estava descalibrado e não foi capaz de traçar as linhas para verificar se havia alguma irregularidade na jogada.

Lance que resultou na decisão polêmica no jogo entre Vasco x Internacional. Foto: Reprodução GE
No áudio do VAR divulgado pela CBF, percebe-se a dificuldade que os profissionais tiveram ao manejar as linhas, por conta do mau posicionamento das câmeras e pela falta de calibragem da ferramenta. Durante a conversa, o árbitro de vídeo (José Cláudio Rocha Filho) aponta onde a linha deve ser traçada:
"Nesse primeiro que você vai ter que botar a linha. Lá de cima. O primeiro de branco (Ricardo Graça)."
Na sequência, o operador de vídeo responde que não será possível traçar as linhas, por conta da sombra do campo na imagem:
"A linha não ficou boa porque a sombra atrapalhou, a gente não tem linha."
Quase 5 minutos após o início da revisão, o árbitro de vídeo afirma que o gol foi legal e a partida é reiniciada.
Para os torcedores, cada falha se transforma em combustível para teorias de favorecimento, perseguição ou manipulação. A desconfiança atinge níveis inéditos em algumas torcidas, que passaram a encarar o VAR não como um auxílio, mas como um elemento imprevisível no jogo, capaz de influenciar drasticamente resultados.
Futebol e saúde mental
A tensão gerada pelos erros do VAR não se limita ao campo. Ela transborda para as arquibancadas, repercute nas redes sociais, influencia comportamentos e afeta profundamente a saúde mental dos profissionais envolvidos.
As decisões controversas do VAR têm um impacto gigantesco na reputação dos profissionais que estão envolvidos com a tecnologia, na própria credibilidade da arbitragem no geral e nas competições que contam com a ferramenta. Por isso, muito se fala sobre saúde mental no futebol, principalmente quando se trata de uma função que lida com tanta pressão.
Nenhum elemento do futebol brasileiro impacta tanto as redes sociais quanto decisões do VAR. Cada revisão gera milhares de comentários, memes, acusações e discussões acaloradas. O torcedor, que já reagia emocionalmente a erros de arbitragem, hoje reage com intensidade ainda maior porque acredita que “a tecnologia não deveria errar”.
Thiago Ludugerio, árbitro CBF, falou um pouco sobre o tratamento que os profissionais da área recebem e como lidam com isso, dentro e fora de campo:
"O árbitro deveria ser julgado com mais respeito e empatia, as pessoas devem assumir as suas responsabilidades ao de querer achar os culpados."
Thiago falou também sobre a influência do VAR na interação entre jogadores, membros de comissão técnica e árbitros:
"Mesmo com o VAR, mudou pouca coisa. Ainda conseguimos enxergar jogadores e membros da comissão técnica proferindo palavras ostensivas e abusivas para a equipe de arbitragem. Deveríamos melhorar a nossa cultura e respeitar, colocar em prática o Fair Play e parar de querer burlar regras ou simular situações."
Há uma mudança importante na percepção pública: o erro humano, ainda que contestado, sempre fez parte do jogo; o erro tecnológico, por sua vez, é visto como injustificável. Isso gera uma cobrança que não existia há alguns anos e que recai diretamente sobre quem opera o sistema e quem depende dele para decidir.
A pressão invisível sobre os árbitros
O impacto psicológico dos erros e das reações dos torcedores é profundo e muitas vezes negligenciado. O árbitro brasileiro, que já convivia com ambientes hostis, agora enfrenta uma camada adicional de cobrança: seu trabalho passa por um sistema de vigilância constante, onde cada decisão pode ser analisada em câmera lenta, congelada, ampliada e debatida em tempo real por milhões de pessoas.
Quando o VAR funciona mal ou quando as imagens não são conclusivas, o árbitro fica exposto de forma ainda mais vulnerável. Ele precisa decidir rapidamente, muitas vezes sem o suporte que deveria ter. E qualquer decisão controversa se torna motivo para duras críticas, que podem afetar sua confiança, sua concentração e até sua segurança física.
É comum observar técnicos irritados à beira do campo, aguardando longas revisões, ou jogadores protestando veementemente após decisões controversas. A frustração não vem apenas do resultado final, mas da sensação de que o jogo perdeu fluidez e previsibilidade.
Treinadores reclamam de critérios diferentes entre jogos, enquanto atletas afirmam perder o ritmo quando a partida é interrompida repetidamente. A instabilidade do VAR cria um ambiente onde ninguém sabe exatamente o que esperar, e isso eleva a tensão psicológica dentro de campo.
A psicóloga Graziele dos Santos, especialista em clínica comportamental, afirma que, de fato, o estado psicológico desses profissionais é afetado pelas situações de pressão às quais eles estão sujeitos, além de que muitos deles podem utilizar da ferramenta como uma forma de "se proteger" de decisões polêmicas que possam gerar críticas a eles.
"É possível afirmar que sim, o estado psicológico dos profissionais pode ser afetado por esse mecanismo que visa auxiliá-los."
Graziele pontua também que situações de pressão geram dificuldades de concentração, o que acaba acarretando em erros. Por isso, é fato público e notório que os profissionais da área tenham acompanhamento psicológico disponibilizado pelas federações, ajudando assim na manutenção do futebol brasileiro.
Segundo ela, muitas federações já possuem esse tipo de apoio, e cada vez mais árbitros buscam essa ajuda para melhorar seu desempenho e, principalmente, sua qualidade de vida.
"Devido à pressão sofrida, as críticas constantes e as grandes exigências, a terapia tem tido uma grande procura para auxiliar esses profissionais. Inclusive existem federações que já contam com esse apoio, como a CBF, que tem psicólogos em seu plantel de profissionais."
Treinadores reclamam de critérios diferentes entre jogos, enquanto atletas afirmam perder o ritmo quando a partida é interrompida repetidamente. A instabilidade do VAR cria um ambiente onde ninguém sabe exatamente o que esperar, e isso eleva a tensão psicológica dentro de campo.
Enquanto o sistema não se torna realmente confiável, o futebol seguirá preso entre a expectativa da precisão e a realidade dos erros que continuam acontecendo, de forma humana ou tecnológica.
O VAR foi criado para trazer justiça ao futebol, mas hoje se tornou símbolo de uma crise maior: a dificuldade do esporte brasileiro em equilibrar inovação, responsabilidade e a complexa dimensão emocional que envolve o jogo, seus profissionais e seus torcedores.




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