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O METANOL ENTRE NÓS A ROTA INVISÍVEL DO VENENO QUE SE ESPALHA PELO RIO DE JANEIRO

  • Foto do escritor: Alunos UVA
    Alunos UVA
  • 1 de dez. de 2025
  • 7 min de leitura

Enquanto o Rio mantém seu hábito cultural de beber nas ruas, cresce também a circulação de destilados adulterados com metanol, um veneno transparente que denuncia um sistema de controle falho e ameaça transformar momentos de lazer em tragédias irreversíveis.


Por: Enrick Pêgas, Gabriel Martino


O Rio de Janeiro, essa cidade que parece pulsar em seu próprio ritmo, sempre viveu uma relação intensa com a rua. É na calçada, na laje, no campo de terra, no boteco de esquina que a vida acontece. Entre a fumaça da carne no churrasquinho, o som que ecoa dos carros, as conversas rápidas e os abraços calorosos, um copo de bebida muitas vezes acompanha a cena. Beber no Rio é gesto simples, familiar, cotidiano. É parte da linguagem da cidade.

Mas, nos últimos meses, algo invisível começou a se infiltrar nessa rotina tão comum. Um perigo transparente, silencioso, quase imperceptível, passou a dividir espaço com as celebrações. Ele se mistura ao líquido da garrafa sem alterar sua cor, sem alterar seu cheiro, sem dar ao paladar qualquer pista do que realmente é. E, por isso mesmo, tornou-se ainda mais assustador. Esse inimigo tem nome metanol.

O Ministério da Saúde divulgou no dia 19 de outubro o novo boletim sobre intoxicação por metanol após consumo de bebidas alcoólicas. O número de mortes subiu para 16 em todo o país. São agora 97 casos registrados, sendo 62 confirmados e 35 em investigação. No geral, 772 suspeitas foram descartadas.

Nunca deveria estar ali. Nunca deveria entrar em uma garrafa de destilado. Nunca deveria se aproximar de consumidores. Mas está presente e, ao mesmo tempo em que avança discretamente, deixa para trás rastros de cegueira, danos irreversíveis e mortes que poderiam ser evitadas.

Mulher observando bebidas alcoólicas no supermercado (fonte: Getty Images/BCC)
Mulher observando bebidas alcoólicas no supermercado (fonte: Getty Images/BCC)

Para compreender como isso vem acontecendo e por que o Rio se tornou terreno fértil para essa nova ameaça, ouvimos o clínico geral Dr. Daniel Lataste, que atua na AMA/UBS Vila Palmeiras, em São Paulo, mas que acompanha de perto o aumento dos casos em todo o país e analisa com atenção cada alerta que chega da capital fluminense. Seu olhar técnico e sua experiência tornam mais claras as engrenagens desse problema que cresce longe dos holofotes.

Ele explica que o metanol é um tipo de álcool produzido a partir do gás natural e totalmente importado no Brasil. Destina-se exclusivamente à indústria química solventes, adesivos, resinas, e afins. Não existe qualquer justificativa sanitária ou técnica para sua presença em bebidas alcoólicas. A simples detecção desse composto em uma garrafa é prova de adulteração criminosa.

A pergunta que surge, então, é inevitável, por que falsificadores começaram a usar metanol? A resposta, embora dura, é simples. O metanol é mais barato que o etanol. É incolor, inodoro e silencioso não denuncia sua existência. Para quem frauda garrafas com fins lucrativos, ele é uma espécie de atalho perverso. Aumenta o volume do produto, simula maior teor alcoólico e reduz drasticamente os custos da fabricação clandestina. E tudo isso passa despercebido para o consumidor que não tem como notar, nem mesmo se observar cor, cheiro, sabor ou aparência da garrafa.

A Polícia Civil de Campinas encontrou no dia 09 de outubro, mais de mil garrafas vazias e outras 100 com bebidas destiladas falsificadas, o que chamou a atenção das autoridades o fato de terem encontrado marcas caras, cujo valor de uma garrafa original chega a R$800, sendo vendida por R$ 120.

bebidas alcoólicas em um bar (fonte: Getty Images/BCC)
bebidas alcoólicas em um bar (fonte: Getty Images/BCC)

Mas o que o metanol faz dentro do corpo humano está muito além de qualquer noção de “bebida ruim”. O Dr. Lataste explica que os metabólitos do metanol o formaldeído e, posteriormente, o ácido fórmico se impregnam nos tecidos de alta demanda energética. O alvo mais vulnerável é o nervo óptico. Em seguida, fígado e rins. O ácido fórmico bloqueia a produção de energia pelos órgãos, provocando lesões severas que, muitas vezes, não podem ser revertidas. E o mais traiçoeiro, tudo isso ocorre sem sinais imediatos.

A pessoa bebe, conversa, ri, dança, vive a noite normalmente. Pode inclusive dormir acreditando estar apenas “molhando o bico” a mais. E, ao amanhecer, algo começa a mudar. A visão embaça. A luz parece forte demais. As linhas dos objetos se desfazem. Uma névoa cobre o campo visual. Em alguns casos, surgem dores abdominais intensas, vômitos, tontura. Em outros, uma sonolência profunda, uma confusão mental que impede até mesmo de pedir ajuda.

A manifestação dos sintomas costuma acontecer entre doze e vinte e quatro horas depois. Em alguns casos, até setenta e duas horas após a ingestão. Esse intervalo longo confunde vítimas, familiares e até profissionais de saúde e dificulta, de forma brutal, a chance de salvar quem está intoxicado.

O Rio de Janeiro, com sua vastidão territorial e sua convivência constante com o comércio informal, tornou-se terreno especialmente vulnerável à circulação dessas bebidas adulteradas. A cada esquina, é possível encontrar garrafas sendo vendidas a preços baixos demais. Em Madureira, ambulantes oferecem destilados em sacolas térmicas. Nas festas do Complexo do Alemão, copos de bebida são servidos sem que se saiba de onde vieram. No Centro, garrafas falsificadas aparecem misturadas a produtos legítimos em distribuidoras que fingem não saber a origem do estoque.

No Rio de Janeiro tiveram estabelecimentos visitados desde, 2/10, oito foram interditados total ou parcialmente por falta de asseio, não conformidades sanitárias e produtos impróprios para o consumo. Foram expedidos autos de infração por bebidas, alimentos e outros itens sem identificação adequada, condições de higiene insatisfatórias e não conformidades administrativas. Mais de 100 litros de cachaça e cerca de 180 garrafas de bebidas sem procedência, com identificação inadequada ou rotulagem ilegível foram apreendidos ou inutilizados, bem como 50 litros de chope com prazo de validade expirado, segundo a prefeitura do estado.

O calor carioca, que pede uma cerveja gelada no fim do expediente, combina também com o hábito de dividir garrafas de destilado em roda de amigos. E é exatamente nesse cenário de descontração que o veneno se infiltra.

Mas a intoxicação por metanol não encontra apenas vítimas desprevenidas. Ela encontra também um sistema de saúde despreparado. O Dr. Lataste ressalta que esse tipo de quadro não era comum no Brasil, o que significa que hospitais e unidades básicas não tinham protocolos consolidados, nem experiência suficiente, nem insumos adequados para lidar com a crise.

O antídoto mais eficiente o fomepizol não é produzido no país. A alternativa disponível, o etanol intravenoso, precisa de monitoramento rigoroso e não oferece a mesma eficácia. Já a hemodiálise, essencial para remover os produtos tóxicos do sangue em tempo hábil, nem sempre é acessível nas primeiras horas. Muitas unidades públicas do Rio não têm o equipamento disponível imediatamente, e o traslado de pacientes agrava ainda mais o quadro.

Na prática, quando uma pessoa chega ao hospital com suspeita de intoxicação por metanol, as equipes precisam agir rapidamente para estabilizar sinais vitais, corrigir distúrbios metabólicos, realizar exames laboratoriais e iniciar o tratamento adequado mesmo sem a confirmação imediata. Mas, muitas vezes, quando o paciente procura ajuda, o veneno já percorreu seu caminho destrutivo.

Pessoa interna no hospital segurando a mão de pessoa próxima (fonte: Getty Images/BCC)
Pessoa interna no hospital segurando a mão de pessoa próxima (fonte: Getty Images/BCC)

A travessia entre o primeiro gole e o hospital costuma ser marcada por incerteza. Quem bebe não imagina que está ingerindo algo além de álcool. Quem observa de fora não reconhecer sinais de intoxicação específica. Os sintomas iniciais se confundem com os de uma ressaca forte. E, quando o estranhamento surge, já é tarde.

É nesse ponto que o Rio se torna também o retrato de uma falha maior. A circulação de metanol expõe a fragilidade da fiscalização. Mostra que o controle sobre produtos químicos é insuficiente. Que a importação não é monitorada como deveria. Que distribuidoras clandestinas conseguem operar sem grande risco. Que garrafas falsificadas atravessam bairros inteiros sem chamar a atenção das autoridades. Mostra também que a população carece de informação e, na falta dela, se torna presa fácil para um mercado que cresce nas sombras.

Essa mesma informalidade, que faz parte da sobrevivência de tantos no Rio, abre espaço para riscos graves. Em regiões economicamente vulneráveis, a busca por preços mais baixos é compreensível, mas se transforma em armadilha. Uma garrafa vendida por metade do preço habitualmente pode esconder uma fraude que custará a visão ou a vida.

A violência silenciosa do metanol é diferente das ameaças mais comuns da cidade. Não tem estampido, não tem aviso, não tem rosto. Age escondida, camuflada na aparência inocente de uma bebida comum.

Enquanto isso, o impacto se espalha: famílias abaladas, vítimas que perdem a visão permanentemente, hospitais sobrecarregados e profissionais lidando com um quadro complexo, para o qual não receberam formação específica.

O Dr. Lataste ressalta que, para conter esse avanço, é necessário muito mais do que alertas individuais. É preciso que a ANP, a Polícia Federal e os órgãos de vigilância sanitária ampliem o controle da entrada e distribuição do metanol. É preciso cruzamento rigoroso de notas fiscais, inspeções constantes, monitoramento de estoques suspeitos e punição eficaz aos responsáveis pela adulteração.

Mas, enquanto isso não acontece com a intensidade necessária, a população fica encarregada de se proteger como pode.

Desconfiar de garrafas com preço baixo demais. Verificar rótulos, lacres e embalagens. Preferir estabelecimentos conhecidos. Exigir que a garrafa seja aberta na sua frente. Evitar destilados de procedência desconhecida em festas de rua. Parece pouco diante de um problema tão estrutural, mas pode significar a diferença entre segurança e tragédia.

Mesmo com todos esses cuidados, permanece uma sensação angustiante a de que o metanol revela algo mais profundo sobre o Rio uma vulnerabilidade que se espalha pela cidade junto com o veneno. Ele mostra como a ausência do Estado deixa brechas para riscos que crescem à sombra. Mostra como a desigualdade empurra moradores para escolhas baratas e perigosas. Mostra como o improviso, tão característico da cidade, pode ser explorado por criminosos.

E, ao final, mostra também que cada gole compartilhado no Rio esse gesto tão simples e tão nosso agora carrega uma ameaça invisível.

A pergunta que ecoa ao término dessa investigação permanece como alerta: quantos ainda precisarão adoecer ou morrer até que essa rota clandestina do metanol seja interrompida?

Até que essa resposta chegue, o veneno segue circulando, silencioso e implacável, infiltrado nas esquinas e nos encontros do Rio roubando, sem alarde, aquilo que ninguém deveria perder por um simples gole: a visão, a saúde, a vida.

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