top of page

O lifestyle conservador como tendência na Geração Z

  • Foto do escritor: Alunos UVA
    Alunos UVA
  • 1 de dez. de 2025
  • 11 min de leitura

Uma análise sobre o novo comportamento  “conservador” dos jovens moldados pelas redes sociais


Por Julia Rabaça e Rebeca Mannarino


	Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

“Um dia ordinário da minha rotina é acordar às 4:30 da manhã, faço meu devocional, meu supercoffee e faço meu exercício físico” isso foi o que a influenciadora e empresária Manu Cit, de 21 anos, descreveu sobre sua rotina em entrevista ao podcast Medbox Cast. Sim, apenas 21 anos! Clique aqui para conferir o corte.

Ao contrário do que pareceu até agora, essa matéria não é sobre a Manu Cit e muito menos sobre influenciadores famosos, o ponto é: que tipos de comportamentos a nossa juventude vem tomando?

Para entender sobre isso vamos começar voltando no tempo… década de 60/70 e babyboomers! A geração pós Segunda Guerra, conhecida como “sexo, drogas e rock n roll” estava no contexto da ditadura militar no Brasil. Uma época marcada por uma juventude rebelde, de forte opinião, posicionamentos extremistas e lutas por causas como feminismo e a comunidade LGBT+, ou seja, uma verdadeira confronta ao governo conservador. 

Reprodução: Selzy Blog
Reprodução: Selzy Blog

Isso tudo ficou muito claro na música. Os artistas lutavam contra a censura e tentavam ao máximo colocar mensagens implícitas em suas letras para que não fossem barradas. Há rumores de que a música “Macarrão com linguiça e pimentão” da cantora e compositora Rita Lee é um exemplo disso, já que durante a ditadura matérias jornalísticas censuradas perdiam seus lugares para receitas.

Capa do ábum da música "Macarrão com Linguiça e Pimentão" de Rita Lee
Capa do ábum da música "Macarrão com Linguiça e Pimentão" de Rita Lee

Resumindo, muitos locais de fala, vozes e causas foram conquistadas ou ao menos visualizadas pela sociedade devido ao posicionamento “liberal”, muitas vezes com comportamentos prejudiciais à saúde (como o surto de AIDS) e realmente chocante em vista ao cenário da época.


          Trazendo agora para um cenário atual temos a Geração Z, que é o grupo de pessoas nascidas entre 1995 e 2010, ou seja, após o advento e popularização da internet. Se fizermos uma breve análise do meio digital, influenciadores como a própria Manu Cit apresentam uma realidade de vida e comportamentos que têm se tornado o sonho ou até mesmo meta de muitos jovens e adolescentes. 

Para compreender essa tendência, a primeira evidência comprovada são os dados obtidos pelo Relatório Covitel em 2023 sobre os hábitos de consumo dos brasileiros. De acordo com a pesquisa divulgada pela Exame,a parcela de jovens entre 18 e 24 anos que consomem álcool três ou mais vezes por semana caiu de 10,7%, antes da pandemia de COVID-19, para 8,1% em 2023. Em comparação, na faixa de 45 a 54 anos, 9,1% dessa população tem o hábito de consumo de bebidas alcoólicas”. 


Reprodução: CISA - Centre de Informações Sobre Saúde
Reprodução: CISA - Centre de Informações Sobre Saúde

Uma vez que o consumo de álcool diminui, as saídas noturnas acompanham esses números. Em uma entrevista do G1 o empresário Junior Passini, sócio do Bar Alto em São Paulo que faz festas antes da meia noite, relata: “As pessoas estão buscando uma vida mais equilibrada. Os nutricionistas falam para, se for consumir chocolate, escolher um com 70% de cacau. A mesma coisa funciona para a cerveja.” 


Você já entendeu que a Gen Z é mais caseira, evita hábitos prejudiciais à saúde e busca um estilo de vida mais saudável, mas você já se questionou como essa tendência de comportamento se tornou um tanto quanto performática? Sim, performática! Seguindo essa linha de raciocínio vamos imaginar o conceito de “vida perfeita” apresentada nas redes: acordar 5 da matina, frequentar a academia, ter uma alimentação saudável e sem deslizes, não ingerir bebidas alcoólicas, ter uma saúde mental equilibrada, ter tempo para um hobby, ter tempo para um hobby saudável (de preferência corrida), ser bem sucedido profissionalmente o mais rápido possível, aparentar ter relacionamentos perfeitos e finalmente dormir 8 horas por noite. Ufa! Talvez depois dessa lista você encare esse conceito de perfeição como impossível e esse é justamente o ponto! Como um jovem na faixa dos 20 anos conseguiria dar conta de tantas coisas? Certamente uma ou até mesmo algumas delas teriam que ser abdicadas. Dito isso, não é um tanto estranho ver tantos influenciadores que compartilham esse estereótipo de vida?

  Portanto, isso quer dizer que é como se os jovens vivessem de aparências ou até mesmo “atuando” o tempo todo, já que é impossível seguir o ideal de vida imposto pelas redes. A psicóloga de jovens e adolescentes Cristina Cordeiro encara o assunto da seguinte forma: “entendo que o sentimento de pertencimento anda muito colado à ideia de performar e que é fácil considerar o comportamento online como radiante, glamuroso e enriquecedor, mas não é tão real como gostaríamos”. A profissional lida com essa tendência comportamental da juventude diariamente e afirma que a busca pelo equilíbrio e o senso crítico é a solução “mesmo sabendo que é um equilíbrio que exige constante vigilância e atenção, os jovens que conseguem normalizar que nem tudo online é bom, é saudável, é verdadeiro, é possível ou é correto em termos de leis podem ter um convívio salutar com as redes sociais, [...] cabe à sociedade e principalmente aos jovens, interiorizam a necessidade de criticar, revisar e atentar para o nível de critério e propósito das postagens disponíveis. “

Agora, a pergunta que não quer calar é: quando começou esse posicionamento?



O quanto a pandemia afetou a construção da identidade dos jovens?


No começo de 2020, muitos jovens acordavam, ligavam o notebook para mais uma aula online e passavam o resto do dia navegando entre feeds, lives e grupos no Discord, tudo isso sem sair do quarto. O mundo havia se resumido a uma tela de celular ou de computador. Não é novidade que a pandemia do Covid-19 foi um momento crucial para o mundo inteiro, mas também foi um momento de virada de chave para a construção da identidade da geração Z. De um dia para o outro, adolescentes e jovens adultos foram arrancados de suas convivências sociais, escolas e rotinas que moldavam sua noção de mundo, e a partir daí tiveram que buscar reconstruir tudo sozinhos.

Esse isolamento prolongado acabou intensificando a relação com a internet, uma vez que passavam a maior parte dos dias imersivos no mundo digital como uma forma de escape da realidade caótica que o mundo estava presenciando. Em um levantamento com estudantes feito pela News Medical Life Science , foi apontado que cerca de 25% dos participantes usavam a internet por mais de 8 horas por dia durante a pandemia. O número ajuda a explicar por que a internet deixou de ser apenas um entretenimento e se tornou o principal ambiente de convivência e futuramente ansiedade, para essa geração. 


Reprodução: Agência IBGE
Reprodução: Agência IBGE

Ansiedade, sensação de incerteza e busca por estabilidade tornaram-se experiências comuns, devido ao uso excessivo das redes sociais, levando muitos a procurar referências mais sólidas, sejam elas religiosas, familiares ou ideológicas. Privados da convivência, acabaram surgindo novas maneiras de performar a identidade, experimentar estilos de vida e versões de si mesmos online, testando os famosos “aesthetics” , que são estilos de vidas e hábitos específicos e pertencem a comunidades apenas pela tela. Segundo a CNN Brasil, foi identificado que quanto maior o tempo online e mais indicadores de dependência de internet (“internet addiction”), maior a probabilidade de níveis altos de ansiedade. News-Medical. 

“Antes da pandemia eu era muito mais extrovertida e sociável, depois disso eu senti muita dificuldade de me reconectar com as pessoas.” Essa é a fala da estudante de marketing e dançarina, Julia Couto, que assim como muitos jovens, ainda lida com os efeitos colaterais de superar um momento pandêmico. A estudante declara que se sentiu deslocada, ansiosa e dependente do celular para manter relacionamentos, mas também afirma que por ficar muito tempo confinada dentro de casa, se envolveu em diversos hobbies para se exercitar, foi onde começou a se apaixonar pela dança e a querer ser uma dançarina profissional paralelo com seus estudos, “A única coisa boa que a pandemia trouxe pra minha vida foi a paixão pela dança, que eu carrego comigo até hoje.”


Reprodução: Júlia Couto, 20 anos.
Reprodução: Júlia Couto, 20 anos.

Muitos jovens assim como a estudante Julia, mergulharam de cabeça em hobbies que nunca haviam tentado antes, justamente por estarem longe da sociedade acabou sendo mais fácil lidar com as opiniões e críticas onlines. Música, leitura, culinária, moda, fitness e espiritualidade acabaram se tornando interesses marcadores identitários. Em meio ao isolamento, eles ajudam jovens a reencontrar um senso de si mesmos,  a respirar um pouco melhor e a se sentir menos sozinhos diante de um mundo cada vez mais julgador.



Acessibilidade Digital vs. Pressão Estética das Redes Sociais


Após essa contextualização você pode ter adquirido uma nova percepção da Geração Z ou até mesmo estar mais atento às suas redes para identificar essa tendência. Agora, como esse fenômeno tomou proporções maiores do que qualquer um esperava? 

De acordo com dados divulgados pelo IBGE da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) em 2024, aproximadamente 168 milhões de pessoas no Brasil, ou seja, 89,1% da população têm acesso à internet. Já o acesso domiciliar está em 93,6% dos lares nacionais, o que soma 74,9 milhões de residências. Em contraponto, uma pesquisa realizada em 2005 pelo Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) registrou que, naquele ano, apenas 12,93% dos lares brasileiros tinham acesso à internet. Comparando essas duas pesquisas é possível perceber a mudança abrupta de cenário em relação ao mundo digital no Brasil. A democratização das redes fez com que distâncias diminuíssem, informações se dissipassem mais rápido e pela primeira vez na história surge o conceito de consumidor ativo, onde qualquer usuário é capaz de produzir informação. 

Com a popularização da internet consequentemente aumentou o acesso às redes sociais e talvez por esse motivo existem tantos jovens infectados pelos padrões estéticos e comportamentais que abordamos. Lidar com o Instagram ou TikTok se tornou um trabalho para muitos e quem pode nos falar sobre os desafios de conviver nesse meio é a influenciadora digital e profissional de educação física Rafaela Payne . Ela afirma que as redes criam um senso negativo de urgência aos consumidores ao se compararem com padrões de beleza que se renovam constantemente, “essa presença de conteúdo fitness no meio digital pode ser positivo para informar as pessoas, mas negativo se pensarmos, por exemplo, no profissional de educação física e nutricionistas já que muitos acabam achando desnecessário o acompanhamento profissional por ter ‘tudo’ na internet”. 


Reprodução: Rafaela Payne, 26 anos.
Reprodução: Rafaela Payne, 26 anos.

A influenciadora também ressalta o desafio de agradar o público que não aparenta aderir conteúdos de uma “vida real” e como a busca pelo equilíbrio é seu principal objetivo, “o que eu acho mais difícil é porque as pessoas escolhem o que mostrar na internet, nem tudo é real e nem tudo é exposto. As redes sociais se tornaram um ambiente muito profissional então a maioria não apresenta mais o lado pessoal.  Manter uma rotina saudável depende não só do seu físico mas também da saúde mental e como esse lado pessoal não é mais apresentado a gente acaba não vendo mais a realidade das pessoas”. 

    A acessibilidade digital leva muitos consumidores a um senso de suficiência informacional, ou seja, é como se a informação rápida que adquirimos em apenas alguns cliques fosse absoluta e suficiente, o que leva a construção desses padrões estéticos com “receitas prontas” de como alcançá-los. Isto é, fichas de treino milagrosas que prometem mudar seu corpo, guias alimentares de como acabar com a retenção em uma semana ou até mesmo três hábitos que vão te tornar mais produtivo em poucos dias… todo esse conhecimento “rápido” pode até não ser descartável mas é necessário um senso crítico e de apuração para entender a importância de buscar informação em outras fontes, como por exemplo, profissionais da área como a Rafaela.



A saúde é o novo símbolo de status 


“Pra Geração Z beber virou coisa de velho” Pois é, depois de muito tempo os considerados símbolos de status como carro dos sonhos, casa perfeita e viagens como experiências de luxo, agora deram espaço para o novo emblema de prestígio que é cuidar da saúde e do bem estar, de acordo com o vídeo publicado pela especialista em Marketing Estratégico e Inteligência Artificial no Brasil, Camila Renaux. Clique aqui para conferir o vídeo!

 Academia Velocity. Foto: Divulgação
Academia Velocity. Foto: Divulgação

Grupos de corridas além de serem exercícios físicos, se tornaram uma espécie de novo aplicativo de namoro, as baladas e a bebedeira foram substituídos por baladas diurnas, e academias diferenciadas como a Academia Velocity foi a mais nova criação de diversão consciente, sendo considerada a balada dos adultos, onde existe diversão mas o cuidado com o bem estar vem em primeiro lugar. 


Esses são só alguns meios de diversão saudável que a geração Z vem adotando para melhorar a qualidade de vida e se divertir sem prejudicar a saúde, mas até que ponto todas essas mudanças são exclusivamente para cuidar só da saúde? Quem percebe essa mudança de perto é João Luis Rabaça, estudante de nutrição da Universidade Veiga de Almeida, na Barra da Tijuca. Ele diz que a saúde deixou de ser só a ausência de doença e virou um ideal performático. “Foi criada a ideia de que é fácil ter uma vida saudável, como se dependesse só de força de vontade, quando envolve fatores sociais e econômicos”, afirma o estudante. Segundo ele, as redes sociais são responsáveis por ampliar esse cenário ao transformar hábitos saudáveis em conteúdo, “treinos pesados e dietas perfeitas aparecem mais como uma exibição do que uma prática contínua”. Dentro da própria área, ele sente a pressão por “ser exemplo” e o medo constante de parecer incoerente caso não corresponda ao padrão estético da profissão.


Reprodução: João Luis Rabaça, 19 anos
Reprodução: João Luis Rabaça, 19 anos

Agora que nós já falamos sobre como as redes sociais têm o poder de influenciar diretamente a saúde física e mental dos jovens, também precisamos abordar a fonte, por onde se sentem inspirados? Uma matéria feita pela CNN Brasil, afirma que o TikTok é a rede social mais usada por crianças e adolescentes de 9 a 17 anos. A rede ficou famosa pelos seus vídeos curtos sobre diversos conteúdos, sendo um grande palco para os influenciadores compartilharem suas rotinas, hobbies e pensamentos. 



O vídeo da youtuber Marcela Carrasco aborda sobre como o TikTok vem moldando uma faceta mais “careta” da Geração Z, marcada por padrões de comportamentos conservadores e pelo afastamento da cultura de baladas. A análise declara que muitos jovens estão abandonando a vida noturna, optando por uma rotina mais contida e com foco em valores tradicionais. 

A estética “tradwife” (esposa tradicional) se popularizou na plataforma com vídeos de mulheres cozinhando, limpando, cuidando da casa usando vestidos vintages, cultivando uma imagem de tempo desacelerado e desencadeando mais uma nova tendência. O algoritmo do TikTok assim como em outras redes sociais tende a reforçar bolhas ideológicas, buscando entender o que o espectador gosta de consumir e entregando mais conteúdos do mesmo. E diferente de outras redes como Instagram, Twitter ou Facebook, o TikTok direciona o conteúdo quase 100% pelo comportamento individual, não por rede de contatos, fazendo as pessoas acreditarem que as tendências estão dominando o mundo, quando na verdade estão dominando a sua bolha. 

A aba “Para Você" funciona como uma vitrine personalizada, que muda a cada segundo de acordo com o conteúdo que você consome. É assim que nichos ganham escala em poucas semanas, primeiro um punhado de vídeos, depois pequenas comunidades, e logo uma tendência que parece onipresente. E foi justamente nesse terreno que o chamado lifestyle conservador encontrou o espaço perfeito para florescer.


Já que você analisou dados, assistiu vídeos e leu depoimentos, talvez sua percepção sobre a geração Z tenha mudado e agora você enxerga ela como conservadora-performática. O intuito de tudo isso não é influenciar sua opinião mas sim apresentar uma tendência com base em dados e entrevistas profissionais e a partir disso você ser capaz de desenvolver um senso crítico. Estar atento às novas gerações é estar atento ao nosso futuro e para isso precisamos entender a linha do tempo que culminou no cenário atual, ou seja, exatamente o que você acompanhou durante esse texto.

Agora o questionamento que fica é: será que as próximas gerações seguirão esse caminho? ou virão de forma disruptiva confrontando a Gen Z? ou será que a própria juventude atual vai sustentar essa tendência pelo resto de suas vidas? Bom, isso o tempo dirá ou quem sabe nós mesmos aqui no blog Entre Linhas. 



Comentários


LOGO Entrelinhas.png

 

© 2025 Entrelinhas por Laura Gomes. Todos os direitos reservados.

 

Você gostaria de receber as atualizações do Entrelinhas?

Universidade Veiga de Almeida

R. Ibituruna, 108 - Maracanã, Rio de Janeiro - RJ

Av. Gen. Felicíssimo Cardoso, 500 - Bloco A - Barra da Tijuca, Rio de Janeiro - RJ

  • Instagram
bottom of page