O impacto social do futebol nas favelas cariocas
- Alunos UVA

- 28 de nov. de 2025
- 10 min de leitura
Como o futebol se tornou abrigo, esperança e linha de sobrevivência para quem cresce nas favelas do Rio
Por: Carlos Batista e Pedro Joaquim

Às terças e quintas, pouco antes do sol se esconder atrás das lajes da favela, Lorrane Anastacio, ajeita a mochila do filho Igor, confere se a garrafinha está cheia e caminha com ele até o campo onde o projeto social realiza seus treinos. É uma rotina simples, quase silenciosa, mas carrega diversos significados. Para ela, cada passo nesse trajeto é uma escolha de manter seu filho perto do esporte, da disciplina, da convivência e longe das tentações que rondam quem cresce nesse ambiente.
Lorrane sabe que para seu filho ser um jogador profissional de futebol não basta apenas ter talento. Ela já ouviu histórias de meninos que tentaram, insistiram, brilharam, mas não chegaram lá. Sabe que apenas uma minoria rompe essa barreira, e que o futebol, para a maioria, não é um caminho para a fama e o dinheiro, mas uma escola da vida. E é justamente por isso que ela está ali toda terça e quinta, porque acredita que o futebol pode ensinar o que nem sempre se aprende na escola, na rua ou na internet.
Enquanto Igor corre pelo campo, Lorrane observa e o enxerga aprendendo a dividir, respeitar, lidar com frustrações e construir laços. Naquele espaço, o futebol deixa de ser caminho para a profissionalização e vira formação, cidadania e proteção, uma barreira invisível contra o crime que tenta alcançar tantos jovens da favela.
Em uma realidade onde os desafios são grandes e os caminhos seguros são poucos, o futebol comunitário emerge não como fábrica de craques, mas como fábrica de gente. Aqui, o jogo é outro e é nele que muitas mães depositam sua fé todos os dias.
Serginho: o treinador que movimenta vidas
Enquanto Lorrane observa Igor correr, há no Complexo da Maré quem trabalhe há décadas para que histórias como a dele existam.
Serginho.

Treinador há mais de 25 anos, é conhecido por muito mais do que ensinar futebol. Ele é conselheiro, figura paterna para quem não tem pai, porto seguro de quem chega perdido.
Serginho reforça sempre o mesmo ponto: futebol não é só para formar atletas, mas cidadãos. “O futebol salva muitas vidas”, diz. Ele cobra notas, respeito, postura dentro e fora de casa.
Todas as crianças querem ser jogadores profissionais, inspiradas por Vinicius Júnior, Rodrygo, Estevão. Mas ele sabe e explica que poucos chegam.
“Se não for jogador, vai ser um cidadão respeitado. Pode ser doutor, advogado ou professor igual ao tio. O importante é ser alguém.”
Para ele, o maior talento não é só quem dribla bem, mas quem acredita que pode ter um futuro. O foco é tirar as crianças da influência do crime, para que da favela saiam mais profissionais e não estatísticas.
Diversos estudos, como os do Instituto BH Futuro, reforçam isso: o esporte é ferramenta transformadora que rompe ciclos de violência e exclusão. Em contextos vulneráveis, o futebol se torna resistência. Ensina disciplina, liderança, resiliência, respeito e ainda ajuda a saúde mental. Na favela, esporte é refúgio em meio ao caos.
Um refúgio em meio ao caos
O campo, a quadra e a rua são palcos dos jogos que marcam gerações nas comunidades. Ali, futebol é sinônimo de fuga, proteção e alegria possível.
Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o Brasil registrou 6.243 mortes em decorrência de intervenções de policiais militares e civis da ativa, uma média de 17 óbitos por dia. Deste número, 703 foram no Rio de Janeiro, uma média de 1,9 mortes diária. Ou seja, o número de óbitos no estado do Rio de Janeiro representa 11,26% do total em todo o país, e 11,18% das mortes diárias.

Os números escancaram o perigo cotidiano nas comunidades do Rio. E, diante desse cenário, o professor de Educação Física e editor do portal Ludopédio, Sérgio Settani Giglio, reforça o papel fundamental do esporte no meio desse caos.
“O brincar ainda existe na comunidade e ele passa pelo futebol. Para esses meninos, a quadra, o campinho improvisado, qualquer espaço adaptado para a bola rolar viram o grande momento de lazer do dia.”
Campos, times, ou mesmo escolinhas de futebol surgem como uma segunda escola onde se encontram pequenos aspectos que emulam as vivências cotidianas, e que ensinam desde cedo que, a derrota pode ser tão presente quanto a vitória. “Considero que isso seja um estímulo fundamental, não só pensando numa questão de que lá vão ter que sair esses jogadores, esses talentos, não”
A bola é o melhor brinquedo do mundo
A bola de futebol é um brinquedo que muda vidas, transforma famílias e cria memórias. No contexto das comunidades do Rio de Janeiro, onde se vê traficantes portando fuzis pelas vielas, chutar uma bola de futebol é um ato de resistência, é a brincadeira que traz alegria a vida, momento para esquecer dos problemas. Paulinho é um exemplo disso, criador da marca “A bola é o melhor brinquedo do mundo” jogou futebol a vida inteira e almejava se tornar jogador.

O que parecia ser apenas uma distração de momento, o futebol mudou o rumo de Paulinho.
“A bola salvou minha vida, me levou a lugares que eu jamais imaginei estar"
Com 13 anos o sonho de se tornar um jogador profissional entrou em sua vida, e a brincadeira passava a se tornar séria.
O caminho, é como o de muitos que desde cedo começaram a perseguir o sonho. Aos 14 anos Paulinho teve que sair de casa para morar em Olaria, recebia ajuda de muitos ao seu redor, inclusive seu padrinho, que em muitos momentos o abrigou em sua casa.
O empresário chegou a catar papelão, vidro, ferro e até pulava muro para pegar cobre, vender e pagar sua passagem para os treinos. Ele fala também sobre o preconceito que sofreu por sua ambição em se tornar jogador de futebol. “Quem jogava bola antigamente era vagabundo, hoje todo mundo quer ser jogador”. Os momentos no Olaria foram de muita dificuldade. “Passei muita fome, muita dificuldade, lá no Olaria era uma comida só por dia”.
Hoje, Paulinho vive em Copacabana com seu projeto que conta com a parceria de Ronaldinho Gaúcho. Deixa claro sua gratidão pelas pessoas que o ajudaram, e também pelo futebol, que o manteve afastado da criminalidade. O brinquedo salvou sua vida.
Do campo de areia ao Maracanã
O ponto abordado ao longo da reportagem foi o futebol sendo uma forma de resistência, um caminho a ser percorrido, principalmente por crianças, para a formação de cidadãos, sendo um ou outro virando jogador. Sim, há exemplos de jogadores que saíram de comunidades como o Léo, que saiu do Nova Iguaçu direto para seu time do coração, o Flamengo.
Quando Léo fala da própria infância, é como se voltasse no tempo com nitidez. Os campos de areia espalhados pela Maré, a divisão entre Nova Holanda e Baixa do Sapateiro, os meninos correndo descalços atrás da bola como quem corre atrás de um sonho possível e talvez do único sonho disponível. “O Paulinho dizia que a bola era o melhor brinquedo do mundo”, lembra. E era mesmo. No campo da Paty, onde tudo começou para ele, não havia estrutura, chuteira nova, treinador profissional ou promessa de futuro mas havia muita vontade.
Foi ali, naquele campinho improvisado, que Léo se destacou entre dezenas de meninos. Sem entender direito como, só sabia que o olhar dos adultos parava nele por um segundo a mais. Até que veio a primeira porta aberta: o São Cristóvão. Para um “moleque” da favela nos anos 90, isso era como atravessar um portal. Um passo pequeno para o futebol profissional, mas enorme para quem cresceu entre campos de areia e tiroteios que interrompiam não só as aulas mas também as vidas daqueles que ali moravam.
Mas o sonho, ele diz, nasceu antes. Nasceu quando o avô flamenguista o levava ao Maracanã e dizia, sem dúvida nenhuma:
“Um dia vou ver meu neto jogar no Flamengo.”
A frase virou destino. Léo carregou aquilo como promessa e usou como combustível. Ainda garoto, atravessava a favela atrás de treinos. Chegou a fazer cinco baterias de teste no núcleo do Flamengo na Maré, em quatro ele passou. Na quinta, foi cortado antes mesmo de trocar de roupa. “Começaram a chegar os meninos dos carrões… da chuteira bonita.” Ele volta a essa memória com um suspiro que mistura dor e lucidez, o talento nunca foi o único critério.
Mesmo assim, ele seguiu. Aos 14 anos, resolveu sair de casa sozinho pela primeira vez para tentar a sorte no Sul. A mãe, com um aperto no peito que só mãe entende, perguntou se realmente era aquilo que ele queria. Era. E deixou ele ir.
“Que Deus lhe abençoe, meu filho”.
Léo diz que foi ali que aprendeu a ser homem, nas viagens de ônibus, nas casas improvisadas, nas refeições de arroz, feijão e alface, na solidão que acompanha quem tenta o dito impossível.
Teve também a queda mais dura. Léo chegou a assinar com o Santos, em 2004, por dois anos, ligou para a mãe dizendo “nossa vida vai mudar”, e viu seu contrato ser engavetado, porque outros garotos da base tinham empresários influentes. Disse que foi um dos momentos que mais teve dificuldade, onde realmente pensou em desistir. “Ali eu quis parar. O futebol estava sujo demais para mim” - disse. Foi seu empresário quem o segurou pela mão e o trouxe de volta ao sonho.
E então, chega 2006.
O Flamengo.
A camisa rubro-negra.
A estreia.
No dia do aniversário da mãe.
Realizando o sonho do avô, justamente no ano em que ele viria a falecer.
“Posso chegar aos 70 anos… eu vou lembrar desse dia”, diz Léo, arrepiado ao ser perguntado e com um brilho no olhar que simboliza gratidão. Naquele 5 de abril, ele realizou três sonhos de uma vez: o seu, o da mãe e o de um avô que já sabia antes de todo mundo.
Meses depois, veio o título da Copa do Brasil. O Maracanã lotado. A volta olímpica. O nome marcado na história. “Eu frequentava o Maracanã em 2004, 2005… e em 2006 eu estava lá dentro.” Para quem cresceu driblando buracos de areia e fugindo de bala perdida, isso não é só carreira. É sobrevivência.

Hoje, afastado dos gramados profissionais, Léo continua trabalhando com futebol. Treina crianças, orienta jovens, tenta segurar pelo braço aqueles que já começam a ser puxados por outros caminhos. Ele enxerga nos meninos da comunidade a mesma chama que tinha, mas também os mesmos riscos, multiplicados. “O problema não é só sonho demais, é sonho de menos.” Cita a sedução das redes sociais, da “vida fácil”, da arma que brilha mais do que um chute no ângulo.
Léo fala com propriedade de quem viveu tudo. Ele diz que o futebol ensina caráter porque tira e dá na mesma proporção. “É um viaduto, um dia você está em cima, no outro embaixo.” Ele aprendeu a cair, mas também aprendeu a levantar.
Quando questionado sobre o que o futebol representa na sua vida, não hesita.
“Tudo”
Porque não foi apenas o esporte que o transformou. Foi a chance de sair vivo. De ver o mundo. De voltar para casa como exemplo.
A trajetória de Léo não cabe apenas nos 90 minutos de um jogo ou em uma ficha de atleta.É a prova viva de que, nas favelas cariocas, o futebol nunca é só futebol.Às vezes, é o único caminho possível.
Memórias da velha guarda
Quando a conversa com a velha guarda começa, é como se um portal se abrisse para uma Maré que já não existe mais. Eles falam rápido, se interrompem, riem, corrigem uns aos outros e, entre uma piada e outra, revelam camadas profundas da história do futebol amador no território.
A primeira lembrança vem direto dos anos 50. “Quando eu cheguei aqui já tinha campo. Dois!”, diz Marquinho, orgulhoso, lembrando de um tempo em que a Nova Holanda nem levava esse nome. Era Parque Maré. O futebol já estava ali antes da água, antes da luz, antes do asfalto. “Nós não tínhamos nada…, mas tinha bola. Ou alguma coisa parecida com isso”, brinca.
E logo surge a palavra rivalidade. “A nossa pelada de dia de semana valia mais que jogo de domingo!”, conta Arides. Era Teixeira Ribeiro contra Nova Holanda, favela contra favela, mas tudo ficava dentro das quatro linhas. “Acabou o jogo? Acabou a rivalidade. Lá fora, era amizade”, reforça.
A organização das partidas, hoje feita por grupo de WhatsApp, naquela época dependia de algo bem mais simples: grito, porta batida, boca a boca. “Como é que a gente ia pensar em WhatsApp se não tinha nem luz?”, dizem rindo. O campo, quando chovia, virava quase um mangue. “A maré subia… você dominava a bola e ela vinha com barro até a canela.”
E se hoje uniforme é item obrigatório, naqueles tempos era luxo. “Cada um arrumou uma camiseta branca, compramos um rolo de fita e mandamos as mães costurarem. Fizemos o time assim.” Era improviso, era gambiarra, mas era deles.
Entre tantas memórias, surgem os times lendários: Oriente, Cascudo, Império, Palmeirinhas. Lendas que atravessam décadas, contadas como se tivessem jogado ontem. Em uma das histórias, Marquinho, que jogava de ponta-direita, posição que na época era bem diferente de hoje, descreve uma jogada com tantos detalhes que dá pra visualizar.
“Peguei a bola, passei por três e cruzei! Arides domina no peito e mete de letra. Golaço! Tinha 500 torcedores dos caras vendo… e só se escutava um passarinho.”

E como num último suspiro de nostalgia, Marquinho, apelidado de “Marquinho Pimpolho”, conta da primeira vez em que entrou em campo, ainda “dente de leite”, com a camisa cobrindo o joelho, vestindo a tradicional camisa 7 de um ponta-direita, foi subestimado por muitos. “Quem é esse moleque?”. Bastou dar um drible para alguém gritar:
“Marca o sete! Marca o sete!”
É esse tipo de memória que eles guardam como troféu.
A velha guarda fala da bola como quem fala da infância, da sobrevivência, da própria vida. O futebol, para eles foi identidade, foi proteção, foi pertencimento. E, mesmo que digam que o futuro do futebol na favela está difícil, é impossível não sentir que ali, naquela roda de histórias, o passado ainda pulsa forte, como se estivesse pronto para renascer a cada nova lembrança contada.
No fim das contas
O futebol vai além das 4 linhas.
É ferramenta.
É proteção.
É memória.
É resistência.
É o que mantém Lorrane firme ao lado de Igor.
É o que move Serginho há 25 anos.
É o que salvou Léo, Paulinho e tantos outros.
É o que Marquinho e Arides ainda carregam nas vozes, nas risadas e na saudade.
Nas favelas cariocas, o futebol não transforma apenas atletas.
Transforma pessoas.
Transforma vidas.




A reportagem ficou muito boa, meninos, muito bem apurada! Parabéns!