top of page

O impacto das Redes sociais nas tendências de moda

  • Foto do escritor: Alunos UVA
    Alunos UVA
  • 1 de dez. de 2025
  • 10 min de leitura

Como as redes sociais transformaram o que era nicho em viral global, fazendo modelos e influenciadores dividirem um cenário cada vez mais acelerado.


Por Caroline Pereira e Izabelly Alves


O ano era 2009 quando Alexander Mcqueen mudaria o futuro da moda nas redes com o primeiro grande desfile de uma grife sendo transmitido ao vivo via streaming. A coleção de verão 2010, Plato’s Atlantis, foi transmitida ao vivo em parceria com o SHOWStudio. Pouco tempo antes do desfile, a cantora Lady Gaga twittou que a apresentação estreará seu novo single "Bad Romance" e os seus fãs enlouquecidos com esse anúncio acessaram o site em peso, levando o streaming ao vivo a não funcionar. Mas ali se fazia história pois a linha da exclusividade da moda havia sido ultrapassada. Os desfiles, antes restritos a um público presente nas primeiras filas, agora começariam a atingir as grandes massas em tempo real através da internet.


Transmissão do desfile de Alexander McQueen em 2009, com abertura ao som de "Bad Romance", lançada ao vivo por Lady Gaga

O Brasil consolida sua posição como um dos epicentros globais da criação de conteúdo, atingindo a marca impressionante de mais de 2 milhões de influenciadores digitais. Eles não apenas crescem em número, mas prova ser uma força no consumo nacional, com um impacto direto nas decisões de compra dos brasileiros. O número, revelado em março de 2025 pela pesquisa da Influency.me, empresa especializada em marketing de influência, representa um salto enorme de 67% em relação ao ano anterior, quando o país registrava 1,2 milhão de produtores de conteúdo. A explosão de perfis e nichos reflete a profissionalização acelerada do setor e o protagonismo das redes sociais na vida cotidiana.


Se o volume de influenciadores já impressiona, o seu poder de conversão é ainda mais notável. O marketing de influência vai além do entretenimento e se estabelece como um dos pilares do e-commerce. Um estudo feito pela Youpix em parceria com a Nielsen, aponta que 80% dos consumidores já compraram produtos recomendados por influenciadores e os segmentos que mais sentem o efeito dessa influência digital são:


  • Beleza: 46% das compras influenciadas

  • Moda: 39% das compras influenciadas


Esses dados indicam que, para milhões de brasileiros, a jornada de compra começa não mais em vitrines físicas ou anúncios tradicionais, mas sim em stories e nos feeds de quem eles seguem e confiam.



Onde a Moda se Faz Hoje


Hoje, as passarelas das principais semanas de moda são transmitidas ao vivo pelo Youtube, Instagram e até no TikTok. Essas plataformas que inicialmente eram focadas em fotos e vídeos curtos de entretenimento, agora são o epicentro da criação e disseminação de tendências de moda. Com bilhões de usuários ativos, como por exemplo, o Instagram que atingiu 3 bilhões de usuários mensais em 2025, segundo o anúncio do CEO da Meta, Mark Zuckerberg e de Adam Mosseri, líder da plataforma. Esses aplicativos se tornaram palco para influenciadores, designers e marcas que buscam conquistar o público com inovações e estilos que rapidamente viralizam.


Para a modelo Milena Matthiesen, de 23 anos, as marcas e agências não necessariamente exigem que tenha um número mínimo de seguidores, mas algo importante para ser visto é ser ativo nas redes sociais: “Hoje em dia, é quase indispensável estar ativa e engajada nas redes sociais. Existe uma certa pressão para construir um nicho e mostrar um pouco do nosso lifestyle. As marcas querem conhecer quem somos além das fotos, então não dá mais pra ser tão reservada online”, pontua.



Macroinfluência e Macroimpacto


Enquanto grandes celebridades eram os principais nomes a ditar tendências, hoje o foco está nos micro e macro-influencers. Esses influenciadores têm seguidores mais engajados e conseguem criar uma conexão mais genuína com o público. A pesquisa realizada pela consultoria de negócios para a creator economy, Youpix, mostra o quanto está em crescimento o marketing de influência no Brasil:


Dados da YOUPIX + Nielson 2024 mostram que 76% das marcas consideram o marketing de influência estratégia prioritária, um crescimento contínuo nos últimos 7 anos. Fonte: YOUPIX
Dados da YOUPIX + Nielson 2024 mostram que 76% das marcas consideram o marketing de influência estratégia prioritária, um crescimento contínuo nos últimos 7 anos. Fonte: YOUPIX

A Antropóloga, pesquisadora de consumo e uso de plataformas digitais e professora do curso de Design de Moda, Márcia Mesquita, de 40 anos, analisa que o mundo da moda não evoluiu eticamente com esse aparecimento de influenciadores pois apesar de antigamente existir blogs, ainda havia um diferencial pelas pessoas fazerem algo sem se prender as marcas.


“Mas isso logo acabou, porque as pessoas começaram a enxergar ali uma possibilidade de profissão. E, como precisam se manter por meio desse trabalho, dependem das 'publis'. Não há problema nisso - desde que seja feito dentro das recomendações éticas. A comunicação de moda, porém, sempre teve uma fronteira muito tênue com a publicidade. Nas principais revistas de moda, tanto daqui quanto do exterior, uma marca que não anunciava na publicação tinha muita dificuldade de aparecer em algum editorial, ou seja, os parâmetros éticos já são historicamente complicados”, revela Márcia.

Mas o mundo dos influenciadores pode não ser tão simples quanto parece, a Influenciadora digital na área de moda e beleza, Caroline Camporês de 23 anos, já passou por alguns perrengues com algumas marcas e já se sentiu desvalorizada diante de algumas propostas. Ela pontua que ela seleciona as marcas que tem a ver com o seu nicho justamente para passar a credibilidade necessária e geralmente dá match com as marcas, mas sempre tem uma ou outra que vem para lembrá-la que estar nesse meio não é fácil se você quer manter a sua ética. “Muitas marcas, inclusive algumas muito famosas por aí, querem fechar parceria apenas através de comissões (10%, 20%), desvalorizando totalmente o trabalho dos influenciadores. Isso faz com que eu negue também, porque são marcas que visam apenas o crescimento delas”, diz a influenciadora.



O Impacto do Fast Fashion


Impulsionado pelo surgimento constante de novas tendências nas plataformas digitais, o conceito de fast fashion (moda rápida) atingiu um patamar de intensidade nunca antes visto, forçando as marcas a uma corrida vertiginosa contra o relógio. Hoje, a palavra de ordem é reação instantânea. As grifes são obrigadas a responder no mesmo instante em que uma microtendência explode nas redes, resultando no lançamento frenético de coleções que sacrificam a identidade da marca em nome da velocidade. O foco se desloca da criação de um estilo duradouro para a captura de um breve momento. Essa dinâmica apresenta um paradoxo perigoso: o que é uma oportunidade de lucro imediato se transforma rapidamente em um desafio complexo e ético.


Para Márcia, o fim dos mercados locais de moda é um erro gravíssimo pois faz com que a indústria têxtil e as confecções regionais não aguentem esse baque e acabam fechando, deixando muitos trabalhadores desempregados ou aceitando trabalhos precários para poder pagar as suas contas. “Costumo dizer aos meus alunos que designer de moda que ama a Shein está dando um tiro no próprio pé, porque está contribuindo para a redução das oportunidades de emprego. E ainda há o custo ambiental - tanto na produção de tecidos e roupas quanto no lixo têxtil gerado, para o qual, até agora, não existe uma solução viável”, diz a pesquisadora de consumo.


Publicada pela revista Forbes em 2024, a pesquisa realizada pela Octadesk, em parceria com a Opinion Box, mostra que 7 em cada 10 brasileiros já realizam compras em e-commerces estrangeiros. 


Segundo levantamento publicado pela Forbes, mostra o avanço do consumo em e-commerces estrangeiros entre brasileiros. Fonte: Octadesk + Opinion Box 2024
Segundo levantamento publicado pela Forbes, mostra o avanço do consumo em e-commerces estrangeiros entre brasileiros. Fonte: Octadesk + Opinion Box 2024

As redes sociais oferecem inúmeras oportunidades. Ao entender como usar o TikTok e Instagram com ética e responsabilidade para monitorar tendências, criar conteúdo engajador e estabelecer parcerias, é possível transformar a maneira como o público interage com você ou a sua marca. Se adaptar aos novos tempos é a melhor maneira de lidar com isso, como diz a modelo carioca Milena:


”Sair da zona de conforto é o que faz toda a diferença. A gente precisa estar sempre se reciclando e se atualizando, isso faz parte da profissão. A moda muda o tempo todo: novas tendências, novos costumes, algumas coisas voltam, outras desaparecem. Então, para se adaptar, é essencial estar em constante aprendizado, buscando se reinventar e entender o que o mercado está pedindo”.

 

As instituições de moda também estão se adaptando ao novo mercado, como lembra Márcia:


“O que procuramos fazer é desenvolver o pensamento crítico e ampliar o repertório de criação. Profissionais de design de moda precisam, hoje, conhecer o mercado e dominar estratégias de pesquisa para entender o que é apenas fogo de palha nas redes sociais e o que pode ser realmente inovador - algo com potencial para se confirmar como tendência. Também é essencial possuir repertório [...] que vá além da moda como a arte, música, política, economia, sustentabilidade, para não aceitar como novidade aquilo que o TikTok vende como algo revolucionário, e, ao mesmo tempo, para desenvolver um trabalho verdadeiramente criativo. Além disso, o designer não pode criar apenas para o público jovem que segue influenciadores , esse é apenas um recorte do mercado”.

O TikTok e o Instagram mudaram para sempre o mercado da moda, oferecendo novas formas de criar e disseminar tendências em questão de horas. Marcas que se adaptam rapidamente e utilizam as ferramentas de venda dessas plataformas têm uma vantagem significativa. É essencial observar essas mudanças e aproveitar as oportunidades que surgem no cenário digital, adaptar-se a essa nova realidade ao mesmo tempo em que mantém práticas sustentáveis, inclusivas e responsáveis é a chave para o sucesso a longo prazo.



SPFW 2025


Na tarde abafada de abril de 2025, a entrada do Pavilhão das Culturas Brasileiras fervilhava mais do que o normal. O São Paulo Fashion Week sempre foi símbolo de rigor, de uma curadoria que definia quem merecia pisar na passarela. Mas, naquele dia, algo destoava. No meio das modelos profissionais, alinhadas por altura, postura e ritmo de passarela, nomes famosos do TikTok atravessavam o backstage com celulares erguidos, cercados por assessores, gravando cada passo. O ambiente carregava uma mistura de curiosidade e inquietação.


Enquanto alguns jovens modelos aqueciam os tornozelos, medindo o silêncio para manter o foco, um influenciador testava poses diante da iluminação improvisada, repetindo expressões até encontrar “a que engaja”. A cena sintetizava uma mudança que muitos já previam - mas que poucos estavam preparados para encarar.


A polêmica explodiu no mesmo ritmo das tendências digitais. No X, no Instagram e especialmente no TikTok, vídeos comparando o desempenho dos criadores de conteúdo nas passarelas com o das modelos profissionais viralizaram em horas. Os comentários dividiam o público: de um lado, quem defendia representatividade, diversidade e proximidade; de outro, quem via a substituição como desvalorização de uma profissão construída com técnica, disciplina e anos de experiência.


No vídeo publicado por @juhanamorim, passado e presente do SPFW se enfrentam: de um lado, influenciadores ocupando as passarelas atuais; do outro, a era dos anos 2000, quando modelos profissionais ditavam a postura, o ritmo e o brilho dos desfiles

Para Milena, esse movimento acende um alerta que vai além do ego e toca diretamente na sobrevivência de uma carreira.


“Isso vem acontecendo com cada vez mais frequência. Em desfiles e semanas de moda, muitos modelos que se preparam por anos para estar ali acabam sendo deixados de lado por não serem tão conhecidos na mídia. É frustrante, porque todo o investimento e dedicação acabam pesando menos do que a visibilidade que a pessoa tem nas redes”, disse ela.


Victoria's Secret Fashion Show 2025


Se no Brasil a discussão se acendeu, no exterior o debate tomou proporções ainda maiores. A volta do Victoria's Secret Fashion Show 2025, anunciada como um “renascimento moderno”, se tornou um marco desse novo cenário híbrido entre moda, entretenimento e internet. Não era apenas mais um desfile; era um experimento. Metade das vagas foi ocupada por modelos profissionais, e a outra metade, por influenciadoras globais selecionadas por engajamento, alcance de nichos e performance digital.


Gabriela Moura, estrela do TikTok, surge em cena para apresentar a linha PINK no Victoria's Secret Fashion Show 2025. Foto: Getty Images
Gabriela Moura, estrela do TikTok, surge em cena para apresentar a linha PINK no Victoria's Secret Fashion Show 2025. Foto: Getty Images

Quenlin Blackwell, influenciadora digital e comediante, desfila a linha PINK no Victoria's Secret Fashion Show 2025. Foto: Getty Images
Quenlin Blackwell, influenciadora digital e comediante, desfila a linha PINK no Victoria's Secret Fashion Show 2025. Foto: Getty Images

O resultado dividiu opiniões. Algumas influenciadoras entregaram performances elogiadas; outras foram criticadas pela falta de postura, cadência e consciência de cena. A modelo Vivi Orth, em seu perfil no TikTok, deu a entender que parecia assistir a dois shows distintos. “Estava parecendo um desfile de miss em algum momento, gente […] era muito beijinho, beijinho, beijinho para todo lado”.


E, na internet - ironicamente - quem viralizou não foram as influenciadoras, e sim as modelos profissionais, elogiadas por representarem exatamente aquilo que parecia estar se perdendo: técnica, precisão e presença. O renascimento do Victoria's Secret Fashion Show mostrou que a fusão entre moda e influência digital traz audiência, mas também revela fraturas.


Candice Swanepoel, Adriana Lima, Bella Hadid, Jasmine Tookes, Gigi Hadid, Alessandra Ambrósio e outras Angels encerrando o Victoria's Secret Fashion Show 2025 em clima de celebração. Foto: Getty Images
Candice Swanepoel, Adriana Lima, Bella Hadid, Jasmine Tookes, Gigi Hadid, Alessandra Ambrósio e outras Angels encerrando o Victoria's Secret Fashion Show 2025 em clima de celebração. Foto: Getty Images


Técnica vs. Engajamento


A ascensão dos criadores digitais não apagou a técnica, mas ofuscou quem depende dela para existir em um mercado cada vez mais disputado. “Como as marcas nem sempre conseguem criar comunidades fiéis de consumidores, elas acabam tentando surfar na popularidade dos profissionais que contratam”, analisa Márcia. “Isso acontece com vendedoras de loja, com atores… Não é algo restrito aos modelos”. Ela descreve o fenômeno como um processo de deslocamento simbólico “A internet ampliou esse poder de influência e criou redes que geram ideias de intimidade e proximidade com figuras que admiramos”.


Para Milena, isso significa estar sempre alerta - não apenas para manter a forma física ou atualizar o portfólio, mas para se reinventar em um mercado que agora exige simultaneamente beleza, técnica e presença digital. Como ela resume, “toda influenciadora acaba sendo um pouco modelo, e todo modelo acaba tendo que influenciar de alguma forma”.


A influenciadora Caroline conhece o outro lado dessa moeda. Ela sente o peso da visibilidade e o preço que algumas marcas tentam pagar por ela. Entende o poder das redes, mas se incomoda quando ele ultrapassa fronteiras que deveriam ser profissionais. “Eu sempre tento adaptar o que a marca pede ao meu estilo… Se eu mudar minha personalidade, eu não seria mais a Carol que o público confia”, afirma.


Os algoritmos não dormem - e, por não dormirem, arrastam a moda com eles. Cada microtendência nasce, viraliza e morre em ciclos cada vez menores, criando uma sensação contínua de urgência estética. Para especialistas da área, esse é justamente o ponto mais preocupante. Márcia explica que, nesse cenário, profissionais de moda precisam administrar estratégias de pesquisa para diferenciar o que realmente representa mudança positiva do que é apenas um impulso passageiro das redes. A falta desse olhar crítico já se reflete nos bastidores: equipes exaustas tentando acompanhar o ritmo, coleções lançadas sem identidade própria, um fast fashion ainda mais acelerado e o consequente acúmulo de lixo têxtil.


A pergunta não é se as redes sociais vão continuar moldando a moda. Elas já moldam. A questão é como evitar que essa influência transforme o mercado em um território desigual, onde técnica e formação se tornem acessórios descartáveis. Márcia defende o caminho que chama de alinhamento ético:


“É essencial possuir uma bagagem histórica e cultural para não correr atrás apenas das novidades… O mundo da moda, infelizmente, não evoluiu eticamente com a ascensão dos influenciadores”.

Caroline, do lado dos criadores, concorda:


“Eu acredito que a influência digital já é uma das principais plataformas da moda […]. Mas, ao mesmo tempo, acho que sempre vai existir um espaço para o mundo das passarelas, porque representa arte, inovação e conceito”.

Entre luzes, redes sociais e expectativas, fica uma constatação: as redes sociais redemocratizaram a moda, mas também a tornaram mais frágil. O SPFW e o Victoria's Secret Fashion Show mostram que ainda estamos tateando esse território híbrido, tentando entender como equilibrar técnica e engajamento, tradição e viralização. No fim, a passarela continua lá. O que está mudando é quem pode cruzá-la. E, nesse cruzamento entre o velho e o novo, a moda revela sua maior tendência atual: a disputa por visibilidade - uma disputa que, como toda tendência, ainda está longe de desaparecer.




Comentários


LOGO Entrelinhas.png

 

© 2025 Entrelinhas por Laura Gomes. Todos os direitos reservados.

 

Você gostaria de receber as atualizações do Entrelinhas?

Universidade Veiga de Almeida

R. Ibituruna, 108 - Maracanã, Rio de Janeiro - RJ

Av. Gen. Felicíssimo Cardoso, 500 - Bloco A - Barra da Tijuca, Rio de Janeiro - RJ

  • Instagram
bottom of page