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O futuro das novelas: como o streaming está reinventando o folhetim brasileiro

  • Foto do escritor: Alunos UVA
    Alunos UVA
  • 1 de dez. de 2025
  • 10 min de leitura
Autores como Raphael Montes e Glória Perez analisam como o público e o formato das novelas mudam na era das plataformas digitais.

Por Isabel Vieira


Cris (Romulo Estrela), Angel (Camila Queiroz) e Giovanna (Agatha Moreira) em 'Verdades Secretas 2' — Foto: Pedro Pinho
Cris (Romulo Estrela), Angel (Camila Queiroz) e Giovanna (Agatha Moreira) em 'Verdades Secretas 2' — Foto: Pedro Pinho

 

Por décadas, poucas expressões mostraram tão bem o Brasil quanto a imagem de uma família reunida diante da televisão, acompanhando a novela das oito, mesmo que, há anos, ela não seja exibida exatamente às oito.


A telenovela, inventada e lapidada no país, atravessou crises políticas, avanços tecnológicos e mudanças de comportamento sem perder sua força. Foi palco de debates nacionais, vitrine de comportamentos desejáveis, espelho de conflitos sociais e um grande laboratório de linguagem. Mas, sobretudo, foi rotina. Um capítulo por dia, sempre no mesmo horário, criando uma cadência que moldava a experiência.

 

Hoje, esse ciclo está em transformação. O avanço das plataformas de streaming, com suas temporadas curtas, lançamentos semanais e algoritmos que definem o que vemos, desloca as engrenagens que sustentavam a lógica do folhetim. O público não assiste mais no tempo da emissora, mas no seu. A crítica não espera o capítulo seguinte, comenta tudo em minutos nas redes sociais. As narrativas migram de um meio massivo, pensado para abarcar milhões ao mesmo tempo, para um público fragmentado, onde cada usuário cria a própria agenda de consumo.

 

O fenômeno recente de Beleza Fatal, primeira novela original da Max, escrita pelo roteirista brasileiro Raphael Montes, tornou inevitável um debate gerado nas redes sociais: a novela está deixando de ser novela? ou está apenas se ajustando ao tempo em que vivemos?

 

Para responder a essas perguntas, esta reportagem ouviu autores, pesquisadores e público. O resultado revela um cenário que não se define nem pela ruptura nem pela continuidade absoluta, mas por um movimento mais complexo, em que tradição e reinvenção caminham juntas, testando limites, formatos e expectativas.


O formato em mutação: da TV aberta ao streaming


A novela brasileira nasceu em um ambiente massivo. Criada para atingir milhões de pessoas ao mesmo tempo, precisou, desde o início, equilibrar temas, tons e gêneros para não afastar o público.Como explica o pesquisador Daniel Rios, Doutor em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense e pós-doutorando pela Faperj,


“A novela que conhecemos hoje foi pensada para um público muito amplo, tentando atingir classes sociais, gêneros e gostos diferentes”.

Esse formato tem raízes tanto no folhetim literário quanto na radionovela. Desses meios, herdou duas características fundamentais: a narrativa aberta, que se adapta ao gosto do público, e o vínculo com a rotina. “A novela se tornou parte da vida cotidiana das pessoas”, afirma Rios. “Assistir todas as noites, no mesmo horário, estabelecia um ritual.”


Da experimentação à consolidação


Essa estrutura nunca foi totalmente rígida. Nas décadas de 1970 e 1980, o modelo ainda era experimental: tramas mais fantasiosas, fortes influências literárias e horários pouco padronizados. A partir dos anos 1990, a TV aberta viveu outra virada ao incorporar o merchandising social, estratégia que inseria mensagens educativas e temas relevantes para conscientizar o público. Casos emblemáticos incluem a leucemia da personagem Camila, em Laços de Família, e o debate sobre violência doméstica em Vale Tudo. Essas inovações respondiam a transformações tecnológicas e culturais, e agora, o streaming intensifica essa lógica de modo radical.


A lógica do streaming: ritmo, nicho e ausência de correção de rota


Se a TV aberta opera para o grande público, o streaming nasce do princípio oposto: cada assinante recebe conteúdo personalizado. Isso altera toda a cadeia de produção.


“O streaming não é um meio massivo. Ele se organiza por nichos, gostos e preferências do usuário. Isso muda completamente a lógica de produção”, explica Daniel Rios.


Além disso, a adesão ao streaming ainda é desigual. A maior parte do consumo está concentrada nos grandes centros urbanos, o que leva plataformas a investirem em públicos específicos, enquanto a televisão aberta, financiada por publicidade, precisa agradar a milhões diariamente.

 

Outro ponto crucial é compreender que a novela de TV é escrita e gravada enquanto vai ao ar. Isso permite ajustes semanais conforme a recepção do público, um processo que envolve grupos focais e análise constante de audiência. No streaming, não. Tudo é gravado, editado e fechado antes da estreia.


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Daniel Rios fala sobre a flexibilidade dos roteiros das Novelas de TV


“Se existe algum erro de narrativa, não há como mexer depois. Em compensação, há mais tempo para lapidar o texto”, analisa Rios.

 

Essa dinâmica desloca o papel do autor. O streaming oferece mais liberdade temática, mas menos autonomia criativa: decisões passam por produtora, plataforma e equipes internas. Mesmo produções de grande porte, como Beleza Fatal, enfrentam conflitos de bastidor e substituição de núcleos criativos.


Impactos culturais e econômicos


Essa mudança não é apenas técnica. Ela altera a relação emocional do público com as histórias. A novela tradicional cria memória coletiva como personagens, bordões e cenas icônicas entram para o imaginário nacional. No streaming, a experiência tende a ser mais individualizada, fragmentada e acelerada. O ritual de “sentar para ver novela” cede espaço à lógica do binge-watching, onde tudo é consumido em maratonas, sem pausas para conversa ou especulação.


Economicamente, isso também muda o jogo. A TV aberta como Globo, Record, SBT e Band depende da publicidade e da audiência massiva, já o streaming aposta em assinaturas e algoritmos. Essa diferença impacta desde a escolha de elenco até a duração dos capítulos. Enquanto a novela tradicional precisa manter o público engajado por meses, as plataformas buscam impacto imediato, muitas vezes sacrificando a construção lenta de personagens em favor de ganchos rápidos e tramas ágeis. Como foi com a construção da personagem Lola, em Beleza Fatal. Onde toda sua personalidade foi narrada em 2 cappítulos inciais.



O que ainda é, ou deixa de ser, novela? A disputa pelos termos


A ascensão do streaming trouxe um novo impasse: quando uma produção pode ser chamada de telenovela?

 

Com cinco episódios por semana, Beleza Fatal repetiu a dinâmica de Todas as Flores e Verdades Secretas 2, criando um híbrido entre novela e série. Já Pedaço de Mim, da Netflix e estrelada por Juliana Paes, foi divulgada como novela, mas rapidamente reinterpretada pela crítica como série “com cara de novela”. A fronteira se torna nebulosa.


“Hoje, o que está em jogo é o quanto essas produções tensionam o conceito de telenovela para caberem nele”, afirma Rios.


O streaming não consegue, e nem pretende, reproduzir a rotina diária da TV aberta. Mas tenta manter a identidade narrativa do folhetim: múltiplos núcleos, vilões centrais, ganchos constantes, tramas de vingança e moralidade dúbia. Essa essência é preservada, mas comprimida. Se antes a novela se estendia por meses, agora precisa caber em poucas semanas, e isso muda tudo: ritmo, profundidade psicológica, espaço para contemplação.


Nesse ponto, Beleza Fatal se destaca como um experimento bem-sucedido. Raphael Montes, acostumado ao suspense e à ambiguidade moral, encontrou no folhetim um terreno fértil para testar limites. Suas escolhas criativas refletem a lógica do streaming: uma novela mais curta, mas não menos intensa.


Raphael Montes e o folhetim comprimido: vilões, desejo e ação


Raphael Montes, acostumado ao suspense e à ambiguidade moral, encontrou no folhetim um terreno fértil. Suas escolhas criativas refletem a lógica do streaming: uma novela mais curta, mas não menos intensa.

 

“O segredo é entender a complexidade humana e ter empatia”, diz. “Não é sobre concordar com personagens moralmente duvidosos, mas sobre entender sua lógica.”


 

Montes afirma que seus vilões funcionam porque desejam coisas identificáveis pelo público. O que os distingue é a disposição de ultrapassar limites.

 

“A régua moral do público é questionada quando ele se pega torcendo pelo vilão.”

 

Na adaptação do folhetim para o streaming, a narrativa precisa ser objetiva. Enquanto a novela tradicional pode caminhar pelo trajeto mais longo, o streaming exige mais ação e menos contemplação. Cada episódio precisa entregar impacto imediato, sem perder a densidade emocional que caracteriza o gênero.


Essa compressão cria um paradoxo: ao mesmo tempo em que acelera a trama, ela intensifica os dilemas morais. O público não tem meses para se acostumar com os personagens; precisa decidir rapidamente de que lado está, e muitas vezes, acaba torcendo pelo vilão.



Glória Perez: o ritmo, o excesso de telas e o folhetim comprimido


Autora de sucessos que marcaram gerações, Glória Perez observa com clareza o impacto da multiplicidade de telas na forma como o público consome histórias.


Segundo Glória, o espectador atual vive cercado por narrativas seriadas, muitas delas divididas em várias temporadas. Esse formato, embora pareça curto, demanda longas horas para ser concluído. E é justamente essa nova lógica que dialoga com o trabalho de Raphael Montes.


"As pessoas têm muitas telas. Você tem muitas séries que são novelas, mas que se dividem em três ou quatro temporadas. Quando você fala 'temporada', parece que é curto, mas você assiste três ou quatro para completar aquilo", explica Glória. "O Raphael foi muito feliz ao imaginar esse formato porque ele fez uma novela, sim, só que apertou essa narrativa em 40 capítulos."

Para a autora, essa compressão revela algo fundamental sobre o que é, e sempre foi, uma novela: a capacidade de adaptação. O folhetim nasceu para acompanhar a rotina, mas hoje precisa dialogar com um público que consome histórias em maratonas, entre notificações e múltiplas telas.



Glória Perez responde à repórter Isabel Vieira sobre o que Raphael Montes fez em Beleza Fatal.

 

Glória explica que não se trata apenas de uma novela “curta”. O streaming impede que personagens fiquem “no limbo”, pensando em agir, mas sem agir. A narrativa precisa avançar. Cada episódio deve entregar impacto imediato, sem perder a densidade emocional que caracteriza o gênero.


Glória Perez responde à repórter Isabel Vieira sobre os desafios do streaming para as telenovelas.

Na televisão aberta, a trama pode se estender, multiplicando obstáculos, recuos e tentativas, criando um jogo emocional que mantém o público engajado durante meses. Esse ritmo permite explorar nuances, construir relações lentamente, dar espaço para silêncios e contemplação. No streaming, porém, a lógica é outra: velocidade, objetividade e tensão constante.

 

Glória também destaca ainda a diferença essencial entre o ritmo da novela tradicional da TV e o ritmo exigido pelo streaming. Na televisão aberta, explica ela, a trama pode se estender, multiplicando obstáculos, recuos e tentativas, criando um jogo emocional que mantém o público engajado durante meses. No streaming, porém, a lógica é outra.

 

A paciência do público: redes sociais, ritmo e nostalgia


As redes sociais transformaram radicalmente a forma como consumimos conteúdo. Elas impuseram uma lógica de recepção marcada pela fragmentação, pela velocidade e pela influência coletiva. Hoje, a experiência não é mais linear. O público não acompanha uma narrativa do início ao fim, mas salta entre recortes, comentários e interpretações alheias. Memes, críticas e reações instantâneas moldam a percepção antes mesmo do contato integral com a obra.


Essa dinâmica impacta todas as mídias. Filmes são consumidos em clipes curtos, muitas vezes fora de contexto; álbuns se reduzem a singles virais que dominam playlists; reportagens extensas são condensadas em threads ou resumos fáceis de ler. A atenção, antes distribuída ao longo de horas, tornou-se um recurso escasso e altamente disputado. Plataformas competem por segundos de engajamento, e criadores precisam adaptar suas narrativas para sobreviver nesse ecossistema acelerado.


A experiência não é mais apenas individual, é uma conversa constante. Thayane Mariane Fiuza de Jesus, servidora pública e fã assídua de telenovelas, resume essa mudança:


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Thayane Fiuza, fã de novelas, fala sobre as mudanças da recepção do público

Thayane já experimentou dois mundos, as novelas tradicionais e as produções do streaming, como Beleza Fatal e Todas as Flores. Ela aprecia a agilidade dessas novas narrativas, mas sente que algo se perdeu:


“Falta uma construção maior dos personagens e mais tempo para acompanhar suas trajetórias.”

O que antes era um ritual, parar para ver novela todos os dias, hoje disputa espaço com uma avalanche de estímulos digitais. A experiência deixou de ser contínua e se tornou fragmentada, exigindo que a história se adapte ao ritmo acelerado do público.



Quando o público controla a mídia

 

Apresentada ao público no ano de 2025, a vilã Maria de Fátima (Bella Campos), da novela Vale Tudo, ganhou perfil no Instagram, e os comentários brincam com a trama clássica: “Cadê você?”, escreveu Taís Araújo. Esse fenômeno ilustra como o streaming e as redes sociais alteraram a lógica de recepção das telenovelas. Hoje, não apenas assistimos, mas interagimos, criamos memes, comentamos e reconstruímos narrativas.


'Vale Tudo': Maria de Fátima ganha perfil nas redes sociais. Foto: Reprodução/Instagram.
'Vale Tudo': Maria de Fátima ganha perfil nas redes sociais. Foto: Reprodução/Instagram.


Essa interação não é superficial. Ela redefine a experiência coletiva que antes acontecia na sala de estar e migra para o ambiente digital. O público não apenas acompanha a história; ele participa ativamente da construção de sentidos, reinterpretando personagens, criando teorias e até pressionando autores. A novela deixa de ser um produto fechado e passa a ser um território de disputa simbólica, onde fãs e críticos moldam a percepção pública.


O poder do streaming e das redes sociais


O streaming permite retroceder, rever e comparar cenas, o que muda até a forma como o público investiga tramas históricas. O caso mais emblemático é Vale Tudo, reapresentada em 2025. A pergunta “Quem matou Odete Roitman?” voltou ao debate, mas sob outra perspectiva: espectadores revisitam cenas, apontam inconsistências e discutem teorias em fóruns digitais. Essa experiência era impossível antes, quando a narrativa era linear e efêmera.


Hoje, cada detalhe pode ser congelado, analisado e compartilhado. Essa lógica transforma a novela em um objeto de investigação coletiva, aproximando-a da cultura das séries e dos fandoms globais. A recepção deixa de ser passiva e se torna interativa, colaborativa e hipertextual.


“A internet transformou a nossa relação com todas as mídias”, afirma Daniel Rios. “É mais uma mudança na recepção do que na produção.”


O que o futuro reserva?

 

O streaming ainda é um fenômeno jovem. A produção original brasileira começou em 2016 e, nove anos depois, os efeitos dessa mudança estão apenas se delineando. Há quem veja o streaming como uma ameaça à novela tradicional, mas Daniel Rios discorda:

“Uma mídia não chega para matar a outra. Elas coexistem. O que muda é o espaço que cada uma ocupa.”

Assim como o rádio não desapareceu com a chegada da TV, a novela não desaparecerá com o streaming. A televisão aberta continua presente em 98% dos lares brasileiros, segundo o Ibope. Mais do que isso: o consumo simultâneo, TV e plataformas, já é realidade para grande parte do público.


A disputa atual não é entre meios, mas entre modelos narrativos. E talvez o streaming seja justamente o estímulo para que a novela reencontre sua força.


Entre tradição e reinvenção

 

O folhetim sempre foi um gênero poroso. Ao longo do tempo, absorveu elementos do rádio, do teatro, da literatura, do cinema, e agora, do streaming. As plataformas testam formatos: número de episódios, ritmo, ganchos. Os autores equilibram liberdade criativa com pressões corporativas. O público oscila entre a nostalgia da rotina e o prazer da velocidade.


Mesmo comprimida, acelerada ou reinventada, a novela continua sendo um espaço de identificação profunda. É onde conflitos morais, dramas familiares e disputas de poder refletem, à sua maneira, o país que somos. Essa capacidade de espelhar a sociedade é o que mantém o gênero vivo.


No fim, talvez a grande lição dessa transição seja que a novela não precisa escolher entre passado e futuro. Como sempre fez, ela pode estar nos dois ao mesmo tempo, adaptada, comprimida, reconfigurada, mas viva.

 

 

 

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