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O futebol carioca tomou a América e virou o jogo

  • Foto do escritor: Alunos UVA
    Alunos UVA
  • 1 de dez. de 2025
  • 13 min de leitura

Quatro Libertadores seguidas com Flamengo, Fluminense e Botafogo transformaram o Rio no centro do futebol sul-americano e redesenharam a hierarquia do continente


Por Guilherme Cid e João Marcos Freitas


As camisas de Flamengo, Fluminense e Botafogo simbolizando uma era de domínio inédito na CONMEBOL Libertadores. A foto representa a sequência histórica de títulos conquistados pelos clubes entre 2022 e 2025, firmando a cidade como a principal potência do futebol sul-americano na virada da década. (João Marcos Freitas)
As camisas de Flamengo, Fluminense e Botafogo simbolizando uma era de domínio inédito na CONMEBOL Libertadores. A foto representa a sequência histórica de títulos conquistados pelos clubes entre 2022 e 2025, firmando a cidade como a principal potência do futebol sul-americano na virada da década. (João Marcos Freitas)

A ansiedade que se formava para o dia 29 de novembro de 2025 terminou com a consagração do Flamengo vencendo o Palmeiras por 1 a 0, em Lima, com o gol de cabeça de Danilo, e transformou uma final já gigante em marco histórico. Não estava “apenas” em jogo uma taça, estava em disputa a narrativa de uma cidade que se recusa a ser coadjuvante.


Alice Costa sabe muito bem a sensação de conquistar a “Glória Eterna”, vivendo a alegria em 2019, 2022 e agora em 2025. Ainda assim, sua melhor lembrança segue sendo a de quando tinha 15 anos, em 2019, quando assistiu ao Flamengo virar um jogo histórico sobre o River Plate. Os gols de Gabigol, transmitidos para um Maracanã lotado numa Fan Fest, explodiram em um barulho que a cidade e aquela menina jamais haviam escutado. Alice chorou abraçada ao pai, não apenas pelo título, mas pela certeza íntima de que estava diante de algo capaz de reorganizar seu jeito de amar o futebol.


Em um registro de 2019, a torcedora Alice Costa na Fan Fest do Maracanã, celebrando o bicampeonato da Libertadores. Alice reproduz a icônica comemoração do atacante Gabigol. (Arquivo Pessoal/Alice Costa)
Em um registro de 2019, a torcedora Alice Costa na Fan Fest do Maracanã, celebrando o bicampeonato da Libertadores. Alice reproduz a icônica comemoração do atacante Gabigol. (Arquivo Pessoal/Alice Costa)

Essa memória não é detalhe. Ela é parte da construção de um sentimento que atravessa 2020, 2021, 2022, 2023, 2024 e desemboca com força em 2025, ano em que o futebol do Rio completou um tetracampeonato consecutivo da Libertadores: Flamengo (2022), Fluminense (2023), Botafogo (2024) e Flamengo (2025). Uma sequência que apenas Avellaneda, com o Independiente entre 1972 e 1975, havia alcançado na história do continente.


De bares lotados a plataformas digitais, das arquibancadas a perfis com milhares de seguidores, o torcedor do Rio deixou de olhar para o continente, o continente passou a olhar para o Rio. A vitória em Lima mantém viva a hegemonia carioca que remodelou o mapa competitivo da América do Sul.


E na multidão que celebrou o tetra rubro-negro, havia também Alan Melo, conhecido apenas como “Pato”, flamenguista, estudante de jornalismo e torcedor de carteirinha de arquibancada, Alan descreve o que viveu em 2022 e 2025 com a precisão de quem marca o tempo em imagens. Para ele, o tri de 2022 tem um minuto que resume tudo, o 4 a 0 contra o Vélez, na Argentina.


“Jogar contra argentino sempre foi medo para brasileiro. Ver o Flamengo fazer aquilo em uma semifinal... ali eu soube que era diferente.”

O recente tetra, porém, é outra história, mais suada, mais tensa, mais épica. “Pato” guarda um momento que será lembrado durante toda sua vida, o Aero-Fla, com a “sensação de pertencimento, de estar no lugar certo no mundo”. E agora, com o Flamengo coroado como o primeiro tetracampeão brasileiro da Libertadores, além do Rio emplacar quatro conquistas seguidas, o feito inédito para uma cidade brasileira ganhou a camada de que o Rio não provou apenas que pertence ao topo, mas que mandou no futebol da América do Sul.


Na Presidente Vargas em 2025, em meio à multidão que tomou as ruas para o tradicional movimento da torcida após o tetracampeonato, Alan Melo, conhecido como "Pato" comemorando mais um título para o Rubro-Negro. (Arquivo Pessoal/Alan Matos)
Na Presidente Vargas em 2025, em meio à multidão que tomou as ruas para o tradicional movimento da torcida após o tetracampeonato, Alan Melo, conhecido como "Pato" comemorando mais um título para o Rubro-Negro. (Arquivo Pessoal/Alan Matos)

Em um estado que vive tensões diárias, o futebol vira identidade e válvula emocional. Mas o Rio não é só Flamengo e, em contrapartida, é exatamente por causa dos rivais que o Flamengo se tornou tão grande.


Zezão, jovem menino do município de Mesquita na Baixada Fluminense, o criador de conteúdo tricolor, descreve a entrada no Maracanã em 2023 como um rito que afligia a todos, contendo medo, ansiedade, superstição, e então o estalo da festa coletiva quando John Kennedy acertou o chute que virou libertação histórica, que desde 2008 assombrava os torcedores de laranjeiras. Cano formando um “L” com sua mão, JK com máscara de urso comemorando no alambrado, são memórias que se tornaram desde camisetas a tatuagens para os tricolores.


O tricolor José Queiroz, o "Zezão", celebrando a conquista da Libertadores pelo Fluminense. Em homenagem ao ídolo e artilheiro Germán Cano, Zezão reproduz o famoso gesto do "L", símbolo máximo daquela campanha vitoriosa que culminou na final no Maracanã (Arquivo Pessoal/José Queiroz)
O tricolor José Queiroz, o "Zezão", celebrando a conquista da Libertadores pelo Fluminense. Em homenagem ao ídolo e artilheiro Germán Cano, Zezão reproduz o famoso gesto do "L", símbolo máximo daquela campanha vitoriosa que culminou na final no Maracanã (Arquivo Pessoal/José Queiroz)

Pedro, o “Cristão Botafoguense”, viveu outra trajetória, diferente de torcedores dos clubes rivais, ele não cresceu colecionando finais. Cresceu colecionando tristezas, mas sempre tentando alcançar a esperança. Foi então que em 2024, no Monumental, estádio argentino da final da edição, quando o Botafogo conquistou sua primeira Libertadores, Pedro chorou como em um casamento, como em um nascimento, como em uma despedida, tudo ao mesmo tempo. Guarda, até hoje, um instante simples em que o capitão Marlon Freitas soltou uma pipa dentro do campo após o jogo.Tudo aquele dia para os botafoguenses, foi algo histórico e para eles, aquilo tudo não foi uma festa, foi epifania.


Pedro Marques, o responsável por trás do perfil "Cristão Botafoguense", enquanto celebra a inédita e histórica conquista da Libertadores pelo Botafogo. O cenário é o Monumental de Núñez, em Buenos Aires, palco da Glória Eterna alvinegra em 2024. (Arquivo Pessoal/Pedro Marques)
Pedro Marques, o responsável por trás do perfil "Cristão Botafoguense", enquanto celebra a inédita e histórica conquista da Libertadores pelo Botafogo. O cenário é o Monumental de Núñez, em Buenos Aires, palco da Glória Eterna alvinegra em 2024. (Arquivo Pessoal/Pedro Marques)

No fundo, todos eles contam a mesma história. Alice, Zezão, Pedro e Pato cresceram ouvindo que o Rio era instável, perigoso, caótico demais para sustentar grandeza. Mas o futebol fez tanto barulho entre 2022 e 2025 que ninguém pôde ignorar. E agora, com quatro títulos seguidos e uma final vencida sobre seu maior antagonista recente, o continente inteiro olha para os bairros da Gávea, das Laranjeiras e de Botafogo não apenas com respeito, mas com a certeza de que o Rio retomou seu lugar no centro do mapa do futebol sul-americano.



Luiz Gontijo, jornalista esportivo, concedeu esta entrevista em 03/11/2025 especialmente para a produção desta reportagem.

Futebol e Cidade, o Rio como personagem

A relação entre o ambiente urbano e a emoção coletiva do torcedor carioca


O produtor de Esportes da Globo e jornalista, Luiz Gontijo, resume o fenômeno de um jeito que atravessa o cotidiano: “O Rio tem uma relação de harmônica com o futebol.” Não é só torcer, é ocupar a rua, cantar como bloco de Carnaval, transformar estádio em ritual coletivo.


Ele cita Johan Huizinga, pensador que formulou o conceito de círculo mágico: o espaço em que as regras comuns da sociedade se suspendem e as pessoas entram em outro estado emocional. Para Gontijo, no Rio, esse círculo é ampliado pela própria natureza da cidade. Por noventa minutos, o jogo suspende o mundo real. O estádio vira uma sociedade temporária, com regras e emoções próprios e, segundo ele, o torcedor carioca entende isso como ninguém.


Mosaico em formato de caveira da torcida do Botafogo em partida válida pela Libertadores de 2024. (João Marcos Freitas)
Mosaico em formato de caveira da torcida do Botafogo em partida válida pela Libertadores de 2024. (João Marcos Freitas)
"Este Botafogo de 2024 possui uma característica muito particular, que é a do mosaico perfeito. Um verdadeiro espetáculo no início do jogo e falando sobre o Maracanã, é o estádio mais simbólico do mundo. Quando os times jogam lá, em mata-mata, com a torcida presente, é muito difícil de segurar"

Torcida do Flamengo presente no Maracanã entre o jogo Flamengo 0 X 0 Cruzeiro pelo Brasileirão de 2025 (Guilherme Cid)
Torcida do Flamengo presente no Maracanã entre o jogo Flamengo 0 X 0 Cruzeiro pelo Brasileirão de 2025 (Guilherme Cid)

Alice diz que, ao filmar o estádio para criar conteúdo, nunca mostra só o Flamengo, mostra a "energia da cidade". Zezão descreve a arquibancada carioca como “diferente de qualquer outro estado”. Pedro, o Cristão Botafoguense, fala que pega o trem rumo ao Engenhão sentindo “pertencimento” e "Pato" acredita que ninguém faz festa nos estádios como os cariocas.


Festa da torcida do Fluminense no clássico em que saiu com a vitória contra o Flamengo em Novembro de 2025 (Guilherme Cid)
Festa da torcida do Fluminense no clássico em que saiu com a vitória contra o Flamengo em Novembro de 2025 (Guilherme Cid)

As pesquisas reforçam essa força emocional. Segundo o levantamento O GLOBO / Ipsos-Ipec, 27,9% dos rubro-negros afirmam usar roupas ou acessórios do clube “sempre” ou “frequentemente”, índice superior aos 23,3% dos corintianos, segundo colocados entre os clubes de maior torcida do eixo Rio–São Paulo.


Dados retirados da Ipsos-Ipec 2025 e gráfico gerado pela IA Gemini
Dados retirados da Ipsos-Ipec 2025 e gráfico gerado pela IA Gemini

A nova pesquisa Ipsos-Ipec 2025 atualizou o ranking das maiores torcidas do Brasil e reforçou a força do futebol carioca no cenário nacional. O Flamengo segue isolado na liderança, com 21,2% da preferência dos brasileiros, mais que o dobro do segundo colocado, o Corinthians, que aparece com 11,9%. A lista também evidencia que o Rio de Janeiro é a única cidade brasileira com quatro clubes entre os 15 mais populares. Juntos, eles formam a maior concentração de torcidas em uma única metrópole, reforçando o papel do Rio como um dos centros culturais do futebol nacional.


A Megaoperação e o dia seguinte: o futebol como trégua?


Na manhã de 28 de outubro de 2025, o Rio acordou com som de tiros. A maior operação de segurança pública da década deixaria um saldo com 122 mortos nos complexos do Alemão e da Penha, em um dos episódios mais violentos da história recente da cidade. Entre barricadas, escolas fechadas, comércios interrompidos e comunidades inteiras em estado de choque, a notícia ocupou manchetes nacionais e internacionais. Era dia de muito medo.


Vinte e quatro horas depois, o Rio viveu outra cena, radicalmente diferente. O Flamengo entrou em campo na Argentina para decidir uma vaga na final da Libertadores contra o Racing. E venceu. A cidade, emocionalmente soterrada na véspera, explodiu em fogos e posts frenéticos nas redes sociais. Era como se duas realidades paralelas dividissem o mesmo território.


Alice descreve essa transição com uma palavra: “tenso”. Para ela, o futebol naquela noite deixou o clima mais leve para a população, assim como o seu companheiro de time, Alan Melo, o qual citou a expressão do torcedor Eliezer Rosa: "Quando o Flamengo vence há mais amor nos morros, mais doçura nos lares, mais vibração nas ruas." Luiz Gontijo, porém, faz um contraponto necessário:

“O que aconteceu nas comunidades está em outra dimensão. Futebol é alegria e cultura, mas não pode ser usado como anestesia. A vitória do Flamengo emociona, claro, mas ela não apaga o trauma coletivo da cidade.”

A fala de Gontijo funciona como ajuste de foco para a reportagem. O futebol carioca é um gerador paixões, mas também convive, diariamente, com a cidade violenta e desigual que o sustenta. A festa não elimina o luto, e o luto não impede a festa. Ambos existem num mesmo espaço urbano que oscila entre medo e celebração.


Da crise ao topo, o reerguimento dos clubes

Gestão, elenco e torcidas


Gontijo diverge da tese de “obra do acaso”. Para ele, o tripé da conquista da Glória Eterna é claro:

1- Investimento;

2- Identidade de jogo;

3- Sinergia com a torcida


O Flamengo transformou sua imensa estrutura em prática concreta. O Flamengo arrecadou mais de R$ 1 bilhão por quatro anos consecutivos e tende a continuar por um longo período. No balanço de 2024, o Rubro-Negro divulgou uma receita bruta de R$ 1,3 bilhão. Esses faturamentos permitiu manter os elencos, investir em infraestrutura e contratar mais craques para a Libertadores e o resultado veio, 4° final de Libertadores em 7 anos.


Já o Fluminense apostou numa lógica diferente dos outros cariocas, investiu no trabalho de base, na filosofia de Fernando Diniz e em talentos como Germán Cano, Arias e André. O clube registrou receita operacional de R$ 684 milhões em 2024, a maior de sua história. A aposta de Mário Bittencourt, presidente do clube, foi clara com menos alarde de investimento e mais consistência tática.


O Botafogo reencontrou fôlego via modelo SAF tendo aporte inicial importante, montagem rápida de elenco competitivo e a conquista da Libertadores em 2024 como coroação desse processo. De 2022 a 2024, o clube reduziu o passivo em R$ 474 milhões com “pagamentos expressivos e exaustivas renegociações de sucesso com credores, frutos da credibilidade dos dirigentes da SAF nos acordos firmados” como menciona John Textor, proprietário da Sociedade Anônima de Futebol do Botafogo, em uma nota no relatório de gestão do clube.


Mas o jornalista esportivo Luiz Gontijo faz o alerta que não pode ficar de fora que nem todo sucesso é sustentável por si só. Ele aponta que o Botafogo, apesar da conquista, ainda oscila em modelos políticos e de governança; o Fluminense, mesmo com crescimento de receitas ainda enfrenta fragilidade estrutural no equilíbrio financeiro.


Em suas palavras: “Não sei se esse momento do futebol carioca irá continuar, é um mistério devido questões extra campo”. Para permanecer, conclui Gontijo, exige que vençam mais títulos, fazendo a comparação com clubes europeus como Bayer Muchen e Real Madrid, os quais são potências em seus países porque estão sempre vencendo e gerando cada vez mais receita devido aos títulos.


Assim como o Flamengo fez de sua estrutura uma máquina; Fluminense fez da base e jogadores da América do Sul uma aposta vencedora; Botafogo fez do aporte e da urgência uma arrancada. É notório que todos eles agora têm na frente o desafio de tornar a vitória de hoje em um padrão de amanhã.


O Eixo virou


Comparar o momento do Rio de Janeiro ao resto do Brasil é encarar uma virada de eixo. Durante décadas, o futebol paulista foi predominante no país com receitas maiores, estádios modernos, protagonismo midiático e finais internacionais constantes. Mas quando o calendário da Libertadores chegou no ano de 2022, foi o Rio que assumiu a direção da narrativa continental. Nem São Paulo, nem Buenos Aires, nem Montevideo, nenhuma outra cidade conseguiu o que o Rio de Janeiro fez: quatro títulos consecutivos da Libertadores com clubes diferentes (2022–2025) e cinco finais seguidas (2021–2025)


E quando três rivais históricos de uma mesma cidade dividem a mesma glória internacional é uma reescrita de hierarquias. O futebol brasileiro passou quase um século entre hegemonias estaduais e dinastias regionais. De repente, uma única cidade passou a definir o rumo do continente. Apesar de ter uma potência hoje na América do Sul que é o Flamengo, o Rio produziu um período vencedor e a cidade passou, além de possuir um palco mundial, que é o Maracanã, passou a possuir alguns protagonistas.


América do Sul ficou pequena


E quando o foco se desloca do continente para o mundo, o Rio de Janeiro descobre um novo tipo de protagonismo, um que não se mede apenas em títulos, mas em presença. O FIFA Club World Cup 2025, a Copa do Mundo de Clubes, edição inaugural do torneio, expôs que a capital fluminense é a única do mundo com três clubes disputando o título mundial. O jornal espanhol AS lançou uma matéria que dizia: “Rio de Janeiro. A capital mundial do samba, do carnaval, das praias… e do futebol.”


A frase, seca e contundente, resume o impacto internacional da hegemonia recente. Flamengo, Fluminense e Botafogo tomaram o mapa do futebol global pela competitividade. A imprensa europeia reconheceu que a sequência de títulos da Libertadores transformou o Rio num espaço técnico capaz de rivalizar com cidades com grandes clubes como Buenos Aires, Londres, Manchester e Madrid.


No Mundial, essa narrativa deixou de ser teoria. O Botafogo venceu o PSG, então campeão da Champions e potência a ser batida, num dos resultados mais comentados do torneio. O Fluminense chegou à semifinal, superando expectativas externas. E o Flamengo derrotou o campeão da competição, o Chelsea, em um jogo que repercutiu como afirmação esportiva.


Em uma das campanhas, houve um grande impacto quando a cidade do Rio recebeu o troféu oficial, com os clubes Flamengo, Fluminense e Botafogo elaborando um marketing especial, estando em observação para seus torcedores por um curto período que cada time teve. No geral, a presença tripla no Mundial gerou um grande mercado. Para os clubes, o Mundial funcionou como vitrine para expansão de marca, uma comprovação simbólica de que o domínio continental dos últimos anos é também institucional.


O Rio, que muitas vezes foi visto como instável demais para liderar o futebol brasileiro, agora aparece em manchetes europeias como “capital mundial do futebol”, não sendo por nostalgia ou feitos passados e sim pela atualidade.


O olhar de fora

O respeito da América do Sul ao futebol do Rio


Quando se fala em hegemonia, não basta ouvir o próprio Rio. Era preciso atravessar a fronteira. Conversamos com Mariano Sansone, torcedor do Vélez Sarsfield. O argentino resume em algumas palavras o que os argentinos sentem hoje ao enfrentar clubes cariocas: “Motivación y un poco de miedo”


O estádio José Amalfitani, o "Fortín", serve como cenário na foto de Mariano Sansone. Aos 27 anos e atuando como trabalhador independente, Mariano representa a fidelidade do torcedor argentino. (Arquivo Pessoal/Mariano Sansone)
O estádio José Amalfitani, o "Fortín", serve como cenário na foto de Mariano Sansone. Aos 27 anos e atuando como trabalhador independente, Mariano representa a fidelidade do torcedor argentino. (Arquivo Pessoal/Mariano Sansone)

Para o “hincha” argentino, o continente inteiro se reorganizou diante da hegemonia recente do Rio de Janeiro. “É um sonho muito difícil para um time argentino, mas não impossível.”, afirma. Não é força de expressão, ele descreve que a diferença no jeito de torcer do carioca para o argentino com uma grande discrepância: “O carioca vivencia como uma festa e se diverte. O argentino vivencia como uma guerra e está disposto a morrer naquelas arquibancadas”. Os cariocas são lembrados como festivos não só pelos brasileiros, mas também pelos sul-americanos.


Ir ao Maracanã, segundo Mariano, é um sonho esportivo. Sonho porque representa a essência mítica do futebol sul-americano, a cultura das arquibancadas forma uma atmosfera que não existe em outro lugar do planeta.


Área reservada à torcida argentina no Maracanã. O registro capta o ambiente contra o Brasil pelas Eliminatórias, no dia 21 de novembro de 2023, um dia que extrapolou o campo e foi noticiado, infelizmente, pelas cenas de conflito presenciadas nas arquibancadas. (Guilherme Cid)
Área reservada à torcida argentina no Maracanã. O registro capta o ambiente contra o Brasil pelas Eliminatórias, no dia 21 de novembro de 2023, um dia que extrapolou o campo e foi noticiado, infelizmente, pelas cenas de conflito presenciadas nas arquibancadas. (Guilherme Cid)

A semifinal Vélez x Flamengo de 2022 é o evento que dói em sua memória. O 4 a 0 no José Amalfitani, estádio do Vélez, foi um golpe. O Rubro-Negro conseguiu aplicar uma goleada histórica na Argentina, em um jogo de ida de semifinal de Libertadores, com um verdadeiro show de Pedro, marcando um hat-tricker e calando mais de 40 mil argentinos presentes e iniciando uma hegemonia carioca de vez.


A mudança de eixo no continente passou dos argentinos, que dominaram a Libertadores por décadas, agora enxergam o Rio como antagonista. A rivalidade se mistura com admiração. Eles já não enfrentam “um time brasileiro”, enfrentam o time do Rio, qualquer que ele seja.


Essa virada simbólica é inseparável da virada econômica. A crise que se abate sobre as principais economias da América do Sul, intensificada pela pandemia também chegou aos estádios. Enquanto, ou Flamengo e Palmeiras brigavam pela Libertadores de 2025 em Lima, no Peru, o Brasil atingiu a marca histórica de sete títulos consecutivos da competição, escancarando o enfraquecimento recente de dois antigos países tradicionais: Uruguai e Argentina.


O Uruguai segue formando craques, mas não consegue manter. Darwin Núñez, Federico Valverde, Ronald Araújo, todos deixaram o país muito cedo e por valores modestos, impedindo que Peñarol e Nacional mantivessem elencos capazes de competir no mais alto nível continental. Desde 2011, nenhum uruguaio chega sequer à final da Libertadores.


Do outro lado do Rio da Prata, os argentinos enfrentam uma tempestade semelhante, só que em escala maior. Clubes historicamente gigantes, como Boca e River, passaram a operar num cenário de moeda instável e dificuldade de investimentos. Revelam talentos, mas precisam vendê-los rapidamente para equilibrar o caixa. Quando o Fluminense levantou a taça em 2023 contra o Boca Juniors, venceu um modelo econômico em desgaste.


O que antes era Brasil x Argentina se transformou em São Paulo x Rio de Janeiro, repetindo como em 2021, o mesmo confronto entre equipes, com um Palmeiras buscando manter sua estrutura vencedora e o Flamengo, com sangue nos olhos, buscando sua revanche e conseguir.


Virada de Identidade


Alice guarda a imagem dela abraçada ao pai. Zezão guarda o chute de John Kennedy visto “exatamente de trás”. Pedro carrega a lembrança de Marlon Freitas soltando pipa como símbolo de milagre. Pato carrega a felicidade ser o único tetra no Brasil. Cada um dos quatro viveu algo único, mas todos viveram o mesmo fenômeno de que o Rio descobriu força em meio ao caos.


Flamengo venceu o Palmeiras em Lima, e o Rio chegou ao feito inédito de quatro Libertadores seguidas com clubes da mesma cidade, algo que nem Buenos Aires, nem São Paulo, nem Montevidéu, berços originais do futebol latino jamais alcançaram.


E, pela primeira vez neste século, outros países passam a olhar para o Rio não pela violência, mas pelo futebol que fez uma cidade inteira ter orgulho de novo. 2025 pode encerrar o ciclo ou pode coroar a era em que o Rio mandou na América.
















1 comentário


Renata Feital
Renata Feital
06 de dez. de 2025

Boa reportagem, meninos! Gostei muito das entrevistas e do formato que vocês construíram para a longform! Parabéns!

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