O fenômeno de ser fã desperta emoção, pertencimento e dedicação
- Alunos UVA

- 28 de nov. de 2025
- 12 min de leitura
Atualizado: 6 de dez. de 2025
Como a paixão por um artista move vidas, cria comunidades e transforma histórias reais de fãs brasileiros em experiências de afeto e pertencimento
Por Alex Leoni, Átila Cevidanes e Brendon Faria
Muito se fala sobre o amor à primeira vista, presente em filmes, séries e histórias por aí. Mas o amor à primeira ouvida também existe, é real e capaz de levar alguém a cometer loucuras ao se apaixonar por um artista depois de ouvir uma de suas músicas. A idolatria a um cantor ou cantora é bastante comum, seja pela identificação com a música ou pelas atitudes do artista, criando um senso de identidade e pertencimento a um fandom — como são chamados os grupos de fãs de determinado artista, produto ou produção — e pode surgir em alguém quando menos se espera.
Christian Mewes é esse alguém. Ele tinha 10 anos em 2009, quando morava em Taió, no interior de Santa Catarina, quando ouviu pela primeira vez a voz da cantora norte-americana Katy Perry enquanto estava no carro com seu pai, especificamente a música “Hackensack”, original da banda Fountains of Wayne e que Katy havia gravado um cover para a MTV na época. A banda era a favorita do pai de Christian na época e ele mesmo recomendou que o filho ouvisse o cover da música, que segundo ele, havia ficado muito bom. “Eu gostei e fui buscar mais, descobri ‘I Kissed A Girl’, ‘Lost’ e comecei a ouvi-la, só tinha acesso ao CD na época, pois não tinha internet onde eu morava na época.”
A partir desse momento, o jovem começou a se interessar pela discografia da cantora e com o tempo começou a aspirar toda a musicalidade dela para sua vida, conectando cada canção a memórias pessoais. Esse fenômeno é comum entre muitas pessoas, que se apegam a músicas que, por meio das letras ou das batidas, se entrelaçam perfeitamente com experiências marcantes de suas vidas.
“Cada vez mais, o fã busca referências, comunidades e locais às quais possa alinhar pensamentos e sentimentos em relação a esse ídolo, algo que se reflete nos fã-clubes”, diz a psicóloga Luana Oliveira. A sensação de se sentir representado e acolhido por um grupo está diretamente atrelado a cultura do fandom.
Pertencer aos “Katycats” — como são chamados os fãs de Katy Perry — trouxe a Christian uma série de experiências positivas, como novas amizades e vivências que ele talvez não teria se não fosse fã da cantora. “Então, muitas vezes, esses fãs têm alguma dependência emocional, falta de afeto, que eles buscam de forma disfuncional com essas comunidades de fãs”, completa.

Toda essa paixão fez Christian enfrentar diversas situações inesperadas na tentativa de se aproximar de Katy durante a passagem da cantora pelo Brasil em 2018, com a Witness The Tour. Mesmo tendo um hotel reservado com seu ex-marido, ele decidiu dormir na fila dos portões do show, para garantir um lugar na grade e aumentar as chances de ficar o mais perto possível da artista. Mesmo com os perrengues, o catarinense disse que esse amor é tão grande que as experiências também lhe deixaram boas recordações, moldando memórias afetivas inesquecíveis.
Apesar dos momentos felizes, a admiração por Katy também é marcada por momentos difíceis de sua vida. Ao longo dos anos, as músicas da artista se tornaram companheiras em períodos dolorosos: em 2016, com “Rise”, Christian perdeu seu tio devido a um suicídio; e em 2020, enquanto Katy anunciava seu quinto álbum de estúdio, “Smile”, ele enfrentava o fim de seu casamento, a perda de seu emprego e de um amigo, vivenciando uma fase em que tudo ao seu redor parecia desmoronar. “Só ela conseguiu me animar”, diz Christian.
A era “Smile” virou refúgio, uma sequência de pedaços de esperança que ele acompanhava e tentava se distrair de todos os problemas com vídeos, lives, anúncios e a gravidez da cantora. “Eu fiz a única festa da minha vida inspirada no Smile. Foi a minha saída do poço.” A faixa mais marcante para Christian é Only Love, uma espécie de carta de despedida em que Katy canta sobre perdoar o ódio que recebeu e deixar apenas o amor quando chegar a hora de partir para outro plano.
A conexão com a música é tão grande que “permitiu” a Christian ter contato direto com Katy, ele foi chamado para subir ao palco com a cantora no show da turnê Lifetimes Tour em setembro de 2025, em Curitiba. O fã havia perdido a mãe há menos de dez dias, e a música escolhida na votação para o show daquele dia foi justamente Only Love, do álbum com o qual mais se identifica, também o favorito de sua mãe e a canção mais importante para ele.
Com Wilgner Silveira, 24, a sensação não é diferente. No meio dos cantores brasileiros, foi em Jão que ele se sentiu representado e confortável para se tornar fã, se identificando com letras e situações retratadas pelo artista, como por exemplo, quando abordou sobre sua sexualidade em letras de músicas, como “Meninos e Meninas”, do álbum Pirata, de 2021.
“...ele me ajudou a me encontrar em todos as áreas da minha vida, ele sempre foi um cantor assumidamente resolvido com a sexualidade dele, algo que sempre me chamou atenção e me ajudou a me entender com a minha, ele e as músicas me fizeram dar o primeiro passo pra poder me aceitar e externalizar pro mundo quem eu era.” diz Wilgner sobre suas identificações e correlações da vida com a arte de Jão.

Estar perto do ídolo fez com que ele conseguisse conversar, tirar fotos ou simplesmente estar no mesmo ambiente que o cantor por pelo menos cinco vezes. Muitos fãs extremamente apaixonados são capazes até mesmo de ir atrás do artista favorito em aeroportos, hotéis, shows e outros eventos, como o próprio Wilgner fez.
“Eu consegui encontrá-lo na saída de um evento. Já havia o encontrado uma semana antes, porém foi rápido e não consegui dizer nada, mas nesse dia eu não queria foto nem autógrafo, eu só queria ficar abraçado com ele, e eu consegui, ele me recebeu com sorriso no rosto e me deu um abraço forte, consegui dizer pra ele tudo que ele representava pra mim, foi o dia mais mágico da minha vida”, afirma Wilgner.
Para Maria Eduarda Brito, 22, Taylor Swift é como aquela amiga que está sempre junta para dar os melhores conselhos e acompanhá-la na montanha-russa que é a vida com seus altos e baixos, “Houve um momento em que me senti muito sozinha e ouvir as músicas dela era como conversar sobre minhas questões com uma amiga. Sempre me senti muito próxima das letras que ela escreve, é como se escrevesse para mim”, diz Maria.
Para ela, Taylor vai além da identificação, mas também serve de inspiração para escrever suas próprias canções, já que também é cantora e compositora. “Amo usar as músicas dela como ideia para as minhas letras, poemas, ou até mesmo tocar as músicas dela em algum instrumento. Além disso, elas soam como um abraço pra mim, às vezes é tudo que eu precisava ouvir”, afirma.

A comunidade dos fandoms também apresenta um ponto muito forte: a possibilidade da formação de amizades entre fãs, muitas delas virtuais ou presenciais, surgindo nas filas dos shows ou em outras situações que envolvem essa paixão pelo mesmo artista ou banda.“É interessante se relacionar com pessoas que compartilham do mesmo gosto que você. Tenho uma grande amiga chamada Laura, que mora em Goiânia. Eu moro no Rio de Janeiro. E nossa amizade surgiu por ambas serem fãs da Taylor”, diz Maria Eduarda.
Simon Diego, também fã de Katy Perry, faz parte de uma página dedicada à cantora com mais de 113 mil seguidores no X (antigo Twitter). O perfil, hoje um dos principais portais sobre Katy no Brasil, ajudou Simon a construir novos laços e ampliar sua rede de amizades a partir das interações e experiências envolvendo a artista.
“Por eu fazer parte de uma fã-page, é como um trabalho às vezes, não tem um dia sequer que eu não leia ou escreva algo sobre a Katy. E tudo vale a pena, eu criei grandes amigos nesse meio, pessoas que eu conheço por muito tempo, que a relação ultrapassou a barreira da internet, viraram amigos da vida mesmo”, diz o rapaz.
Para Christian, os amigos que fez no fandom se tornaram praticamente uma família. Ele considera um deles como um irmão, alguém que conheceu por causa do amor em comum por Katy Perry e que esteve ao seu lado até nos momentos mais difíceis, inclusive no velório de sua mãe.

Quando a família participa e compreende a paixão pelo artista tudo fica mais fácil, como no caso de Maria Eduarda, em que a família levou a jovem para assistir a um show de Taylor Swift nos Estados Unidos de surpresa, na época de seu aniversário de 15 anos. A tendência é que os laços familiares se fortaleçam ainda mais. Isso é importante especialmente porque, muitas vezes, fãs que fazem grandes esforços para ver seus ídolos de perto acabam sendo vistos como “sem noção” ou como alguém com “falta do que fazer” e o apoio da família muda tudo.
Para Simon, foi num momento de alívio após um grande período tenso por conta da saúde de sua mãe que ele notou que ela entendeu o amor do katycat pela sua ídola e a relação dos dois ficou ainda mais brilhante.
“Eu sempre quis que a minha mãe assistisse a um show da Katy, mas fomos adiando, até que infelizmente ela adoeceu e eu perdi meu chão, achando que iria perdê-la. Quando finalmente ela acabou o tratamento [contra um câncer], eu não pensei duas vezes, eu tinha um dinheiro guardado, usei todo nessa viagem e valeu a pena. Nós rimos, choramos, dançamos e celebramos a vida dela juntos. Nesse dia ela pode entender o porque eu gosto tanto da Katy, e ficou até surpresa com a beleza e carisma dela”, afirma Simon.

Mas, como nem tudo são flores, posicionar-se politicamente ou demonstrar apoio a uma causa também pode despertar o outro lado das comunidades: os chamados haters. Eles atacam artistas por esses posicionamentos, ou simplesmente por não gostarem daquela figura pública, recorrendo a críticas agressivas que vão desde desmerecer feitos do artista até hostilizar uma simples selfie publicada nas redes.
Haters e o conflito entre os fandoms
O universo dos fandoms também apresenta tensões que surgem entre diferentes comunidades de fãs. Para a cientista social Simone Pereira de Sá, escritora do artigo acadêmico “Somos Todos Fãs e Haters? Cultura Pop, Afetos e Performance de Gosto nos Sites de Redes Sociais”, esse movimento é quase inevitável.

Esse processo cria rivalidades, algo que, segundo ela, existe muito antes da internet. “A rivalidade entre comunidades é muito comum”. Ela explica que isso acontece desde as décadas de 1940 e 1950, com fãs de Emilinha e Marlene – cantoras de rádio que protagonizaram uma das rivalidades mais famosas da música brasileira. Para Simone, essa tensão se acentua especialmente entre fandoms de artistas femininas. “A sociedade estimula a rivalidade entre mulheres, e isso se desdobra na rivalidade entre fãs de mulheres. É uma característica muito específica das divas pop.”
Essa lógica de pertencimento e exclusão contribui para rivalidades históricas entre fãs, especialmente em torno de artistas femininas. “A sociedade estimula a rivalidade entre mulheres e a rivalidade entre fãs de mulheres, principalmente. Claro que fãs de homens também têm rivalidades, mas isso é uma característica muito específica das divas pop”, observa a especialista.
Mas não se trata apenas de disputas racionais. As emoções envolvidas levam o conflito a outro nível. “Quando falamos de fandoms, estamos falando de afetos. O amor aos artistas envolve afetos muito extremos”, destaca a especialista. “Atacar o inimigo da sua diva é um desdobramento desse afeto.” Essa dinâmica mostra que a mesma paixão que une um grupo também pode alimentá-lo contra outro e, na lógica das redes, essa polarização cresce. “Fãs e haters são figuras centrais deste funcionamento da internet em um ambiente altamente polarizado”, diz Simone.
Quando o fã vira ativista político
Entre tantas camadas que compõem a força de um fandom, uma delas tem ganhado cada vez mais visibilidade: o ativismo político. Para Simone Pereira, isso faz parte da própria essência da relação entre artistas e admiradores. “Os fãs estão sempre reivindicando que os artistas ocupem um lugar político”, afirma. A expectativa de posicionamento público, seja sobre direitos civis, questões sociais ou debates culturais, está diretamente ligada ao vínculo emocional que sustenta essas comunidades.
Segundo Simone, esse fenômeno não nasceu com a internet. “Durante a Segunda Guerra Mundial, vários artistas de Hollywood se envolveram nas campanhas para arrecadar fundos para a guerra”, lembra. Ela cita também Carmen Miranda, que participou ativamente dessas mobilizações, e os grandes festivais beneficentes dos anos 80. Para a pesquisadora, o que muda hoje é o alcance e a intensidade desse engajamento por conta da cultura digital.
O vínculo emocional com o artista não apenas forma comunidade, ele também convoca o fã a agir. “Os artistas conseguem, a partir dos afetos, mobilizar seus fãs”, explica Simone. Assim, apoiar causas defendidas pelo ídolo, pressionar por posicionamentos ou participar de ações coletivas se torna uma extensão natural da devoção.
Esse movimento é perceptível mesmo entre fãs que não enxergam sua relação com o artista como política. Wilgner Silveira descreve sua experiência de fandom como algo que moldou suas escolhas, sua identidade e sua coragem para assumir quem é. Ele afirma que o cantor Jão o ajudou a se encontrar em todas as áreas da vida. É esse afeto que, no ambiente digital, se converte em voz coletiva e, muitas vezes, em força política.
O espetáculo acessível a todos
Para muitos fãs, chegar perto de um ídolo sempre significou atravessar estados, gastar o que não podem e transformar cada show em uma pequena epopeia. Já outros, por limitações de tempo, dinheiro ou circunstâncias, assistiam de longe, resignados a acompanhar os artistas apenas pelas telas. Foi para esse público silencioso, mas profundamente apaixonado, que a democratização dos shows surgiu como uma espécie de alívio. No Rio de Janeiro, essa proposta tomou forma em grandes apresentações gratuitas, ocupando praias e espaços públicos e tornando possível aquilo que antes parecia distante.
No céu de Copacabana, onde a cidade parece respirar junto ao mar, o Rio tem reinventado sua relação com a cultura e com a multidão. A praia voltou a ser o epicentro dos grandes encontros, passando por Lady Gaga em 2025, com seus 2,1 milhões de espectadores e impacto econômico gigante, a Madonna no ano de 2024, reunindo 1,6 milhão de pessoas na areia. No mesmo cenário, o TIM Music Rio em 2023 se firma como símbolo de democratização: shows gratuitos e pulsantes chegaram a até mais de meio milhão de pessoas. Enquanto a Riotur projeta até R$1,7 bilhão em Imposto Sobre Serviço (ISS) relacionado a eventos até 2028 e a cidade registra mais de 4 mil eventos autorizados em um só ano.
É nesse tabuleiro complexo que surge Gabriel Saboia, assessor chefe de comunicação da Secretaria de Cultura do Estado. No meio da agenda de eventos, ele explica a política cultural construída em duas vias: editais de fomento direto e a lei de incentivo, que transforma renúncia fiscal em algo positivo. Saboia descreve como festivais como o de Inverno se tornam estratégicos para manter a cidade viva mesmo fora da alta temporada. Para ele, democratizar é garantir continuidade, fazer com que projetos retornem ano após ano, até se tornarem política pública consolidada.
Talvez por isso ele fale com especial entusiasmo do Passaporte Cultural RJ, que levou mais de 200 mil pessoas de baixa renda a teatros, museus e shows pela primeira vez. Para Saboia, democratizar a cultura não está apenas nos megaeventos de praia, mas no gesto silencioso de abrir portas para quem nunca pôde atravessá-las. Por fim, revela a essência de seu papel: a cultura que defende não brilha apenas no palco, ela se sustenta nos bastidores, onde gente como ele mantém viva e aquecida a trama cultural de um estado.
A admiração que ultrapassa limites
Por mais que ser fã possa ser uma experiência divertida, com muitas vivências e descobertas, é necessário encontrar um equilíbrio saudável do que é estar envolvido nessa paixão com o artista, já que, de acordo com a psicóloga Luana, se cria uma ideia de pertencimento e de participação na vida deste famoso.
“Hoje, com a rede social cada vez mais acessível, esse ídolo costuma ir para a rede social mostrar o seu dia a dia. A hora que acorda, a hora que toma banho. Então, toda a sua rotina está ali nos stories, na rede social. Então, aquela pessoa, aquele fã, no caso, se identifica tanto, acredita tanto que está criando um vínculo ali, que a gente tem um nome para isso, o parassocial.”
A grande parte dos artistas gosta de compartilhar seu cotidiano nas redes, os stories geralmente variam entre fotos aleatórias, bastidores e até mesmo registros dos próprios shows. E para os fãs mais dedicados, isso é um prato cheio para saber mais do seu ídolo. Mas, às vezes, os adoradores daquele artista encaram uma realidade diferente do artista no dia a dia do que aquele que se apresenta no palcos mundo afora.
“É um vínculo de via única, que é só da parte do fã com o ídolo, não é do ídolo para o fã. Então, muitas vezes, gera ali um universo paralelo em qual eles acreditam que fazem parte daquela vida daquele ídolo, se sentem pertencentes, como se fosse da família. ”O próprio Christian afirma que de tanto acompanhar a vida de Katy nas redes, principalmente hoje em dia, quando é mais fácil acompanhar a vida de famosos de forma online, se sentiu como se conhecesse a cantora há muito tempo. E quando ele foi chamado ao palco no show, percebeu que estava diante de uma “amiga”.




Excelente, meninos! Amei a longform, muito bem apurada! Parabéns!