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O esporte é para todos: por que incentivar pessoas com deficiência a entrarem no mundo esportivo transforma vidas

  • Foto do escritor: Alunos UVA
    Alunos UVA
  • 1 de dez. de 2025
  • 10 min de leitura

Atualizado: 3 de dez. de 2025


Histórias e iniciativas mostram como o esporte transforma vidas e supera barreiras


Por Ana Luiza Lopes e Camilly Renda


Quando o esporte encontra a pessoa certa: histórias que inspiram


Claudemir Santos, sofreu um acidente em 30 de agosto de 1998, ele se formou no Exército, onde construiu seus primeiros objetivos de vida. Durante um treinamento, sofreu um acidente com uma granada de mão defeituosa, que resultou em amputação traumática de partes da mão. Pela legislação da época, não pôde continuar na ativa e foi conduzido à reserva militar, mesmo desejando seguir servindo.


Em busca de um novo propósito e querendo continuar sendo prestativo para sua família, encontrou no esporte um caminho de reconstrução. A prática esportiva devolveu autoestima, saúde e motivação. Hoje, ele é um verdadeiro defensor do esporte, acreditando em seu poder transformador.


“O esporte não é a solução de todos os problemas. Mas certamente melhora os indicadores de saúde, a autoestima e o entretenimento. O esporte é um processo contínuo, dedicado a todos.”, afima Claudemir.

O interesse pelo atletismo surgiu ao assistir às Paralimpíadas de Atenas, em 2004. No Parapan do Rio, chegou às finais dos 100m e 200m rasos, e seu desempenho o levou à convocação para Pequim 2008, onde conquistou a medalha de prata no revezamento 4x100m. 


Apesar das conquistas, ele segue em busca de um objetivo ainda maior e treina intensamente para alcançá-lo. Hoje, também mantém um projeto social que ajuda pessoas com deficiência a entrarem no mundo esportivo. 


A história de Claudemir representa o caminho de muitos atletas com deficiência: iniciação tardia, descoberta inesperada e um percurso marcado por persistência.


Um movimento que ganha força, mas ainda enfrenta barreiras


Apesar dos avanços nos debates sobre acessibilidade e inclusão, pessoas com deficiência ainda encontram dificuldades para ocupar espaços esportivos no Brasil. Falta de estrutura, preconceito, ausência de políticas públicas consistentes e desinformação continuam sendo barreiras que afastam esses atletas das quadras, piscinas e pistas. Ainda assim, o esporte segue sendo um poderoso agente de transformação. Sendo capaz de mudar vidas, romper estigmas e criar oportunidades reais de participação social.


E os números reforçam essa urgência. Segundo dados do Censo Demográfico de 2022 do IBGE, mais de 14,4 milhões de pessoas têm algum tipo de deficiência, que representa cerca de 7,3% da população brasileira, mas apenas uma pequena parcela tem acesso ao esporte de forma estruturada. Ao mesmo tempo, o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) mostra um crescimento gradativo na presença de atletas brasileiros em competições nacionais e internacionais, um sinal de que, quando há incentivo, os resultados aparecem.


A jovem que se encontrou no paradesporto após um acidente


Outro exemplo inspirador é o de Naiara Ramalho, 37 anos, praticante de arremesso de peso, lançamento de dardo e tiro esportivo. No dia 15 de junho de 2015, voltando da faculdade, Naiara estava dentro do vagão do trem quando, de repente, sofreu um assalto. A jovem tenta correr atrás do assaltante, mas a mochila fica presa na porta do trem, que fechou. Naiara é arrastada pelo trem que começou a andar e perdeu um dos braços após cair no trilho e a locomotiva passar por cima do membro. A atleta diz como o esporte ajudou após a acidente.


"Após um acidente de trem no qual eu tive um braço amputado, eu conheci o esporte Paralímpico, foi uma forma de melhorar a depressão."

O atleta Juliano Ribeiro, de 41 anos, praticante de atletismo cadeira de velocidade, conta como o esporte impactou sua saúde mental:

“O esporte impactou minha saúde mental em tudo: na minha autoestima, em me sentir parte de algo que eu amo, que me faz bem. Eu treino feliz, competo feliz. Eu amo o que eu faço, me sinto feliz e completo.”, conta o atleta.
Juliano Ribeiro e Naiara Ramalho nas Paralimpíadas Universitárias 2025. Reprodução: Ana Luiza Lopes e Camilly Renda
Juliano Ribeiro e Naiara Ramalho nas Paralimpíadas Universitárias 2025. Reprodução: Ana Luiza Lopes e Camilly Renda


A opinião de quem estuda o assunto: especialistas explicam


Denize de Lima Lourenço, 65 anos, hoje aposentada é formada em Educação Física, com uma longa trajetória no esporte e na educação. Trabalhou como oficial de mesa na FBERJ entre 1982 e 1985, retornando à função em 2004. Também é oficial de mesa de basquete 3x3 e da Federação de Basquete em Cadeira de Rodas (FBA).


"Eu acho que é muito importante o esporte na vida da pessoa com deficiência, porque ela está com outros iguais, que têm a mesma deficiência. Um pode estar passando a sua experiência de vida para o outro, auxiliando, incentivando, e as pessoas vão se unindo.", diz a mesária.

Copa de Acesso 2025 de Basquete em Cadeiras de Rodas (Reprodução: Adriana Schimkus)
Copa de Acesso 2025 de Basquete em Cadeiras de Rodas (Reprodução: Adriana Schimkus)

A visão da psicologia do esporte: “A autopercepção muda completamente”


Em entrevista com Bruna Bardella, psicóloga do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), ela destaca que o esporte paralímpico tem um papel importante não apenas na performance esportiva, mas também na transformação pessoal dos atletas. Ela observa que, ao longo do processo de treinamento, muitos passam por mudanças significativas em sua relação com o próprio corpo, criando autonomia e construindo confiança em sua capacidade. 


“Hoje, eu vejo que o esporte paralímpico melhora a autoestima, a autoconfiança e a capacidade motora do atleta. Ao melhorar a capacidade motora, a pessoa consegue desenvolver a autonomia e se tornar mais independente. Outra característica que observo nos atendimentos é que um atleta paralímpico sempre tem alguém que o inspira e, ao mesmo tempo, ele é inspiração para alguém. Então, é uma cadeia, o que é super interessante e faz o Movimento Paralímpico crescer. Faz mais pessoas vivenciarem o esporte e criarem redes de relacionamento, assim nós vamos transformando a sociedade”, disse Bruna Bardella. 

As barreiras que ainda impedem o acesso ao esporte


Apesar dos avanços na pauta da acessibilidade, muitos desafios ainda persistem, especialmente no esporte amador e no ambiente educacional. Ainda falta estrutura adequada, formação de profissionais e incentivo para que pessoas com deficiência possam praticar esportes com segurança, autonomia e dignidade. Essa realidade evidencia que a inclusão no esporte precisa deixar de ser exceção e tornar-se parte efetiva das políticas públicas e das práticas institucionais.


A seguir, os principais obstáculos:


Barreiras físicas: espaços que não são pensados para todos


A realidade é que muitas quadras, academias, piscinas e centros esportivos simplesmente não são acessíveis. Entre os problemas mais comuns estão:

• Ausência de rampas e pisos táteis

• Falta de vestiários adaptados

• Equipamentos que não contemplam diferentes tipos de deficiência

• Piscinas sem plataformas de acesso

• Quadras com irregularidades

• Escadas sem alternativas seguras

• Meios de transportes adaptados


Para o treinador de basquete em cadeira de rodas, Hugo Tinoco, a falta de transportes adaptados dificulta a ida aos treinos.


“Falta principalmente o apoio das prefeituras e dos governos para a locomoção das pessoas com deficiência na cidade. A parte estrutural das vias e dos transportes é muito ruim, como o fato de o ônibus só poder levar um cadeirante por vez. Isso poderia ser mudado.”, diz o treinador.


Barreiras sociais: preconceito e estigmas


O preconceito ainda é uma barreira presente no ambiente esportivo. Especialistas destacam que o capacitismo aparece de diversas maneiras: desde a subestimação das capacidades dos atletas até a falta de oportunidades, infraestrutura e visibilidade. Esse comportamento contribui para reforçar desigualdades e limita o desenvolvimento esportivo e social desses indivíduos.


A percepção social sobre o esporte paralímpico ainda é marcada por estigmas que reforçam a ideia de que a deficiência define o atleta. Em muitos contextos, o foco acaba sendo colocado na limitação, e não na preparação, no treinamento e no desempenho esportivo, o que contribui para uma visão equivocada sobre o trabalho desses competidores.

“Infelizmente a gente ainda é visto muito com a ideia de superação, de exemplo de vida e não é isso, são pessoas que têm uma limitação, que têm uma deficiência, mas que treinam, se preparam, se esforçam e se dedicam tanto quanto atletas sem deficiência. São atletas. Continuam sendo atletas.”, afirmou Esther Duarte, psicóloga do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), em entrevista ao Jornal de Brasília.


Falta de representatividade na mídia: a cobertura que não chega ao grande público


Mesmo com recordes de medalhas e histórias impressionantes, a cobertura paralímpica ainda é restrita, sazonal e pouco aprofundada. Um levantamento do CPB mostra que, em muitos anos, atletas paralímpicos recebem menos exposição na grande mídia em comparação com atletas olímpicos, como aponta a Revista Tópicos. Essa diferença de visibilidade afeta diretamente a estrutura do esporte inclusivo no país. Com menor presença, muitos atletas enfrentam dificuldades para conquistar patrocínios, já que empresas tendem a investir onde há maior retorno de imagem. 


Como destaca o ex-atleta paralímpico, Claudemir Santos:



Falta de incentivo nas escolas


O ambiente escolar costuma ser o primeiro contato das crianças com a atividade física, mas especialistas apontem que a educação física adaptada ainda recebe pouca atenção. Muitas escolas não estão preparadas para acolher estudantes com deficiência de forma adequada, o que limita o acesso ao esporte e impede que eles experimentem diferentes modalidades desde cedo.


Esse cenário é agravado por falta de estrutura: faltam professores capacitados, materiais adaptados, avaliações adequadas e projetos de iniciação voltados para estudantes PCDs. Com isso, muitos alunos acabam sendo excluídos das práticas esportivas, mesmo sem intenção. Ou seja, promover inclusão no esporte desde a escola é essencial para abrir caminhos que permitam às crianças com deficiência descobrirem seu potencial, como diz na matéria da UNG.


Como o esporte muda vidas: impactos reais na saúde mental e física

O esporte adaptado tem impactos profundos na vida de pessoas com deficiência, promovendo ganhos reais na saúde física, no bem-estar emocional e na autonomia. Ele não apenas fortalece o corpo, mas também amplia a autoestima, a sociabilidade e a sensação de pertencimento.

Entre os principais benefícios estão:


Autonomia e independência


Pessoas com deficiência conquistam maior domínio do próprio corpo e conseguem realizar atividades cotidianas com mais facilidade, desde subir escadas até empurrar a cadeira de rodas com mais força e estabilidade.


Saúde mental e redução de sintomas de ansiedade e depressão


A inclusão no esporte paralímpico também tem impacto direto na saúde mental. Treinar, conviver com outras pessoas e fazer parte de uma equipe ajuda a reduzir sintomas de ansiedade e depressão, além de reforçar a autoestima e a sensação de autonomia. Para muitos atletas com deficiência, o esporte acaba se tornando um espaço de apoio e bem-estar, onde eles conseguem se fortalecer emocionalmente e seguir evoluindo dentro e fora das competições.


A psicóloga do esporte Elisabeth Fernandes, em entrevista com Portal Impulsiona, afirma que "O esporte como ferramenta de inclusão proporciona aos seus praticantes melhora em vários aspectos da saúde emocional. Posso citar como exemplos a elevação da autoestima e autoconfiança, e o estímulo da independência e autonomia. A atividade física também reduz problemas como depressão e isolamento social, contribuindo na integração e socialização". Para ela, a prática esportiva adaptada não serve apenas ao desempenho físico, mas também contribui para o bem-estar emocional, saúde e qualidade de vida das pessoas com deficiência.


Projetos e iniciativas que estão mudando o cenário


Se por um lado existem desafios, por outro há iniciativas que vêm transformando o esporte adaptado no Brasil. Projetos, políticas públicas e ações comunitárias têm mostrado caminhos concretos para ampliar a inclusão, oferecendo soluções eficazes e inspiradoras para o avanço da acessibilidade esportiva no país.


O atleta paralímpico, Ali Jawad, criou o Accessercise, o primeiro aplicativo fitness para pessoas portadoras de deficiência, com foco em acessibilidade, autonomia e inclusão no esporte. A iniciativa nasceu da própria vivência de Jawad como atleta e de sua percepção das barreiras que pessoas com deficiência enfrentam para praticar exercícios de forma segura e adaptada às suas necessidades. O app oferece treinos adaptados, videoaulas desenvolvidas por profissionais especializados e ferramentas de acompanhamento da evolução física do indivíduo, criando um ambiente digital completo para quem busca melhorar a qualidade de vida por meio da atividade física. 


Para trazer o aplicativo ao Brasil, o atleta firmou parceria com o Ministério do Esporte, com a Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e com a Associação Nacional de Desporto para Pessoas com Deficiência (ANDE). Essa colaboração garantiu a tradução da plataforma para o português e fez com que o aplicativo fosse aprimorado com recursos voltados ao público brasileiro, como o mapeamento de espaços esportivos acessíveis e conteúdos educativos compatíveis com as políticas nacionais de inclusão. Assim, o Accessercise chega ao Brasil com a finalidade de  ajudar mais pessoas com deficiência a encontrarem seu espaço no esporte. 


O trabalho do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB)


Referência nacional, o CPB é responsável por:

• Formação e capacitação de treinadores

• Organização de competições

• Investimento em atletas iniciantes

• Eventos de fomento ao esporte adaptado


O Centro de Treinamento Paralímpico, em São Paulo, é hoje o maior da América Latina  e recebe centenas de atletas todos os anos.


Projetos sociais que fazem a diferença


A AVA Vencedores é uma instituição sem fins lucrativos que, desde 2013, utiliza o esporte como meio de reabilitação, inclusão social e transformação para pessoas com deficiências físicas, visuais e intelectuais. Sob a liderança de Claudemir Santos, atleta paralímpico, o projeto oferece atividades esportivas adaptadas e uma metodologia que acompanha os participantes desde a reabilitação até a possibilidade de alcançar o alto rendimento. Para entender melhor a importância desse trabalho e como ele transforma vidas através do esporte adaptado, confira a explicação do Claudemir Santos, sobre o impacto do Projeto AVA Vencedores:



Focada em crianças com deficiência, trabalha com estímulo motor e esportivo.


Iniciativas municipais e estaduais


Várias cidades já criaram secretarias ou coordenadorias de esporte adaptado, como:

• São Paulo

• Curitiba

• Rio de Janeiro

• Porto Alegre


Essas iniciativas oferecem aulas gratuitas de natação, atletismo, bocha, goalball, vôlei sentado e outras modalidades.



Caminhos para um futuro mais inclusivo: o que ainda precisa mudar


Com base nas entrevistas, alguns caminhos se tornam evidentes:


Acessibilidade física completa nos espaços esportivos


Para que os espaços esportivos sejam realmente acessíveis, é importante que eles tenham rampas, pisos táteis e plataformas que facilitem o acesso de todas as pessoas. Os equipamentos também precisam ser adaptados, e os professores devem estar preparados para orientar e incluir quem tem algum tipo de deficiência. Tudo isso garante que qualquer pessoa possa participar das atividades com segurança e autonomia.


Formação profissional contínua


A formação profissional contínua é essencial para avançar na inclusão esportiva. Universidades precisam oferecer disciplinas obrigatórias de Educação Física Adaptada, Psicologia do Esporte para Pessoas com Deficiência e Inclusão e Acessibilidade. Esses conteúdos garantem que futuros profissionais estejam preparados para atuar com sensibilidade, técnica e compromisso com a diversidade.


Incentivos financeiros e patrocínios


Sem patrocínio, muitos atletas enfrentam barreiras que comprometem sua trajetória esportiva. A falta de apoio financeiro dificulta viajar para competições, adquirir equipamentos adequados e manter uma rotina de treinos de qualidade. Isso limita o desenvolvimento dos talentos e reduz as chances de evolução no esporte adaptado.


Cobertura jornalística mais abrangente


A cobertura jornalística do esporte adaptado precisa ir além das medalhas. É fundamental mostrar os processos, ouvir os atletas, acompanhar treinos e explicar as modalidades. Uma abordagem mais abrangente e humana ajuda a ampliar a visibilidade, combater estereótipos e valorizar o verdadeiro trabalho por trás de cada conquista.


O esporte é transformação e todos merecem viver isso


O esporte adaptado no Brasil cresceu, ganhou visibilidade e transformou histórias. Mas ainda há muito a conquistar. Falta estrutura, falta incentivo, falta cobertura, falta representatividade, ou seja, fatores que ainda implicam diretamente no acesso, no desenvolvimento dos atletas e na consolidação de um cenário verdadeiramente inclusivo.


Ainda assim, cada atleta que entra em campo, na piscina ou na pista prova diariamente que o esporte é, sim, para todas as pessoas.


E quando a sociedade abraça essa ideia, o esporte deixa de ser apenas competição, tornando-se ferramenta de igualdade, liberdade e pertencimento.


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