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O Abismo Invisível das Transmissões Esportivas

  • Foto do escritor: Alunos UVA
    Alunos UVA
  • 1 de dez. de 2025
  • 8 min de leitura

Levantamento mostra que, nas principais coberturas do país, apenas uma mulher esteve entre nove comentaristas e narradores; relatos expõem barreiras históricas e estruturais


Por Augusto Ferreira e Maria Eduarda Kneip


Ana Thaís Matos se tornou a primeira mulher a comentar um jogo do Brasil em Copas do Mundo (Foto: Reprodução/TV Globo)
Ana Thaís Matos se tornou a primeira mulher a comentar um jogo do Brasil em Copas do Mundo (Foto: Reprodução/TV Globo)

"Futebol é para homens, não para meninas". A frase machista dita por Ramón Diaz, treinador com passagens por Vasco da Gama e do Corinthians, no início deste mês, enquanto treinava o Internacional, reflete a crença ultrapassada de muitos de que o futebol é um território exclusivamente masculino. Que o Brasil é o país do futebol, todos sabem. Cinco vezes campeão da Copa do Mundo, considerado um celeiro de grandes craques e que abrilhantam o elenco dos melhores clubes da Europa. No entanto, quando o assunto é a presença de mulheres em posições de destaque em transmissões esportivas, o país deixa a desejar quando a análise é feita nos principais canais ou que realizam transmissões esportivas. Se “lugar de mulher é onde ela quiser” é a regra, o futebol brasileiro é a exceção.


Maior emissora do Brasil e uma das maiores do mundo em audiência, a TV Globo, que transmitiu sua primeira partida de futebol em 1965 — um amistoso entre Brasil e União Soviética — demorou 54 anos para dar espaço à uma mulher entre os comentaristas. Em 2019, Ana Thaís Matos comentou a Copa do Mundo Feminina em televisão aberta e entrou para a história como a primeira a conseguir tal feito. Hoje, é uma das comentaristas com mais espaço na grade da empresa. Três anos depois, foi a vez da narradora Renata Silveira ser a primeira a gritar gol em uma edição da Copa do Mundo masculina. Antes dela, na Bandeirantes, Luciana Mariano havia sido a pioneira na narração esportiva em TV Aberta, contudo em jogos menores. Atualmente na ESPN, ela sofre com ataques frequentes nas redes sociais por conta das suas narrações.


Luana Maluf foi a única comentarista mulher na final da Libertadores 2025 (Foto: Reprodução/Montagem feita por Augusto Ferreira)
Luana Maluf foi a única comentarista mulher na final da Libertadores 2025 (Foto: Reprodução/Montagem feita por Augusto Ferreira)

Avanços recentes, mas ainda insuficientes


Muita coisa mudou desde que o pioneirismo passou a pertencer a essas mulheres. No caso da TV Globo, que construiu parte de sua imagem junto ao público através das transmissões de futebol e que até hoje mantém o slogan “futebol é na Globo, aqui é emoção”, o mundo se transformou, em sua geopolítica e avanços tecnológicos. Contudo, a problemática cultural ainda é refletida no padrão de consumo de alguns “fãs de esporte”, como diz o slogan da ESPN. E padrões são repassados de geração a geração. Mas mesmo com a chegada das redes sociais e a expansão do debate acerca da presença — ou ausência — das mulheres nas transmissões esportivas, o que se vê hoje está longe de ser algo justo para as milhões de mulheres que acompanham os esportes de alto rendimento. 


Para comprovar isso, a reportagem analisou a principal transmissão esportiva do mês de novembro, que marca também as fases finais das principais competições do calendário brasileiro, nos principais canais de televisão do Brasil. O objetivo é comparar e entender a que passo está a inserção das mulheres nos eventos de maior visibilidade de cada uma das empresas analisadas. Dentre os grandes destaques nos esportes no penúltimo mês do ano está a final da Copa Libertadores da América, competição entre clubes mais importante do continente e que contou com a presença de dois grandes clubes brasileiros: Flamengo e Palmeiras. 


Na televisão, o confronto foi transmitido tanto pela TV Globo (TV aberta) quanto pela ESPN (TV fechada), que transmitiram in loco a decisão que aconteceu em Lima, no Peru, no último sábado (29). Ao todo, as emissoras contaram com narrador e dois comentaristas na transmissão, além da equipe de reportagem e da cobertura pré-jogo e pós-jogo. No entanto, não tiveram mulheres nas cabines principais de cada uma das emissoras. A Globo teve Luís Roberto como narrador e Junior e Caio Ribeiro como comentaristas, enquanto a ESPN teve Rogério Vaughan como narrador e Paulo Calçade e Zinho nos comentários. 


Além das duas emissoras, a GE TV, um braço do Grupo Globo no ambiente digital, também transmitiu o jogo, ao vivo e com imagens, no Youtube. A transmissão foi a única que teve uma mulher em posição de comentarista no “time titular”: Luana Maluf. Ao lado dela, Bruno Formiga fez os comentários, enquanto Jorge Iggor foi o narrador. Três transmissões simultâneas, nove narradores/comentaristas e apenas uma mulher. Mas o que esperar? Por mais de quatro décadas, as mulheres foram proibidas de jogar futebol no Brasil. De 1941 até 1983, foi considerado crime no país ter ao mesmo lugar e ao mesmo tempo uma mulher disputando uma partida no “país do futebol”. Quando o absurdo deu lugar ao lúcido, o Brasil já era tricampeão mundial, a televisão já havia ganhado cores e o imaginário popular já havia sido construído. Somado isso ao machismo estrutural que em tudo permeia, um abismo de muito mais do que 40 anos se construiu. Hoje, em 2025, pouquíssimas mulheres não carregam o posto de pioneira quando o assunto é transmissão esportiva, e raras são aquelas que possuem uma posição de destaque nas principais emissoras. 


Dados que expõem a falta de representatividade


A misoginia está presente nos pequenos detalhes que toda mulher percebe, como na declaração de Luciana Campo, jornalista na TV Brasil, no programa “Stadium”: “Certa vez, eu estava conversando com um antigo chefe que me contratou, sobre a situação do antigo trabalho, e ele virou para mim e falou assim: Luciana, eu te considero a melhor comentarista que tem, você comenta igual homem. Ou seja, ele quis me elogiar, ele expressa uma admiração pelo meu trabalho, isso está muito claro, mas ele tem como parâmetro o homem.”, disse. A declaração de Luciana vai de encontro com uma pesquisa da Ludopédio, que aponta que apenas 13,3% dos textos esportivos impressos são assinados por mulheres. No fotojornalismo esportivo, elas representam apenas 7,9%. Ampliando o raio de pesquisa, dados da Fundação Nacional dos Jornalistas de 2025 mostram que apenas 21% das redações no Brasil são lideradas por mulheres. Esses números expõem a falta de representatividade feminina no âmbito jornalístico, que historicamente se tornou um ambiente masculinizado. 


Luciana Campos lidou com o machismo dentro do jornalismo esportivo (Foto: Reprodução/Acervo Pessoal)
Luciana Campos lidou com o machismo dentro do jornalismo esportivo (Foto: Reprodução/Acervo Pessoal)

Entretanto, a ausência de mulheres nas principais transmissões da TV aberta não é um problema exclusivo do futebol. Em outros esportes, como o automobilismo, que vem crescendo nos últimos anos, o espaço das mulheres ainda é pequeno e quase sempre limitado à reportagem. Dados inéditos do Sponsorlink, pesquisa do IBOPE Repucom sobre os hábitos, perfil, atitudes, consumo de meios e comportamento de compra entre fãs de esportes, revelam que a modalidade vive seu melhor momento em volume de fãs da série histórica do estudo. Atualmente, 56% dos brasileiros com 18 anos ou mais se declaram fãs de automobilismo — Fórmula 1 ou StockCar — o que corresponde a 65 milhões de pessoas. Este número representa um aumento de 63% comparado a 2019.


Entre invalidação, resistência e assédio


Um dos canais mais influentes nas redes sociais se tratando de automobilismo no país é dirigido por uma mulher. A Livia Martins é dona do Racing Br, que conta com mais de 200 mil seguidores no Instagram e afirma que em todas as vezes que narra ou mostra seu rosto nas redes sociais da página, o roteiro é o mesmo. “Toda vez é igual, basta eu colocar o meu rosto nas postagens que as críticas duplicam. Falam que faço porque os pilotos são bonitos, que mecânica não é a minha área então eu não deveria falar sobre…eu recebo muita coisa na minha caixa de mensagem falando que eu deveria desativar e eu sei que é só porque eu sou mulher.”, conta. Apesar disso, a  pesquisa do IBOPE aponta que dentre os 25 milhões de novos fãs nos últimos cinco anos, 51% é composta pelo público feminino, o que evidencia que, mesmo sob críticas, a presença e engajamento só aumentam entre as mulheres, que costumam consumir os conteúdos produzidos por outras mulheres.


“É muito lindo perceber que tem mais mulheres se interessando, pois são espaços que precisam ser tomados. A Racing Br hoje tem mais de 60% do público feminino. Mas o que eu mais vejo, de homens nos atacando por gostar de automobilismo, são mulheres se colocando umas contra as outras, o que faz com que muita gente decida oprimir as suas opiniões, o que eu não entendo, já que a internet é um espaço livre. Ficar temendo um julgamento é muito triste tanto para mulheres quanto para o crescimento do esporte”, completa.


Outro desafio enfrentado pelas mulheres é a invalidação dentro do ambiente esportivo, o que dificulta ao máximo a manutenção dessas profissionais em posições de destaque. Se o pioneirismo tem se tornado cada vez mais raro mesmo em tempos marcados pelo disruptivo, com novos cenários surgindo na comunicação, comentários como "Futebol é para homens, não para meninas" se expandem para outros esportes. “Começar já é algo muito complicado, mas uma coisa que acontece muito na StockCar, por exemplo, são alguns pilotos e chefes de equipes que a gente se anima para falar e te tratam diferente porque eu sou mulher. Muitos ficam até surpresos quando eu venho com perguntas mais complexas, como se por eu ser mulher eu não pudesse fazer o que eu faço”, disse Ally Alves, jornalista que trabalha como social media da StockCar.


Ally Alves vive os desafios de ser profissional e lidar com um ambiente historicamente machista (Foto: Reprodução/Acervo Pessoal)
Ally Alves vive os desafios de ser profissional e lidar com um ambiente historicamente machista (Foto: Reprodução/Acervo Pessoal)

Quando não-surpresos, indagações ou posicionamentos críticos de jornalistas mulheres irritam jogadores e treinadores. Abel Ferreira, técnico do Palmeiras, quando questionado em 2023 se o lateral Mayke havia saído de campo lesionado — uma pergunta totalmente pertinente e com alto valor notícia, vide a relevância do clube no cenário brasileiro e sul-americano — respondeu com uma declaração machista. “Há uma coisa que vocês têm que entender. Eu tenho que dar satisfações a três mulheres só: minha mãe, minha mulher e a presidente do Palmeiras, que é a Leila. São as únicas que têm o direito de falar comigo e pedir explicações.”, disse o treinador. A fala de Abel, nascido em Portugal e a frente do clube desde 2020, mostra que o machismo dentro do esporte rompe também as fronteiras do país, tornando-se um pensamento comum à profissionais de outros países.


Além da falta de oportunidade e da invalidação, um dos maiores impasses para a carreira de jovens jornalistas é a sexualização. Muitos esportes compartilham entre si valores como o respeito e a cooperação. Contudo, a maneira que mulheres são sexualizadas e agredidas dentro de um ambiente onde deveria ser de segurança e acolhimento impacta diretamente no surgimento de novas vozes interessadas na cobertura esportiva. Em meio a isso, atitudes totalmente descabíveis acabam normalizadas, como os assédios a jornalistas ao vivo. O caso mais recente aconteceu com a repórter Duda Dalponte, do SporTV, durante o “Aerofla”, mobilização da torcida do Flamengo dias antes da final da Copa Libertadores da América.



Na ocasião, ela teve o cabelo puxado ao menos três vezes por um torcedor enquanto realizava uma entrada ao vivo no Jornal Hoje, da TV Globo. “Na primeira vez que puxaram, achei que tinha sido sem querer. A gente está acostumado a fazer essas coisas com torcida e, às vezes, tem empurra empurra, que é normal, e eu achei que poderia ser isso. Na segunda vez, eu entendi que foi proposital, e na terceira eu virei para tentar entender o que estava acontecendo, achar quem estava fazendo aquilo. A gente vai preparada psicologicamente para lidar com muita gente empolgada, fazendo festa...Já levei bebida, tinta, tiraram sem querer o meu fone, e tudo isso é do jogo. Mas tem algumas coisas que não são brincadeiras, não são só empolgação, são agressão. E o que aconteceu foi uma agressão.”, relata a jornalista.


O levantamento e os relatos reunidos mostram que, apesar de avanços pontuais, a presença feminina nas transmissões esportivas brasileiras segue muito aquém do que refletem os números de audiência, engajamento e o interesse das próprias mulheres pelo esporte. Entre a falta de oportunidades, a resistência cultural, a invalidação profissional e episódios frequentes de assédio, formou-se um cenário que ainda impede que elas ocupem de forma efetiva e justa os espaços de visibilidade. Enquanto as emissoras caminham lentamente e o público feminino cresce em todas as modalidades, o distanciamento entre quem consome e quem aparece nas telas continua cada vez mais evidente. A discussão não se encerra aqui: ela segue exposta nos dados, nas transmissões e nas experiências das mesmas profissionais, que seguem revelando o tamanho do desafio para que o esporte brasileiro represente, de fato, todos os seus públicos.



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