Leitura como agente transformador: a importância dos livros na vida das pessoas
- Alunos UVA

- 1 de dez. de 2025
- 10 min de leitura
Entre páginas e histórias, os livros cultivam algo maior que simples narrativas, eles são maneira de pensar, imaginar e existir na sociedade.
Por: Carolina Alves, Eduarda Vila Nova, e Maria Eduarda Fregonassi

Leitores no Brasil
Mariana Soeiro é escritora e redatora publicitária que teve uma infância regada por influências literárias. Filha de professora de letras e literatura, o acesso aos livros sempre foi prioridade em casa. Na vida adulta, ela vê com clareza o impacto desse privilégio: a leitura foi um refúgio que a transformou em quem é e guiou seus interesses para além das páginas.
Mariana descobriu cedo que os livros podiam abrir clareiras no meio do caos. Mas, fora da sua casa, o cenário brasileiro mostra que nem sempre essas portas estão abertas.
No Brasil, a pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, realizada pelo do Instituto Pró Livro no ano de 2024, aponta um dado marcante: pela primeira vez desde 2011, o número de não leitores supera o de leitores. O resultado evidencia um afastamento crescente da leitura no país.

Os livros são portais para o conhecimento, para diferentes realidades, diferentes histórias e aprendizados,da história mais simples para a mais complexa. O ato de ler pode ser compreendido como um caminho para se tornar um ser pensante em uma sociedade em que a escolha pela ignorância cada vez conquista mais espaço.
O hábito de ler pode ter duas finalidades: o entretenimento ou aprendizado. Mas, hoje, nota-se que a literatura, por meio das redes sociais, perde parte do seu sentido ao ter sua relevância determinada por tendências. O mercado editorial possui influência por tendências. O mercado editorial sofre influência direta do TikTok, que molda o olhar crítico de diversos leitores. Para Mariana, após a publicação do seu primeiro livro de carreira, “Beijo na boca e tarja preta”, ela observa que há dificuldade em atrair público para obras que não sigam padrões ditados por tendências literárias.
“Eu entendo que a gente literalmente mercantilizou a literatura assim ‘Ah, se não falar desse assunto, se não tiver um enemies to lover, se não tiver um personagem que é assim, assim e assado, eu não vou ler porque não me interessa e porque não faz parte do que eu gosto.’” Mariana cita principalmente o fenômeno digital chamado booktok.
A partir do booktok, as pessoas puderam ter acesso a outros leitores com gostos literários parecidos, criando uma ideia de pertencimento com uma comunidade. Porém, da mesma maneira que origina-se essa relação entre criador de conteúdo e leitor, a dependência do que o outro indica acaba por comprometer a escolha individual da leitura.
“A leitura está sendo tão performática que é muito difícil eu entrar de verdade na vida de uma pessoa e fazer com que ela entenda que eu não tenho que convencer ela a comprar meu livro. Ela deveria ler porque deve ser interessante, daí se ela não gostar, tudo bem, pelo menos ela lê um livro, ela entendeu um ponto de vista diferente” afirmou a escritora.
Leitura como refúgio
A sociedade atual está cansada e a sensação de esgotamento impacta nas ações das pessoas.Uma pesquisa realizada pela empresa WGSN em 2022 ,com projeções de dois anos sobre comportamentos dos consumidores, revelou que, globalmente, 48% das pessoas abaixo dos 30 anos estão cansadas pelas rotinas de trabalho. O sentimento de exaustão afeta mais a geração Z, millennials jovens e mulheres.
Vídeos curtos, edições aceleradas e algoritmo personalizado também são ferramentas que contribuem para um cenário de exaustão mental, o chamado brain rot. Nesse sentido, no tempo que as pessoas têm para ler os livros, muitas usam os livros como refúgio e escolhem o conforto nas palavras para lidar com a realidade, ou fugir dela. Para a criadora de conteúdo literário Mialle (Fernanda Lemos), a leitura na zona de conforto depende do cotidiano e de como cada pessoa encaixa livros em sua rotina.

“Óbvio que eu prefiro ler Tati Bernardi do que pegar um livraço do Machado de Assis que eu vou ter que parar e olhar e a minha cabeça vai fritar e eu vou ter que pesquisar o que significa aquela palavra. Porque a gente tá cansado, cara. A gente trabalhou pra caramba, a gente ficou o dia inteiro na frente de uma tela celular onde a gente precisa dar uma gelatinada assim mas precisa ser uma escolha consciente porque tudo ao nosso redor está trabalhando para que a gente fique só gelatinado” disse Maria Soeiro, escritora e redatora (Reprodução: Carolina Alves)
“Às vezes a pessoa trabalha muito, às vezes ela tem muita coisa pra fazer e a única hora que ela tem para ler, pelo menos está lendo alguma coisa aí ela vai, sei lá, vai ler um autor russo, não vai.”Mialle complementa: “Ela quer ler o que diverte ela, porque acaba sendo parte da diversão da pessoa. Uma pessoa com mais tempo, tudo bem, mas às vezes, em algumas épocas da vida, é só isso que dá. Para manter o hábito de leitura, vai ler só o que está na zona de conforto.”
Barreiras Literárias
A maioria das pessoas que têm acesso a livros para encaixar em suas vidas tem a possibilidade de tornar a leitura um hábito recorrente. Mas quando existem fatores externos que interferem no exercício da leitura ? A falta de tempo, rotinas exaustivas e o alto preços dos livros contribuem para um cenário desfavorável. Além disso, custos de produção, a matéria-prima e os royalties encarecem os volumes, tornando-os menos acessíveis ao consumidor.
Outra razão para a barreira literária são os múltiplos estímulos a que as pessoas estão submetidas. Ao abrir um livro é preciso atenção total ao que está escrito, caso contrário, a compreensão da história se perde. As telas, muita das vezes, tornam-se a primeira fuga. De acordo com o Digital 2024 Overview Report da DataReportal, os brasileiros passaram em média 9h e 13 minutos por dia usando a internet naquele ano, ocupando o segundo lugar em tempo diário online, atrás apenas da África do Sul.
Para a escritora e bacharel em letras Thays Pretti, o livro é o primeiro afetado quando o assunto é sobre as telas. “O livro é a coisa mais fácil de você abandonar nesse sentido dos múltiplos estímulos. O filme ainda está passando ali na sua frente, você vai ouvindo, você se sente, você faz de conta que você está assistindo. Mas o livro você precisa de dedicação completa, você precisa que o seu foco esteja totalmente ali naquele objeto.” Thays acrescenta que o crescimento do mercado dos audiolivros pode ser uma tentativa de manter as pessoas próximas dos livros mesmo quando estão ocupadas em outras atividades.
A falta de tempo limita novas leituras. Em tempos modernos, em que as 24h do dia parecem voar contra o relógio, 46% dos entrevistados para a edição de 2024 da “Retratos da Leitura no Brasil” afirmaram que não leram mais por não conseguirem um momento em suas rotinas para dedicar a leitura. 75% ainda destacaram que gostariam de ter lido mais.
Leitura considerada válida
Para todos os gostos, os livros oferecem gêneros narrativos que atendem às diversas necessidades de cada leitor como a fantasia, suspense, terror, ficção, não ficção e muitos outros que demonstram a possibilidade de se conectar com alguma história. Mas o debate sobre se toda leitura é válida não é unânime na comunidade dos leitores.
Alguns livros são feitos para provocar, outros servem para entreter ou como aquelas leituras leves que não exigem muito do leitor. Independente da razão que o livro exista, cada leitor vai interpretará de uma forma e determinará pela própria média em qual categoria avaliativa vai encaixar o livro.
Beatriz Zurdo, conhecida como Bey nas redes sociais, é influenciadora literária que começou na internet compartilhando as próprias leituras e resenha para organizar no seu hábito de leitura. Com uma relação de amizade com os seguidores, a troca com o público ocorre de maneira natural. Para Bey, não é possível considerar toda leitura válida. A influenciadora cita,como exemplo, um livro lançado no ano de 2025 que aborda relações incestuosas como centro narrativo. A obra gerou muito burburinho na comunidade literária e atualmente não se encontra mais disponível nas plataformas digitais. Para a influenciadora, é difícil extrair algo proveitoso de um livro com essa narrativa.
“Quanto mais você lê, mais você consegue perceber o que te agrada mais numa escrita, numa história, enfim, no conteúdo que tá trazendo”, disse Bey a respeito do desenvolvimento pessoal da leitura. (Reprodução: Arquivo Pessoal)
Segundo Bey, os livros servem para acrescentar repertório sociocultural de alguma maneira e à medida que você lê , é possível identificar aqueles que mais gosta. Ela não resume essa experiência apenas clássicos literários, mas destaca a importância de equilibrar leituras de entretenimento com uma leituras mais conceituais.
“Para mim, é inaceitável não ler para acrescentar e apenas ler como forma de entretenimento. Não tem problema nenhum você ler um romance, não tem problema nenhum você ler um dark romance, ou uma fantasia. Mas é bom você ter a noção de entender a sociedade que a gente vive e não escolher viver na ignorância, ir atrás de conhecimentos”, disse a influenciadora.
Mialle, por outro lado, acredita que todo tipo de leitura é válida. A influenciadora destaca que a leitura pode ser um hobby divertido, sem ninguém precisar torná-la algo estritamente sério. Mas, assim como Bey, ela acredita que cabe ao leitor buscar formas de ampliar a leitura. “Eu acho que a gente precisa buscar formas de melhorar. Então você vai procurar algumas leituras que te trazem um engrandecimento. Mas não é necessário que você passe o tempo todo nisso. Você pode ler uma bobagem, pode ler um clássico, um livro que traz um ponto. Às vezes um livro pode ser muito simples e trazer um ponto importante."
O senso crítico, a leitura e as crianças
A leitura tem a capacidade de transformar um indivíduo em um ser pensante. No momento em que o hábito de ler é criado, a análise crítica sobre determinadas informações torna-se cada vez mais frequente, porque os livros criaram o caminho para esse tipo de pensamento. Pessoas no mundo moderno parecem esquecer que nem toda notícia veiculada, post publicado e comentário feito online é verídico. Muitas passaram a acreditar em qualquer fato nas redes sociais sem exercer o senso crítico necessário para verificar o que é dito como verdade.
Para a professora do fundamental, Namíbia, a leitura e o senso crítico andam juntos. Ela comenta que quanto mais a pessoa lê, mais crítica se torna, pois o encontro com diferentes tipos de conhecimento e pontos de vista é capaz motivar o questionamento em cada um. Ela acrescenta: “Quando a gente lê pouco, o pouco que a gente lê já nos convence ou pode vir a se apresentar como uma verdade única, porque a gente não leu nada além daquilo para poder fazer um comparativo”.
Em contato direto com crianças, a professora observa de perto o impacto que os livros causam sobre os pequenos. É importante começar a trabalhar a leitura desde cedo. É a partir desse contato que é possível construir nessa criança a semente do questionamento para se tornar um adulto com um senso crítico apurado na sociedade. Mas é inviável que apenas a escola funcione como ponto de contato com a leitura.
Namíbia fala sobre os outros facilitadores além do ambiente escolar nesse processo: “Os responsáveis precisam estar 100% envolvidos. Na educação, a gente fala que o aluno não faz a escola e a escola não faz o aluno. É um trabalho em conjunto… Não adianta, na escola, as professoras incentivarem muito a leitura se quando a criança tá em casa, ela tá em uma casa que não tem livros, ela não vê os familiares lendo, ela tá em uma casa com uma família que não incentiva ou não vê a leitura como algo primordial”.

“As crianças que leem mais, eles escrevem melhor e eles fazem mais conexões e mais contribuições durante as conversas, sejam conversas mais formais, entre aspas, e ali naquele momento que a gente tá explicando uma matéria, uma matéria nova e eles fazem conexão com algo que eles já leram”, disse Namíbia a respeito da diferença das crianças que têm contato com a leitura para aquelas que não têm. (Arquivo: Reprodução: Fernanda Lemo)
Não existe nenhuma garantia de que a criança que passou a infância toda com os livros não abandone esse hábito ao crescer, mas a relação entre os dois é primordial. Para a produtora editorial Juliana Borel, tornar uma criança leitora é o caminho mais fácil. Ela sempre foi apaixonada pelos livros e sem nenhum exemplo muito expressivo em casa, o contato com a leitura foi formado pela escola. Os livros foram companheiros em momentos difíceis ao longo da vida.” Você até pode se formar um leitor já adulto, mas é muito mais fácil formar um leitor na infância porque quando a gente está na escola lemos pelo prazer de ler…Então quando você trabalha numa criança, essa fruição pela leitura, você consegue fazer com que ela entenda que o livro é um momento de prazer. Ela vai crescer e esse gosto vai ser desenvolvido”.
A profissional também possui um carinho especial pelo gênero da ficção, que marca presença em grande parte dos livros para o público infantojuvenil. “ A ficção ensina sem dizer, ela ensina pelo exemplo .Então quando eu leio um livro em que eu me identifico com uma personagem que é totalmente diferente de mim, que tem uma realidade diferente, até mesmo que me cause um estranhamento, uma perturbação, eu estou ampliando a minha empatia, o meu pensamento crítico”.
Ao ser perguntada sobre a motivação para continuar trabalhando com livros, Juliana compartilha a ideia da necessidade da imaginação para a existência. “Eu acho que a gente precisa da fantasia para encarar a realidade. Uma não pode existir sem a outra, sabe? A gente precisa da fabulação, a gente precisa disso para conseguir andar com os próprios pés no mundo real. Então essa é a minha motivação”. Atravessada pelos livros, Juliana também é outro exemplo de como eles a transformaram e tornaram-se objetos para um caminho profissional.
Mesmo que o cenário da literatura no Brasil apresente dados preocupantes sobre o comportamento da população, chamar atenção de novos leitores, principalmente os jovens e as crianças é o caminho. Entender que esse público fala a partir de uma nova linguagem digital, se comporta de maneira diferente e apenas precisa de um guia por onde começar no seu primeiro livro.
Muitas crianças, Brasil adentro, estão por aí esperando que alguma história se conecte com eles. O contato com o texto já existe, nas redes sociais ele está apenas mais diluído e mastigado para o público. Infelizmente , nem todos têm uma rede familiar e escolar que sirva de apoio para o hábito de leitura por motivos econômicos e sociais. Por isso é preciso olhar para o problema de uma maneira mais estrutural, para que mais crianças, jovens e adultos comecem a crer nas transformações que a leitura pode promover.








Comentários