top of page

Jovens constroem identidade e fortalecem comunidades por meio de exercícios físicos

  • Foto do escritor: Alunos UVA
    Alunos UVA
  • 28 de nov. de 2025
  • 23 min de leitura

O crescimento das corridas de rua no Rio de Janeiro mostra os encontros e desencontros entre gerações que correm por motivos distintos e dividem o mesmo asfalto


Por Maria Fernanda Trocado e Rayssa Gonçalves


Foto: reprodução/Olympics.com
Foto: reprodução/Olympics.com

Aterro do Flamengo. Avenidas vazias e grupos de jovens reunidos para mais uma edição de corrida. Enquanto a cidade ainda acorda, eles ajeitam viseiras, ajustam relógios e enchem as garrafas de água. O amanhecer ganhou um novo protagonismo. O que antes era hora de descansar, agora é um novo momento de socializar. O tênis, antes um artigo de esporte, virou item de performance e estilo. O asfalto, antes território dos carros, agora é palco de um ritual urbano que se repete em parques, orlas e viadutos. Nos últimos anos, a Geração Z tem trocado a vida noturna pelas corridas de rua e as luzes neon das baladas pelo nascer do sol visto nos pontos de largada. O fenômeno foi batizado de “ressolarização” pelo CEO da Ticket Sports, Daniel Krutman, termo que descreve um movimento de transformação do lifestyle jovem, no qual o esporte e os encontros diurnos são as novas estrelas dessa geração.


No domingo de manhã, quando a cidade ainda desperta devagar, Vanessa Venâncio, de 20 anos, já está amarrando o cadarço do tênis. O sol começa a nascer, e ela sorri ao ver o mesmo grupo de amigos, que conheceu no box de CrossFit, chegando um a um e que agora divide com ela um novo vício: correr. Para uns, é apenas mais um treino; para Vanessa, é um ritual de liberdade. Enquanto faz um breve alongamento com os amigos antes de se dirigirem ao ponto de largada, ela conta: “Hoje em dia eu vou em diversas corridas e vejo várias outras pessoas com o mesmo objetivo que eu, de se superar, se desafiar”.


Foto: divulgação/Vanessa Venâncio
Foto: divulgação/Vanessa Venâncio

Segundo o estudo "Gerações e Esporte", da Ticket Sports (2025), 55,6% dos jovens da Geração Z consideram o esporte parte do seu estilo de vida, e o relatório "Year in Sport" do Strava (2024) aponta que 96% desse público reduziu o consumo de álcool para priorizar a saúde e o bem-estar. Ainda que o crescimento das corridas de rua seja um fenômeno global, essa tendência, potencializada após a pandemia de Covid-19, reflete uma mudança comportamental, em que o exercício físico é impulsionado pelas redes sociais, que transformaram a corrida em linguagem e pertencimento.


Fonte: Relatório "Geração e Esporte" (2024) da Ticket Sports
Fonte: Relatório "Geração e Esporte" (2024) da Ticket Sports

Muitos são os fatores que motivam os jovens a estarem cada vez mais presentes nas corridas de rua, contribuindo consequentemente para o crescimento contínuo desses eventos. Saúde, estética, emagrecimento e interação social são algumas das questões que levam as pessoas a procurar a prática da corrida nessa faixa etária. Para Jeferson Rojo, professor adjunto da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e pesquisador na área da Sociologia do Esporte, a sociabilidade é o que mais chama a atenção de especialistas, já que o mundo pós-pandemia foi influenciado por uma digitalização extremamente acelerada por conta do home office.


Foto: divulgação/Jeferson Rojo
Foto: divulgação/Jeferson Rojo

Rojo lembra que a corrida já vivenciou diferentes momentos de popularidade. O primeiro ocorreu na década de 70, quando o médico americano Kenneth Cooper, criador do teste de Cooper, propôs a ideia da atividade física como saúde e como uma maneira de avaliar a aptidão física das pessoas. Já na década de 90, o segundo boom veio com a abertura das corridas para o profissionalismo, na qual o esporte passou a ser potencializado, ganhando o apoio de multidões. O boom pós-pandemia foi potencializado pelas redes sociais, em que a imagem dos corredores na internet faz com que as pessoas se interessem por aquele universo e queiram participar daquele contexto social.


Fonte: Jeferson Rojo
Fonte: Jeferson Rojo

“O meio digital já era massivo, mas foi potencializado pela pandemia. Isso fez com que as pessoas tivessem mais acesso à informação, e as práticas esportivas, de lazer e de atividade física, se beneficiaram disso”, complementa Rojo Ele conta que, após a pandemia, a procura por diferentes práticas esportivas ficou mais evidente entre a população, e que os jovens ampliaram este hábito.


De fato, as redes sociais transformaram profundamente a forma como essa geração se relaciona com o esporte, e a corrida é um exemplo visível dessa mudança. O que antes era um hábito silencioso e individual se tornou uma prática compartilhada, registrada e celebrada publicamente. Para Rojo, o novo boom da corrida é dependente da rede social, já que, sem o avanço das plataformas digitais e dos influenciadores, a corrida atualmente não teria o mesmo impacto. A performance física passou a ter também uma dimensão simbólica e comunicativa: o corpo em movimento virou linguagem e prova social de disciplina, autocuidado e pertencimento.


Essa constatação foi percebida também pelo CEO da Ticket Sports, Daniel Krutman, que apontou um gancho do pós-pandemia com a alta da preocupação com a saúde, já que muitos quadros clínicos estão relacionados ao esporte. “Tem um recorte da geração antecessora, millenials, que estão exaustos e com burnout. Os males principais da civilização no século XXI são solidão, obesidade e doenças mentais”, conta.


Foto: reprodução/Daniel Krutman
Foto: reprodução/Daniel Krutman

Entre o asfalto e as telas, a corrida de rua passou a ocupar um espaço que vai além do esporte. Ela é, ao mesmo tempo, movimento físico e expressão simbólica, ponto de encontro e vitrine digital. Nas redes, cada quilômetro virou narrativa, e o corpo em movimento passou a comunicar pertencimento, disciplina e estilo de vida. É nesse cruzamento entre o real e o virtual que a corrida se consolida como o novo código social da juventude, um lugar onde se corre tanto por saúde quanto por visibilidade.


Influência das redes sociais


Antes mesmo de apertar o cronômetro no relógio, Manuela Barucke abre o Instagram. Entre um gole de gel isotônico e o ajuste dos fones de ouvido, ela confere os stories dos corredores que segue, lê as legendas motivacionais e comenta nas conquistas dos amigos. Para ela, a corrida não começa quando o pé toca o asfalto, e sim online. “Gosto de compartilhar meus treinos, conquistas e até os dias em que não vai tudo como o planejado”, conta. Nas redes, Manuela mostra o ritmo da vida real: o suor, as metas batidas e também as pausas. Ao mesmo tempo, encontra inspiração em influenciadores e atletas que transformam a própria rotina em combustível coletivo. Cada publicação é um incentivo silencioso. Likes viram torcida, comentários se transformam em companhia e quilômetros percorridos ganham outro alcance: o da tela. “Acho que acabo inspirando pessoas a se movimentarem, principalmente quem se identifica com o meu início”, relata.


Foto: divulgação/Manuela Barucke
Foto: divulgação/Manuela Barucke

Nascidos em um mundo hiperconectado, os jovens da Geração Z sempre estiveram acostumados a influenciar e a serem influenciados pelo algoritmo, e as corridas tomaram esse lugar, transformando a forma de convívio e socialização. A imagem se torna mais importante que o ato de correr. “Grande parte das pessoas que estão dentro da corrida está mais preocupada em tirar foto do que em correr de fato, o que é um problema por conta das próprias regras de competição”, comenta o professor e pesquisador Jeferson Rojo.


Essa transformação está diretamente ligada à popularização de aplicativos como o Strava, que deixou de ser uma ferramenta técnica para se tornar uma rede social de corredores. Cada quilômetro registrado é convertido em curtidas, comentários e validação simbólica. Essa cultura do “print do treino” criou um novo código de status: o pace, o percurso e o suor ganharam o mesmo valor de uma selfie bem feita. O ato de correr, que antes terminava na linha de chegada, agora se prolonga na tela e o feed se tornou uma nova pista.


Para a Head de Relacionamento da Ticket Sports, Marcela Niero, os jovens buscam mais experiências compartilháveis do que performance. “A estética e o registro da experiência são partes fundamentais da motivação”, afirma. Ela acrescenta que, entre os mais jovens, o que mais mobiliza é o “estar lá”, a vivência com amigos, a energia da largada e a possibilidade de registrar e compartilhar o momento, se tornando quase como um evento social.


Foto: reprodução/Marcela Niero
Foto: reprodução/Marcela Niero

A decisão de participar de uma corrida nasce de um story do Instagram, de um vídeo de prova ou da medalha exibida por alguém conhecido. O jovem não busca apenas um site de inscrição, ele quer viver o evento antes mesmo de se inscrever, já que a visibilidade nas redes influencia de forma incisiva o engajamento. “Estamos o tempo todo vendo conteúdo sobre o tema [corrida]. Esse volume de estímulos acaba influenciando. As provas viraram plataforma para produção de conteúdo”, afirma Daniel Krutman, CEO da Ticket Sports.


É nesse contexto que nascem os influenciadores esportivos, que desempenham um papel central tanto no início da prática quanto na permanência dos novos corredores. De acordo com Marcela Niero, eles possuem um poder de conexão, porque conversam com nichos de forma verdadeira, além de criarem identificação e gerarem pertencimento e confiança em novos corredores. Muitos destes iniciam a prática inspirados por quem admiram, e, em seguida, reproduzem o comportamento deles: postam treinos, vídeos, fazem trends.


Porém, o fenômeno também tem seus efeitos colaterais, pois ajudam a motivar e/ou gerar ansiedade por comparação e desempenho. Ao mesmo tempo em que uma pessoa pode querer demonstrar um bom resultado para que outras pessoas a reconheçam por isso, essa motivação pode gerar uma comparação excessiva e negativa. Consequentemente, a exposição constante dos treinos pode interferir na relação saudável com o corpo e com o próprio rendimento. “Interfere na medida em que a pessoa passa a se preocupar mais com o que vem de fora, a opinião alheia em relação ao que ela está produzindo ali de resultados esportivos”, alerta Vinícius Valiante, psicólogo clínico e esportivo.


Foto: divulgação/Vinícius Valiante
Foto: divulgação/Vinícius Valiante

As plataformas esportivas, segundo o pesquisador Jeferson Rojo, alimentam formas específicas de consumo e identidade: cada corredor segue seus influenciadores preferidos, escolhe entre perfis mais técnicos ou mais empíricos e se posiciona dentro de microcomunidades. O que era apenas corrida se transforma em território de estilo, pertencimento e disputa simbólica, em uma rede em que o esforço físico e o capital social correm lado a lado.


Valiante complementa que, embora a Geração Z discuta sobre autocuidado, os jovens vivem nos dias atuais uma pressão social e digital, e encontram a corrida como uma válvula de escape. Ele alerta que os jovens precisam tomar cuidado para que o autocuidado não seja percebido como mais uma pressão, principalmente relacionado a padrões estéticos. “O que eu tenho percebido é que também, em alguns casos, essa obrigação em praticar atividade física e postar para ser reconhecido por isso acaba até gerando um efeito reverso”, comenta.


Para o coach e atleta, Sérgio Dantas, há também uma questão de imediatismo e que, por muitas vezes, os jovens se frustram com os resultados. “No atletismo é como nascemos: engatinhamos, andamos e corremos. Na corrida temos que criar uma base forte, iniciarmos com 5KM, passando para 10KM, quando estivermos prontos, 21KM com um bom tempo de treino, para assim corrermos uma maratona 42KM”, ressalta.


Foto: divulgação/Sérgio Dantas
Foto: divulgação/Sérgio Dantas

O fenômeno das corridas nas redes sociais mostra que a conexão começa na tela, mas não termina nela. Cada postagem, comentário ou story funciona como um convite coletivo: o de estar junto, ainda que à distância. Entre métricas e curtidas, os corredores constroem um senso de pertencimento que se estende para fora do digital, encontrando nas ruas e nas provas o prolongamento físico dessa comunidade. É ali, no compasso dos passos e nas conversas entre um quilômetro e outro, que a corrida deixa de ser apenas performance e se torna convivência.


Comunidades e conexão social


Por volta de 5h30 da manhã de domingo, Lucas Fernandes, 21 anos, e a namorada têm um encontro marcado com o asfalto. O relógio marca o ritmo, o fone embala o passo dos dois e a cidade vai ganhando movimento junto com eles. O que começou como uma simples tentativa de melhorar o condicionamento virou um hábito compartilhado e, aos poucos, parte da identidade de ambos. Entre treinos, metas e investimentos em equipamentos, Lucas descobriu que correr é mais do que exercício: é um espaço de conexão. “A corrida sem dúvida me faz aliviar toda a ansiedade na semana e me faz uma pessoa calma e mais disposta”, explica. Uma comunidade se forma, então, a cada passo, onde o incentivo vem de quem corre ao lado e o pertencimento surge mesmo entre desconhecidos. Correr, para ele, é também pertencer.


Foto: divulgação/Lucas Fernandes
Foto: divulgação/Lucas Fernandes

Ainda fortemente ligadas ao universo digital, as corridas têm se tornado um espaço de construção de identidade entre os mais jovens. Na década de 90, bastava um short, um tênis e uma camiseta e, nos dias atuais, é preciso investir em tênis específicos, óculos e relógio GPS. “Tudo isso cria uma identidade de corredor e faz a pessoa se sentir aceita naquele grupo. Isso está diretamente relacionado à rede social. A imagem que se cria e divulga gera esse sentimento de pertencimento a um grupo específico”, relata Jeferson Rojo, professor e pesquisador.


Ele explica que a corrida é capaz de reunir as pessoas e formar comunidades, já que, com resultados práticos e treinos motivacionais variados, os grupos de corrida têm ajudado a manter a regularidade dos treinos. “As pessoas criam vínculos semelhantes aos que existem em outros espaços sociais, como escolas ou igrejas. Ainda que venham de contextos sociais diferentes, têm algo que as une: a corrida”. O esporte, ainda que seja uma modalidade com regras próprias, pode ser um espaço de expressão de amizade, de pertencimento a um grupo, de dedicação e de respeito ao treinamento. É uma forma de expressar a realidade de uma sociedade que busca uma vida saudável, bem-estar emocional e um corpo valorizado socialmente.


O psicólogo clínico e esportivo, Vinícius Valiante, reforça essa leitura: “O ser humano precisa sentir pertencimento para estar bem. Não é só importante, é essencial que estejamos em contato uns com os outros, se possível em equipes com colaboração, com objetivos comuns, ainda melhor”, reflete. Além disso, ele detalha que correr em grupos pode ajudar a reduzir a solidão e fortalecer vínculos sociais, especialmente em um mundo digital. Para Clarice Medeiros, psicóloga e professora da Universidade Veiga de Almeida (UVA), treinar com amigos e colegas aumenta a sensação de bem-estar e aderência à prática esportiva, ainda que existam lados negativos. “Em tempos de precariedade dos laços sociais, encontrar “gente como a gente” é muito bom. Contudo, há relatos também de muita cobrança e toxicidade nesses grupos”, alerta.


Foto: reprodução/Clarice Medeiros
Foto: reprodução/Clarice Medeiros

Entre os jovens corredores, o aspecto emocional é central. Vanessa Venancio, corredora e estudante de Direito, diz que a corrida a ajudou a atravessar fases difíceis. “A corrida me deixa mais leve e me faz refletir. Correr me ajuda a aliviar a mente e colocar os pensamentos em ordem. É como forma de terapia para mim”, reflete. Manuela Barucke, nutricionista e maratonista, compartilha um sentimento semelhante: “Passei por uma fase difícil na minha vida, e a corrida foi o que me segurou. Ela me mostrou que eu sou muito mais forte do que imaginava tanto fisicamente quanto mentalmente”. Lucas Fernandes, estudante de Medicina, acredita que a corrida representa uma sessão de terapia e um momento para sair das telas e refletir sobre a vida, além de aproveitar o mundo externo.


Valiante alerta, porém, que, apesar de trazer a tal sensação de pertencimento e a terapia ser percebida como uma atividade com efeitos terapêuticos, correr em grupos não é uma “fórmula mágica” para traumas e não substitui a terapia, ainda que ela não seja obrigatória. “Estar junto nos faz sentir bem, se sentir importante de alguma forma para o outro ter o outro como é testemunha da sua vida vamos dizer assim então há um aspecto terapêutico”.


Outro alerta vem do fato de que o ambiente digital, ainda que crie meios de consumo e de relacionamento entre corredores, também tem gerado conflitos entre pessoas que apenas correm e aqueles que enxergam a corrida como esporte de fato. “Muitos treinadores aproveitam o novo mercado sem vivência ou formação no atletismo. Aproveitam a oportunidade, mas não têm conhecimento das regras. Isso tem gerado impacto negativo no significado da corrida”, conta o professor e pesquisador Jeferson Rojo.


Tudo isso evidencia que o treino virou conteúdo, o esforço virou estética e o desempenho, identidade. Em um mundo saturado de estímulos digitais, o movimento físico se converteu em refúgio e expressão. E nas ruas, entre tênis coloridos e cafés pós-prova, um novo tipo de juventude está aprendendo a socializar correndo.


Assessorias esportivas


A expansão das assessorias esportivas ajudou a transformar a corrida em um  fenômeno coletivo. Nesse modelo de negócios, o treinador reúne grupos, e, mesmo que o esporte seja individual, toda a preparação e o treinamento acontecem de forma coletiva, criando comunidades e vínculos entre pessoas de diferentes perfis. Sérgio Dantas, estudante de Educação Física, atleta e coach, é um exemplo desse movimento, já que lidera a assessoria de treinamento Tropa Running, que realiza encontros semanais gratuitos com grupos e os chamados “treinões”, que ocorrem todas as quartas-feiras.


Imagem: divulgação/Sérgio Dantas
Imagem: divulgação/Sérgio Dantas

Segundo Dantas, o cuidado com a saúde e o bem-estar mental tem sido os principais motivos que levam os jovens a buscar o esporte. As assessorias, por sua vez, criam uma mentalidade de pertencimento, em que cada corredor encontra seu grupo e seu ritmo, adaptando os treinos conforme suas motivações e objetivos. “Assim ninguém fica para trás”, completa. Além disso, ele afirma que com a tendência da valorização do autocuidado e da saúde mental entre os corredores da Geração Z, estes atraem familiares e parentes para o esporte, gerando essa onda de eventos de corrida atualmente.


Kits esportivos e economia


Tem ficado cada vez mais evidente que os jovens não participam dos eventos apenas pela corrida, e sim pela experiência completa. Eles buscam autenticidade, propósito e pertencimento. A Geração Z quer se ver representada na comunicação, quer participar de algo que tenha significado, e valoriza o momento de vivência mais do que apenas o resultado. E com um mundo digital, tudo precisa ser rápido e transparente, desde a inscrição até o pós-prova. Head de Relacionamento da Ticket Sports, Marcela Niero comenta que o foco da plataforma é estender a boa experiência para além da linha de chegada. “Isso vai desde a comunicação pré-evento, que é onde os atletas buscam a nossa plataforma para se inscrever e se informar sobre os maiores eventos de corrida do mercado”, diz.


E o que será que mais pesa na decisão de inscrição dos jovens em eventos de corrida além da experiência? Marcela revela: “O preço tem relevância, claro, mas não é o único fator. Eles avaliam se o evento entrega algo diferente, um percurso interessante, um kit com identidade, ou principalmente, questões que vão além da marca”. CEO da Ticket Sports, Daniel Krutman acrescenta que, entre os jovens, há uma demanda maior por escuta e que a plataforma precisou se adaptar ao novo público ao criar conteúdos com pluralidade de ideias e estilos. “Somos pró-memes. Somos mais autênticos. Essa skin-corredor coloca nosso universo na rotina, então é sobre aproveitar a rotina para conversar”, conta. Como possíveis tendências que podem moldar o mercado de corridas no Brasil, Krutman cita algumas: “Customização extrema de experiências, eventos de vivência e menos de performance pura, crescimento de maratonas como alavanca de marcas e cidades, AI como substituição de treinadores”.


Onde as corridas acontecem?


Os eventos de corrida se espalham por todo o país, mas o Sudeste segue sendo o principal polo. De acordo com um estudo sobre Grupos Esportivos, realizado pela Ticket Sports, mais de 60% dos eventos esportivos são realizados na região, e os motivos são diversos, como visibilidade, clima e maior concorrência.


Imagem: divulgação/Ticket Sports
Imagem: divulgação/Ticket Sports

A região Sudeste funciona como uma grande vitrine não apenas para o público, mas também para as grandes empresas que buscam patrocínios e experiências cada vez mais inéditas para o esporte. Dessa forma, o eixo RJ-SP têm tido uma maior busca por eventos com propósitos, como inclusão e causas sociais, o quais geram um certo peso na decisão da inscrição. “As pessoas querem correr por algo que faça sentido. Eventos com causas ligadas à sustentabilidade, inclusão ou impacto social têm um apelo emocional forte e se destacam. Não é só sobre correr, é sobre pertencer a uma causa”, relembra Marcela Niero, Head de Relacionamento da Ticket Sports.


Com a grande concorrência entre os mais jovens e até mesmo com atletas mais experientes, o setor precisou se adaptar a um comportamento digital, impaciente e visual, que exige menos burocracia e mais experiência. Para manter o engajamento a longo prazo, Niero pontuou que o segredo está em transformar o “momento” em memória afetiva. “Cada boa experiência pode ser o início de uma jornada contínua se o pós-evento for bem trabalhado, com relacionamento, recompensas, comunicação próxima e personalização”. 


Entre treinos coletivos, kits personalizados e eventos cada vez mais disputados, as corridas de rua transcendem a dimensão física e social para tocar algo mais íntimo. Por trás das postagens, dos grupos e do senso de pertencimento, há uma busca silenciosa por equilíbrio mental e emocional. Correr passou a ser, para muitos jovens, um ato de autocuidado, uma pausa possível em meio à hiperconexão, à ansiedade e ao ritmo acelerado da vida urbana. É nesse ponto que o movimento das corridas de rua revela sua faceta mais profunda: a de ferramenta de saúde e bem-estar.


Saúde e bem-estar


Quando o expediente termina e o trânsito toma conta da cidade, Gabriel Ferreira, 28 anos, assistente administrativo e corretor imobiliário, prefere seguir outro caminho. Em vez de esperar o ônibus, ele calça o tênis e vai correndo para casa. No começo, era apenas uma forma de se exercitar, um percurso curto, alternando passos rápidos e caminhadas. Mas, aos poucos, o trajeto virou um ritual. Entre o barulho dos carros e o som do próprio fôlego, encontrou espaço para elaborar o luto pela morte do pai e para enfrentar períodos difíceis no trabalho. Mesmo sobrecarregado, procurava meia hora para correr e, por alguns quilômetros, esquecer o resto. Gabriel explica: “Virou algo meu assim que reparei o quão fazia bem para o lado mental. Era onde pensava e colocava as coisas em ordem”. No asfalto, ele transforma ansiedade em alívio e cansaço em clareza. Cada passo é uma conversa com si mesmo, uma forma de respirar, pensar e continuar. 


Foto: divulgação/Gabriel Ferreira
Foto: divulgação/Gabriel Ferreira

É inegável o quanto a corrida e a atividade física impactam positivamente na qualidade de vida.  “Por promover sociabilidade, movimento, dinâmica, liberação de neurotransmissores específicos, exigir do corpo a atividade mais intensa”, Vinicius Valiante, psicólogo clínico e esportivo, explica. Ele acrescenta que o esforço durante o exercício gera cansaço, ocasionando, consequentemente, melhores noites de sono e disposição no dia seguinte.


A professora do curso de Psicologia da Universidade Veiga de Almeida (UVA), Clarice Medeiros, reforça que o efeito positivo da corrida é multifatorial, já que libera hormônios, como as endorfinas, responsáveis pela sensação de bem-estar e funcionam como analgésicos naturais, além de auxiliarem na regulação do humor com a serotonina e dopamina. E sobre o assunto, o estudante de Medicina, Lucas Fernandes, gabarita: “No momento que passei a me tornar mais viciado em corridas, passei a ligar menos pra questão estética do meu corpo e passei a valorizar mais meu avanço na saúde, na felicidade que me traz e na minha performance”. Vanessa Venancio também conta que aprendeu a respeitar o próprio corpo e a confiar nele: “Antes eu duvidava da minha capacidade, hoje vejo que sou mais forte do que imaginava. A corrida me ensinou sobre paciência, constância e superação”.


Apesar dos benefícios evidentes, há uma nova camada de complexidade nesse discurso do bem-estar. A professora observa que a Geração Z vive imersa no que ela chama de “culto do wellness” – uma cultura que transformou o autocuidado em um ideal de performance. Se antes correr significava se desconectar do mundo, hoje o ato vem acompanhado de uma obrigação de registro. Treinar, gravar, postar e performar tornaram-se etapas quase inseparáveis da prática esportiva. Esse novo modelo de autocuidado gera o paradoxo central do fenômeno: correr é, ao mesmo tempo, um gesto de liberdade e uma nova forma de vigilância. O corpo, que deveria ser espaço de descanso, acaba se tornando um campo de exposição e comparação constante.


Em um mundo digital, são raros os momentos que estimulam um foco no momento presente, e a atividade física acaba sendo um meio que exige uma certa conexão com o corpo. Muitos jovens descrevem a corrida como uma forma de “colocar a cabeça em ordem” e o psicólogo Vinícius Valiante explica essa afirmação: “É isso [a corrida] que permite que a gente entre muitas vezes naquele estado de flow, de apenas sentir a presença e a existência presentes, se distanciando das preocupações futuras ou de memórias relacionadas ao passado. Emocionalmente, o que acontece é a liberação de vários neurotransmissores ligados ao prazer, principalmente no pós-atividade física, com essa descarga”.


Estresse, ansiedade e sobrecarga são sintomas cada vez mais comuns na Geração Z. O esporte pode ser um caminho mais fácil e benéfico em comparação ao uso de medicamentos, já que diversos estudos apontam a eficácia da atividade física na regulação emocional. “Se aquela pessoa consegue aderir a prática esportiva, depois de um tempo ela costuma sentir prazer com a prática e aí o esporte ganha uma potência para a saúde”, afirma a professora Clarice Medeiros. Porém, Valiante alerta: “Quando se torna uma obrigação [correr para postar], acho que se cria essa diferença um pouco, do fazer por prazer. É como se uma motivação intrínseca fosse trocada pela motivação extrínseca, do reconhecimento, do like”.


Encontrar um ponto de equilíbrio entre correr por bem-estar e correr para “performar”, segundo especialistas, é um desafio. De acordo com os psicólogos, é possível encontrar equilíbrio no sentido de se conhecer, se escutar, escutar o próprio corpo e tentar praticar a corrida quando houver possibilidade, tempo e locais adequados, ou seja, sem priorizar o resultado e a performance acima da saúde. Gabriel Ferreira reforça essa afirmação: “Realmente é um refúgio, e uma conexão com a vida interior, através do físico”.


No entanto, na prática esse equilíbrio é difícil. A busca por resultados e métricas faz com que até amadores se comportem como atletas profissionais. A prática ideal para Clarice Medeiros é certeira: “Sempre se recordar o porquê está praticando aquele esporte, respeitando o seu tempo, o seu corpo, o seu momento, seu estilo de vida”.


Para Valiante, a psicologia esportiva pode ser uma aliada nesse processo, pois ajuda o atleta a manter uma relação saudável com o treino, com a autoimagem e com o próprio corpo. “Pode ajudar diretamente no aumento de performance, desempenho e principalmente vai botar a pessoa para entrar em contato com o que faz com que ela sinta essa necessidade de movimento”, explica. 


Entre treinos postados e percursos compartilhados, a corrida ganhou um novo significado para a Geração Z: ela é tanto uma ferramenta de autocuidado quanto um espaço de expressão. Mas, se o presente é marcado pela intensidade e pela busca por bem-estar imediato, o futuro ainda levanta dúvidas. Será que esse vínculo com o esporte se manterá com o passar dos anos? É nesse ponto que o fenômeno encontra um contraponto interessante, o das gerações anteriores, como os Baby Boomers, que fizeram do exercício físico uma rotina sólida e duradoura.


Baby boomers


Enquanto os jovens correm embalados por músicas, métricas e stories, há quem pise o asfalto há décadas com um tipo diferente de constância. Formada por pessoas nascidas a partir de 1940 até meados de 1960, período pós-Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a geração chamada de Baby Boomers representa uma geração que aprendeu a correr sem câmeras ou aplicativos, sendo movida mais pela disciplina do que pela visibilidade. Para eles, a corrida não era performance estética nem ferramenta de exposição, mas uma prática de constância, saúde e propósito, construída ao longo de anos. De acordo com o professor e pesquisador, Jeferson Rojo, mais do que um choque de gerações, o que existe é um reflexo do tempo em que cada grupo se formou. “Não é que a geração mais jovem seja diferente das outras, mas o momento em que estamos vivendo é assim. Pessoas de gerações anteriores podem ter resistência ou dificuldade de lidar com isso. No entanto, esses públicos interagem no mesmo evento, no mesmo espaço social”, ele observa. 


Essa constância aparece de forma clara quando se escuta quem viveu o esporte por muito mais tempo. É o caso de Dayse Martini, de 67 anos, dona de casa que corre e caminha há décadas. Ela conta que o hábito surgiu naturalmente na juventude, mas só ganhou força quando passou a treinar com um grupo: “Sempre gostei dessa atividade, mas estar em um grupo tornou tudo mais prazeroso e divertido”. A regularidade, segundo ela, nunca foi um desafio, já que apenas mudou de significado ao longo da vida. “Na juventude era por vaidade, por um corpo bonito e saudável. Hoje é muito mais por saúde, porque faz bem para a mente um corpo em movimento”. Para ela, a ideia de parar nunca fez sentido, pois quer ter um corpo saudável e boa mobilidade, o que no envelhecimento, segundo ela, é fundamental.


Foto: divulgação/Dayse Martini
Foto: divulgação/Dayse Martini

Uma trajetória diferente, mas igualmente marcada pela disciplina, aparece na história de Sebastião Borges, 64 anos, Capitão Bombeiro da Reserva Remunerada, cuja primeira competição foi aos 17 anos, no Pentatlo Nacional, em 1979. Aos 20, competia pelo Fluminense e Vasco, em provas de 5.000m, 10.000m e maratona. “Não consumir bebidas e cigarros também me motivava a praticar esportes”, conta. Depois de anos de rotina intensa como bombeiro, ficou afastado das competições, mas o afastamento cobrou seu preço: após um período sedentário e má alimentação, sofreu um quadro cardiovascular. Hoje, coleciona títulos no atletismo master, é vice-campeão estadual no salto em altura, competidor em múltiplas modalidades e integra equipes campeãs em todo o país.


Foto: divulgação/Sérgio Borges
Foto: divulgação/Sérgio Borges

O contraste entre gerações aparece com nitidez no olhar dos dois sobre a Geração Z. Para Dayse Martini, muitos jovens começam na corrida motivados principalmente pela estética: “Os jovens estão atrás de um corpo muito mais para a perfeição em beleza e músculos que gritam do que para a saúde. E às vezes desistem, porque para tudo é preciso persistência e constância e às vezes eles acabam não levando tão a sério”. Já Sebastião Borges observa que, apesar do acesso à informação, muitos jovens tornaram-se sedentários pela atratividade da internet: “Quando passam em concursos que exigem testes físicos, eles não estão preparados”. Para ele, a diferença em relação ao passado está também na falta de cobrança nas aulas de educação física das escolas, algo que sua geração vivenciou com intensidade.


Essas diferenças, segundo Daniel Krutman, CEO da Ticket Sports, possuem menos relação com valores e mais com circunstâncias, já que os Baby Boomers mantêm uma consistência maior na prática esportiva, enquanto a Geração Z é mais ocasional. O especialista explica como se dá essa diferença: “Ao longo da vida as experiências individuais ficam mais fáceis. Quando a vida social é mais ativa - e o físico permite - há mais opções de encontros, é mais fácil marcar de jogar bola ou mesmo se encontrar na academia. É uma questão prática”. Para ele, a consistência dos Baby Boomers se construiu a partir dessa maturidade: o corpo se torna um espaço de permanência, não de performance. Já os jovens, imersos em um mundo hiperconectado, buscam o imediatismo e a visibilidade, o que os torna mais suscetíveis à oscilação entre fases de engajamento e de afastamento.


Mesmo assim, Krutman acredita que a Geração Z tem potencial para manter e até ampliar o vínculo com o esporte ao longo do tempo. “Se as gerações anteriores, pouco estimuladas durante a juventude já são maioria nas corridas, o que pensar das próximas gerações que vêm com uma base muito mais poderosa? Há de crescer - e esse crescimento vai durar no mínimo pelos próximos 100 anos”, projeta. A afirmação do CEO traduz uma aposta otimista sobre as corridas, que vêm se consolidando como uma cultura compartilhada entre faixas etárias, gêneros e estilos de vida.


Ele destaca ainda que a diferença central entre as gerações está na forma como elas significam o ato de correr. “Para os Baby Boomers ou Geração X, a ideia é mais sobre superação, estilo de vida saudável e um ciclo de vida positivo. É quase obrigatório em termos de saúde essa prática esportiva. Para a Geração Z, é um palco de transformação, conexão e plataforma de autopromoção”, analisa. Mesmo com essas distinções, ele observa uma convergência importante: “Ambos convergem, entretanto, na questão de formação de tribos. A questão social impacta para qualquer idade”. Assim, a corrida se mantém como ponto de encontro entre gerações, sendo um espaço onde disciplina e pertencimento se cruzam.


Mas o CEO faz uma ressalva importante: o protagonismo da Geração Z nas redes não reflete, necessariamente, uma predominância numérica nas provas. “Acho que a sensação de que a Gen Z estava dominando tudo não se reflete nos números. Entendemos que era causada por uma presença social massiva e poderosa, ou seja, os jovens influenciam mais, produzem mais, mas quem pratica ainda são os mesmos”, observa. Ele acrescenta que cada vez mais a curva etária pode mudar não devido à diminuição de gerações anteriores, mas pela necessidade que os jovens estão buscando uma vida mais saudável desde cedo. A força digital da geração mais jovem, portanto, funciona como vitrine e motor simbólico de um movimento que, aos poucos, também se traduz em prática.


Outro fenômeno apontado por Krutman é o da influência cruzada entre gerações, que vem reforçando o ciclo de adesão ao esporte. “Muitos depoimentos dão conta de gente que ‘aprendeu’ a correr com os próprios pais. É algo que contamina”, afirma. Ele cita o estudo The Ripple Effect, da Mass Participation World, segundo o qual cada pessoa que participa de um evento de corrida influencia diretamente cerca de 12 outras ao seu redor. 


Mesmo em ritmos e sentidos diferentes, os Baby Boomers e Geração Z acabam se encontrando nas provas, às vezes metaforicamente, às vezes literalmente. Dayse Martini observa essa convivência como positiva: “Eu gosto de estar com jovens, acho que a gente também aprende com eles, a troca é boa”. Já Sebastião Borges, acostumado a competir hoje em categorias master, observa que cada faixa etária ocupa seu espaço, mas reconhece que o ambiente multigeracional é parte do que mantém o esporte vivo. Ambos representam uma geração que enxerga a corrida não como fase, mas como caminho. E, ao escutar suas histórias, tanto a constância silenciosa de Dayse quanto a trajetória atlética de Sebastião, fica claro que a pergunta sobre o futuro da Geração Z não é apenas se eles correrão tanto quanto os mais velhos, mas se correrão pelo mesmo motivo. Os Baby Boomers correm para permanecer; os jovens, talvez, ainda estejam descobrindo para quê.


A corrida como um espelho de gerações


No fim, a corrida é mais do que um esporte, é um espelho do tempo em que vivemos. Como observa o professor e pesquisador Jeferson Rojo, o ato de correr carrega dimensões que ultrapassam o movimento físico. “O esporte como um todo é capaz de ajudar na construção social e na formação de valores”, explica. Para a professora e psicóloga Clarice Medeiros, o segredo está em fazer o movimento ter sentido. “O esporte que funciona é o esporte que faz sentido para você, pode ser corrida, natação, bicicleta, futebol, boxe, pouca importa. O que importa é que faça sentido, que você tenha um bom acompanhamento técnico e um bom grupo para estar junto”. É esse sentido coletivo e pessoal que transforma o simples ato de correr em uma forma de cuidar de si e de pertencer ao mundo.


Para Rojo, cada geração vive o esporte de forma diferente, e o entusiasmo dos jovens segue o ciclo natural das tendências. “Muitos se apaixonam e permanecem, enquanto outros migram para novas modalidades. Isso é natural. São ciclos de preferência e gosto. Hoje, estamos vivendo o ciclo da corrida de rua”. Mas, entre modas e métricas, há algo que permanece: o desejo de movimento e o impulso de continuar. 


É esse desejo que move Vanessa Venâncio, estudante de Direito, que trocou a vida noturna pelos treinos matinais. Foi correndo que ela encontrou um jeito de se manter inteira em meio à rotina e às pressões do dia a dia. “A corrida me deixa mais leve e me faz refletir. Me ajuda a aliviar a mente e colocar os pensamentos em ordem. É como uma forma de terapia para mim”, conta. Nos domingos de prova, ela chega cedo, prende o cabelo, ajusta o tênis e respira fundo. Ao ouvir o som da largada, o corpo entra em compasso com a multidão, mas o que a move é algo silencioso. “A corrida me reconstruiu, me ensinou disciplina, paciência e me fez entender que o que parece impossível hoje pode ser só questão de constância amanhã”.


Enquanto o sol sobe e as ruas se enchem de passos, Vanessa corre ao lado de centenas de outros corpos que, como ela, encontraram no asfalto um lugar de pertencimento e de paz. O amanhecer, antes símbolo de recomeço, agora também é o palco de uma geração que aprendeu a se conhecer correndo.




1 comentário


Renata Feital
Renata Feital
06 de dez. de 2025

Gostei muito da reportagem, com muitas fontes e bem escrita!

Curtir
LOGO Entrelinhas.png

 

© 2025 Entrelinhas por Laura Gomes. Todos os direitos reservados.

 

Você gostaria de receber as atualizações do Entrelinhas?

Universidade Veiga de Almeida

R. Ibituruna, 108 - Maracanã, Rio de Janeiro - RJ

Av. Gen. Felicíssimo Cardoso, 500 - Bloco A - Barra da Tijuca, Rio de Janeiro - RJ

  • Instagram
bottom of page