Entre Santos e Orixás: Celebrando a Tradição de São Cosme e Damião
- Alunos UVA

- 24 de nov. de 2025
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A tradição de São Cosme e Damião é uma das celebrações populares mais fortes do Rio de Janeiro. Todos os anos, diversas famílias preparam saquinhos de doces, terreiros fazem oferendas e igrejas lotam de fiéis, compondo um mosaico de fé e cultura que ultrapassa as fronteiras religiosas.
Por Ana Carolina Freitas e Ana Clara Souza

Nas ruas, nos terreiros e nas igrejas, a devoção a Cosme e Damião se manifesta de formas que, embora diferentes entre si, compõem um mesmo mosaico cultural. Enquanto paróquias celebram missas cheias, crianças correm os bairros em busca dos tradicionais saquinhos de doces.
Para o padre Cristiano da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, Diocese de Caxias, os santos gêmeos representam caridade e serviço: “Cosme e Damião eram médicos generosos. Seu testemunho inspira cuidado e serviço”, afirma. A distribuição de doces, ainda que não faça parte da liturgia, é acolhida pela Igreja como gesto de afeto. “É um carinho com as crianças”, completa.
No Brasil, oferecer doces transcende o costume religioso: torna-se promessa, memória de família e demonstração de cuidado. Em muitos lares, é tradição herdada dos pais; em outros, ritual que marca a chegada de um filho. À medida que setembro se aproxima, famílias se dedicam a preparar kits, escolher balas, cortar fitinhas, uma prática especialmente forte nas zonas Norte e Oeste do Rio.
O escritor e historiador Lucas Bártolo, um dos autores da obra Doces Santos, lembra que, desde o início do século XX, há previsões de que a tradição enfraqueceria. “Mas ela resiste. Cada época transforma a forma de celebrar, mas a festa não some”, diz. E resiste mesmo: coletivos e grupos de valorização das tradições afro-brasileiras promovem festejos comunitários que reafirmam o caráter popular da data. No Andaraí, ruas lotadas de crianças ilustram essa permanência. Instituições como o Renascença Clube também se tornaram referências. Há três anos, o espaço organiza eventos com samba, brinquedos e caruru, reforçando a importância coletiva da celebração.
Entre o sagrado e o profano, o gesto de oferecer um doce continua atravessando gerações. Cada saquinho entregue, cada panela de caruru, cada sorriso infantil mantém viva uma tradição que habita o afeto e que segue pulsando nas ruas, nos terreiros, nas igrejas e nos lares que celebram alegria, cuidado e ancestralidade.
Quem Foram Cosme e Damião
No dia 27 de setembro, o cheiro de caruru se mistura ao som dos atabaques, e pelas ruas de várias cidades brasileiras, crianças correm atrás de saquinhos cheios de doces. Poucos lembram que essa celebração, tão brasileira e colorida, nasceu de um martírio distante, no deserto da Arábia, ainda no século III, durante o Império Romano.
Cosme e Damião nascidos em Egéia, na antiga Arábia, por volta do ano 260, eram gêmeos, filhos de uma família nobre, e aprenderam com a mãe, Teodata, o caminho da fé cristã. Foram estudar na Síria, onde se formaram médicos, tratavam corpos e almas sem cobrar por isso, motivo pelo qual passaram a ser chamados de anárgiros, “os que não têm prata”, em grego. Cuidar dos enfermos era sua forma de evangelizar.
A fé inabalável custou-lhes a vida. Mesmo diante da tortura e das ameaças de morte durante o governo do Imperador Diocleciano, não renegaram Cristo. As narrativas contam que resistiram ao fogo, às pedras e às flechas, e só foram derrotados quando decapitados. Enterrados por aqueles que haviam curado, tiveram seus restos levados a Roma, onde o Papa Félix IV mandou erguer uma basílica em sua homenagem. As histórias se espalharam pela Europa, onde mulheres pediam sua intercessão em partos múltiplos e contra o mau-olhado. Eram santos da cura e da infância, protetores de médicos, farmacêuticos e crianças.
Do Oriente à Europa, a devoção cresceu. No século XVI, já era forte na Península Ibérica. Quando os portugueses cruzaram o Atlântico, trouxeram consigo seus santos e crenças. Assim, Cosme e Damião desembarcaram no Brasil, onde o encontro entre o catolicismo europeu e as religiões africanas reconfiguraria suas identidades. A chegada dos portugueses ao Brasil, trouxe junto essa devoção.
“A chegada oficial ocorre por Igarassu, em Pernambuco, em 1535”, explica o escritor e historiador Lucas Bártolo. “O território foi tomado no dia dos santos, e uma capela foi construída em homenagem a eles.” Essa capela, hoje igreja, é considerada a mais antiga do país ainda em pé.

“Evito usar a palavra sincretismo, porque ela traz uma interpretação superficial para algo tão complexo”, explica a jornalista e antropóloga Cleidiana Ramos, da UFBA. “O termo mais apropriado em Salvador é afro-catolicismo, especialmente quando falamos das festas populares. No culto a Cosme e Damião, fica claro como nem sempre o colonizador vence. Na versão popular, eles são representados como crianças.” (trecho retirado da matéria: https://alabadaue.com/cosme-e-damiao-infancia-sagrada-entre-balas-e-caruru/)
Foi essa fusão de crenças que deu nova vida aos santos. No Brasil, o culto europeu aos gêmeos se misturou às tradições africanas trazidas pelos povos do antigo reino de Daomé e da Nigéria, onde a gemelaridade sempre foi sagrada. Lá, acreditava-se que os gêmeos, os ibejis, pertenciam a três mundos: o da natureza (Ilè), o espiritual (Òrun) e o humano (Aìyé). Eram mediadores entre o divino e o terreno, seres que exigiam respeito e oferendas.
(Palavras grifadas no texto contam com explicação no glossário ao final da matéria)
Na diáspora africana, essas crenças encontraram refúgio no território baiano. “O Brasil sendo um país miscigenado, que sofreu por mais de 300 anos com a escravidão, havia a obrigação das pessoas escravizadas cultuarem e ‘fazerem parte’ da religião de seus senhores”, conta a entrevistada Tuani Cristini, médium de uma casa de Umbanda em Queimados. “A maneira encontrada para continuar louvando a própria crença foi correlacionar o que lhes era obrigatório com o que de fato acreditavam. Ou seja, o hoje conhecido sincretismo religioso. Nessa linha de raciocínio, São Cosme e São Damião são sincretizados com os Ibejis.”
Religião e Fé
No calendário católico, o dia 26 de setembro marca oficialmente a festa de São Cosme e São Damião. A data, no entanto, nem sempre foi essa. Durante séculos, os santos foram celebrados em 27 de setembro, o dia da inauguração da Basílica dedicada a eles em Roma, no ano de 527. Só em 1969, com a reforma do calendário litúrgico promovida pelo Papa Paulo VI, a celebração foi antecipada para o dia 26, para dar lugar a São Vicente de Paulo, também lembrado em 27.
Para a Igreja Católica, a devoção aos santos gêmeos se centra no testemunho de fé e caridade. “Ser santo significa seguir o caminho de Jesus, tendo Ele como exemplo, caminho, verdade e vida. Cosme e Damião foram reconhecidos pela Igreja porque caminharam próximos de Cristo e serviram de exemplo aos fiéis”, afirma o entrevistado Padre Cristiano.
No Brasil, onde a fé se mistura com o costume popular, essa distinção de datas pouco importa. As ruas ainda se enchem de cores, crianças e balas no dia 27, mas nas igrejas o tom é outro: solene, devocional, silencioso. Na Paróquia de São Cosme e Damião, no Andaraí, Zona Norte do Rio, as missas acontecem a cada duas horas. Fiéis entram e saem, trazendo fitas, velas e promessas.
Entre a fé e o costume, o culto aos santos gêmeos sempre se apoiou no mistério e na crença no impossível. Uma das histórias mais conhecidas, narrada no livro Legenda Áurea, conta que Cosme e Damião realizaram aquele que seria o primeiro transplante da história: o milagre da perna.
Segundo o relato, um servidor da igreja em Roma sofria com uma perna tomada por câncer. Durante o sono, os santos lhe apareceram com instrumentos e unguentos, retiraram a carne doente e a substituíram pela perna de um etíope recém-falecido. Ao acordar, o homem se viu curado e o corpo do africano, encontrado no cemitério, trazia a marca da troca.
Séculos depois, o episódio ganharia forma nas tintas do pintor renascentista Fra Angelico, em A cura do diácono Justiniano. A obra, hoje na Basílica de São Marco, em Florença, mostra Cosme e Damião operando lado a lado.
(Parte do relato retirado da matéria: https://revistaampla.com.br/fe-e-arte-se-misturam-no-relato-do-primeiro-transplante-da-historia/)

Nos terreiros de candomblé e nas casas de umbanda, o dia é de festa e oferenda. Doces, frutas e brinquedos são reunidos diante dos altares, ao lado de velas brancas e pratos de caruru.
O caruru, prato sagrado à base de quiabo, carrega em si um mito. Diz-se que, certa vez, Exu roubava o amalá, a comida de Xangô, até que os Ibejis o desafiaram para uma dança. Gêmeos astutos, se revezavam sem que ele percebesse, até que o enganaram e o venceram. Como recompensa, pediram que sempre houvesse uma parte do amalá sem carne e sem pimenta, feita especialmente para eles. Desde então, o caruru dos sete meninos é servido em sua homenagem, primeiro às crianças, que comem com as mãos, em silêncio e círculo um gesto de respeito e continuidade.

A fé, nas suas diferentes formas, encontra nas crianças o seu espelho mais puro. “A Ibejada traz a simplicidade e felicidade na forma de enxergar a vida”, diz a entrevistada e também filha de santo Tuani Cristini. “Nos faz lembrar a nossa criança interior. Afinal, todos somos apenas crianças que cresceram.”
Mesmo cheia de cores e doces, a festa de Cosme e Damião enfrenta desafios crescentes em muitas cidades brasileiras. Nas periferias, o gesto de distribuir doces, que simboliza cuidado, fé e memória, tem esbarrado na intolerância. Em bairros de São Paulo, por exemplo, mães às vezes impedem que os filhos peguem os saquinhos, dizendo que “não é coisa de Deus”. Mãe Elis de Iemanjá, da Casa de Caridade Cabocla Yara de Oxossi, contou em uma entrevista que, mesmo montando mesas de doces na calçada, enfrenta olhares e palavras hostis: pessoas passam dizendo “sangue de Jesus tem poder” ou “só Jesus salva”, tentando deslegitimar a tradição. Ainda assim, ela segue distribuindo os kitzinhos, cuidando para que cada criança receba seu doce.
(Entrevista com Mãe Elis de Iemanjá: https://periferiaemmovimento.com.br/dizem-que-nao-e-coisa-de-deus-intolerancia-religiosa-desafia-celebracao-de-cosme-e-damiao-nas-periferias/)
Além das barreiras cotidianas, práticas de deslegitimação simbólica reforçam a pressão sobre a tradição. Dados do Conselho Estadual de Defesa e Promoção da Liberdade Religiosa mostram que casos de preconceito aumentam em setembro, quando a festa é celebrada. Como observa o professor Márcio de Jagum, o preconceito contra religiões de matriz africana combina intolerância religiosa com componente étnico: “Imaginar que o Brasil é totalmente tolerante é um mito. O preconceito cresce justamente por essa mistura de religião e etnia.”
(Dados retirados da matéria: https://g1.globo.com/google/amp/rj/rio-de-janeiro/noticia/2018/09/27/devotos-de-sao-cosme-e-damiao-denunciam-episodios-de-preconceito-no-rj.ghtml?UTM_SOURCE=copiar-url&UTM_MEDIUM=share-bar-app&UTM_CAMPAIGN=materias)
Mesmo diante desses desafios, a festa resiste. A entrevistada Maria Eduarda Marques, moradora da Zona Norte do Rio, lembra que a distribuição de doces diminuiu nos últimos anos, mas ainda existe: “É difícil que se perca, porque muitas pessoas continuam oferecendo doces como forma de agradecimento ou promessa por uma graça alcançada.” Cada saquinho entregue nas calçadas, nas ruas e nos terreiros reafirma a força da tradição e mantém viva a memória dos ancestrais. Em meio à hostilidade, Cosme e Damião seguem presentes, lembrando que a fé, a infância e a cultura podem caminhar juntas.
Na maioria dos casos, a recusa aos doces está ligada a crenças religiosas ou interpretações familiares que transformam o gesto de ganhar um doce em motivo de cautela. Como nos relatou a entrevistada Sofiah Gabrielli, algumas famílias associavam os doces a possíveis enfermidades transmitidas por quem os oferecia. “Minha avó acreditava que os doces eram como se os pais dos filhos enfermos transmitissem doenças para as crianças que aceitavam os doces. Minha mãe não seguia nenhuma religião, então não ligava que a gente pegasse os doces. Mas depois que ela se converteu ao evangelho, passou a acreditar e eu nunca peguei doce de São Cosme e Damião”, conta.
O pesquisador Lucas Bártolo explica como grupos evangélicos encontram sua própria forma de celebrar o dia: “Alguns grupos pentecostais, por exemplo, passaram a incorporar o 27 de setembro aos seus calendários litúrgicos, retirando a referência aos santos e adaptando as práticas festivas. Trata-se de um movimento marcado por proselitismo, mas que, paradoxalmente, também evidencia a força cultural da data e o esforço de diferentes tradições religiosas de disputar o seu significado”, explica o escritor.
Algumas instituições religiosas vem atuando fortemente na reinterpretação da tradição. Programas como “Mais Doce que o Mel”, da Igreja Projeto Vida Nova, em Irajá, promovem festas com música, teatro e distribuição de balas abençoadas, reforçando que a proteção das crianças vem de Cristo. Em algumas igrejas, os doces recebidos originalmente são recolhidos ou substituídos, com a justificativa de que poderiam ter “efeitos terríveis” se consumidos fora do contexto bíblico. O objetivo é ressignificar a história dos santos, apresentando-os como médicos que curavam em nome de Jesus, em vez de distribuírem doces.
(Dados retirados do livro “Doces Santos”: https://pantheon.ufrj.br/bitstream/11422/15413/3/9786557290064.pdf)

Essa tensão entre tradição popular e interpretações religiosas mostra que o ato de receber um doce pode ser carregado de significados diversos, que vão além da inocência infantil. Entre a celebração e a recusa, a história de Cosme e Damião continua viva, atravessando gerações e crenças, lembrando que a festa é, ao mesmo tempo, memória, fé e escolha.
Cultura Popular e Infância
No Brasil, o gesto de distribuir doces no dia de São Cosme e Damião vai além da alegria da infância, é herança, promessa e afeto em forma de saquinhos coloridos. A origem desse costume vêm dos próprios santos, que, segundo a tradição, distribuíam doces às crianças doentes e vítimas da violência na Ásia Menor. Era uma maneira de levar saúde e alegria, e como tantas práticas que atravessaram oceanos, o hábito ganhou forma no Brasil.
À medida que setembro se aproxima, as casas das Zonas Norte e Oeste começam a se preparar. Como se fosse um ritual sagrado, cada detalhe importa, escolher as balas, separar os saquinhos, o número exato de pirulitos, e os distribuidores ainda precisam se adequar ao equilíbrio entre os doces tradicionais e as novidades que as crianças de hoje consomem.
Mais do que um presente, o saquinho é uma promessa. Muitos devotos mantêm o hábito por gratidão, outros por tradição familiar. “Comecei por promessa, mas continuei distribuindo”, é a frase que atravessa gerações. A promessa de sete anos, feita ao nascimento de uma criança, é talvez a mais comum: distribuir doces até que ela cresça saudável sob a proteção dos santos. Mas há quem diga que a promessa dura enquanto houver vida. Dar e receber não são opostos, mas partes do mesmo gesto. O que um dia foi doce ganho na rua vira doce preparado em casa, perpetuando um laço invisível entre avós, mães e netos.

Nos subúrbios cariocas, essa memória se refaz a cada 27 de setembro. No mapa da cidade, o dia não é feriado, mas o Rio parece mudar de cor. No Andaraí, bairro que abriga a paróquia dedicada aos santos gêmeos, as esquinas se enchem de risadas e saquinhos brancos. “Apesar de ser um costume em todo o Rio, é mais frequente nas Zonas Norte e Oeste, e ao ver que ainda existem pessoas dispostas a manter isso vivo, me traz uma sensação de resistência e pertencimento, pois muitas vezes essa é uma das poucas opções de diversão de crianças periféricas” relata a entrevistada Maria Eduarda Marques, moradora da região. Há três anos, o Renascença Clube, assumiu o papel de anfitrião da festa: roda de samba, brinquedos infláveis, escola de samba mirim, doces e caruru. Pais e avós levam seus pequenos ao Clube na tentativa de resgatar um pedaço de suas infâncias, A cada bala entregue, renasce um pedaço da cidade que resiste à intolerância e ao esquecimento.

Apesar das mudanças do tempo, a insegurança nas ruas, o custo de vida, a tecnologia que prende as crianças em casa , a festa resiste. Em muitas famílias, a mesa vira altar e o portão vira ponto de encontro. Enquanto houver crianças correndo pelas ruas atrás dos saquinhos, São Cosme e Damião terão um lugar no coração dos cariocas.
Essa devoção não ficou apenas nas calçadas. Ela atravessou os portões do sambódromo. No carnaval de 2016, a Renascer de Jacarepaguá levou para a Sapucaí o enredo Ibejís: Nas brincadeiras de criança: os orixás que viraram santos no Brasil. Cosme e Damião tornaram-se a ponte entre o sagrado africano e o imaginário infantil. O carnavalesco Jorge Caribé explicou: “Encontrei em São Cosme e São Damião o pezinho para falar dos meus orixás africanos e dos Ibejis, filhos de Iansã”. No desfile, doces, brinquedos e carurus se misturavam a orixás e saias de baiana, uma procissão colorida em forma de samba.

E a ligação dos santos com o carnaval só cresceu. Em 2023, a Grande Rio, então campeã vigente, voltou seus olhos para a fé popular ao homenagear Zeca Pagodinho, devoto de São Cosme e São Damião, no enredo Ô Zeca, o pagode onde é que é?. Entre os bares da Baixada, as rodas de samba e as referências à vida do cantor, os santos gêmeos ganharam destaque na avenida como parte do universo afetivo de Zeca. A escola levou para a Sapucaí uma ala inteira dedicada aos “meninos” com fantasias inspiradas tanto nos Ibejis quanto na estética dos saquinhos de doces, exaltando a proteção, a alegria e a infância presentes na fé de Zeca. Era a devoção do cantor transformada em imagem, ritmo e celebração, reafirmando que, no Rio, religião e carnaval caminham lado a lado.

(Referências usadas: https://journals.openedition.org/pontourbe/5839 e livro Abre-Alas (2023) https://liesa.org.br/downloads/memoria/outros-carnavais/2023/abre-alas-domingo-carnaval-2023.pdf)
A devoção a Cosme e Damião também encontra sua voz na música popular brasileira. Assim como a fé ultrapassa os portões de igrejas e terreiros, ela também salta para rodas de samba, pagodes de domingo e gravações que atravessam gerações. Os santos gêmeos se tornaram personagens afetivos do repertório nacional, celebrados como guardiões da infância, da alegria e dos caminhos abertos pela leveza.
Em Falange do Erê, sucesso eterno nas rodas de partido-alto, a presença dos santos aparece como força espiritual que acompanha quem samba, quem trabalha e quem luta. A canção ecoa a proteção dos erês, entidades associadas à pureza e às crianças, reafirmando a ligação entre o sagrado e o cotidiano. Já em Patota de Cosme, Zeca Pagodinho transforma devoção em narrativa de bairro: o santo que protege, que brinca, que caminha junto da comunidade. Para Zeca, devoto assumido, cantar Cosme e Damião é também cantar sua própria história, sua fé e suas memórias afetivas.
Essas músicas, entoadas nas rodas de samba do Rio, funcionam como oração coletiva, uma forma de celebrar que não precisa de altar, apenas da voz. Assim, Cosme e Damião se tornam parte da trilha sonora de um Rio que vive sua espiritualidade na rua, no quintal, no botequim,no palco e na Sapucaí, santos que dançam com o povo, presentes tanto na cadência do samba quanto na doçura que percorre a cidade todo 27 de setembro.
Entre as ruas e a Apoteose, os santos gêmeos continuam a brincar com o tempo. Cada saquinho entregue é uma oferenda à infância, um lembrete de que a fé também pode ter gosto de bala de coco. E enquanto houver uma criança sorrindo com um saquinho nas mãos, São Cosme e Damião continuarão vivos nas ruas, nos terreiros, nas igrejas, nos sambas e nas memórias de um povo que aprendeu a transformar fé em festa.
Glossário
1. Orixás
Divindades das religiões iorubás e afro-brasileiras (candomblé/umbanda), cada uma ligada a forças da natureza, elementos e arquétipos humanos.
2. Ibejis / Ibejís
Do iorubá Ìbejì: divindades gêmeas que representam a infância, a alegria, a proteção e a dualidade. No Brasil, são associados a Cosme e Damião.
3. Ilè
(Iorubá) Significa terra, mundo material, o plano físico onde vivem os humanos.
4. Òrun
(Iorubá) Significa mundo espiritual, morada dos orixás e dos ancestrais.
5. Aìyé
(Iorubá) Significa mundo terreno/humano, onde vivemos, contraponto de Òrun.
6. Candomblé
Religião afro-brasileira originada das tradições iorubás, jeje e bantu; cultua orixás e ancestrais por meio de rituais, música e oferendas.
7. Umbanda
Religião brasileira que mistura elementos africanos, indígenas, católicos e kardecistas; cultua orixás, guias e entidades espirituais.
8. Exu
Orixá mensageiro e guardião dos caminhos. Representa movimento, comunicação, mudança e energia vital.
9. Amalá
Comida ritual sagrada de Xangô, geralmente à base de quiabo. É preparada em oferendas e cerimônias.
10. Xangô
Orixá da justiça, do trovão e do fogo. Uma das figuras mais fortes e populares do candomblé.
11. Iansã
Orixá dos ventos, tempestades e do movimento. Guerreira, intensa e associada ao poder feminino.
12. Baiana (em “saias de baiana”)
No contexto do carnaval e do candomblé, refere-se às mulheres que vestem trajes tradicionais inspirados nas roupas das filhas de santo e das matriarcas religiosas da Bahia.
13. Cabocla Yara de Oxóssi (nome da casa espiritual)
Oxóssi: Orixá da caça, da fartura, das florestas e do conhecimento.
14. Mãe Elis de Iemanjá
Iemanjá / Yemanjá: Orixá das águas salgadas, mãe dos orixás, ligada à maternidade, proteção e afeto.
15. Jagum (em “Márcio de Jagum”)
Nome religioso ligado ao universo iorubá; em algumas casas, associado a Ogum ou ao caminho de um iniciado (não é um orixá específico, mas tem origem afro).
Livros usados para pesquisa
Doces Santos: devoções a Cosme e Damião
https://pantheon.ufrj.br/bitstream/11422/15413/3/9786557290064.pdf
O corpo encantado das ruas (Luiz Antônio Simas)
As Religiões do Rio (João do Rio)
Legenda Áurea: Vidas de Santos (Jacopo de Varazze)
Livro Abre-Alas (2023):




Parabéns, meninas! Ficou muito boa!
Não sou de religiões afro descendentes e amei a matéria! Conhecimento nunca é demais. Muito explicativa e clara. Parabéns! 👏🏻
Sensacional, assunto de extrema relevância para nossa cultura. Adorei a matéria!
Que tema e assunto necessário!
É preciso firmarmos e dialogarmos sobre nossas raízes e tradições para que essas não se percam.
Um conteúdo importantíssimo do viés religioso e cultural.
Amei a matéria! Ficou super leve e ao mesmo tempo cheia de significado. Vocês mostraram de um jeito muito bonito como a tradição de São Cosme e Damião mistura fé, cultura e memória afetiva. É uma parte tão especial da nossa história, e vocês conseguiram transmitir isso com muito cuidado e sensibilidade. Ficou lindo demais, parabéns!