Entre o medo e o caminho: a rotina insegura de estudantes no Rio de Janeiro
- Alunos UVA

- 30 de nov. de 2025
- 6 min de leitura
Roubos de celular em alta e operações policiais frequentes afetam o trajeto de universitários da UFRJ, UERJ e UVA Barra. Relatos mostram rotinas alteradas e estratégias para reduzir riscos.
Por: Luys Guilherme e Milene Guedes
Abertura
Ir para a universidade no Rio de Janeiro deixou de ser apenas parte da rotina e passou a exigir planejamento, atenção redobrada e mudanças de hábito. Entre janeiro e setembro de 2025, a cidade registrou 13.429 roubos de celulares, segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP). O aumento impacta diretamente quem depende do transporte público para estudar. Em diferentes regiões da cidade, estudantes da UFRJ, UERJ e Universidade Veiga de Almeida relatam trajetos tensos, ajustes de horário e uma sensação constante de vulnerabilidade. A megaoperação realizada em outubro, considerada a mais letal da história do estado, reforçou esse cenário ao suspender aulas e interromper vias importantes.
Rotinas afetadas pela insegurança
A insegurança no trajeto até a universidade virou parte da rotina de quem estuda no Rio. Para muita gente, o dia começa e termina com essa preocupação. Na UFRJ, a caloura Clara Menezes, que mora no complexo da Maré, localizada na zona norte, já entendeu que ir para o Fundão nunca é um caminho simples. Morando em uma área onde aplicativos cancelam corrida com frequência, sair de casa significa calcular horário, movimentação da rua e até a presença de operação policial. “Às vezes o motorista nem tenta chegar. Eu preciso andar até a avenida e, quando tem operação, não tem muito o que fazer. É esperar acalmar se abrigando em algum mercadinho e avisar aos meus colegas ou professor que vou chegar atrasada”, conta.
Por isso, ela passou a acompanhar os grupos da universidade, onde alunos avisam quando há confronto ou bloqueio na Linha Vermelha. “Tem dia que saio mais cedo, tem dia que saio mais tarde. Já perdi aula por causa disso, mas é o que dá para fazer”, diz. Clara costuma repetir que não escolhe o melhor horário, apenas o menos arriscado.
Na UERJ, a rotina mudou bastante para Diego Santos da Albuquerque, de 27 anos, estudante de Relações Públicas. Ele já foi assaltado nas imediações do Maracanã enquanto atendia uma ligação e explica que isso transformou completamente a forma como volta para casa. “Hoje ninguém vai embora sozinho. A gente criou um grupo no WhatsApp só para combinar o retorno. Se alguém estiver indo para o metrô ou para o ponto, avisa.
“O pessoal espera e vai junto”, explica. Diego comenta que a ideia cresceu e passou a incluir pessoas de outros cursos. “Nem precisa se conhecer. Basta escrever no grupo que está descendo para o metrô e alguém responde na hora. Virou automático.”


-Prints do grupo do whatsapp
Na Universidade Veiga de Almeida, na Barra da Tijuca, a realidade é diferente, mas o sentimento é parecido. Júlia Corrêa, de 22 anos, estudante de publicidade e propaganda, depende do BRT entre Jacarepaguá e a Barra. Ela explica que foi furtada dentro do sistema e, desde então, só entra no BRT quando está menos cheio. “Já perdi aula porque preferi esperar um ônibus mais vazio. Se o BRT está lotado, você fica vulnerável até a coisas piores que um furto”, afirma. Segundo Júlia, muitos colegas fazem o mesmo. “A gente combina de pegar o BRT num horário mais tranquilo. Nem sempre funciona, mas ajuda.”
Apesar de estarem em regiões diferentes da cidade, os três estudantes vivem adaptações parecidas. Planejar o caminho até a faculdade se tornou tão importante quanto estudar e muitas dessas decisões não são escolhas, e sim tentativas de reduzir riscos.
Entre o medo e os números
O cenário descrito pelos estudantes aparece de forma direta nos dados mais recentes do Instituto de Segurança Pública (ISP). Entre janeiro e setembro de 2025, o Rio registrou 13.429 roubos de celular, um aumento de 27,3 por cento em relação ao ano anterior. O crime afeta principalmente quem depende de transporte público ou precisa atravessar regiões consideradas sensíveis para chegar à universidade.
No entorno da UERJ, os registros também chamam atenção. A área do Maracanã acumulou mais de 560 roubos a transeuntes em 2025, segundo o ISP. O número representa um aumento superior a 30 por cento em comparação com o mesmo período de 2024 e atinge de forma direta alunos que circulam entre o campus, o metrô e os pontos de ônibus da região.
Outro dado que preocupa estudantes é o aumento dos furtos dentro de coletivos. Em 2025, o estado contabilizou 5.997 furtos em ônibus, o que representa um crescimento de 13 por cento em relação ao ano anterior. Muitos desses casos acontecem justamente nos horários em que os estudantes mais utilizam o transporte público para chegar ou sair dos campi.
Esses números ajudam a explicar a mudança de comportamento entre universitários e reforçam por que tantos precisaram adaptar horários, combinar deslocamentos em grupo e revisar caminhos que antes faziam parte da rotina sem grandes preocupações. Para quem estuda no Rio, a relação com a cidade deixou de ser apenas sobre distância e passou a envolver cálculo de risco a cada trajeto.
Quando a cidade parou: o impacto da megaoperação
A insegurança ganhou ainda mais visibilidade após a megaoperação realizada no dia 28 de outubro de 2025. A ação, considerada a mais letal já registrada no estado, mobilizou centenas de agentes e resultou em 119 mortes, além de bloqueios de vias e atrasos generalizados no transporte público por ônibus incendiados.
Na UFRJ, alertas recomendaram que alunos evitassem a saída do campus durante a noite. Na UERJ, atividades foram suspensas no turno noturno em função da dificuldade de circulação no entorno do Maracanã. Já estudantes da UVA Barra enfrentaram atrasos significativos no BRT e em linhas de ônibus que interligam diferentes regiões da cidade além de aulas suspensas no turno da noite.A paralisação causada pela operação evidenciou como grandes ações policiais impactam diretamente a rotina acadêmica e a mobilidade universitária.
Quando a vida acadêmica está na mira
A sensação de insegurança tem influenciado frequência, participação e permanência estudantil. Clara deixou de cursar disciplinas noturnas na UFRJ por receio de voltar pela Linha Vermelha. Diego, na UERJ, reorganizou toda a grade para evitar aulas após o anoitecer. Júlia, na UVA Barra, afirma que decisões sobre atraso ou presença dependem do movimento nos corredores do BRT. Além dos ajustes acadêmicos, estudantes relatam ansiedade, necessidade de informar familiares constantemente e dificuldade de concentração. A insegurança passou a fazer parte da rotina universitária, exigindo adaptações individuais e coletivas.
Caminhos possíveis: Como se organizar no “Caos” de janeiro?
Especialistas afirmam que enfrentar a insegurança no entorno das universidades exige ações coordenadas entre poder público e instituições de ensino. Para o professor xxx , pesquisador da área de segurança pública da UFF, a principal falha hoje é a falta de integração entre universidades e prefeituras na gestão do entorno. “As instituições de ensino precisam considerar que influenciam a dinâmica urbana. A circulação de milhares de estudantes transforma as áreas ao redor em zonas de alta demanda por ordenamento e atenção”, explica.
Ele destaca que a comunicação interna ainda é limitada. “O estudante não deveria depender apenas de grupos informais para saber se uma rota está segura. Protocolos mais claros e alertas institucionais rápidos ajudariam no planejamento diário”, afirma.
O pesquisador cita iniciativas em andamento na UFF, como o Projeto Monitora UFF, que integra câmeras da universidade ao centro municipal de segurança. Para ele, modelos assim podem ser replicados por outras instituições para ampliar a percepção de segurança no deslocamento estudantil.
No entorno da UERJ, há também a atuação das forças de segurança. Um agente da Polícia Militar do Rio, que preferiu não se identificar, afirma que o policiamento tem sido reforçado em horários de maior fluxo. “Nos horários de entrada e saída, a presença de pessoas aumenta muito, e isso cria oportunidades para furtos e roubos.
Temos intensificado rondas e patrulhamentos para inibir esse tipo de ação”, disse. Ele reconhece momentos críticos na região do Maracanã, mas afirma que “as equipes fazem varreduras contínuas para manter a área o mais segura possível, principalmente no período da noite”.
Especialistas apontam que medidas simples, como: melhorias na iluminação pública, presença de agentes municipais, rotas seguras definidas pelas universidades e sistemas integrados de monitoramento, podem ajudar a reduzir a sensação de vulnerabilidade. A participação dos estudantes também é considerada fundamental, especialmente por meio de centros acadêmicos e diretórios que sistematizam relatos e cobram mudanças.
Embora as ações estruturais dependam de políticas públicas, universidades e órgãos de segurança afirmam que estudam protocolos mais consistentes para acompanhar o deslocamento de estudantes e responder de maneira mais eficiente a incidentes.
Conclusão
A insegurança no trajeto universitário revela um problema que ultrapassa os limites do campus. Relatos de medo, mudanças na rotina e dados de violência urbana mostram que o deslocamento até a universidade se tornou uma parte crítica da vida acadêmica. Embora existam iniciativas e recomendações para reduzir riscos, estudantes ainda enfrentam desafios diários para garantir o direito de chegar e permanecer nos espaços de ensino. A discussão sobre segurança pública passa, inevitavelmente, pela experiência de quem depende da cidade para estudar.




Comentários