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Entre Filtros e Ansiedades, a vida de jovens impactados pelas redes sociais

  • Foto do escritor: Alunos UVA
    Alunos UVA
  • 1 de dez. de 2025
  • 10 min de leitura

Por Luiggi Nicolo Paganini e Victor Hugo Alves


As redes sociais são um fenômeno que abalou o mundo desde a sua chegada, mudando completamente a forma de socializar, trabalhar, e ter lazer. Na teoria, poder compartilhar fotos, mensagens de texto e vídeos de forma rápida com seus amigos tinha tudo para revolucionar de forma positiva a dinâmica do mundo, e de certa forma, isso se concretizou, por um tempo. Porém, mais de uma década depois, os efeitos negativos das redes parecem ser mais falados do que os positivos. Vamos acompanhar a trajetória de Lorenzo.


No Rio de Janeiro, um rapaz de 20 anos chamado Lorenzo se prepara para sair do carro. Período de férias de verão, e ele e a namorada decidiram parar em um mirante com vista para as montanhas no caminho do hotel que irão se hospedar em Teresópolis. Com um celular na mão, Lorenzo sai do carro e pede para que um estranho tire uma foto sua e de sua parceira. "Ainda não está boa, pode tirar mais uma?," pergunta. Após alguns minutos, o casal volta para o carro, e sua namorada questiona: "Porque queria tanto tirar essa foto?". Ele fica em silencio, e depois conclui: "não sei, achei o local bonito". Então, ele segue a viagem, mas apenas uma coisa permanece em sua mente: "Quantos likes será que essa paisagem vai me dar?".


Chegando no Hotel, percebem que perderam o horário do check-in, e aborrecida, sua namorada decide ir logo para o restaurante do hotel, onde jantariam. "Amor! Amor! Você tá me ouvindo? Já sabe o que vai pedir?" Lorenzo mantinha a cabeça grudada ao celular, enquanto sua namorada e o garçom aguardavam sua resposta. "Ah desculpa, estava vendo os comentários do pessoal na foto que postei agora pouco". Ele só pensava nisso desde que clicou no botão de postar, mais cedo naquele dia. Para variar, postou um stories do seu prato, pedindo para que a companheira não comesse a sua comida ainda, para não estragar a foto.


Essa não era a primeira vez que Lorenzo tinha passado por isso. Em seu tempo da escola, as redes sociais eram um grande problema em sua vida. Ele entrou primeiro no Facebook, em 2013, e depois adotou outras redes como Instagram. Sempre foi um menino dedicado aos estudos, porém percebeu como as plataformas começaram a distraí-lo, tirar seu foco. Não conseguia mais estudar sem o celular do lado, não conseguia mais almoçar ou jantar sem assistir vídeos, costume esse que passou até para seu pai. Em apenas alguns anos, toda sua dinâmica acadêmica e familiar foi mudada.


Porém, nessa época de sua adolescência, um problema era muito mais evidente que os outros: a comparação. Nunca foi um garoto popular no colégio, mas sempre se relacionou bem com os colegas de turma, e tinha um grupo fiel de amigos. Quando o Facebook ganhou popularidade na escola, uma feature chamou a sua atenção, o numero de amigos que a pessoa tinha era exposto para todos verem. Aquilo o cativou. Quanto mais amigos e seguidores tivesse, melhor. Algo o fazia querer ter mais seguidores que os colegas. Logo, quando o Instagram passou o Facebook em popularidade, as tendências seguiram, e pioraram. Agora, cada foto, cada Story postado era uma chance de ser validado pelo público por meio dos likes. "Por que as fotos daquele cara ganham mais likes que as minhas?", pensava. Agora, sua imagem estava constantemente sendo julgada por pessoas próximas e desconhecidos, e assim, seu senso de valor e autoestima sempre postos em jogo.


Após uma viagem despertadora em relação ao seu uso de redes sociais, ele decide desativar o Instagram por tempo indeterminado, e não voltou para a plataforma desde então. Ao ser questionado sobre sua decisão, ele argumenta: "Eu me preocupava muito com minha imagem, não conseguia aproveitar tempos de lazer sem pensar em quantos likes aquilo me daria. Me comparava com os outros, e o sucesso alheio nas redes". Agora, com 22 anos, diz ser uma pessoa mais calma em relação a sua própria imagem, e diz ver pessoas cometendo os mesmos erros que ele cometia.


"Quando você sai dessa bolha, percebe como as pessoas normalizam estar presas e escravas a essas plataformas. O que eu mais vejo em viagens são pessoas preocupadas em tirar fotos ao invés de admirar a paisagem e o momento", afirma.

Contudo, admite ainda estar sob influência das redes. O tempo que era gasto se comparando e buscando validação social, foi substituído por horas de "doomscroll" no TikTok, consumindo memes e conteúdos de baixo valor informativo. "Eu não consigo ir no banheiro sem assistir TikTok, nem comer, quem dirá antes de dormir. Chegou ao ponto de meus amigos me apelidarem de 'dopamina'", disse em tom de brincadeira no off.


Entrevista completa com Lorenzo Lacerda sobre sua jornada com as redes sociais

O uso excessivo de redes sociais é perigoso também para a educação dos jovens e tem mudado drasticamente a dinâmica nas salas de aula de todo o país. O professor de ciências socias e inglês David Chen afirma que a saúde mental dos alunos piorou desde que o uso dos celulares se tornou mais frequente no ambiente escolar. Segundo ele, os casos de fofoca, comparação e Cyberbullying pioraram desde que as redes ganharam força no início dos anos 2010. "Um caso muito impactante na minha carreira, foi o de uma menina que trocava fotos íntimas com um homem mais velho pelo Instagram. Quando as fotos vazaram, ela foi muito impactada mentalmente, e as notas dela sucumbiram", afirma. Chen também traz luz sobre algo pouco falado, a insegurança dos professores nessa nova era digital.


"Hoje em dia todos professores têm medo de serem gravados, mal entendidos, ou expostos por meio de fotos e figurinhas de Whatsapp. Você não se sente tão confortável para dar aula", diz.

Entrevista completa com David Chen sobre como as redes sociais afetam a vida acadêmica dos jovens cariocas

No Rio de Janeiro, as situações relatadas por Lorenzo e David estão longe de serem incomuns entre os jovens. A vida acelerada, o bombardeio de imagens de sucesso esperado em uma cidade grande, a pressão estética presente em plataformas como Instagram e TikTok, criam um ciclo difícil de romper. Os jovens cariocas vivem uma dualidade: sentem a necessidade de estar presentes online, já que boa parte da dinâmica social se passa por essas plataformas, mas sofrem pelo desgaste emocional ocasionado por essa mesma exposição.


Lorenzo é apenas um de muitos que tentam encontrar equilíbrio nesse cenário. Sua história mostra que, mesmo estando consciente dos impactos do vício nas redes, romper o ciclo não é fácil. O vício em dopamina rápida, a comparação social e busca por validação se tornaram rotina da geração mais jovem. E enquanto alguns tentam se desvencilhar dessa dinâmica atual, um questionamento surge: Como viver offline em um mundo que estar online é o novo normal?


Offline num mercado conectado. Dá para trabalhar sem redes sociais?


Outra área da sociedade drasticamente afetada pela nova dinâmica imposta pelas mídias sociais foi o mercado de trabalho. Nunca o trabalho foi tão dependente da tecnologia, e ser um expoente em qualquer ramo sem ter um perfil no Instagram, Facebook, ou TikTok pode ser um desafio grande. Luís Gontijo, jornalista e editor do Globo Esporte é uma rara exceção de profissionais do meio de comunicação que não possuem contas ativas nessas plataformas. Segundo ele, sempre teve problemas em lidar de forma saudável com as redes, e no início de sua carreira utilizava o Twitter para gerenciar as contas de clubes como Vasco e Botafogo, no seu tempo de assessor.


No início de sua carreira, sempre soube que seria um desafio lidar de forma saudável com as redes, especialmente na sua época de assessor. "Quando era assessor de times de futebol, utilizava muito o Twitter, que para mim é a plataforma mais tóxica. Quando mudei de área de atuação, não me via mais preso a esse tipo de plataforma", comenta. Para Gontijo, a parte mais desafiadora de ser um comunicador sem redes é a apuração, pois não utiliza os meios convencionais. O jornalista afirma que recorre a e-mails, busca telefone de contato na biografia da página do Instagram e Facebook, e até formas mais inusitadas de contato. "Quando tudo dá errado, eu pego a conta do Instagram dos meus amigos e mando uma DM para a pessoa que quero contactar", disse rindo.


Ao ser perguntado se ele se vê em desvantagem em relação aos companheiros de trabalho, ele releva, dizendo que tem de fazer 10 vezes mais esforço que os outros, porém garante que é um sacrifício que vale a pena. Luís diz nunca ter sofrido nenhum tipo de preconceito no ambiente de trabalho, mas que é comum ser recebido com reações de surpresa ao mencionar seu estilo de vida offline.


"O meu chefe não se importa com os meios com os quais eu trabalho, e sim com resultados. Então para ele, tanto faz se tenho redes ou não, contanto que eu tenha resultados positivos", argumenta.

O editor da Globo chama atenção para o Twitter, que para ele é a rede social mais tóxica, onde via mais discurso de ódio e fake-news. Para ele, o fato das redes sociais terem crescido tão rapidamente e adotadas como meios oficiais de comunicação, impediu que houvesse uma regulamentação séria do que é permitido ou não dentro das plataformas desde sua criação. Na visão dele, essa regulamentação não é benéfica para os criadores das plataformas, que já estão enfrentando problemas em relação à coleta de dados dos usuários. Ele percebeu em seu tempo de usuário do Twitter e Instagram, que o algoritmo preza pelo conteúdo que engaja mais, criando bolhas sociais. “Quem pensa de tal forma  sempre vai receber conteúdos que reforcem suas ideologias”, comentou. 


Luís Gontijo deixa claro que ser um jornalista offline não é fácil, mas possível. Para ele, a presença no Linkedin é de suma importância, e pouco valorizada no país. Assim, ele aconselha estar presente em eventos de networking o máximo possível, estagiar assim que começar a universidade e ganhar experiência que se traduza em um currículo cheio e um Linkedin ativo, para futuros jornalistas que desejam ter o mesmo estilo de vida que ele.


A história de Gontijo mostra que há sim uma luz no fim do túnel para aqueles que se sentem melhor offline, mesmo em uma sociedade tão conectada. Porém, isso não é regra. Muitos jovens encontram-se esgotados pelo uso excessivo das redes, e sair delas parece não ser tão fácil, especialmente na idade em que as interações com amigos se dão, na maior parte das vezes, online. E é justamente quando a pressão por estar online se mistura com validação social e autoestima, que vale a pena se perguntar o que toda essa exposição é capaz de fazer com um cérebro ainda em formação.



Como a psicologia vê as redes sociais


Uma área da sociedade que pode explicar de maneira científica os efeitos das redes no cérebro jovem é a psicologia, que tem acompanhado de perto as mudanças de comportamento da população jovem em razão do uso excessivo dessas plataformas. Segundo a psiquiatra Sandra Pereira, os sintomas mais comuns do uso excessivo das redes são a irritabilidade, a insônia e perda de apetite. "Tem jovem que chega a ter até coceira", diz. Porém, para ela, o sintoma que mais causa preocupação é o isolamento, onde o jovem se insere no mundo virtual dele para fugir dos problemas da vida real.



"Eu tenho percebido que as pessoas têm se tornado menos comunicativas, e mais introspectivas", complementa.

Um fenômeno que também chama a atenção de Sandra é a comparação constante que as redes proporcionam. Para ela, a constante exposição a fotos que representam os melhores momentos da vida de uma pessoa mascara os problemas pessoais que as pessoas enfrentam. Além disso, pontua que a criação de trends e maneiras de se comportar nas redes podem resultar na perda de identidade e autenticidade do indivíduo.


Pereira compara as redes aos cassinos de Las Vegas. Segundo ela, ferramentas como o botão de atualizar a página, e curtidas tem o mesmo efeito no cérebro que as máquinas presentes nos cassinos mais renomados do mundo. "Essas plataformas foram desenhadas para nos manter querendo mais, sempre buscando uma recompensa", afirma.


Sandra ressalta a importância da educação escolar como forma de solucionar essa problemática, por meio de palestras com os pais, visando apoiá-los durante esse período de mudanças de comportamento dos filhos, e a criação de disciplinas que ensinem aos jovens a ter uma relação mais saudável com as redes sociais. "Dessa forma, as redes deixam de ser um tabu e começam a ser levadas à sério, como algo com potencial de ser muito danoso ao desenvolvimento dos jovens", adiciona.



Efeito Dominó: Redes sociais afetam a saúde como um todo 


As redes sociais podem afetar não só a saúde mental mas sim a saúde física como um todo, pelo menos é isso que indica um estudo realizado em 2024 pela Revista Pscicologia: Reflexão e Crítica. O estudo analisou mais de 1.300 jovens brasileiros, entre 15 e 36 anos, encontrou índices elevados de dependência digital. Segundo a análise, 48,1% dos participantes foram classificados com dependência moderada da internet, uma taxa alta na visão dos pesquisadores. Além disso, o levantamento trouxe luz a uma questão preocupante: como o uso desregulado das mídias sociais afetam a saúde como um todo, como um efeito dominó. Os dados indicam uma relação direta entre o uso excessivo de plataformas como Instagram, TikTok, Twitter e Facebook e sintomas de ansiedade, depressão e estresse. 



Os pesquisadores descrevem um cenário onde o apoio familiar e institucional quase sempre chega tarde demais. Numa sociedade onde a rotina está cada vez mais acelerada, onde o trabalho está cada vez mais dependente da tecnologia, as conexões se passando mais e mais pelos meios virtuais,  os efeitos negativos de toda essa imersão ainda são muito  pouco explorados. Será que um país, como o Brasil, que adotou a hiperconexão, está preparado para apoiar os jovens e ampará-los quando a internet virar sinônimo de sofrimento em massa?


Quando se coloca lado a lado o drama de Lorenzo, a experiência de Gontijo e as percepções do professor David Chen e da psicóloga Sandra Pereira, forma-se um mosaico que revela muito sobre o momento que o Brasil, e especialmente o Rio de Janeiro , atravessa. Não são episódios pontuais, é um fenômeno estrutural. A maioria dos jovens hoje está imersa em um ciclo contínuo de hiperconectividade, alimentado não apenas pelas plataformas, mas também por um governo que pouco regula, pouco orienta e, muitas vezes, estimula o uso irrestrito. Até agora, o poder público celebra os benefícios das redes, como visibilidade profissional, circulação democrática de informação, mas ignora os efeitos colaterais que já se acumulam no cotidiano. E quando decidir agir, talvez o estrago esteja mais profundo.


O avanço das redes sociais foi rápido, avassalador e cheio de oportunidades: transformou carreiras, ampliou espaços de expressão e criou novas formas de socializar. Mas também abriu portas para ansiedade, comparação constante, desinformação e discursos de ódio. São plataformas que chamam seus clientes de “usuários” sem serem tratadas como dependências químicas. Visto isso, vale se questionar: quanto mais a sociedade moderna precisa se desgastar silenciosamente para que as redes sociais sejam encaradas como o fenômeno que são?


1 comentário


Renata Feital
Renata Feital
06 de dez. de 2025

Boa reportagem e boa apuração!

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