top of page

Elas no comando: o avanço das mulheres no jornalismo esportivo

  • Foto do escritor: Alunos UVA
    Alunos UVA
  • 30 de nov. de 2025
  • 8 min de leitura

Atualizado: 1 de dez. de 2025

A cobertura esportiva sempre foi dominada por homens, mas, nas últimas décadas, mulheres vêm ocupando espaços antes inacessíveis: nas redações, nas cabines de transmissão e até nas decisões editoriais. Com sua chegada, o jornalismo esportivo ganha novas vozes, pluralidade de perspectivas e uma cobertura mais diversa, abrindo caminho para narrativas antes invisíveis.


Por: Mariana Rangel e Thamirys Fuly


 Foto: (Globo/João Miguel Júnior/Reprodução)
Foto: (Globo/João Miguel Júnior/Reprodução)


Durante décadas, o jornalismo esportivo mundial foi um território dominado por homens: nas redações, nas cabines de transmissão e até nas pautas que chegavam ao público. Em Março deste ano uma pesquisa do Instituto Reuters para Estudos de Jornalismo, da Universidade de Oxford, aprofundou um pouco mais o assunto sobre a persistente disparidade de gênero na liderança editorial em veículos jornalísticos ao redor do mundo, com pouco avanço de mulheres rumo ao topo das organizações de mídia. 


A pesquisa, que analisou 240 grandes veículos de notícias online e offline em 12 mercados diferentes em cinco continentes, incluindo o Brasil, revela que, embora as mulheres representem, em média, 40% dos jornalistas nesses mercados, apenas 27% dos cargos de chefia editorial são ocupados por elas. A situação no Brasil é particular: a presença feminina na liderança editorial caiu de 22% em 2020 para 21% em 2025, colocando o país na 9ª posição entre os 12 mercados analisados.


O Brasil também apresenta uma das maiores disparidades entre a proporção de mulheres jornalistas e aquelas que alcançam cargos de liderança: uma diferença de 28 pontos percentuais.


Onde só havia voz masculina, agora há pluralidade


No que diz respeito ao jornalismo esportivo, a entrada de mulheres na área nunca foi apenas uma questão de vocação: foi também um enfrentamento. Até os anos 1990, grande parte das redações esportivas sequer aceitava candidatas mulheres, algumas emissoras não contratavam sob o argumento de que “esporte é assunto de homem”. Outros obstáculos eram mais sutis, mas igualmente limitantes: repórteres mulheres costumavam ser escaladas apenas para pautas consideradas “leves”, como matérias de comportamento, deixando análises táticas, transmissões e cobertura de vestiários para os colegas homens.


Renata Mendonça fundou o Dibradoras em 2015
Renata Mendonça fundou o Dibradoras em 2015

Apesar da clara diferença e dos números que gritam a desigualdade, segundo Renata Mendonça, comentarista da TV Globo, nos últimos tempos o jornalismo esportivo tem sido um pouco mais receptivo do que quando começou na área:  “Quando comecei a trabalhar com jornalismo esportivo em 2011, eu era a única mulher em uma redação com 15, 20 pessoas. É muito louco pensar nisso. Naquela época, as mulheres representavam 5 ou no máximo 10% de uma redação de esportes. Hoje, minha impressão é que essa proporção já melhorou.  E também existem mulheres trabalhando em áreas mais diversas, exercendo funções que até pouco tempo atrás eram exclusivamente masculinas: existem mulheres narradoras, comentaristas e cinegrafistas. Antes, era só repórter e produtora ou apresentadora no máximo”, comenta.


Nas Olimpíadas de Paris 2024, a presença de comentaristas mulheres representou cerca de 40% da equipe escalada, um aumento de 80% em relação a Tóquio 2020 e de 200% comparado ao Rio 2016. Os dados revelam não apenas um aumento na valorização da análise técnica feminina, mas também a abertura gradual das emissoras a perspectivas mais diversas no esporte.

Gráfico comparativo sobre a participação de mulheres na Olimpíadas
Gráfico comparativo sobre a participação de mulheres na Olimpíadas


Mesmo assim, o jogo ainda está longe do empate. A presença feminina nas redações de esportes ainda é minoria e o machismo estrutural segue se manifestando em comentários, decisões editoriais e oportunidades desiguais. Envelhecido por tradições machistas, o jornalismo esportivo vive hoje uma transformação inevitável e conduzida, enfim, por mulheres que não apenas contam as histórias do esporte, mas também reescrevem as regras do jogo.

“Para mudar de fato essa realidade tão desigual, é preciso ter mulheres com a caneta na mão”, a frase da jornalista Renata Mendonça, uma das fundadoras do projeto Dibradoras e referência na cobertura esportiva feita por mulheres no Brasil, sintetiza o que ainda falta no campo e fora dele. Se hoje há mais vozes femininas narrando, comentando e apresentando programas esportivos, o poder de decisão, ainda majoritariamente masculino, segue sendo o último bastião a ser conquistado.


Há pouco mais de uma década, Renata era a única mulher em uma redação esportiva com mais de 15 profissionais. Hoje, o cenário mudou: jornalistas como Laura Luzzi, Karine Alves e Luciana Mariano ocupam papéis antes inimagináveis, de narradoras a comentaristas de grandes competições. Em 2017, por exemplo, Luciana Mariano tornou-se a primeira mulher a narrar um jogo de futebol masculino na TV por assinatura no Brasil, marcando um gol simbólico na história da representatividade feminina no esporte. 


Outro reflexo importante dessa transformação está na cobertura do esporte feminino. No Brasil, os avanços são notáveis: a cobertura do futebol feminino em sites esportivos cresceu 533% entre 2015 e 2019 e outros 43,7% entre 2019 e 2023. A própria Rede Globo ampliou significativamente a presença feminina em suas transmissões — o número de apresentadoras e comentaristas saltou de 3% em 2019 para 35% em 2024.


Uma das vozes que ajudam a iluminar o cenário atual é a de Laura Luzzi, comentarista e apresentadora da CazéTV. Assim como muitas mulheres que chegaram recentemente aos grandes veículos, Laura reconhece que há avanços, mas também que ainda existe um longo caminho a ser percorrido, especialmente quando se fala de diversidade dentro da própria presença feminina.


Laura Luzzi, comentarista e apresentadora da CazeTv há 7 meses
Laura Luzzi, comentarista e apresentadora da CazeTv há 7 meses

Ela reitera que, embora as mulheres tenham conquistado espaço, o progresso não é uniforme: “A gente já percorreu um caminho longo, mas tem um mais longo ainda a ser percorrido pensando nessas outras minorias, por exemplo, mulheres pretas ainda são minoria, mulheres gordas, mulheres fora do padrão de maneira geral”. Laura também faz uma reflexão importante sobre o papel de quem já conseguiu entrar no mercado: “Quando a gente chega numa posição, não basta. A nossa importância está em também trazer outras mulheres com a gente”, declara. 

Laura Luzzi fala sobre a presença feminina no jornalismo

Se dentro das redações o machismo muitas vezes se manifesta de forma velada, no contato direto com o público ele aparece de maneira escancarada. A presença feminina no jornalismo esportivo ainda provoca reações que revelam um incômodo coletivo com a ocupação de um espaço historicamente masculino. A transformação é recente, e a resposta do público, principalmente no ambiente digital, evidencia as marcas dessa cultura.

Laura vive esse embate diariamente e, para ela, a diferença no tipo de crítica recebida por homens e mulheres revela muito sobre como o público enxerga a presença feminina nas mesas de debate. Enquanto analistas homens são criticados por suas opiniões,“lunático”, “ruim”, “não entende nada”, as mulheres raramente recebem esse tipo de ataque técnico. Ao contrário: a tentativa é sempre de deslegitimar sua presença.


Como ela mesma descreve: “Qualquer corte de qualquer mulher falando qualquer coisa… o comentário é sobre louça, sobre pia, sobre casa. Um machismo claro, escancarado e que ninguém tem a menor vergonha de esconder”, diz.


A presença crescente de mulheres no jornalismo esportivo não pode ser dissociada das transformações culturais que ocorreram dentro e fora das redações nos últimos anos. O avanço de debates sobre igualdade de gênero, diversidade e direitos das mulheres se refletiu diretamente no ambiente esportivo, um dos espaços onde o machismo sempre foi mais explícito, institucionalizado e resistente a mudanças. A abertura, no entanto, não aconteceu espontaneamente: foi conquistada à força, resultado de décadas de insistência, trabalho qualificado e mobilização das próprias profissionais.


A internet abriu o microfone e elas falaram


A internet também teve papel fundamental nessa virada: plataformas como Twitter, YouTube e TikTok serviram como alternativa para mulheres que, historicamente excluídas das grandes emissoras, criaram seus próprios espaços de fala. Projetos independentes como o Dibradoras, fundado por Renata Mendonça, Angélica Souza e Roberta Nina, foram pioneiros nesse movimento, provando que existia não apenas público, mas fome por conteúdo esportivo feito por mulheres e com perspectiva feminina. A pressão do público e o sucesso dessas iniciativas forçaram parte da mídia tradicional a rever estruturas e incluir novas vozes.


Mas a abertura não significa ausência de obstáculos. O fenômeno da hipervisibilidade feminina no esporte, por exemplo, produz um paradoxo cruel: quanto mais mulheres ocupam espaços de destaque, maior é o volume de ataques, comentários misóginos e tentativas de silenciamento. A cobrança sobre elas é desproporcional. Enquanto homens são julgados por desempenho, análise ou estilo, as mulheres enfrentam avaliações que passam pelo corpo, pela roupa, pelo tom de voz, pela vida pessoal, quase nunca pelo conteúdo profissional que entregam.


Quando elas dirigem, a pauta muda


Há um impacto concreto quando mulheres comandam redações ou lideram transmissões: pautas antes ignoradas passam a existir; atletas femininas recebem mais visibilidade; e a cobertura ganha nuances que antes eram apagadas. A presença feminina muda prioridades editoriais, amplia perspectivas e rompe com a lógica de um jornalismo esportivo que, durante décadas, falou quase exclusivamente para e sobre homens.


A chegada de novas profissionais mais jovens, mais diversas, mais conectadas  têm acelerado essa virada. Elas não apenas produzem conteúdo, mas reivindicam representatividade, cobram mudanças e constroem redes de apoio. É um movimento que ultrapassa a ideia de ascensão individual e passa a ser entendido como uma transformação coletiva, necessária e inevitável. Como lembra Laura Luzzi, o papel de quem chega é abrir caminho, não fechá-lo. É preciso garantir que a próxima geração encontre menos barreiras do que a anterior.


O jornalismo esportivo brasileiro vive um momento de virada. Não é mais possível imaginar o futuro da cobertura esportiva sem mulheres ocupando o centro da narrativa. Elas não apenas chegaram: elas transformaram o jogo.


Ataques virtuais se tornam rotina para jornalistas esportivas e revelam cultura de hostilidade nas redes


Porém, vencer a batalha não significa que a guerra está vencida: a violência digital é outro obstáculo que atravessa de forma brutal a experiência das mulheres no jornalismo esportivo. Um estudo do Instituto Patrícia Galvão (2023) revela que 72% das jornalistas já sofreram ataques virtuais relacionados ao exercício da profissão, um índice que explode quando se trata das que cobrem esporte e política, áreas historicamente hostis à presença feminina. Os ataques vão desde insultos misóginos até campanhas coordenadas de assédio, que buscam silenciar opiniões e questionar a competência dessas profissionais. Esse ambiente hostil, alimentado pela lógica punitiva das redes sociais, cria uma pressão constante que afeta não só o bem-estar emocional, mas também a permanência das mulheres na carreira. A violência digital, nesse contexto, opera como uma ferramenta de controle e exclusão, reforçando as barreiras já existentes dentro das redações e escancarando o quanto o avanço feminino ainda provoca resistência em setores da sociedade. 


A violência digital contra jornalistas mulheres não é apenas uma consequência colateral da exposição pública: ela é uma estratégia de silenciamento, especialmente potente em áreas dominadas por poder e visibilidade, como o esporte. De acordo com dados do dossiê da Agência Patrícia Galvão, 68% dos ataques a jornalistas em 2021 partiram do ambiente digital. Isso revela que a internet se tornou um terreno de conflito para muitas profissionais, um espaço onde ofensas, assédio e perseguição se misturam numa cultura tóxica que penaliza, sobretudo, a voz feminina.


Além disso, a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) constatou que, naquele mesmo ano, as jornalistas foram as maiores vítimas de agressões online no Brasil. Segundo a Abraji, muitos desses ataques se apoiam em redes de agressores organizados, com estratégias que combinam misoginia, desqualificação profissional e exposição de dados pessoais, configurando um padrão sistemático de violência.

Outra pesquisa relevante, da Gênero e Número em parceria com a Repórteres sem Fronteiras (2022), apontou que 41,9% das comunicadoras já sofreram violência online por conta da profissão, e 45% declararam que esses ataques impactaram diretamente sua vida pessoal. Esse tipo de agressão, que transborda o âmbito virtual para afetar a segurança emocional, a reputação e até a produtividade, mostra como a misoginia digital é uma barreira real para a permanência de mulheres em campos jornalísticos competitivos, como o esportivo.


E não é só no Brasil: a UNESCO também já alertou para esse fenômeno em nível global. Um estudo internacional revelou que 73% das jornalistas afirmaram já ter sido alvo de violência virtual, e 25% relataram ameaças físicas decorrentes de campanhas online. Esses números reforçam a gravidade da situação: a visibilidade traz poder, mas também uma exposição aumentada aos riscos.


Para mulheres no jornalismo esportivo, esse perfil de violência digital pode se tornar ainda mais agudo justamente porque esse campo representa uma ruptura com tradições machistas, não apenas na presença delas, mas no conteúdo e na forma de narrar o esporte. Essas profissionais, muitas vezes, não apenas cobrem jogos: elas escancaram falhas estruturais, desafiam estereótipos e propõem novas narrativas, e isso incomoda. O assédio digital, portanto, funciona também como mecanismo para frear essa transformação.


Se o passado foi marcado pela exclusão e o presente pela resistência, o futuro do jornalismo esportivo dependerá de uma escolha clara das instituições: ou acompanham o ritmo dessa transformação, ou serão vistas como obsoletas diante de um público que exige pluralidade e responsabilidade.


As mulheres já mudaram o jogo e, ao que tudo indica, estão prestes a mudar também as regras dele.


Comentários


LOGO Entrelinhas.png

 

© 2025 Entrelinhas por Laura Gomes. Todos os direitos reservados.

 

Você gostaria de receber as atualizações do Entrelinhas?

Universidade Veiga de Almeida

R. Ibituruna, 108 - Maracanã, Rio de Janeiro - RJ

Av. Gen. Felicíssimo Cardoso, 500 - Bloco A - Barra da Tijuca, Rio de Janeiro - RJ

  • Instagram
bottom of page