Educação em descompasso - o retrato das desigualdades no Rio de Janeiro
- Alunos UVA

- 1 de dez. de 2025
- 11 min de leitura
Atualizado: 2 de dez. de 2025
Dados oficiais do INEP e da SEEDUC/RJ mostram que a distância entre o ensino público e o privado vai muito além das notas — ela revela o quanto o acesso ao conhecimento ainda é um privilégio.
Por Johnny Paiva, Johny Santos e Gabrielle de Oliveira
Contrastes educacionais
Ainda não são 7h da manhã quando os primeiros alunos começam a aparecer na porta da escola.
Alguns chegam sonolentos, outros falando pelos cotovelos para espantar o cansaço.
Ao alcançarem o portão, porém, encontram o aviso fixado: “Aulas suspensas por falta de professor.”
A frase, que deveria causar surpresa, é recebida com a naturalidade de quem já decorou o roteiro.
Alguns estudantes viram as costas e voltam para casa.
Outros ficam por ali, conversando, para matar o tempo.
Os que chegam atrasados suspiram ao ler o recado e dão meia-volta sem questionar.
Na Baixada Fluminense e na Zona Oeste do Rio de Janeiro, cenas assim acontecem com frequência.
E não apenas pela falta de professores: às vezes falta água, outras vezes, falta luz ou até segurança.
O ensino público nessas regiões vive equilibrado entre o improviso e a resistência, enquanto o ensino privado, às vezes a poucos quilômetros dali; funciona em outra realidade, com previsibilidade e estrutura.
A desigualdade educacional no estado do Rio de Janeiro, especialmente entre as regiões da Baixada Fluminense e da Zona Oeste, revela um cenário de contrastes profundos. Enquanto escolas particulares oferecem estrutura moderna, com salas climatizadas, laboratórios bem equipados e professores valorizados, a realidade das escolas públicas é marcada por salas superlotadas, falta de recursos básicos e uma alta rotatividade de docentes. Essas condições impactam diretamente a aprendizagem dos alunos, que enfrentam dificuldades em áreas essenciais como leitura, escrita e raciocínio lógico. São justamente essas habilidades que servem de base para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e, consequentemente, para o acesso ao ensino superior. Em muitos casos, a precariedade do ensino público acaba limitando sonhos e empurrando jovens para empregos informais, enquanto seus colegas da rede privada seguem em direção às universidades e a melhores oportunidades de vida.

Thiago Augusto relembra que estudar na Escola Municipal Almirante Saldanha da Gama, em Campo Grande, significava lidar diariamente com falta de material de estudo. Ele conta: “Às vezes chegava na escola e descobria que sairia mais cedo, era um dos maiores desníveis que eu já vi na vida”. Essas condições tornavam difícil acompanhar o aprendizado, principalmente em matérias mais desafiadoras como matemática, onde a falta de base e de continuidade prejudicava a turma e desmotivava. Apesar desse cenário, a professora Diana, experiente e dedicada, se destacou por ensinar com paciência e atenção, e Thiago lembra: “Ela ensinava o que era fornecido a ela". Ele também ressalta que a precariedade da estrutura física e a ausência de recursos influenciavam diretamente a motivação dos alunos.

Contudo, olhando para trás, ele reconhece que, com investimento adequado, valorização dos professores e atenção individual aos alunos, e o fornecimento correto de educação e aprendizado, poderia ter sido muito mais sólido. Mesmo diante de tantas dificuldades, Thiago não se deixou limitar pelas circunstâncias: “estudar por conta própria”, e conseguiu conquistar uma vaga no CEFET, onde hoje cursa engenharia, mostrando que, apesar do nicho e desvalorização, a determinação e o esforço podem transformar trajetórias

Políticas públicas dentro das escolas

José Brito, pedagogo e coordenador do Colégio Estadual Jardim Marilice, localizado em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, ressalta o grande número de falhas em políticas públicas dentro das escolas, a falta de investimento adequado gera consequências diretas no cotidiano desses estudantes.
Para Brito, o ambiente escolar fala mais alto do que muitos gestores imaginam. “O ambiente faz uma diferença muito grande. O próprio edifício precisa mudar”, afirma. Ele destaca que a falta de escolas nas regiões mais populosas faz com que as salas fiquem lotadas e tumultuadas.
“A gente tem, por exemplo, no Corumbá, apenas uma escola municipal. Precisamos descentralizar e ter mais opções”, aponta.
E completa: “Nova Iguaçu teve várias gestões e construiu, sei lá, três escolas. Tem uma escola municipal que começou obras em 2011 e só foi inaugurada em 2022. Dez anos para construir uma escola? Isso não existe. Não pode existir.”

Para ele, políticas públicas mal planejadas e mal aplicadas fazem com que as verbas, mesmo quando existem, raramente se convertam em melhorias reais para o estudante. “Verbas maiores nunca chegam para o aluno. O estado deveria repensar e consultar. Uma rede de ensino tem necessidade diferente da outra. Uma escola cercada pelo tráfico na Zona Oeste por exemplo vai ter necessidades diferentes de uma escola em Tinguá. Deveria saber mais de cada realidade para gerir a economia.”
A alimentação escolar também acompanha esse cenário crítico:
“A per capita de alimentação é muito ruim. Em 2020 tínhamos que dividir a verba mensal pelo número de alunos: dava 1 kg de arroz, um de feijão, uma banana e um abacaxi para cada aluno. É uma vergonha! Menos de um real por dia para comprar comida. Como você faz um café da manhã e um almoço com um real?”
Diante desse cenário, a gestão escolar vive em modo emergencial: improvisa, redistribui recursos e tenta priorizar demandas urgentes. Com verbas insuficientes, a gestão escolar precisa fazer malabarismo para manter a escola funcionando.
“Infelizmente temos que improvisar e priorizar. Algumas coisas temos que reduzir, às vezes alterar o cardápio… Quando precisa contratar pessoas para um serviço, falta verba. A gente tem computadores, mas não tem internet… fica tudo meio amarrado.”
As falas de Brito apontam que o problema da educação pública na Baixada Fluminense não é pontual, é estrutural. Elas revelam uma rede que opera entre limitações e remendos, onde alunos e professores precisam lidar diariamente com os efeitos de políticas que não acompanham a realidade das comunidades que atendem.
Antes e agora
Brito reconhece que algumas mudanças aconteceram ao longo dos anos, especialmente no acesso:
“Antigamente as pessoas ficavam em filas para conseguir uma vaga na escola pública, hoje em dia esse acesso aumentou. Mas antigamente, tudo era bem precário mesmo”
A percepção de Brito encontra eco na fala de quem viveu na pele essa realidade.
Para Vagner Pacífico, morador de Nova Iguaçu e ex-aluno da rede estadual, a precariedade não se limitava à estrutura física: “A gente crescia acostumado a faltar professor como se fosse normal. Eu não entendia na época, mas hoje percebo o quanto isso impactou minha formação”, afirma.
Vagner lembra que carregou para a vida adulta lacunas que só conseguiu suprir anos depois, por conta própria. “Eu queria tentar um concurso público, mas não conseguia porque o meu ensino foi muito fraco. O que eu aprendia na escola não atendia ao que o concurso pedia”, conta.

Mesmo com relatos como o de Vagner mostrando o peso das defasagens, Brito afirma que mesmo com a modernização das escolas de hoje em dia elas ainda não alcançaram o limite que deveria.
“O estado tenta ajudar com um certo suporte tecnológico, ainda falta né, mas sem comparação o ambiente hoje é mais bem comparado a antigamente. Mas ao mesmo tempo esses prédios são antigos, é como se estivéssemos colocando papéis de parede em uma casa velha. Precisa de mais reformas estruturais. Por exemplo na nossa escola, a gente vai maquiando.”
Público x privado
Brito é claro ao comparar as oportunidades educacionais disponíveis para jovens de diferentes classes sociais.
“Acho que esse capital cultural que o aluno com mais condições tem, o privilégio de ter acesso a tantas coisas, principalmente cultura, acaba colocando-os à frente dos outros. E tudo é melhor para eles, né. A escola é melhor, está num local melhor, nunca falta luz, nunca falta água.”
Na rede pública, porém, a realidade é outra: interrupções são frequentes e afetam diretamente a aprendizagem.
“Nas escolas públicas tem o tempo todo aulas suspensas por falta de água, luz, falta de segurança por operações…”
Esse desequilíbrio se torna ainda mais evidente quando o assunto são exames como ENEM e concursos públicos.
“É injusto, é um sistema perverso. Te obriga a concorrer às mesmas vagas com pessoas de realidades completamente diferentes, te força a se esforçar muito mais de forma descomunal.”
Mas a falta de estrutura e estabilidade não são os únicos fatores que aprofundam a desigualdade. Para Brito, a educação deveria considerar também o acesso à cultura e ao espaço escolar como um ambiente de formação mais amplo, algo que já existiu e se perdeu com o tempo.
“A educação tem que ser pensada de forma mais amplificada, com acesso à cultura. Nem todo mundo tem condições”, defende.
Ele cita o modelo dos CIEPs, implementado durante a gestão Brizola, como exemplo de um projeto que compreendia o estudante para além do currículo básico.
“A educação integral do CIEP tinha um pouco disso. Tinha teatro, música, cinema… Esses ambientes interferem muito.”
É justamente essa lacuna cultural que aparece nos relatos dos alunos. Com apenas 14 anos, Pedro Miguel já viveu os dois mundos: estudou em escola particular na infância e, depois, migrou para a rede pública. A diferença, para ele, é clara.
“É bem diferente. Tem coisa que eu estou estudando agora que eu já tinha aprendido na outra [no particular]”, diz.
E completa:
“Lá na outra eu torcia para não ter aula alguns dias. Nessa, às vezes falta aula.”
As percepções de Pedro reforçam a análise de Brito: vantagens acumuladas; infraestrutura, estabilidade, atividades culturais, ambiente escolar, se somam e determinam trajetórias educacionais completamente diferentes.
Números que falam
Os resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP/MEC), revelam que mais de 60% dos alunos das escolas públicas do estado do Rio de Janeiro obtiveram desempenho abaixo da média nacional em matemática nas últimas avaliações.
Esses dados, disponíveis no portal do INEP (Resultados do SAEB – INEP/MEC), indicam que a defasagem no aprendizado começa ainda no ensino fundamental e se intensifica no ensino médio.
A Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro (SEEDUC/RJ), por meio do relatório SEEDUC em Números, também aponta índices preocupantes: muitas escolas das regiões da Baixada e da Zona Oeste apresentam altas taxas de reprovação e evasão escolar, além de baixo rendimento em disciplinas centrais.

Quando a escola define destinos
O desempenho insatisfatório nas avaliações externas tem consequências diretas. Estudantes da rede pública, mesmo aqueles que concluem o ensino médio, enfrentam dificuldades para competir no Enem com alunos de escolas particulares, que tem acesso a materiais atualizados, aulas de reforço e preparação específica para os vestibulares.
Essa desigualdade reduz significativamente as chances de ingresso em universidades públicas e perpetua um ciclo de exclusão social.
Dados do próprio MEC indicam que apenas 18% dos alunos oriundos da rede pública conseguem ingressar em universidades públicas federais no estado do Rio. O restante se divide entre instituições privadas, muitas vezes por meio de programas de financiamento ou desistem de continuar os estudos.
Embora o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (FUNDEB) seja o principal mecanismo de financiamento da educação pública, a forma como os recursos são distribuídos ainda reforça desigualdades regionais. Municípios com menor arrecadação, como os da Baixada Fluminense, recebem menos recursos per capita, o que impacta diretamente na qualidade do ensino ofertado.
Quando a esperança ensina
Apesar das adversidades, algumas iniciativas em educação de base na Baixada Fluminense já apontam caminhos possíveis. Um exemplo é a Casa Cuidado, um coletivo de mulheres e negócios de alto impacto social situado no bairro Parque Paulista, 3º Distrito de Duque de Caxias, que lançou em 2020 o “Projeto Semente”: Pensamos a educação além do letramento”. Nesse projeto, crianças de 5 a 12 anos participam de oficinas, mediação de leitura, reforço escolar e recreação, enquanto jovens de 14 a 19 anos, oriundos de escolas públicas são integrados em atividades de reflexão social e territorial. A instituição atua articulando educação, arte e cidadania como estratégia para reduzir desigualdades. Essa ação demonstra que, mesmo em contextos de alta vulnerabilidade, é possível transformar a realidade com compromisso comunitário, voluntariado e parcerias locais.

Apesar da desigualdade educacional que atravessa a Baixada e a Zona Oeste, iniciativas como a Casa Cuidado revelam que o futuro não está totalmente à deriva. Em meio às falhas estruturais, surgem projetos que reorganizam o cotidiano, reacendem pertencimentos e mostram que é possível aprender, criar e imaginar outros caminhos. São esforços que não substituem a urgência por políticas públicas consistentes, mas indicam que, quando a comunidade se movimenta, a educação volta a respirar. No contraste entre o abandono e a invenção coletiva, pequenas experiências ganham força e, pouco a pouco, ajudam a iluminar o que ainda pode mudar.
A mais recente ofensiva: evolução de série mesmo com reprovações
No final de novembro de 2025, o governo do Estado do Rio de Janeiro aprovou a chamada “Política Extraordinária Excepcional de Progressão Parcial”, através do decreto assinado pelo governador Cláudio Castro e regulamentado pela SEEDUC. Pela nova regra, estudantes do 1º e 2º anos do ensino médio podem ser promovidos para a série seguinte mesmo reprovados em até seis disciplinas. No 3º ano, o limite é de até três reprovações. A condição para seguir adiante é que o estudante cumpra um plano de recuperação especial, com prazo para quitar as dependências até o fim do primeiro trimestre do ano letivo seguinte.
As autoridades justificam a medida como instrumento de combate à evasão escolar, sob o argumento de que reprovações frequentes e acúmulo de dependências afastam alunos das salas de aula. A SEEDUC afirma que o modelo segue práticas já adotadas em outros estados.
No entanto, a decisão provocou forte reação de professores, sindicatos e representantes da comunidade escolar. O Sepe-RJ critica a medida, afirmando que ela naturaliza o fracasso educativo e desfaz o compromisso com a aprendizagem real dos estudantes.
Diversas entidades, como o FEERJ, enviaram ofícios à SEEDUC pedindo a revogação da norma, apontando os riscos de aprofundamento da desigualdade e a violação do direito à educação de qualidade.

Por que a medida é irresponsável e pode prejudicar os alunos
Avançar de série sem que o estudante tenha assimilado o conteúdo coroado com reprovação representa empurrar para frente um problema sem resolvê-lo. A progressão parcial cria lacunas cognitivas, especialmente em disciplinas essenciais como matemática e linguagem, que tendem a se agravar ao longo do tempo, tornando a recuperação muito mais difícil e menos eficaz do que se o aprendizado tivesse sido consolidado no momento certo.
Além disso, a medida agrava a desigualdade: alunos com condições econômicas melhores, com acesso a reforço, cursinhos, apoiados em estrutura familiar e capital cultural, têm muito mais chances de recuperar as matérias. Já estudantes da rede pública, frequentemente sujeitos a superlotação, falta de professores, infraestrutura precária, ficam ainda mais vulneráveis em um sistema que exige deles recuperação extra em ambiente desafiador.
Outro problema grave é o incentivo perverso à baixa exigência. Com metas de aprovação e bônus para escolas que atinjam índices elevados, existe o risco de transformar aprovação em questão administrativa, não pedagógica. Isso compromete a responsabilidade educativa, reduz a exigência mínima e desvaloriza o diploma escolar, especialmente para quem já parte de desvantagem.
Para que a educação rompa esse ciclo de desigualdades, não basta maquiar os números. O foco precisa ser no fortalecimento real da rede pública: valorização de professores, investimento em estrutura, turmas menores, políticas de recuperação integradas e acompanhamento sério da aprendizagem. Só assim será possível garantir que avançar de série signifique, de fato, progresso e não apenas estatística.
Nesse contexto de desigualdades históricas e abandono estrutural, a progressão parcial aprovada pelo governo aparece mais como um retrocesso, uma forma de maquiar fracassos do que de enfrentá-los. Essa medida é irresponsável porque sacrifica o futuro dos alunos na busca por índices, e amplia o abismo entre quem tem e quem não tem acesso à educação digna.




A reportagem ficou boa meninos! Parabéns!
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