top of page

DE PROMESSAS A PROFISSIONAIS: OS RISCOS DA ADULTIZAÇÃO PRECOCE NO FUTEBOL BRASILEIRO

  • Foto do escritor: Alunos UVA
    Alunos UVA
  • 28 de nov. de 2025
  • 5 min de leitura

A pressão por resultados transforma adolescentes em profissionais antes da hora, afetando saúde, educação e futuro esportivo. Por Guilherme Freitas e Bruna Leão



Ângelo, de 15 anos, supera Pelé e se torna segundo mais novo a estrear pelo Santos.

Às 6h15 da manhã, enquanto o sol mal toca o asfalto do subúrbio carioca, Rayan Lucas, 20 anos, corre para não perder o ônibus que o leva ao centro de treinamento onde treina “como adulto” desde os 14. No trajeto, tenta revisar matéria atrasada do Ensino Médio, que conclui com dificuldade por causa da rotina de treinos. As pálpebras pesam: o treino da noite anterior terminou depois das 20h.

 

Rayan Lucas é ficcional, mas representa fielmente centenas de jovens registrados no Cadastro Nacional de Atletas de Base da CBF. Em muitos clubes, sua rotina se repete: treinos intensos, metas de desempenho, avaliações constantes e pouco espaço para a adolescência que ficou para trás. Em um ambiente onde cada jogo “vale o sonho”, cresce a adultização precoce de jogadores, tema que interessa especialmente a estudantes e professores do Campus Tijuca da UVA.

  

O menino que precisa ser homem antes da hora

 

Rayan entrou no clube aos 12 anos, mas foi aos 14 que tudo mudou. Um vídeo dele driblando três adversários viralizou no Instagram, 30 mil visualizações em dois dias. O treinador o chamou para a sala, elogiou e avisou:

Agora você é observado. Precisa treinar como profissional.”

 

Era um elogio. Mas também uma sentença.

 

A engrenagem do sistema

 

O cenário da formação de jogadores no Brasil

CBF impõe regras para formação, mas cerca de 7,2% dos clubes cumprem requisitos

Infográfico de exigências da CBF para o programa de formação.


Com a ampliação das categorias de base e o crescimento da exposição digital, milhares de adolescentes passam pelo mesmo processo acelerado. Dados da CBF (https://www.cbf.com.br) e do Ministério do Esporte (https://www.gov.br/esportes) mostram o avanço do número de inscritos entre 14 e 17 anos, embora apenas menos de 1% alcance o profissional.


Endrick, de 18 anos, se lesiona e fica de fora da primeira convocação de Ancelloti.

O fisioterapeuta Fabiano Santos, com passagem por Flamengo e Olaria, alerta:

 

“A profissionalização precoce acelera muito a vida desses jovens. Eles desenvolvem crises psicossomáticas, lesões musculares e até a ‘dor do crescimento’ por causa da alta demanda esportiva.”

Quando o clube aumentou a carga de treinos de Rayan, ele começou a sentir dores no joelho. A fisioterapia identificou sobrecarga, mas o estadual estava próximo e ele voltou antes do tempo ideal.

A lei não acompanha a vida real

 

A trajetória de Rayan e de tantos outros, esbarra em normas que nem sempre funcionam na prática. O Estatuto da Criança e do Adolescente proíbe que menores de 16 anos tenham rotina profissionalizada. Mas, como explica o advogado desportivo Roberto Carvalho:

 

“Legalmente, um clube não pode tratar um jovem de 15 ou 16 anos como profissional. Na prática, muitos ultrapassam esses limites, ainda que isso seja ilegal.”

 

Aos 15, Rayan assinou com os pais um contrato de formação que ninguém explicou em detalhes. Carvalho reforça:

 

“O maior risco é o atleta e a família assinarem acordos que não entendem. Faltam garantias sobre educação, assistência psicológica, moradia. A fiscalização é frágil.”

 

À medida que vídeos seus viralizavam, empresários começaram a abordá-lo no portão do CT. Prometiam Europa, chuteiras, “visibilidade”. Glamour por fora, vínculos abusivos por dentro.

 

O corpo grita  e a mente tenta acompanhar

 

O joelho não era o único problema. As noites em claro antes dos jogos começaram aos 15. Não chamava de ansiedade; dizia que eram “borboletas”. Mas a sensação não passava. 

A pressão vinha de todos os lados: 

— do clube, que cobrava evolução física acelerada;

— das redes sociais, que julgavam cada falha;

— dele mesmo, com medo de “ser esquecido”.

 

Fabiano Santos reforça:

 

“A pressão aparece como ansiedade, nervosismo, perda de foco. Clubes com estrutura têm psicólogos, mas isso ainda não é regra.”

 

Em um treino decisivo, uma fisgada o tirou da semifinal. Rayan chorou no vestiário, não pela dor, mas pelo medo.

 

 Paralelo real: Rayan e Charles mostram que o peso não é apenas individual

 

Charles Renan, atleta do América de Pedrinhas.

As histórias de Charles Renan (América de Pedrinhas) e Rayan Lucas, atleta do Sporting, aqui citados como referências reais, ajudam a contextualizar o que o personagem Rayan vive.

 

O Rayan do Sporting, hoje profissional, descreve a pressão:

 

“Tudo é visto, então é sempre bom estar pronto.”

 

E admite:

 

“Às vezes cada jogo parecia uma chance ou o fim do sonho.”

 

Charles reforça:

 

“O imediatismo é o que mais muda. Tudo fica em prol do desempenho: alimentação, academia, rotina.”

 

E completa:

 

“O psicológico pesa muito. A cobrança é enraizada.”

 

Relatos que poderiam ser, palavra por palavra, do jovem Rayan ficcional.

 

O ponto de virada: quando Rayan quase desistiu

 

Aos 16, em um jogo televisionado, Rayan foi titular. Família, amigos, professores, todos assistindo. Aos 12 minutos, perdeu uma bola no meio. O time sofreu gol na sequência.

 

No intervalo, ouviu do auxiliar:

 

“Se não estiver pronto, não tem por que estar aqui.”

 

Não voltou para o segundo tempo.

 

Naquela semana, faltou à escola, apagou vídeos antigos e disse à mãe:

 

“Talvez eu jogue só por diversão.”

 

O sonho estava por um fio.

 

Dados que ajudam a entender a dimensão

 

  Dificuldades encontradas quando ingressaram nas categorias de base

 

Os caminhos possíveis: onde a história pode mudar

 

A virada começa quando o clube,  pressionado por normas internas e uma nova comissão técnica, adota acompanhamento psicológico obrigatório.

 

Rayan conhece Ana, psicóloga do clube, que o ajuda a entender:

 

— que erro não define atleta;

— que lesão não significa fracasso;

— que descanso faz parte do treino.

 

Paralelamente, a supervisão pedagógica passa a exigir frequência escolar. Rayan retoma os estudos. Vê que, se o futebol falhar, ainda haverá futuro.

 

Medidas essenciais segundo Roberto Carvalho:

Fiscalização de contratos

Padronização nacional

Limitação da atuação de empresários

Canais de denúncia

 

Medidas essenciais segundo Fabiano Santos:


Equipes multidisciplinares

Avaliação de maturidade biológica

Treinos ajustados à idade


  Treino da categoria de base do Palmeiras.


Rayan ainda não virou profissional. Mas retomou os estudos, reduziu dores, recuperou o prazer de jogar e, principalmente, voltou a se sentir jovem. Sua história mostra que o problema da adultização precoce não está apenas nos clubes — mas em um sistema inteiro que exige pressa de quem deveria ter tempo.

Também mostra que mudar é possível.

Se o Brasil quer revelar talentos, precisa primeiro aprender a cuidar deles. Porque nenhum sonho precisa virar peso, e nenhum menino precisa virar profissional antes da hora.








Comentários


LOGO Entrelinhas.png

 

© 2025 Entrelinhas por Laura Gomes. Todos os direitos reservados.

 

Você gostaria de receber as atualizações do Entrelinhas?

Universidade Veiga de Almeida

R. Ibituruna, 108 - Maracanã, Rio de Janeiro - RJ

Av. Gen. Felicíssimo Cardoso, 500 - Bloco A - Barra da Tijuca, Rio de Janeiro - RJ

  • Instagram
bottom of page