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CULTURA INVISÍVEL: como a Baixada Fluminense resiste ao apagamento artístico.

  • Foto do escritor: Alunos UVA
    Alunos UVA
  • 25 de nov. de 2025
  • 7 min de leitura

Por: Gabriela Mattos e Maria Eduarda de Souza.


A cultura que vive, mas não aparece.


Seletiva para o Estadual de MC's / Imagem: Caio Fábio.
Seletiva para o Estadual de MC's / Imagem: Caio Fábio.

A Baixada Fluminense pulsa. Entre becos, calçadões, praças improvisadas, estúdios caseiros e batalhas de poesia, existe um território cultural vibrante, diverso e resistente. Ainda assim, quando a região aparece no noticiário, o foco costuma ser outro: violência, abandono, carência estrutural. A potência criativa raramente é mencionada.

Ao longo desta matéria, ouvimos produtores culturais, DJs, MCs, cineastas e integrantes de coletivos independentes que, mesmo sem apoio do Estado, constroem arte diariamente. Suas falas revelam um padrão: a invisibilidade não se dá pela falta de talento, mas pela ausência de incentivo, estrutura e oportunidade. Mesmo assim, a cultura insiste.

E é nisso que a Baixada é especialista em resistir.

O esforço dobrado para existir na cena cultural.

Conversando com CL, DJ e produtor musical, ouvi a frase que passou a definir boa parte desta reportagem:

“Eu moro longe de qualquer centro cultural onde eu gostaria de me apresentar. Aqui, tudo exige o dobro de esforço.”

CL explica que, da Baixada para o Centro do Rio, os desafios começam antes mesmo do palco: horas de ônibus, deslocamento caro, insegurança ao voltar de madrugada, falta de reconhecimento e uma eterna sensação de estar “correndo atrás”.

Ele relata que, enquanto tenta manter sua presença ativa nas redes, sente que artistas da capital possuem mais portas abertas simplesmente por estarem onde a cena acontece. “Não é que eles não trabalham. É que eles já estão perto do palco”, diz.

A fala dele ecoa nas experiências de vários artistas que ouvimos. Para a DJ e produtora SUAVE PRETA, da mesma forma, o deslocamento pesa no bolso e no emocional. Muitas vezes, metade do cachê vai apenas para chegar ao evento e voltar viva e com segurança.

“É desgastante. Às vezes você volta pra casa quase sem nada. A realidade é essa.”

Quando pergunto qual é o maior obstáculo de ser uma artista da Baixada, ela responde sem hesitar: “Mobilidade. Sempre.”


DJ e Produtor Musical CL FEZ O BEAT / Imagem: Reprodução.
DJ e Produtor Musical CL FEZ O BEAT / Imagem: Reprodução.

Coletivos que seguram a cena na marra.

Se o poder público não chega, a arte chega. Essa é uma verdade na Baixada.

Um exemplo disso é Gabriel Rangel, organizador da Batalha da Costa, que acontece toda sexta no calçadão de Itaguaí. Sem patrocínio, sem glamour, sem estrutura profissional mas com público. Ele explica que a batalha, feita em espaço público, atrai quem passa e cria pertencimento:

“Crescemos ouvindo música periférica. Quando vimos a possibilidade de nos reconhecer na arte, precisamos criar algo nosso.”

Outro nome que carrega a batalha nas costas é Analu, figura central no movimento mais importante da região. O coletivo começou, segundo ela, “com zero real no bolso e um monte de vontade”. Hoje, ela organiza tudo: divulgação, estrutura, mediação e contato com artistas.

“É tudo muito na marra. Falta estrutura, falta olhar, falta incentivo. Mas sempre acontece algo que me lembra que estou no caminho certo.”

Ela conta que já chegou a voltar de eventos chorando de cansaço, mas que uma rima transformadora ou uma criança feliz lhe devolvem o fôlego.


Batalha da Costa / Imagem: Reprodução
Batalha da Costa / Imagem: Reprodução

Entre esses agentes culturais que impulsionam a cena está também Cecília Farias, publicitária, produtora cultural e produtora audiovisual de Itaguaí. Cecília integra o setor de cinema da Baixada e enxerga no território um potencial que muitos ainda ignoram.

“Eu vejo a Baixada Fluminense dentro do setor cinema mesmo, que é onde eu mais me integro agora. Tem saído coisas muito boas daqui”

Segundo ela, os artistas da região estão cada vez mais comprometidos em construir sua própria trajetória, sem depender de grandes produtoras ou validação externa, movidos principalmente pela falta de oportunidades.


 Produtora Cultural e Audiovisual Cecília Farias  / Imagem: Reprodução.
Produtora Cultural e Audiovisual Cecília Farias / Imagem: Reprodução.

Cecília é idealizadora do FIAI - Festival de Incentivo Audiovisual Itaguaiense, projeto que busca democratizar o acesso ao cinema e às produções audiovisuais na Baixada. O festival aproxima jovens criadores do audiovisual, amplia referências e valoriza histórias contadas por quem vive a realidade local.

O FIAI pretende não apenas exibir talentos, mas expandir historicamente o território através da arte, ressaltando memórias e vivências da região seja em obras ficcionais ou documentais. A proposta é clara: ser visto através da arte e fazer a Baixada se enxergar também.

A cena coletiva se repete em diferentes cantos da Baixada: o Espaço BIC, o coletivo BXD in Cena, o SDCRIA, o movimento BROTA, as rodas da VO. São artistas que se movimentam sozinhos, criando pontes e mantendo vivo o que deveria ser fortalecido pelo Estado.


A Baixada como escola: território que forma artistas.

Se há uma unanimidade entre os entrevistados, é essa: a Baixada forma.

OJOVEM, DJ e MC que chegou à região em 2017, conta que só encontrou sua identidade artística quando pisou na Baixada. Antes, na Zona Oeste, quase não se via iniciativas que estimulam a juventude. Aqui, tudo mudou:

“Tudo que eu sou no rap, eu aprendi aqui. A Baixada me formou.”

Para ele, o território é mais que cenário;  é escola, impulso e espelho. Ele descreve a vivência intensa: grafites pelas ruas, batalhas acontecendo em praças, DJs montando som em qualquer canto, crianças rimando ao lado de veteranos. “Se eu tivesse ficado onde estava, talvez até virasse MC. Mas não seria a mesma coisa”, enfatiza.

A rapper Akascagrossa, de São João de Meriti, se reconhece nessa narrativa. Aos 21 anos, diz que sentia falta de representatividade, até que começou a encontrar meninas rimando e percebeu que podia existir artisticamente.

“A juventude… essa movimentação artística… eu acho tão lindo.”

Ela cita ainda a força de coletivos como o movimento BROTA e a Leigo Records, que, segundo ela, entregam tudo. “Há uma conexão além da Baixada, mas dentro dela também falta muita coisa”, comenta.

Robert Soares, conhecido como BETIN, reforça o sentimento:


Cantor e Compositor BETIN / Imagem: Reprodução.
Cantor e Compositor BETIN / Imagem: Reprodução.



“Todos os ritmos que eu canto e escrevo são periféricos. Meu trabalho dialoga muito com a realidade que eu vivo. E quero que outras pessoas cresçam comigo.”










Invisibilidade, estigmas e a luta para ser levado a sério.

A invisibilidade não é abstrata. Ela é sentida no olhar, no tratamento e na dúvida constante sobre quem merece estar no palco.

DJ SUAVE PRETA conta que, por não se encaixar no padrão estético esperado, teve um tratamento diferente comparado aos demais artistas.

“Nem sempre minha estética é vista como figura de desejo. E isso pesa.”

Ela relata ainda que mulheres da Baixada enfrentam desafios dobrados: ser artista, ser mulher e ser periférica.


DJ, MC e Produtora Musical SUAVE PRETA / Imagem: Reprodução.
DJ, MC e Produtora Musical SUAVE PRETA / Imagem: Reprodução.

Akascagrossa acrescenta:

“O poder público poderia fazer mais. A gente precisa de estrutura básica: água, quadra, segurança. Não é pedir muito.”

Rapper e Mc Akascagrossa / Imagem: Reprodução.
Rapper e Mc Akascagrossa / Imagem: Reprodução.







A falta de representatividade também é apontada por todos. Há pouca conexão entre municípios da própria Baixada; artistas de um local muitas vezes não conhecem os de outro, mesmo vivendo realidades idênticas.









Quando o Estado não chega, a resistência chega.

Uma reclamação comum entre as fontes é a ausência quase total do poder público.

A construção de praças é a ação mais frequente mas não resolve a falta de equipamentos culturais, editais acessíveis ou formação artística.

Akascagrossa destaca que muitos artistas ainda são leigos em relação a editais, simplesmente porque nunca lhes foi apresentado esse caminho. Mesmo assim, estudam, conversam entre si e tentam aprender.

DJ SUAVE PRETA, por exemplo, está começando a tentar participar de alguns editais, apesar das regras complexas e dos valores insuficientes.

“Os editais pagam prestadores de serviços, mas não permitem comprar equipamento. E equipamento é caro demais pra gente.”

Ela lembra que uma controladora de DJ mais básica custa cerca de R$ 1.500 a R$ 2.000, enquanto modelos profissionais chegam a R$ 10 mil ou mais. Para um artista independente da periferia, isso é praticamente impagável.

Outro ponto levantado pelos entrevistados é a falta de segurança. Para voltar de eventos de madrugada, muitas vezes o risco é maior para quem mora longe dos centros urbanos.


Pertencimento: quando a arte cria o abraço que o Estado nega.

Apesar das dificuldades, a cultura da Baixada é marcada por um sentimento poderoso: o pertencimento.

“Ser visto através da arte” aparece repetidamente nas entrevistas.

Analu resume melhor do que qualquer análise externa:


Produtora Cultural e Organizadora da Batalha da Costa Analu / Imagem: Caio Fábio.
Produtora Cultural e Organizadora da Batalha da Costa Analu / Imagem: Caio Fábio.









“A gente faz coisas gigantes com muito pouco. E continua porque esse espaço é necessário emocionalmente.”




DJ e MC OJOVEM / Imagem: Reprodução.
DJ e MC OJOVEM / Imagem: Reprodução.

OJOVEM compartilha o mesmo sentimento. Ele conta que já foi para eventos cansado por ter uma dupla jornada mas que sempre acontece algo que lembra o porquê da caminhada. Essa dimensão emocional vai além da arte. É o que mantém a cena viva. A cultura aparece como afeto, acolhimento, sobrevivência.






Akascagrossa completa:

“É um sentimento de pertencimento muito interessante. Nós nos entendemos nas nossas temáticas e problemáticas.”

É nesse reconhecimento mútuo que existe uma cultura que não apenas te entretém mas cura e sustenta.


O que falta para a Baixada ocupar o lugar que merece?

Se há uma crítica recorrente, ela atinge tanto o poder público quanto as narrativas de fora da região.

Para muitos, a Baixada ainda é vista com lente estreita ligada à violência e marginalização. Isso afasta investidores, produtores, curadores e até o público de fora da região.

Mas os artistas questionam:

Como esperar reconhecimento externo se muitas vezes a própria Baixada não se liga com a Baixada?

Akascagrossa lamenta que exista mais conexão com a capital do que entre os municípios locais.

DJ SUAVE PRETA reforça que falta formação cultural desde cedo.

BETIN defende que artistas devem lembrar suas raízes e puxar os outros com eles.

Todos concordam em algo:

Falta oportunidade. Só isso.


Futuro: entre esperança e estratégia.

Apesar dos desafios, há esperança. Não uma esperança ingênua, mas construída com estratégia.

DJ SUAVE PRETA acredita que o futuro pode mudar se crianças e jovens tiverem acesso a espaços artísticos desde cedo. Para ela, seria transformador:

“Às vezes, a pessoa só precisa de uma oportunidade. Só isso: ser enxergada.”

OJOVEM acredita que a Baixada está criando suas próprias referências internas.

Akascagrossa aposta na força da juventude.

BETIN enxerga uma geração inteira pronta para ser vista.

Gabriel Rangel vê a arte como ferramenta de transformação coletiva.

A verdade é que a Baixada, mesmo invisível, nunca deixou de produzir.

O que falta não é talento.

É investimento.

É estrutura.

É olhar.

É acreditar que ali existe mais do que sobrevivência; existe potência!


A Baixada não pede favor, ela pede reconhecimento!

A cultura da Baixada Fluminense não precisa ser inventada. Ela já existe.

Ela ocupa praças, vielas, quadras, estúdios improvisados e batalhas lotadas.

Ela forma artistas, salva vidas, cria pertencimento e reinventa futuros.

O apagamento artístico é real mas não definitivo.

Se a mídia, o Estado e a sociedade ainda insistem em não ver, a Baixada continua, como sempre fez, se fazendo ver.

E talvez seja essa a maior marca de resistência da cultura periférica: mesmo invisibilizada, ela nunca deixa de aparecer.






2 comentários


ygor monteiro
ygor monteiro
26 de nov. de 2025
Matéria necessária demais! É fundamental furar essa bolha que só associa a Baixada à violência e mostrar a potência cultural absurda que existe ali. A resistência dos coletivos é inspiradora, mas não deveria ser romântica: falta investimento real e descentralização da cultura. Parabéns por darem voz a quem faz a cena acontecer na marra! 👏🔥"

Obs: sou muito fã do Betin!!!!!


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manuelahffkaizer
26 de nov. de 2025

Tema muito necessário, a baixada precisa de mais visibilidade! Vale muito a pena ler.

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