Como um CT de Vôlei na Baixada Transformou a Vida de Mais de 3.000 Jovens
- Alunos UVA

- 1 de dez. de 2025
- 8 min de leitura
Atualizado: 2 de dez. de 2025
Fim da tarde, quando o movimento na Praça do Skate começa a aumentar, uma cena chama atenção: Bola subindo, risadas, crianças, jovens e adultos dividindo o mesmo espaço como se fossem velhos conhecidos. No começo uma pequena estrutura que juntava apenas a vontade de se jogar, hoje um local que já formou diversos atletas e o mais importante, formou jovens para o mundo real.
Escrito por : João Vitor França, Edilson Cavalcante e Raiane de Jesus

Hoje, o projeto atende mais de 400 crianças e jovens, oferecendo treinamento gratuito, acompanhamento psicológico e orientação para o desenvolvimento humano. Porém, sua história não começa com números e sim com a jornada pessoal de um menino de nove anos que descobriu no vôlei um caminho possível em meio às adversidades.
No meio dessa energia toda está Carlos, o cara que decidiu levar o vôlei para a praça e acabou criando muito mais do que apenas um CT de treino. Ele não sabia, porém estava criando um lugar para desestressar de sua rotina cansativa, algo para que muitos pudessem chamar de lar, antes de você saber como foi criado precisa saber quem é o criador de tudo isso.
A criação do CT é inseparável da história de seu fundador, Antônio Carlos, conhecido como Carlão. A relação dele com o voleibol nasceu cedo, durante uma aula de Educação Física, ainda na infância. A identificação foi imediata. “Eu vi o voleibol pela primeira vez e me apaixonei”, relembra.

Morador de Comendador Soares, em Morro Agudo, ele enfrentou obstáculos que vão além do desafio esportivo: a distância, o custo e a desigualdade de acesso ao esporte profissional. Enquanto jovens de áreas centrais tinham clubes estruturados à disposição, Carlão dependia de longas viagens e muita persistência para treinar em equipes como Flamengo e Fluminense onde, mais tarde, dividiria quadra com nomes consagrados, como Bernardinho e Berna.
Aos 19 anos, já reconhecido no vôlei de quadra, percebeu que sua verdadeira identidade estava no vôlei de praia. Entre os 20 e os 33 anos, dedicou-se integralmente à modalidade. Ao encerrar a carreira como atleta ele ingressou no curso de Educação Física, e assim uma nova ideia ganhou forma: criar um espaço na Baixada que oferecesse aos jovens o que ele não teve oportunidade e acesso.
Assim, em 2002, nasceu o CT Carlão Silva Vôlei de Praia.

“O CT se tornou uma coerção contra um sistema social hiper-injusto" afirma. “Em 23 anos, mais de 3.000 crianças e jovens passaram por aqui. Hoje atendemos mais de 400. Nossa missão é transformar vidas através do esporte.”
“Nós treinamos a mente. Trabalhamos para que o jovem entenda que o esporte é disciplina e desenvolvimento humano. Que ele se torne um cidadão de bem e que possa, de fato, sair da marginalidade.” - reafirmou a psicóloga Valéria que trabalha no projeto
O impacto ultrapassa os limites da quadra. Além de revelações esportivas que chegaram à Seleção Brasileira e à Superliga, o CT viu muitos ex-alunos seguirem caminhos acadêmicos e profissionais diversos, tornando-se professores, médicos, engenheiros, delegados e artistas. Para Carlão, isso representa a verdadeira vitória.
“Ele me deu a oportunidade e eu agarrei de corpo e alma”, conta. “O CT Carlão Silva é uma casa, uma família.” - afirmou Luiz estagiário do projeto
A importância da mente

No CT, a performance esportiva não depende apenas da técnica. A formação integral dos jovens passa por outro pilar fundamental: o trabalho psicológico, conduzido pela psicóloga Valéria Monteiro. É ela quem desenvolve o que chama de “músculo invisível”.
“A psicologia é um músculo que precisa ser treinado. O atleta tem 80% de mente e 20% de técnica”, explica.
Em modalidades como o vôlei de praia, onde fatores externos como areia, sol e vento são imprevisíveis, o controle emocional se torna essencial. A instabilidade natural do ambiente exige atenção, foco e capacidade de adaptação.
“Na areia, a gente não tem controle de nada além do comportamento. E é por isso que trabalhamos aqui.”
A Psicologia do Esporte, nesse contexto, é mais do que suporte. É uma ferramenta de sobrevivência emocional e social. Muitos dos jovens atendidos pelo CT enfrentam desafios fora da quadra que exigem resiliência e estrutura mental. Valéria reforça que sua função não é apenas formar atletas, mas cidadãos capazes de tomar decisões conscientes e construir perspectivas de futuro.
“Nós treinamos a mente. Trabalhamos para que o jovem entenda que o esporte é disciplina e desenvolvimento humano. Que ele se torne um cidadão de bem e que possa, de fato, sair da marginalidade.”
O resultado é visível. A cada ciclo, novos atletas apresentam avanços não apenas no desempenho esportivo, mas no comportamento, na autoimagem e na confiança.
Oportunidade de Ouro
Entre os jovens que encontraram no CT um espaço de aprendizado e reconstrução está Luis, atual estagiário e membro da nova geração de profissionais formados dentro do próprio projeto.

Luis iniciou sua trajetória esportiva no futebol e chegou a se aproximar de uma carreira profissional. Porém, uma lesão grave interrompeu seus planos. O que poderia ter sido um ponto final tornou-se ponto de partida: ao buscar estágio na área de Educação Física, conheceu Carlão e foi acolhido no projeto.
“Ele me deu a oportunidade e eu agarrei de corpo e alma”, conta. “O CT Carlão Silva é uma casa, uma família.”
Hoje, ele atua como educador em formação, auxiliando nos treinos e aprendendo com a experiência cotidiana.
“Eu venho aqui para ensinar o que sei e aprender muito mais. Meu sonho é, junto com o Carlão, transformar vidas. Que esses jovens tenham um futuro brilhante.”
A presença de Luís representa o que o CT vem construindo ao longo dos anos: um ciclo de continuidade, no qual antigos alunos se tornam líderes, multiplicadores e agentes sociais dentro da própria comunidade.
O impacto do CT Carlão Silva não se limita à prática esportiva. Ele se reflete na autoestima da comunidade, no comportamento dos jovens, na formação de identidade e até na retomada de sonhos que antes pareciam distantes.
A combinação entre treinamento físico, acompanhamento psicológico, disciplina e convivência cria um ambiente seguro e organizado, no qual cada aluno encontra espaço para crescer. Por isso, o projeto se tornou referência na Baixada Fluminense como uma das iniciativas sociais mais sólidas, consistentes e transformadoras da região.
A meta atual é expandir, Carlão e Luís confirmam o desejo de abrir novos núcleos e ampliar o atendimento, fortalecendo ainda mais o alcance do projeto. A missão é oferecer às crianças e jovens oportunidades que ultrapassem as barreiras sociais impostas pelo território onde vivem.
O olhar do aluno
O CT Carlão Silva não é só um centro de treinamento é um lugar que pulsa vida. Um espaço onde gente comum encontra acolhimento, rotina, propósito e, muitas vezes, a primeira chance de acreditar em si mesma. Ali, no meio das bolas, das quadras e do barulho das risadas, surgem histórias que não cabem no placar nem nos relatórios técnicos. Histórias de pertencimento, reconstrução e descobertas.
É no olhar dos alunos que o CT revela o seu verdadeiro valor. Cada um chega com uma bagagem diferente, mas todos encontram algo parecido: alguém que acredita neles antes mesmo que eles aprendam a acreditar em si próprios.
Agatha, A Casa que Acolhe
Agatha fala do CT como quem fala de um lar. E não é exagero. Ela encontrou ali um espaço onde se sente segura, livre pra ser ela mesma.
Para ela, o CT virou aquele ponto fixo na semana quase um porto emocional.
“O CT representa uma segunda casa. Foi aqui que fiz amizades importantes e onde me sinto realmente confortável”, conta.
E não é só conforto: é desejo de permanência. “Se eu pudesse, passaria o dia inteiro aqui. Eu amo esse lugar.”
Agatha é o tipo de aluna que chega, cumprimenta todo mundo, ri alto e sempre fica um pouco depois do treino. Ela faz do CT um território afetivo, e o CT devolve isso a ela em dobro.
Maria Eduarda, Família Além do Esporte
Maria Eduarda já chegou com amor pelo esporte, mas descobriu algo bem maior: pertencimento.
No CT, ela construiu vínculos tão fortes que ultrapassam o treino e criam conexões quase familiares.
“O CT é como uma segunda casa. Já estou tão próxima das pessoas que considero todos como família”, diz, com aquele brilho no olhar de quem realmente encontrou seu grupo.
E quando ela fala que ali foi o primeiro lugar onde realmente praticou esporte, não é só sobre atividade física é sobre porta aberta, incentivo, mão estendida.
“Aqui foi o primeiro lugar onde realmente pratiquei. Foi muito especial pra mim.”
Maria Eduarda carrega uma gratidão suave, porém profunda o tipo que transforma rotina em memória boa.
Lorena, O Lugar que Forma Pessoas
Lorena tem uma relação quase espiritual com o CT. Pra ela, o espaço não formou apenas uma atleta, mas uma pessoa.
“Representa muito pra mim, porque foi aqui que tudo começou”, afirma, deixando claro que existe um antes e depois do CT em sua vida.
Ela fala sobre identificação, amizade e paz — palavras que não aparecem em regulamento nenhum, mas que constroem ambientes de verdade.
“Aqui eu me identifico, faço amigos. Isso significa amor e paz.”
E é impossível não sentir o peso da frase:
“Este lugar me ensinou quem eu posso ser. Está me ensinando sobre o futuro e me ensina cada vez mais.”
Lorena encontrou no CT não só um esporte, mas um horizonte.
Luís, De Estudante a Educador
A história do Luís é daquelas que fazem a gente respirar mais fundo.
Ele começou como aluno, sonhando com uma carreira no futebol, sonho que foi interrompido por uma lesão. Muitos teriam desistido. Ele não.
O CT virou o espaço onde ele pôde se reinventar e reconstruir seus planos.
Hoje, como estagiário, ele carrega o mesmo brilho que um atleta leva pra dentro do campo, mas agora voltado para o outro.
“Eu agarrei essa oportunidade de corpo e alma”, afirma.
E completa com a frase que define sua nova missão:
“O CT é uma casa, uma família. Meu maior sonho é transformar vidas ao lado do Carlão.”
No fim das contas, o CT Carlão Silva é isso: um espaço onde cada aluno encontra uma versão melhor de si.
Esporte como política pública
Quando a gente fala de política pública no Brasil, principalmente nas periferias, existe uma realidade que ninguém gosta de admitir: muita coisa só funciona porque a comunidade faz o trabalho que o Estado deveria fazer. O CT Carlão Silva é um desses casos gritantes daqueles que escancaram a força do esporte e, ao mesmo tempo, a ausência de investimento público onde ele realmente faz diferença.
Enquanto governantes enchem discursos com palavras como “inclusão”, “juventude” e “projeto social”, espaços como o CT operam no modo sobrevivência. Não por falta de impacto esse, aliás, sobra mas por falta de olhos atentos e recursos mínimos.
É duro reconhecer, mas necessário: o que acontece ali dentro já deveria ser política pública estruturada, financiada e acompanhada. Não improviso. Não “boa vontade”. Não há resistência.
O que se vê hoje é um CT que faz o papel de Estado: protege jovens do abandono, cria redes de apoio, reduz vulnerabilidades e oferece perspectiva de futuro. Só que tudo isso é sustentado, principalmente, pela força de pessoas como o Carlão que fazem mais do que deveriam porque o Estado faz menos do que precisa.
E o impacto é nítido, e já foi mostrado por muitas matérias como por exemplo a do O Dia
Cada aluno que encontra apoio ali é um jovem a menos sendo engolido pela violência, pela falta de oportunidade, pela desigualdade escancarada. É um resultado que qualquer gestor público adoraria colocar no relatório… mas que poucos têm coragem de financiar de verdade.
A crítica é simples e direta: por que projetos que funcionam, transformam vidas e movimentam a comunidade seguem invisíveis para quem decide onde o dinheiro público vai parar?
Por que o esporte, que já provou ser ferramenta de educação, segurança e saúde, continua sendo tratado como acessório?
No CT, a política pública acontece na raça. Nas mãos de quem acredita. Nas brechas deixadas pelo poder público.
Entramos em contato com a Secretaria de Esporte e Lazer para recebermos dados sobre esporte e juventude, porém não fomos respondidos.
Enquanto isso continuar assim, a gente vai continuar dependendo de heróis locais quando o certo seria depender de políticas estáveis, contínuas e garantidas, nos resta ajudar projetos como esse e aproveitar enquanto temos pessoas capacitadas e corajosas que colocam para frente o que deveria ser oferecido pelo governo.




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