ADULTIZAÇÃO E EXPOSIÇÃO INFANTIL NA INTERNET

Atualizado: 28 de nov. de 2025
Após o vídeo do Felca, cresce a discussão sobre a perda da infância e os limites da exposição infantil nas redes sociais.
Por Angelo Augusto, Daiane Vieira e Juliane Rosa
O celular vibra. A tela se acende. Na barra de notificações, uma mensagem: “Felca postou um novo vídeo”. O título? “Adultização.” O que parecia ser apenas mais um conteúdo entre milhares de vídeos na internet acabou despertando uma discussão que há muito tempo precisava acontecer.

Felca, atrás das câmeras, na verdade se chama Felipe Bressanim, paranaense de 27 anos, fenômeno da internet e figura pública conhecida por milhões de pessoas. Do outro lado da tela, ele diverte, comenta, viraliza. No dia 6 de agosto, ele apertou “publicar” no YouTube e entregou ao seu público uma reflexão. O simples ato de postar um vídeo desencadeou vários acontecimentos e uma repercussão que nem o próprio imaginava. O que começou apenas como um vídeo, em poucos dias, ultrapassou 51 milhões de visualizações, atravessando telas, timelines e barreiras. De repente, a adultização infantil, algo tão presente, tão evidente, mas tão convenientemente ignorado, ganhou alcance. A sociedade brasileira abriu finalmente os olhos para algo que fingiam não ver.
A denúncia não ecoou apenas entre comentários e curtidas, ecoou também nos corredores do Congresso. Se a infância estava sendo consumida como espetáculo, alguém teria que pagar por isso. Quando o conteúdo do influenciador viralizou, trouxe não apenas indignação, mas também uma pressão legislativa. Levantou, enfim, a pergunta que ninguém queria enfrentar: até onde a exposição infantil é inocente e a partir de quando se torna vexatória, exploratória, pornográfica?
É aqui que entra a análise da psicóloga infantojuvenil, Sayd Zunho. Para ela, o vídeo funcionou como um gatilho social: “A adultização não nasce na internet, ela só encontra nela a vitrine perfeita. A lógica algorítmica premia a sexualização precoce porque esse é o tipo de conteúdo que retém atenção. O problema não é só moral, é estrutural. A tecnologia amplifica comportamentos que já existiam, mas sem nenhum filtro de proteção para quem é criança.”
Segundo Sayd, o Estado brasileiro vinha atrasado nesse debate. “Era uma bomba-relógio que já estava apitando”, resume.
Naquele dia de 27 de agosto, o Senado amanheceu diferente, nasceu-se a “PL da Adultização”. O projeto não promete devolver a infância roubada mas surge como uma forma de penalizar os verdadeiros culpados. Obriga plataformas a criar proteções, exige responsabilidade de pais, transforma a internet de terreno livre em espaço monitorado. No dia 17 de setembro, 21 dias após a aprovação do PL, a Lei 15.211/2025 foi sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o que começou como barulho na internet agora está no Diário Oficial, como se o Estado finalmente percebesse que a infância também precisa ser protegida.
Em algum canto do Rio de Janeiro, longe das assembleias, está Bryan, de apenas 6 anos. Pequeno demais para entender o que é uma lei, jovem demais para compreender os noticiários. Ele ainda não sabe ler direito, ainda confunde o som das sílabas, mas domina o celular com uma precisão que surpreende. Já sabe desbloquear o aparelho, entra no TikTok, escolhe vídeos, pula anúncios, volta nos que mais gosta.

Aprendeu tudo sozinho, observando os adultos, imitando, testando. Para Bryan, o celular é só um brinquedo moderno, uma forma de passar o tempo. Ele não imagina que o debate sobre adultização também é sobre ele. Sobre sua infância, sobre o que ele vê, mesmo sem entender. “Eu gosto de mexer no celular e ver vídeo no TikTok”, conta. Mas entre um vídeo e outro, surgem conteúdos que ele não entende, palavras que não foram feitas para sua idade, imagens que confundem mais do que explicam. “Gosto de aprender as dancinhas, mas minha mãe não gosta”, diz. Algumas coreografias são inofensivas, outras, nem tanto, que não fazem sentido para uma criança de seis anos, mas que ainda assim aparecem na tela, ele não procura, mas aparece. Enquanto o país discute leis, projetos e responsabilidades, o passatempo de Bryan existe em um mundo que nem sempre foi feito para protegê-lo. E, enquanto “brinca no celular”, em São Paulo, uma outra história acontecia.
No dia 15 de agosto, em São Paulo, uma operação policial prendeu o criador de conteúdo Hytalo Santos e seu marido. Eles foram acusados de tráfico de pessoas, exploração sexual e uso de menores em trabalho artístico. A prisão trouxe para o mundo real a fábrica de transformar crianças em produto. No centro dessa história estava Kamylinha, uma jovem de 17 anos. Sua vida nas redes sociais não era de uma adolescente, era de um negócio. Cada momento era planejado para ganhar likes e dinheiro. A denúncia mostrou que não exploravam só a imagem dela, mas também seus sentimentos. A prova mais cruel foi quando transmitiram ao vivo a dor do seu aborto. Um sofrimento se transformou em espetáculo para milhões de pessoas. A operação não apaga o passado, não tira a dor de ninguém, mas é um começo. O que antes era visto como "só entretenimento" agora está sendo tratado como crime. E, pela primeira vez, quem lucrava com exposições de menores está sendo responsabilizado na vida real.
Linha do tempo dos acontecimentos:

PORNOGRAFIA INFANTIL DISFARÇADA DE ENTRETENIMENTO
Nos famosos vídeos de “biscoito” existe uma camada que se esconde à vista de todos. A psicóloga Bárbara Horta, formada pela Universidade Salgado de Oliveira, especialista em educação e coordenadora de um ambulatório de saúde mental em Casimiro de Abreu, diz que os primeiros sinais aparecem justamente no que a sociedade insiste em normalizar, como falas, brincadeiras sexualizadas, vaidade desproporcional, preocupação com aparência e responsabilidades emocionais que não pertencem a uma criança.

Esses comportamentos revelam uma infância empurrada para um papel que não deveria ocupar. “A criança passa a se enxergar pelo olhar do outro”, explica. “Ela tenta corresponder a padrões irreais, expectativas adultizadas. Isso fragiliza a autoestima e confunde quem ela é.” O fenômeno da adultização infantil vai além das roupas, poses ou comportamentos, está também no modo como o público consome e normaliza esses conteúdos. Cada curtida e compartilhamento reforçam um ciclo em que a infância é transformada em espetáculo, e o entretenimento serve de disfarce para uma sexualização precoce que muitos preferem normalizar. Enquanto muitos vídeos passam despercebidos pela maioria, esse não é o caso de Júlia Beatriz, de 24 anos, hacker, especializada em rastrear redes clandestinas. “Na internet, nada é por acaso”, conta. Ela afirma que muitos desses conteúdos estão atravessando fronteiras invisíveis. Onde vídeos de crianças são editados, não com imagens explícitas (em alguns casos), mas com pequenas alterações de enquadramento, cortes… Milhares de imagens de crianças brasileiras circulavam livremente pela internet, sem autorização, sem proteção, que são armazenadas em grandes bases de dados e usadas para inteligências artificiais. De acordo com o relatório da SaferNet Brasil, entre 1º de janeiro e 31 de julho de 2025, foram registradas 49.336 denúncias de abuso e exploração sexual infantil na internet, o que corresponde a 64% de todas as notificações de crimes cibernéticos naquele período. A SaferNet alerta para o uso crescente de IA generativa na produção de material de abuso infantil, seja pela manipulação de imagens reais ou pela criação de conteúdo.




É nesse ponto que a manipulação se torna ainda mais perigosa. Com o avanço das IAs, a fronteira entre o real e o fabricado se dissolve. “As IAs criam imagens de abuso que não deixam rastro. Não têm metadados, não têm origem. É como denunciar algo que nunca existiu no mundo real”, afirma. Sem provas digitais concretas, o combate se torna quase impossível e a tecnologia avança mais rápido do que qualquer ferramenta de detecção. Mas o problema não se limita às redes clandestinas. Para a hacker, as próprias plataformas alimentam o ciclo ao priorizar engajamento acima de segurança. O cenário que se apresenta escancara mais do que vulnerabilidades, revela uma estrutura que normaliza a exposição e transforma crianças em conteúdo. Em meio à busca por cliques, à ação de redes clandestinas e à lentidão das plataformas, a infância se torna alvo fácil. A adultização infantil, longe de ser um desvio, é o reflexo de uma sociedade que falha em garantir o básico, a segurança, limites e proteção.
REDES SOCIAIS E VULNERABILIDADE DIGITAL:
A infância e a adolescência perderam o sentido, o ‘’brincar’’ dá lugar ao de ‘’postar’’. Nessa nova geração, essa fase de descobertas pertence a uma tela de vidro, o celular. A história da infância de Luna, de sete anos, é bem diferente da de sua mãe Martha. Na época em que Martha cresceu, os brinquedos tinham formas de brinquedos e as redes sociais ainda estavam longe de existir. “Minha filha está naquela fase de levar as amigas para brincar em casa, mas percebo como tudo mudou desde a minha infância. Antes, as brincadeiras eram na rua, com jogos e brinquedos. Hoje, as crianças só querem gravar vídeos e fazer dancinhas do TikTok. Mesmo pequenas, já falam e se comportam como adultos’’, conta. Para tentar preservar a filha, Martha impôs limites. Luna só pode usar o celular entre quatro e cinco horas por dia, divididas ao longo do dia. Ainda assim, a mãe enfrenta conflitos, especialmente porque as amigas da filha têm acesso liberado e acabam influenciando nas suas escolhas. “Quando vejo que ela insiste, eu tiro o celular dela”, explica.

De acordo com a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, 83% das crianças e adolescentes brasileiros possuem perfis em redes sociais. Uma presença parece inofensiva mas essa exposição as torna cada vez mais vulneráveis a padrões de comportamento e estética que não condizem com sua fase de desenvolvimento. A psicóloga Sayd Zunho explica que, nesse período, crianças ainda estão tentando entender quem são. Expostas a conteúdos carregados de filtros, comparações e padrões irreais, podem distorcer percepções sobre corpo, afeto e sexualidade. “As redes sociais criam um padrão de beleza e comportamento super irreal, gerando insegurança, comparação e pressão para ‘ser’ ou ‘parecer’ de um certo jeito.” Os sinais de alerta aparecem em mudanças bruscas de comportamento, isolamento, queda no rendimento escolar, alterações no sono e preocupação exagerada com a aparência.
Os efeitos são reais e Martha viveu na pele ‘’Minha filha passou por uma fase de estresse e o que animava ela, era mexer no celular. Teve vezes que permiti o livre acesso ao celular sem limite de tempo, e com isso em 2 semanas ela já era uma criança totalmente diferente. Respondia todo mundo, fechava a cara e gritava se falasse um "não" pra ela, começou a mentir bastante por coisas bobas e começou a ter pavor da escola, antes de ir ela chorava muito todos os dias e às vezes chegava a passar mal o que parecia sintomas de ansiedade’’. As crises antes de ir para aula levaram Martha a perceber que algo estava errado e os dados confirmam sua experiência. De acordo com o Panorama da Saúde Mental 2024, pesquisa feita pelo Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel, o tempo excessivo diante das telas está diretamente ligado ao aumento dos sintomas de ansiedade, especialmente entre os jovens. O levantamento aponta que quase metade dos casos de ansiedade nessa faixa etária (45%) está associada ao uso exagerado das redes.

Camille Carvalho, mãe de Gael, de cinco anos, enfrenta desafios semelhantes. Gael passa boa parte do tempo assistindo a vídeos no YouTube e no TikTok. “Ele fica ali, vidrado, passando vídeo atrás de vídeo. Tem gente que acha que é só bobeira, mas dependendo dessas trends, principalmente as de dança, muitas vezes vêm acompanhadas de letras de música com teor sexual”, relata. Ela supervisiona sempre, porque, para uma criança, pode parecer apenas um vídeo engraçado, uma coreografia do momento, porém muitas dessas danças enfatizam partes do corpo de uma forma muito adulta. Seu medo é que pessoas mal-intencionadas, assistindo aos mesmos conteúdos, acabam sexualizando crianças e até mesmo seu filho.

Essa percepção não surgiu apenas na realidade de Camille ou de Martha, ela reflete entre muitas outras famílias. No formulário realizado para esta reportagem, 78,1% dos participantes afirmaram já ter encontrado conteúdos nas redes sociais que possuíam sexualização infantil e apenas 21,9% disseram vê-los raramente. A sexualização se esconde em músicas que viralizam, em coreografias que crianças reproduzem sem entender, em ângulos e comentários que passam despercebidos. É uma presença que sobrevive pelo entretenimento, tornando o cuidado digital uma vigilância constante e emocionalmente exaustiva para as famílias.

O diálogo sobre segurança digital na casa de Martha é aberto e sem tabu, ela mostra notícias quando passam no jornal, explica quando Luna não entende, tenta trazer o assunto para perto. Já na casa de Camille, Gael ainda é pequeno demais para compreender esses riscos, por isso, as conversas ainda não acontecem com tanta frequência. A comunicadora Natasha Santos reforça a necessidade de adaptar o diálogo à linguagem das crianças. “Adoção de uma linguagem simples, objetiva e com exemplos práticos é essencial. Focar no técnico afasta. Segurança digital precisa fazer parte da rotina”, afirma. Enquanto isso, nas casas de Martha e Camille, a batalha continua. Ambas representam milhões de pais que buscam proteger seus filhos em um ambiente onde os algoritmos direcionam conteúdos, moldam autoestima e influenciam comportamentos de forma silenciosa. E, nesse cenário, preservar a infância talvez seja o maior desafio da parentalidade no século XXI.

DESIGUALDADE DIGITAL E SEU IMPACTO NA ADULTIZAÇÃO DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES
Desde que o Brasil foi colonizado há desigualdade econômica, uns com mais e outros com menos, e desde que se digitalizou essa desigualdade se modificou e ampliou. No século 21, a exclusão digital e a falta de informação de como lidar com a tecnologia podem ser brutais. De acordo com dados do IBGE, em 2024, 93,6% dos domicílios tinham acesso à internet, logo, 6,4% da população nacional não têm internet em casa.

A Agência Brasil publicou uma pesquisa realizada pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e pelo Instituto de Defesa de Consumidores (IDEC), que aponta que 35% das pessoas com renda de até 1 salário mínimo e 35,6% que recebem entre 1 e 3 salários mínimos ficaram sete dias ou mais sem acesso à internet móvel nos 30 dias anteriores ao estudo. A pesquisa revela não apenas um apagão de conectividade, revela um apagão de compreensão. Um país onde o acesso é escasso dificilmente terá letramento digital. “A vulnerabilidade digital não está apenas na falta de internet ou de um celular melhor. O ponto mais crítico é a ausência de letramento digital, de saber navegar, identificar riscos, reconhecer manipulações, entender privacidade. Muitas crianças de baixa renda entram na internet de forma intuitiva e completamente desprotegida porque seus próprios pais também não sabem orientar. É um despreparo coletivo”, explica o Professor e pesquisador Eduardo Bianchi.
Nesse viés, a dona Neusa Pereira, de 67 anos, moradora de uma favela de São Gonçalo, região metropolitana do Rio, conta que até tem redes sociais criadas pelos filhos, mas mal sabe mexer no celular, só sabe fazer ligação. A dona Neusa é o que especialistas chamam de analfabeto digital, que segundo a Doutora em Ciência da Computação Paula Faragó, são pessoas que, mesmo tendo acesso a algum dispositivo, não compreendem a lógica invisível dos aplicativos, dos cliques, das permissões, dos dados.
Bianchi lembra que os adultos também estão perdidos: “Se até os adultos caem em fake news, imaginem as crianças. A desigualdade digital é tecnológica, cultural e social. Não é só sobre ter celular, é sobre não ter orientação.” Um exemplo é a dona Neusa, para ela, a internet é uma via de mão única: ela recebe. Não escolhe, não controla.

É justamente nesse cenário que cresce o fenômeno da adultização infantil digital, um mecanismo que transforma crianças em produto e empurra conteúdos de maneira silenciosa para milhões de pessoas que, como ela, não têm recursos para compreender o que veem.
Neste cenário, na época da pandemia da Covid-19, Maria Helena, agora com 19 anos, moradora de um bairro periférico de São Gonçalo, região metropolitana do Rio, começou a produzir vídeos de dançinhas no TikTok. O conteúdo era aparentemente inocente, mas atraía olhares problemáticos. A dona Yara Ferreira, de agora 50 anos, mãe da Maria Helena, não tem letramento digital, não possui redes sociais e nunca procurou saber o que a filha consumia ou postava no âmbito digital. É nesse tipo de situação de pobreza e ausência de letramento digital que nasce uma exposição prejudicial à criança e ao adolescente. Após um tempo, a adolescente começou a receber comentários negativos sobre a sua aparência e elogios de cunho sexual de pessoas muito mais velhas do que ela, logo apagou os vídeos postados e não postou mais. Hoje em dia, vive uma vida discreta nas redes sociais, sem fotos, sem vídeos, marcas de um episódio turbulento no mundo digital.
Aprofundando essa perspectiva, a assistente social Edite Hardoim, que atende famílias que raramente aparecem nas estatísticas, mas que estão sempre entre os mais afetados pelas mudanças digitais, conta que a vulnerabilidade sempre muda de roupa, antes era o rádio, depois a TV e agora é o celular. Segundo Edite, muitas das mães que ela acompanha entregam o celular aos filhos para conseguir trabalhar, descansar ou simplesmente respirar, um gesto desesperado, mas compreensível. E sem supervisão, a criança se torna alvo fácil do que ela chama de “correnteza digital". “Elas não sabem que o que a criança vê, a plataforma empurra mais ainda. Quando percebem, já tem menina de 10 anos imitando dancinha erotizada. Já tem menino de 8 tirando foto sem camisa pra ganhar like. É um ciclo que a família não tem força pra quebrar sozinha.”, acrescenta ela. O jornalista reforça essa diferença estrutural: “Famílias com mais estrutura tecnológica conseguem filtrar, conversar e orientar. Já as famílias vulneráveis acabam delegando à internet funções de cuidado, entretenimento e até educação. Só que a internet não é a TV: ela coloca a criança diante do estranho. E muitas vezes os pais nem entendem como esses algoritmos funcionam, enquanto abusadores desenvolvem linguagens próprias para identificar crianças vulneráveis. Não é culpa dos pais, é culpa da desigualdade social.”
É nesse terreno fértil que casos como o de Kamylinha, citado por Felca, ganham corpo e audiência. Não são exceções isoladas: são sintomas.

Para diminuir a viabilização de conteúdos infantis problemáticos e diminuir o consumo de conteúdos sexualizados por crianças, o Governo Federal sancionou a Lei 15.211/2025 que prevê mecanismos confiáveis de verificação de idade, supervisão parental por padrão, entre outros. Dessa forma, serviços voltados a crianças e adolescentes devem oferecer ferramentas de supervisão parental com o nível máximo de proteção configurado por padrão.
Ainda neste cenário, para aumentar a inclusão e alfabetismo digital, o Governo implementou políticas públicas entre elas estão: ProInfo- Programa Nacional de Tecnologia Educacional para promover o uso da tecnologia como ferramenta de enriquecimento pedagógico no ensino público fundamental, médio e básico; Serviço de Atendimento ao Cidadão(Gesac)- direcionado, prioritariamente, para comunidades em estado de vulnerabilidade social, que não têm outro meio de inserção no mundo das tecnologias da informação e comunicação; Computadores para Inclusão- espaço físico adaptado para o recondicionamento de equipamentos eletroeletrônicos e para a realização de cursos e oficinas, voltados para a formação cidadã e profissional de jovens em situação de vulnerabilidade social.
Para Bianchi a solução é a educação digital nas escolas, contínua e estruturada:
“Precisamos de políticas públicas que garantam conectividade segura e mediação tecnológica. Precisamos de regulação eficaz que exija das plataformas mecanismos reais de proteção infantil. E precisamos apoiar famílias vulneráveis, que não têm ferramentas para acompanhar a experiência digital dos filhos. Só assim é possível quebrar esse ciclo” , acrescenta ele.
RESPONSABILIDADE DO ESTADO E REGULAMENTAÇÃO
Na internet, a infância parece sempre um passo atrás da velocidade com que tudo acontece. Vídeos sobem às plataformas em segundos; comentários se multiplicam antes mesmo de a criança entender o impacto do que publicou; e, enquanto isso, as políticas que deveriam protegê-la ainda caminham com a lentidão de documentos carimbados em gabinetes silenciosos. É nesse descompasso que a exposição infantil encontra terreno fértil. A aprovação da Lei 15.211/2025, conhecida como ECA Digital, surge como um suspiro de urgência em meio ao caos. A proposta tenta modernizar a proteção de crianças e adolescentes nos ambientes digitais, exigindo verificação de idade, remoção rápida de conteúdo impróprio e mais transparência sobre algoritmos e mecanismos que, na prática, deveriam impedir que conteúdos com menores circulem sem controle. Mas a sensação é que a lei nasce depois que o estrago já está feito.

Para a advogada Sara Maia, que acompanha de perto a evolução das normas digitais, o texto da lei representa avanço, mas ainda não alcança a realidade frenética das redes. Ela explica que, com a recente reinterpretação do Marco Civil pelo STF, as plataformas passaram a ter um “dever de cuidado”, podendo ser responsabilizadas caso não impeçam que material envolvendo crianças permaneça online. A Lei 15.211 reforça isso ao obrigar mecanismos de segurança mais rígidos. Mas há um ponto que ela sempre retorna: a fiscalização.
Sem monitoramento eficiente, até a melhor lei se torna só um arquivo em PDF. “Temos diversas leis boas, mas que por falta de fiscalização geram insegurança jurídica”, alerta a Advogada, apontando para um problema que se arrasta no Brasil há décadas. A tecnologia evolui na mesma velocidade das trends, já o Estado não. Enquanto isso, cada vídeo publicado é rapidamente analisado por algoritmos que priorizam o que gera retenção, comentários e compartilhamentos. Se uma criança viraliza, não importa o contexto e o sistema entende que aquela performance funciona. E funciona tanto que vira lucro.
A advogada também aponta um risco silencioso que são os conteúdos “disfarçados de entretenimento”. Danças, brincadeiras, trends inocentes, que, fora de contexto, podem ser cortados, recodificados e redistribuídos em nichos criminosos. Sem regulamentação clara, esse tipo de material circula com facilidade e a normalização da sexualização infantil se torna quase automática. “Sem fiscalização, o algoritmo alcança mais pessoas e expõe ainda mais a criança”, reforça Sara.

E enquanto especialistas falam de deveres jurídicos e lacunas estruturais, quem realmente vive o impacto dessa ausência é quem cresceu dentro das telas como Gabriel de Souza, de 17 anos. Ele pertence a uma geração que não só conviveu com a internet, foi moldada por ela. Antes mesmo de saber o que significava engajamento, já fazia vídeos no YouTube, postava stories, criava personagens em redes sociais e conversava com adultos em jogos online. Tudo isso sem orientação, sem filtro e sem qualquer sistema de verificação de idade. “Eu entrava em jogos com 10 anos e conversava com gente de 20, 30, sem saber quem era do outro lado”, lembra o Adolescente.
A infância de Gabriel aconteceu num território onde as plataformas não perguntavam quantos anos ele tinha, apenas o que ele podia entregar. Ele criou uma conta no Twitter, fingiu ser mais velho, performou gostos que não eram seus, buscou likes e interação como quem busca pertencimento. “Eu fingia gostar de BTS por dois anos só para ganhar engajamento”, conta o jovem, rindo da lembrança, mas revelando uma verdade dura que é uma criança imitando um adulto para caber na lógica das redes.
A maturidade que Gabriel acredita ter adquirido cedo não veio de orientação, mas de exposição. De estar em ambientes sem supervisão, de publicar vídeos que hoje considera vergonha, de ver conteúdos que não deveria ter visto, de quase se colocar em risco ao passar informações pessoais num jogo online. “Eu só aprendi porque passei por situações que uma criança não deveria passar”, reconhece Gabriel.
Quando viu o vídeo do Felca denunciando casos de exposição infantil, Gabriel entendeu algo que por muito tempo foi invisível “todo mundo via e achava normal. Até alguém dizer que não era”, ele finaliza.

A Lei 15.211/2025 nasce para impedir que a mesma história se repita, mas o desafio é enorme. Para funcionar, ela exige plataformas mais transparentes, respostas rápidas, auditorias constantes e punições rígidas em caso de descumprimento. Exige também que o Estado fortaleça estruturas que há anos trabalham com recursos insuficientes como conselhos tutelares, delegacias especializadas, equipes de investigação digital. Mas nada disso apaga o fato de que milhões de crianças já cresceram expostas, como Gabriel. Crianças que tiveram suas imagens manipuladas, seus vídeos distorcidos, suas rotinas transformadas em conteúdo antes mesmo de terem consciência do que estavam fazendo.
A regulamentação tenta impedir novos danos, mas ainda precisa enfrentar a velocidade do universo que pretende controlar. Entre algoritmos que viralizam vídeos em minutos e gabinetes que discutem normas por meses, a infância continua presa em um meio vulnerável, observada e, muitas vezes, completamente desprotegida.
A pergunta que fica é simples, mas urgente: Quanto tempo mais a infância precisa esperar para ser prioridade e não produto?





Essa é uma longform mesmo! Ela ficou imensa! Parabéns pelo fôlego. Foram 3 alunos que se dedicaram!