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A Lapa e o Circo: Centenas de histórias em um só lugar

  • Foto do escritor: Alunos UVA
    Alunos UVA
  • 28 de nov. de 2025
  • 8 min de leitura

Entre memórias e festas, um lugar interminável reside no Rio de Janeiro 


Por Matheus Felipe e João Pedro Guimarães


Vista dos aquedutos da Lapa de dentro do Circo Voador                                                                            (Foto: Matheus Felipe)
Vista dos aquedutos da Lapa de dentro do Circo Voador (Foto: Matheus Felipe)

A Lapa é um dos poucos lugares no Rio de Janeiro onde a cidade parece se reconhecer por inteiro, como se todas as suas fases e histórias coubessem dentro das mesmas ruas. Os prédios antigos e os arcos brancos que cortam o céu, o Rio mostra uma versão autêntica de si mesmo.  

 

O local funciona como um ponto de encontro natural, uma espécie de território neutro onde diferentes classes, estilos e histórias circulam lado a lado. É um bairro que já atravessou períodos de brilho, decadência, mas nunca perdeu sua essência de lugar que pulsa.  


Em conversa com a assistente social e frequentadora dos shows na Lapa, Mayara Portugal, uma frase sintetiza esse sentimento:


“A Lapa carrega uma história intencionalmente muito esquecida sobre a construção da nossa cidade, é herança da população negra escravizada que ergueu o bairro e suas redondezas ali no Centro. Por isso até hoje pulsa nos seus antigos casarões o samba, o pagode, o hip hop, o reggae, o jazz"

É ali que o passado aparece na arquitetura enquanto o presente vibra nas calçadas. A boemia ganha forma, a cultura respira e o Rio encontra uma espécie de identidade coletiva. 



Entre os Arcos, o Circo respira

 

No meio disso tudo, o Circo Voador se destaca como um dos símbolos mais fortes da cena cultural carioca. Não é apenas uma casa de shows, mas um espaço que abraça ritmos variados, mistura nichos que normalmente não se cruzariam e cria uma atmosfera que poucas estruturas conseguem replicar. 


O mestre de cerimônias e historiador do Circo Voador, Lencinho, é um nome essencial para a fluidez e o funcionamento da casa. Ele dividiu um pouco da história com a gente:


“O Circo Voador não está aqui apenas retirando do bairro ou consumindo recursos; a gente está somando, devolvendo, fortalecendo e caminhando junto com a Lapa. A gente foi crescendo na Lapa, absorvendo o que o bairro é e devolvendo isso em cultura, convivência e participação ativa”
Lencinho recebendo reconhecimento pelos serviços prestados a cultura da cidade do Rio de Janeiro (Site Instagram / @lencinho)
Lencinho recebendo reconhecimento pelos serviços prestados a cultura da cidade do Rio de Janeiro (Site Instagram / @lencinho)

Pessoas chegam ali sem saber exatamente o que esperar e saem com a sensação de ter vivido algo especial. O Circo funciona como uma espécie de laboratório cultural onde rock, samba, rap, MPB, eletrônico, poesia e manifestações alternativas convivem sem hierarquia.


Desde seu surgimento, ele ajuda a manter a Lapa viva, porque alimenta o bairro com arte e diversidade.  


Artistas grandes passam por lá, artistas novos nascem e públicos completamente diferentes se encontram no mesmo espaço, dividindo o calor do show, a vibração dos instrumentos e a energia que só o Circo projeta.


Há quem diga que a Lapa sem o Circo Voador não teria a mesma alma, porque o Circo ajuda a costurar o bairro, dá sentido à sua cultura e reforça essa ideia de que ali cabe todo mundo. 


Você não pode chegar em um local e ser um corpo estranho; é essencial se integrar ao bairro, entender sua dinâmica e fazer parte dele, e foi exatamente assim que a gente sempre atuou”, ressaltou Lencinho. 
Show das cantoras Tasha e Tracie, no Circo Voador                             (Foto: Matheus Felipe)
Show das cantoras Tasha e Tracie, no Circo Voador (Foto: Matheus Felipe)

O "Fervo" da Lapa


Quando a noite cai, a Lapa muda de temperatura, de ritmo, de humor. A vida noturna se espalha, começando devagar e crescendo até virar um local caótico e encantador.  

 

Os bares vão enchendo, as calçadas começam a ganhar música de todos os lados e o bairro se transforma numa mistura de festa e improviso. Há rodas de samba, carros tocando funk, bandas se apresentando em palcos pequenos, turistas caminhando sem pressa, moradores indo e vindo. 


Show do cantor João Gomes reúne milhares de pessoas na Lapa              (Foto: O Globo)
Show do cantor João Gomes reúne milhares de pessoas na Lapa (Foto: O Globo)
 “O som define mais do que a classe; é o ritmo que molda completamente como o público vive o show, porque a sonoridade de cada estilo libera comportamentos diferentes e transforma a experiência de cada pessoa”, enfatiza Lencinho. 

 Não existe silêncio na Lapa à noite, existe movimento. A rua vira um personagem, cheio de encontros, conversas, risadas altas e histórias que se prorrogam até o amanhecer. A vida noturna da Lapa tem esse efeito de tirar as pessoas do automático e colocar em estado de presença, quase sempre por música e bebida. 


A Lapa é importante porque sustenta uma parte da alma carioca.  Quem passa por ali sente, mesmo sem entender totalmente que está entrando num Rio mais verdadeiro, mais humano e mais vivo. É esse conjunto que faz a Lapa continuar sendo uma das regiões mais simbólicas da cidade.   

“Um dia a gente tem um show jovem como o do Caio Luccas; no dia anterior, a Céu celebra 20 anos de carreira para um público de 35 a 50 anos. É essa mistura que faz sentido aqui. Desde o início, o Circo sempre teve essa vocação: revelar novos artistas e, ao mesmo tempo, reverenciar os consagrados para unir todas as idades em um lugar tão importante.”, diz o cerimonialista. 

O espaço é para todos


A diversidade sempre foi um dos pilares culturais do Circo Voador, e nos últimos anos o espaço tem reafirmado esse compromisso ao ampliar políticas de inclusão, como a criação de uma lista específica para pessoas trans e a disponibilização de banheiros destinados ao público trans e não binário. 

 

Shows no Circo Voador disponibilizam lista para Pessoas Trans e Não-Binárias                                 (Site Instagram / @circovoador)
Shows no Circo Voador disponibilizam lista para Pessoas Trans e Não-Binárias (Site Instagram / @circovoador)

Essas iniciativas carregam um significado profundo por reconhecerem identidades historicamente marginalizadas e promoverem o acesso ao local com dignidade, segurança e conforto.  


Ao adotar estruturas que acolhem diferentes expressões de gênero, o Circo Voador se consolida não apenas como um palco de música e arte, mas como um território de respeito, onde cultura e cidadania se encontram para fortalecer um ambiente de verdadeiro pertencimento. 


O peso das mudanças


A força cultural que sempre sustentou a região passou a enfrentar pressões que alteraram o ritmo das noites e o perfil das ruas. 


O aumento do custo de vida no entorno afastou moradores e frequentadores tradicionais, enquanto mudanças nas políticas públicas de ocupação urbana afetaram diretamente a vitalidade do bairro.  


A sensação de insegurança em determinados horários também passou a pesar na decisão de quem antes caminhava livremente pelas ruas da Lapa, especialmente entre os mais jovens, que começaram a procurar áreas vistas como mais estruturadas ou “modernas” para viver a noite. 


Lapa sem movimento em dia de semana                                      (Foto: Matheus Felipe)
Lapa sem movimento em dia de semana (Foto: Matheus Felipe)

Ao mesmo tempo, novos polos culturais surgiram em outras partes da cidade, atraindo parte do público que antes considerava a Lapa seu ponto fixo de encontro. A transformação dos hábitos noturnos, com festas mais segmentadas, eventos fechados e a preferência crescente por ambientes controlados, reduziu a circulação espontânea que sempre caracterizou o bairro. 


Com isso, a multidão que antes parecia se renovar a cada fim de semana passou a oscilar, criando momentos em que a Lapa respira de forma mais lenta, como se aguardasse o início de um novo ciclo.  


Esse esvaziamento não representa um fim, mas uma mudança de fase, e é justamente nesse contexto que espaços como o Circo Voador se tornam ainda mais essenciais. Eles funcionam como âncoras culturais, capazes de manter viva a pulsação do bairro mesmo quando o fluxo ao redor muda, preservando a essência da Lapa enquanto ela se reorganiza e se redescobre. 


As sequelas da pandemia


O que antes acontecia sem esforço, virou um desafio para muita gente. Os encontros espontâneos, as conversas rápidas no balcão, o costume de dividir a calçada com desconhecidos, tudo isso voltou mais devagar.  


Tem uma geração que cresceu mais no virtual do que no presencial, e que agora tenta se reencontrar num espaço que sempre viveu da mistura. A Lapa se viu, de repente, lidando com um público mais ansioso, mais seletivo, mais acostumado com ambientes controlados. Numa região marcada justamente pelo improviso, esse choque ficou evidente. 


Em conversa com o sociólogo Israel Belchior, foi apresentado um ponto crucial:


“A pandemia bagunçou completamente os ciclos de adolescência e juventude. Uma geração inteira viveu anos-chave dentro de casa, sem a experiência do convívio noturno, sem o ritual de descobrir a cidade caminhando. Isso refletiu diretamente na retomada: muitos jovens simplesmente não desenvolveram o hábito de sair à noite, porque tiveram seus anos formadores interrompidos. O pós-pandemia não só mudou a frequência com que se sai, mas também a própria disposição de estar nesses espaços físicos”

Israel Belchior em palestra                                               (Site Instagram / @geo.rael)
Israel Belchior em palestra (Site Instagram / @geo.rael)

Seleção silenciosa


Enquanto isso, um outro processo que já dava sinais foi acelerado: a gentrificação. Durante os meses de portas fechadas, muitos bares, casas pequenas, espaços independentes simplesmente não resistiram.  


Aqueles lugares que davam alma à noite da Lapa, os que recebiam desde grupos de amigos até músicos testando repertório novo foram sendo substituídos por negócios mais caros, pensados para turistas ou para um público de maior renda. Aos poucos, a calçada foi ganhando uma nova estética, uma nova lógica, que nem sempre dialoga com o que fez o bairro ser o que é. 


A mesma rua que recebe novos empreendimentos pensados para públicos de maior renda abriga, a poucos metros, pessoas ignoradas pelo poder público. A presença de pessoas em situação de rua é um descaso que também expõe as contradições mais profundas da Lapa. 


A presença de moradores de rua e poluição marcam as ruas da Lapa                               (Foto: Laís Vieira / CBN)
A presença de moradores de rua e poluição marcam as ruas da Lapa (Foto: Laís Vieira / CBN)

Os preços dos imóveis subiram, moradores tradicionais foram empurrados para outras áreas e estabelecimentos históricos perderam espaço para empreendimentos que priorizam lucro rápido em vez de permanência cultural. A Lapa, que sempre viveu do encontro entre mundos diferentes, passou a sentir o peso de uma seleção silenciosa: quem pode ficar, quem pode consumir, quem pode ocupar. O que era marca registrada do bairro, começou a ser comprimida. 


“O que acontece na Lapa também tem muito a ver com a cultura do consumo somada a um processo de gentrificação. Quando você valoriza demais o espaço pelo que ele pode vender, e não pelo que ele representa, você acaba trocando a classe social que frequenta o lugar para alimentar essa lógica. O bairro vai ficando mais caro, mais filtrado, mais alinhado a um público que consome mais e, ao mesmo tempo, menos aberto às expressões populares que sempre fizeram parte da identidade dali”, enfatizou Israel. 

Esperança para os Arcos


Apesar de todas as deficiências e dificuldades a serem enfrentadas, a Lapa e seus arcos ainda têm a capacidade de serem reconhecidos mundialmente. A revista inglesa “Time Out” elegeu Rua do Senado- vizinha da Lapa - como "A rua mais descolada do mundo" , de acordo com o ranking anual produzido pela revista "Time Out".


“A rua do Senado arrematou a primeira posição por seu excelente cenário de bebidas e comidas, além de uma cultura e arte fascinantes. É uma representação reluzente do País: Curiosa, criativa, alegre e orgulhosa. Simplesmente incrível”, destacou a matéria.  
Rua do Senado com movimento aos fins de semana                                                                      (Foto: Leo Martins / Agencia O Globo)
Rua do Senado com movimento aos fins de semana (Foto: Leo Martins / Agencia O Globo)

Essa classificação vai muito além de um simples ranking: É uma luz de esperança para o futuro da Lapa. Além de resgatar o valor simbólico para os frequentadores da região, também apresenta um importante potencial de reconversão local com foco em cultura, arte e gastronomia. Isso favorece não só a preservação do patrimônio existente, mas também indica o caminho para uma possível reinvenção da identidade boêmia dos Arcos para as próximas décadas.  


O que a Lapa deixa em cada um


No fim, o que mantém a Lapa de pé são justamente as lembranças que cada pessoa leva consigo. E é isso que faz a Lapa resistir a tantas mudanças. 


Pedro Mello é frequentador do local e coleciona memórias inesquecíveis:


“Geralmente, as idas a lapa nos gera muitas lembranças, porque é um momento em que nos reunimos e estamos em lugar que fica no centro da cidade e se faz dessa união de culturas e pessoas de lugares diferentes. Acho que essa troca entre as mais diversas pessoas, seja da pessoa com mais condição financeira até a mais pobre, faz com que esse lugar seja impactado e ganhe sua própria vida a partir desse fragmentos. Acredito que essa seja a importância que a lapa tem para Rio, ser um espaço democrático onde todas as pessoas que ali estiverem possam se sentir pertencente ao lugar” 

As memórias que cada pessoa carrega da Lapa acabam formando uma camada invisível que sustenta o bairro. São histórias que permanecem mesmo quando os bares mudam de nome, quando o público se transforma ou quando a cidade tenta impor outros ritmos. 


Para quem viveu momentos marcantes ali, como Pedro, a Lapa nunca é só cenário: é afeto e história. 


 


1 comentário


Renata Feital
Renata Feital
06 de dez. de 2025

Bom trabalho, ficou bem apurada!

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