A Indústria Pornográfica
- Alunos UVA

- 1 de dez. de 2025
- 13 min de leitura
Da liberdade ancestral à era digital, como a pornografia evoluiu, moldou sociedades e revelou seus impactos ocultos.
Por: Maicon Araújo e Rodrigo Amancio

Foto: TecMundo
Os problemas ocultos em seu contexto histórico
A pornografia acompanha a humanidade desde os seus primórdios, mas os primeiros sinais de algo que se aproxima de uma verdadeira indústria, ainda embrionária, surgem apenas no início do século XIX. Foi neste período que contos, poemas e ilustrações de carácter erótico começaram a circular com maior rapidez, transformando-se num mercado inesperadamente atrativo e lucrativo.
A chegada da fotografia acelerou esse processo, dando origem ao conceito moderno de pornografia tal como o entendemos hoje. Curiosamente, poucos sabem que este desenvolvimento foi impulsionado, em parte, por movimentos de contestação associados à direita conservadora e a setores da fé cristã, cuja tentativa de repressão acabou por estimular a procura e a clandestinidade, favorecendo a expansão do mercado.
Hoje, a pornografia integra um conjunto mais amplo conhecido como indústria do sexo, que engloba ainda a prostituição, os clubes de striptease e os espetáculos eróticos. O que começou como uma reação social e moral no século XIX evoluiu, com o avanço tecnológico, para uma das indústrias culturais e econômicas mais influentes do mundo contemporâneo.
No Brasil, o consumo de pornografia atinge mais de 22 milhões de pessoas, segundo uma pesquisa de 2018 do canal Sexy Hot. O levantamento detalha que 76% desse público é composto por homens, enquanto as mulheres representam 24%. A pesquisa ainda mostra o perfil predominante dos consumidores: a maioria é jovem (58% têm menos de 35 anos), pertence à classe média alta (49%) e mais de 60% afirma estar casado ou namorando.
Um levantamento da empresa de agregação de dados SemRush, realizado em setembro de 2024, indicava que o site PornHub era o sexto mais popular globalmente, ultrapassando 5,6 bilhões de visualizações. Isso representa um volume de acessos equivalente a aproximadamente 70% da população mundial, que a Organização das Nações Unidas (ONU) estima estar em torno de 8 bilhões de pessoas.
O Início da pornografia no século XIX
A prostituição antecede a indústria pornográfica e a sua comercialização, sendo praticada desde a antiguidade, como na época greco-romana e na antiga Mesopotâmia. Nessas sociedades, as mulheres gozavam de maior liberdade sexual, sem a obrigação de se casar com um homem específico ou de ter relações forçadas.
Tinham autonomia para escolher seus parceiros e não sofriam estigmatização social por terem filhos com diferentes homens, a exemplo das mulheres astecas. Contudo, essa liberdade começou a mudar com o surgimento da propriedade privada e a consolidação da ideia de família nuclear (composta por pais e seus filhos biológicos, adotivos ou socialmente reconhecidos). Como definiu o marxista Friedrich Engels.
Esse processo foi o pontapé inicial para o crescimento da indústria pornográfica. Foi por meio dessas mudanças que surgiu a ideia de buscar relações sexuais fora do lar, já que a família e a necessidade de ter filhos, naquela época, eram motivadas pelo acúmulo de riquezas que dominava o mercado nos tempos antigos. Isso levou ao confinamento da mulher no espaço doméstico, atribuindo-lhe sobretudo funções de dona de casa e cuidadora, devido ao trabalho reprodutivo. Essa dinâmica reforçava o desejo de ter relações sexuais fora do ambiente doméstico.
As capitais da prostituição

Nova York é frequentemente considerada a capital da prostituição. Entre o final do século XVIII e o início do século XIX, devido à grande quantidade de bordéis que a cidade abrigava. Apesar de operarem na ilegalidade, esses estabelecimentos eram numerosos e não lhes faltavam prostitutas. Estima-se que entre 3 mil e 10 mil mulheres trabalhavam de forma clandestina, atuando em bordéis, esquinas e até mesmo nas sacadas de teatros chiques.
Londres, no século XIX, também era um epicentro da prostituição e a maior cidade do mundo na época. Sua sólida urbanização e o grande fluxo de imigrantes irlandeses, que buscavam refúgio da Grande Fome (1845 - 1849), a consolidaram como um polo econômico global, impulsionado, em parte, pela exploração de mão de obra.
No entanto, essa prosperidade contrastava drasticamente com a crescente pobreza no East End de Londres. Nesta área, a prostituição crescia de forma alarmante, com registros de cerca de 62 bordéis e 1.200 prostitutas (embora o número real fosse, reconhecidamente, muito superior).
O crescimento da indústria pornográfica no meio tecnológico
Com a chegada do século XX, o mercado tecnológico trouxe novas tendências que impulsionaram o surgimento de novas vertentes na Indústria. Contudo, antes mesmo disso, durante a Guerra Civil Americana, iniciou-se uma forma de disseminação de conteúdo através de folhetos com imagens eróticas utilizados pelos soldados.
Esse formato teve vida curta, sendo rapidamente substituído por livros de bolso rústicos. Posteriormente, magnatas passaram a utilizar essa nova forma de distribuição para produzir notícias e imagens, dando origem às primeiras revistas e estabelecendo o primeiro meio de distribuição em massa.
A era das revistas: De Hefner a Portugal

O ano era 1953 quando a Revolução do Cavalheiro surge, tudo começa no pós guerra, em meio ao “boom” econômico e a libertação sexual. Hugh Hefner funda a revista que tempos depois seria um dos maiores sucessos mundo afora, revista que inclusive fez diversos artistas brasileiros posarem nus, falando assim você já deve imaginar a qual revista estou me referindo, sim, a famosa Playboy. Essa revista é falada até os dias de hoje, apesar do avanço tecnológico ela marcou e marca gerações até os tempos atuais, há pessoas que colecionam.
A playboy não era apenas sobre convidar pessoas para posarem nus, ela era muito além disso, era uma publicação de “erotismo explícito”, foi pensada em atrair a classe média e para pessoas de grande intelecto. Seu fundador, elevou o olhar artístico da fotografia e misturou-a com ensaios e crónicas de qualidade, fazendo da revista uma das maiores de todos os tempos. No Brasil, diversos artistas passaram por ela, entre as mais famosas estão Adriane Galisteu, Maitê Proença, Luiza Brunet, Marisa Orth, Xuxa e as musas do É o Tchan, Carla Perez e Scheila Carvalho. Suas edições fizeram sucesso e alcançaram o ápice das vendas em território nacional.
A revista ia além de exibir moças bonitas nas capas, ela vinha com narrativas que envolviam o leitor. Seu fundador sempre enfatizou que a nudez era uma consequência da percepção do público; sua principal meta era criar crônicas de qualidade e de respeitável seriedade. É importante destacar que, além da nudez presente nas páginas, as revistas também traziam entrevistas com as celebridades que estampavam as capas. Esse conjunto de fatores fez com que a revista fosse um sucesso duradouro, destacando-se em território nacional por cerca de 40 anos e batendo recordes de vendas.
Anos 1970: A guerra dos formatos
Na década de 1970, a distribuição de conteúdo erótico era dominada por dois formatos principais: o VHS, da JVC, e o Betamax, da Sony. Apesar de ambos serem amplamente utilizados pelos consumidores, o Betamax, embora tivesse excelente qualidade, apresentava uma limitação crucial: não permitia a gravação de conteúdo erótico. Essa restrição foi um fator determinante para seu rápido desaparecimento do mercado, já que as produtoras de filmes adultos da época optaram pelo VHS como formato de distribuição, consolidando-o como o padrão.
Anos 1980: O Telesexo e o Pagamento por Minuto
Se você é de uma geração mais jovem, talvez não saiba que isso existiu: pessoas pagavam para ter conversas sexuais por telefone. Essa prática, conhecida como telesexo, cresceu com a descoberta pelas operadoras de que havia um mercado para conversas picantes com desconhecidos, inicialmente explorado por grandes empresários do setor erótico. Embora tenha diminuído em muitos lugares, o telesexo ainda é encontrado na Ásia e na Europa. Essas linhas de conversas pagas abriram caminho para outros serviços baseados em chamada, como suporte técnico e horóscopo.
Anos 90: Pay-Per-View e TV a Cabo
No início da década de 90 algo parecido com as chamadas sexuais toma conta da indústria pornográfica: Os canais pay-per-view, produtoras da Califórnia decidiram distribuir seus filmes adultos sob demanda com clientes num acordo com as empresas de TV a cabo. O sucesso foi estrondoso, novos estúdios de produção de filmes adultos surgiram e as emissoras tradicionais começaram a imitar a estratégia, uma delas foi a HBO.
No fim da década de 90, surgem a Internet, Streaming e Pagamentos Online, os sites de conteúdos adultos logo começaram a incluir fotos e filmes em suas páginas.
Com o avanço tecnológico e a percepção aguçada dos grandes empresários, o setor viu um crescimento acelerado com inovações. Uma delas permitia aos usuários assistir a vídeos pornográficos sem a necessidade de armazenamento de dados no computador. Isso impulsionou a implementação de um novo modelo de consumo de conteúdo adulto: videochamadas com modelos que interagiam com os internautas, tirando roupas e dançando. O sucesso desse formato influenciou novos projetos de empresas estabelecidas como Skype, Microsoft e Google. Com a popularização da web na década de 90, essas imagens deram origem a galerias de sites, muitas vezes com acesso restrito e pago. Esse sistema evoluiu, então, para o modelo de assinaturas online.
A era atual da indústria pornográfica
"Parece tão óbvio: se invetarmos uma máquina, a primeira coisa que faremos, depois de lucrar com ela, será usá-la para assistir pornografia." — Damon Brown, autor de As Melhores Capas da Playboy.
Se nas décadas passadas o poder estava na mão de grandes estúdios e diretores, hoje a indústria pornográfica vive a sua maior revolução: a descentralização. Esqueça os grandes cenários e as produções caras; agora, tudo gira em torno da conexão direta entre quem cria e quem assiste.
O grande marco dessa mudança foi o OnlyFans. Curiosamente, ele não nasceu para ser um gigante do sexo. A plataforma foi fundada em 2016, em Londres, pelo empreendedor Tim Stokely (junto com o pai, um ex-banqueiro), com a ideia inicial de conectar influenciadores fitness e culinária aos seus fãs.
A virada de chave aconteceu quando a plataforma foi comprada pelo empresário Leonid Radvinsky e percebeu o potencial do conteúdo adulto sem censura. O site explodiu de vez durante a pandemia de Covid-19, quando todo mundo estava trancado em casa. O modelo era simples e genial: tirar o intermediário.
A plataforma fica com 20% do lucro e o criador leva 80%. Os números mostram o tamanho desse império: hoje, estima-se que o OnlyFans tenha mais de 200 milhões de usuários e cerca de 3 milhões de criadores espalhados pelo mundo. Em 2021, a empresa movimentou a quantia astronômica de US$ 4,8 bilhões — transformando pessoas comuns em milionárias e consolidando-se como uma das empresas de tecnologia mais lucrativas do Reino Unido.
Perante o sucesso internacional desse modelo, o mercado brasileiro desenvolveu a sua própria resposta: a Privacy. Fundada em 2020 pelo empresário brasileiro Fábio Monteiro e seus sócios, a plataforma foi criada especificamente para atender às particularidades do público nacional. Enquanto os sites internacionais exigem cartão de crédito e cobram em dólar, a Privacy aceita Pix e boleto.
Essa facilidade fez a plataforma disparar: em pouco tempo, ela ultrapassou a marca de 16 milhões de usuários mensais e já conta com mais de 75 mil criadores. O impacto financeiro é real, com celebridades e anônimos faturando alto e transformando a criação de conteúdo adulto numa das formas mais rápidas de ascensão social.
Essa nova fase da indústria, apelidada por alguns de “uberização do pornô”, trouxe transformações significativas. Com controle total sobre o próprio conteúdo, o criador torna-se o seu próprio chefe. A promessa de Tim Stokely sempre foi devolver o poder a quem produz:
Se o criador não quiser realizar cenas explícitas, não precisa fazê-lo. Se preferir concentrar-se num fetiche específico, pode direcionar todo o seu trabalho para esse nicho. A lógica é simples, autonomia total e liberdade editorial, algo raro nas formas tradicionais da indústria do sexo.
Diferente dos sites "tube" (como o XVideos), onde não se paga pelo conteúdo, este novo modelo habituou o público a pagar pelo acesso. O valor não está só no vídeo, está na exclusividade e na sensação de estar apoiando aquela pessoa específica.
Apesar da liberdade e dos lucros altos, a responsabilidade também é toda do criador. A pirataria e o vazamento de conteúdo continuam sendo um pesadelo e, sem um estúdio jurídico por trás, muitas vezes é "cada um por si".
A voz de quem faz

Para entender na prática como essa revolução afeta quem está atrás das câmeras, conversamos com o fundador da Macho Flix, uma produtora colaborativa que atua no mercado brasileiro e internacional. Com experiência em roteiro, filmagem e edição, viu de perto a transição dos estúdios fechados para a era das plataformas digitais.
Segundo o produtor, o mercado hoje vive a "ditadura do imediatismo". Se antigamente um filme pornô tinha 60% de roteiro e 40% de sexo, hoje essa lógica se inverteu brutalmente: é 10% de história e 90% de ação. "O consumidor tem pressa e muito mais opções. Se a cena não prender nos primeiros segundos, ele pula para o próximo vídeo", explica .
O Fim da "Segunda Linha" Outro ponto crucial é a mudança de mentalidade. Nas décadas de 70 e 80, o pornô era visto como o "fundo do poço" para atores que fracassaram em Hollywood. Era um bico para pagar contas. Hoje, é uma carreira. "Muitas pessoas optam por trabalhar neste mercado porque entenderam que o talento delas é para essa área", afirma o produtor.
Existe uma cadeia produtiva complexa que envolve pré-produção, marketing, gestão de imagem e pós-produção. A Macho Flix, por exemplo, opera num modelo onde todos ganham: a produtora edita e lança, mas os atores também recebem o material para monetizar nas suas próprias redes sociais, um reflexo dal "uberização".
Apesar da profissionalização e do dinheiro que circula (sustentando desde editores a donos de sites), o estigma social ainda pesa. O produtor conta que, embora não tenha sofrido grandes problemas por já ter entrado no ramo mais maduro, ele alerta os novatos "Ainda existe muito preconceito em carreiras tradicionais como Direito, Engenharia e Medicina. Se a pessoa sonha em seguir nessas áreas no futuro, a exposição no pornô pode ser um obstáculo".
Pornografia também é comunicação, e comunica direto com o instinto. "Não é simplesmente criar um material que venda a qualquer custo", diz ele. Hoje, os grandes sites e produtores estão mais atentos a contratos de imagem rigorosos e ao respeito dentro do set, provando que, para lucrar nessa nova era, não basta apenas tirar a roupa, é preciso se profissionalizar.
Na frente das câmeras e a liberdade; Bruno Xavier é o exemplo disso.

Bruno Xavier, 25 anos, personifica a nova geração que não hesita em “colocar a cara na tela” e trocar carreiras convencionais pela autonomia digital. Há três anos no OnlyFans, começou ainda aos 22, e a sua trajetória passa longe do estereótipo do “jovem perdido” que caiu no mercado adulto por falta de alternativas.
Formado em Direito, chegou a estagiar na área, habituado a processos, prazos e trajes formais. Mas decidiu mudar de rota. E não romantiza a escolha: o motivo foi, acima de tudo, dinheiro e liberdade. Bruno explica que o que realmente o atraiu foi a possibilidade de retorno financeiro rápido e, sobretudo, a independência de gerir a própria agenda, sem relógio de ponto nem rotina de escritório.
Essa liberdade exige esforço. Bruno conta que seu principal megafone é o X (antigo Twitter). É lá que a mágica acontece. Sem uma grande empresa por trás, ele depende do networking: a estratégia principal é a troca de divulgação com outros produtores de conteúdo +18. Um compartilha o perfil do outro, e assim a base de fãs cresce de forma orgânica.
Apesar de estar consolidado no mercado e aproveitar a grana e o tempo livre, Bruno é pragmático: não se vê trabalhando com pornografia para sempre. Para ele, as plataformas funcionam como um financiador de sonhos.
Seu objetivo real é seguir no meio artístico através da dança, área em que ele já atua aos finais de semana. O caso de Bruno ilustra bem a nova dinâmica da indústria: jovens qualificados que usam o digital para financiar a vida, encarando a exposição não como uma sentença, mas como uma ferramenta de liberdade.
Quando o prazer vira prisão

Se para Bruno a pornografia é sinônimo de liberdade, para Felipe Brito, de 31 anos, foi uma prisão silenciosa. Sua história não é sobre lucrar com a indústria, mas sobre como ela pode moldar, e deformar, a mente de quem consome cedo demais. Felipe teve seu primeiro contato com o mundo de conteúdo adulto de forma acidental, aos 5 anos, confundindo uma fita cassete pornográfica do pai com um filme da Disney.
Aquele choque inicial "isso é errado, mas desperta algo" plantou uma semente que cresceria descontrolada. Nos anos 90 e 2000, o acesso era difícil: revistas escondidas e fitas VHS trancadas na chave. Mas a proibição só aumentava o desejo e a validação social entre os amigos da escola, onde ter acesso a esse material era sinônimo de "ser homem".
Felipe descreve a pornografia como a "droga mais fácil de acessar". Ele compara o efeito no cérebro ao vício químico, agravado por ter começado numa fase onde sua mente ainda estava em formação. O resultado? Uma adolescência marcada pela objetificação das mulheres e relacionamentos precoces e problemáticos. "Ninguém sabe que o chão está sujo antes de levantar o tapete", diz ele, referindo-se a como só percebeu o dano anos depois.
O vício chegou a custar caro na vida adulta: Felipe chegou a terminar o noivado mome
ntaneamente com a atual esposa porque sentia que estava enganando a companheira, vivendo uma vida dupla de consumo compulsivo enquanto tentava manter as aparências. "Eu achava que, quando casasse, a mágica aconteceria e eu pararia. Mas não é assim que funciona."
Hoje, casado, Felipe enxerga sua trajetória com clareza brutal. Ele associa o vício à queima de etapas do desenvolvimento e a um "hiperfoco" destrutivo, potencializado pelo TDAH não diagnosticado na época. Para ele, a pornografia é um "hacker de serotonina", que vicia o cérebro em recompensas fáceis e distorce a realidade, fazendo com que o sexo real e o afeto pareçam sem graça diante das telas.
Sua recuperação não foi um milagre instantâneo, mas um processo de "prestar contas" — seja com a esposa, que se tornou seu apoio,e com a sua fé. Ele compara a luta contra o vício a um foguete: "É preciso muita energia para vencer a gravidade no início, até chegar a uma órbita onde se possa desligar os motores e apenas manter a vigilância. A tentação vem todo dia", admite. "Mas hoje eu sei que o comum, o real, é o que vale a pena."
O prazer virou vício

Para entender a reação da mente humana por trás do clique, a sexóloga Raquel Câmara explica que o consumo de pornografia, que existe desde os contos eróticos do século XVII, mudou drasticamente com a tecnologia do século XXI. E o grande perigo hoje é a projeção.
Raquel esclarece que os filmes pornográficos atuais são editados para criar uma “realidade perfeita” que não existe: homens com ereções intermináveis e mulheres com múltiplos orgasmos fáceis. Quando o espectador assiste, projetar-se naquela performance. O resultado? Frustração. “O ideal é que tanto o homem como a mulher busque prazer no que satisfaçam, a eles, sem serem influenciados por modismo.”, afirma a sexóloga.
Raquel alerta que o sinal vermelho acende quando a pessoa cria uma “muleta”: só consegue sentir prazer assistindo a vídeos. Sem a tela, a vida real parece sem graça. A sexóloga ainda destaca que os jovens nessa condição de vício podem não sentir prazer ao relacionarem-se com o respetivo parceiro, pois acabam por depender de uma bengala a pornografia.
A indústria pornográfica atual, com milhões de dólares, os astros do OnlyFans e consumidores dependentes, é um reflexo amplificado de uma busca humana antiga: o desejo. Mas, como resume Raquel Câmara, o segredo não está em proibir ou permitir tudo, mas em compreender a diferença entre a fantasia que excita e a ilusão que adoece. “Cada ser humano é um universo à parte. O perigo é querer viver no universo editado de outra pessoa.”




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