A importância do movimento para a autonomia e o desenvolvimento social na neurodiversidade
- Alunos UVA

- 2 de dez. de 2025
- 6 min de leitura
Atualizado: 3 de dez. de 2025
Da creche à vida adulta, a neurodiversidade rompe o silêncio estatístico e expõe a necessidade de ambientes mais sensíveis e acolhedores
Por Fernada Rosendo, Maria Luiza Lima e Nathália Messias
Mais de 2,4 milhões de brasileiros foram identificados com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), o que corresponde a 1,2% da população de todo país. A predominância foi maior entre os homens, chegando a 1,4 milhões de diagnósticos e totalizando 1,5% da população, do que entre as mulheres, com 1,0 milhão e 0,9% dos diagnósticos feitos por algum profissional da saúde, de acordo com o Censo Demográfico de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foi a primeira vez que o instituto trouxe informações específicas sobre o autismo em um levantamento nacional, marcando um novo capítulo das estatísticas de saúde e desenvolvimento humano no Brasil.
A mesma pesquisa mostra a prevalência dos diagnósticos entre crianças e adolescentes: 2,1% no grupo de 0 a 4 anos, 2,6% entre 5 e 9 anos, 1,9% entre 10 e 14 anos e 1,3% entre 15 e 19 anos. Esses percentuais representam, ao todo, 1,1 milhão de pessoas de 0 a 14 anos com autismo. Mais do que números, esses dados revelam tendências importantes: diagnósticos mais precoces, maior atenção das famílias aos sinais iniciais do desenvolvimento infantil e um movimento gradual de ampliação do acesso a profissionais e avaliações neuropsicológicas. Ainda assim, eles também mostram as lacunas — regiões sem especialistas, escolas despreparadas e uma rede pública que não acompanha, na mesma velocidade, o aumento das demandas.
Na educação básica brasileira, as matrículas de estudantes com TEA aumentaram 44,4% entre 2023 e 2024, chegando a 918.877 alunos, de acordo com o Censo Escolar 2024, elaborado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). O crescimento é expressivo e reflete uma sociedade mais consciente, que reconhece que o diagnóstico não é uma sentença de incapacidade, mas sim uma chave para acesso a direitos, metodologias adequadas e intervenções específicas. No entanto, apesar do avanço numérico, o cotidiano de muitos desses estudantes continua marcado por barreiras — físicas, pedagógicas, sociais e emocionais. Muitas escolas ainda não contam com profissionais capacitados para lidar com diferentes perfis de neurodesenvolvimento, e os professores, por vezes, enfrentam classes numerosas sem suporte técnico adequado.
A presença crescente de alunos neurodivergentes — aqueles cujo funcionamento cerebral diverge do padrão predominante — exige não apenas políticas públicas, mas mudanças estruturais e culturais. O impacto desse despreparo pode afetar a saúde mental e física dessas crianças e adolescentes, que muitas vezes enfrentam ambientes ruidosos, rotinas imprevisíveis e práticas pedagógicas inflexíveis. E para as famílias, a jornada também é desafiadora, como mostra o relato de Priscila, mãe de Alice.

“Com 1 ano e 4 meses, quando Alice passou a ir para a creche, percebi que ela não interagia com as crianças conforme as outras. Ela era muito ausente, dispersa, sempre ficava sozinha e, ao pedir uma reunião com a neuropsicóloga e expor as minhas preocupações, ela me disse que essa mudança de comportamento seria normal nessa fase de introdução à creche. Mas a Alice ficou muito doente e o pediatra recomendou que ela voltasse a ficar em casa, o que nos fez passarmos muito mais tempo juntas. Por isso, comecei a observar muito mais o seu comportamento. Ela parou de falar, comer, interagir comigo ou com seu pai, deixou de dar significado aos seus brinquedos. Neste momento, aos 2 anos, após três sessões com uma equipe multidisciplinar, nós recebemos o diagnóstico de autismo com nível três de suporte, mesmo numa época em que ainda não tínhamos tanto acesso a informação ou profissionais especializados.”
O relato de Priscila, que viveu a experiência de observar mudanças abruptas no desenvolvimento da filha sem ter, à época, referências confiáveis ou rede de apoio, exemplifica a trajetória de muitas famílias brasileiras. Sua história revela como a informação — ou a falta dela — pode determinar o acesso ao diagnóstico precoce e a intervenções fundamentais, especialmente nos primeiros anos de vida. E mostra também a importância de a sociedade compreender que por trás de cada número do Censo existem pessoas reais, com histórias complexas, medos, esperanças e rotinas que são transformadas a partir de uma identificação clínica.
“De todas as formas, em todos os espaços, você encontra pessoas neurodivergentes”, afirma Alessandra Carneiro ao iniciar sua fala sobre sua trajetória profissional. Diretora-fundadora do Espaço Plural, Alessandra trabalha há anos com educação e inclusão, observando de perto a necessidade crescente de preparar ambientes e profissionais para lidar com diferentes perfis neurológicos. Para ela, a prática regular de esportes e aulas de dança não são apenas atividades de lazer: são ferramentas estruturantes para estabilidade, organização e autoconfiança da pessoa neurodivergente.

“Há tempos atrás, não tinha laudo, mas você percebia uma certa dificuldade em alguns alunos. Eu conseguia dar um outro olhar, buscar meios para que aquela criança conseguisse aprender, fizesse parte do grupo. De uns anos para cá, o volume foi tão grande que eu comecei a perceber que, realmente, o que eu fazia tinha sentido.” A narrativa de Alessandra revela que a demanda pela inclusão não nasce apenas da legislação, mas da convivência cotidiana, da observação e da sensibilidade de profissionais que, antes mesmo dos números oficiais, já percebiam que a sala de aula estava mudando.
“A criação do Espaço Plural veio por percebermos que nem todos podem estar incluídos. Nós pensamos em criar um espaço em que esse desenvolvimento individual fosse sendo feito para depois, então, passarmos para a parte da inclusão de fato.” A proposta da instituição é construir uma ponte entre o desenvolvimento singular e a convivência coletiva, garantindo que cada criança possa avançar em seu próprio ritmo antes de ser inserida em ambientes mais complexos.
Seguindo esse mesmo princípio, Wallace Carneiro, professor de Jiu-Jitsu no Espaço Plural, relata como o aumento da demanda o levou a aprofundar seus conhecimentos sobre neurodesenvolvimento. “É um trabalho muito delicado. Eu comecei a ver a necessidade de me aprimorar, procurar entender um pouco mais as crianças. TEIA, TOD, o que significa TDAH? O que deixa de ser TDL? Aos poucos, com o convívio, nós vamos aprendendo junto com eles.” Sua fala reforça que a inclusão exige formação contínua. Não se trata apenas de ensinar uma modalidade esportiva, mas de compreender comportamentos, sinais, ritmos e modos de interagir que fogem do padrão esperado.

Em conversa com a terapeuta ocupacional Gabi Preuss, é possível entender como o desenvolvimento atípico afeta diferentes âmbitos do ser humano. “Quando falamos sobre o desenvolvimento atípico, estamos falando sobre um indivíduo que naturalmente tem dificuldades de lidar com o ambiente, com o outro, de lidar com o próprio corpo… Então temos um indivíduo que, dentro da sua saúde mental, já tem suas faculdades dificultadas, lidando com dificuldade de memória de trabalho, atenção seletiva e concentração, flexibilidade cognitiva, entre vários outros âmbitos.” Sua explicação ilumina a complexidade do tema: não existe uma única forma de ser autista, assim como não existe um único caminho terapêutico ou educativo.
Além de terapeuta ocupacional, Preuss é bailarina e uniu esses dois aspectos da sua vida no Espaço Plural, focando em favorecer o desenvolvimento global de pessoas com transtornos do neurodesenvolvimento. Ela explica que o trabalho com pessoas neurodivergentes parte do princípio básico de que todo ser humano é diferente — portanto, seus caminhos de aprendizagem e comunicação também serão diferentes. A arte, segundo ela, cria possibilidades inesperadas. “O esporte e a arte agregam um viés leve e flexível dentro do desenvolvimento humano. Integrar a arte à vida de pessoas neurodivergentes se torna fundamental.” A dança, o movimento, a música e a corporalidade permitem expressões que não dependem exclusivamente da linguagem verbal, criando pontes emocionais e sensoriais.
Alessandra concorda e reforça que a prática regular de esportes ajuda a reduzir a rigidez cognitiva, facilitando o processo de introdução de novos conceitos e conteúdos, tanto no dia a dia quanto no ambiente acadêmico. A rotina leva confiança, criando uma sensação de previsibilidade e segurança. “É uma forma de mostrar para a criança que o corpo pode ser um aliado”, explica. Em uma sociedade que tende a valorizar apenas o desempenho acadêmico, o corpo, muitas vezes, é tratado como secundário — e essa visão pode prejudicar, sobretudo, pessoas neurodivergentes, para quem o movimento é parte central do processamento sensorial.

A ampliação dos diagnósticos e a crescente presença de pessoas neurodivergentes em todos os espaços sociais evidenciam uma mudança profunda na sociedade. Os números do IBGE e do Inep ajudam a dimensionar uma realidade que já se impõe no cotidiano de milhões de famílias, educadores e profissionais da saúde, provando que a inclusão deixou de ser um ideal distante para se tornar uma urgência. Relatos como os de Priscila, Alessandra, Wallace e Gabi revelam trajetórias marcadas por descobertas, desafios e reinvenções.
Mais do que adaptar estruturas, trata-se de transformar mentalidades. A experiência do Espaço Plural demonstra que quando esporte, arte, terapia e educação caminham juntos, novos caminhos de desenvolvimento se abrem — caminhos mais sensíveis, personalizados e acolhedores. Em um país onde a neurodiversidade se torna cada vez mais visível, a verdadeira inclusão dependerá da capacidade coletiva de compreender diferenças, garantir apoio adequado e construir ambientes que respeitem os tempos e necessidades de cada indivíduo.
Afinal, como mostram as vozes presentes nesta reportagem, a inclusão não é apenas uma política: é um compromisso diário com a dignidade, o pertencimento e o potencial de todas as pessoas. E esse compromisso, para acontecer de fato, precisa ir além dos números — precisa enxergar, ouvir e valorizar cada história.
Foto de capa: Maria Luiza Lima




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