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A importância da diversidade no mercado de jogos indies

  • Foto do escritor: Alunos UVA
    Alunos UVA
  • 28 de nov. de 2025
  • 6 min de leitura
Uma forma única de ver o mundo, que se mostra inovando e tornando a cultura e a identidade nacional mais próxima do jogador

Por Gustavo Monteiro e Jorge Dumont


Pequenos estúdios, mundos inteiros. O setor de jogos independentes brasileiros cresce em um ritmo constante com obras cada vez mais inovadoras e cheias de charme para as telas.
Pequenos estúdios, mundos inteiros. O setor de jogos independentes brasileiros cresce em um ritmo constante com obras cada vez mais inovadoras e cheias de charme para as telas.


A rua ainda estava úmida da chuva naquele dia quando João Brant, 28 anos, atravessou a porta do quarto após um longo dia de trabalho. O teclado gasto, os monitores ligados, um café ao lado para acompanhar, o ventilador barulhento, tudo parecia compor um cenário que, para muitos, caótico. Para ele, era um cenário de criação a qual já era uma segunda casa.

Em outra cidade, no mesmo horário, Filipe Calixto, 25 anos, desenhava no caderno quadriculado que o acompanha desde criança. As linhas de seus personagens traziam traços de Orixás, dos desfiles que assistia com o avô, das festas de rua que marcaram seu bairro. Ambos, sem se conhecer, estavam redefinindo o que significa criar jogos independentes no Brasil.

O mercado independente brasileiro floresce, mas continua marcado por desigualdades. Criadores e desenvolvedores não só lutam por espaço, eles reescrevem o próprio repertório cultural do país dentro dos games.

 

Panorama da Realidade

 

No Brasil, os jogos nacionais estão ganhando cada vez mais espaço na mídia e no gosto do público, como Horizon Chase Turbo inspirado nos grandes sucessos do nintendinho nos anos 80 aos 90, um Top Gear e Out Run, Dandara com sua direção de arte rica em detalhes e o extraordinário Chroma Squad, fortemente inspirado na cultura dos Super Sentai, heróis japoneses que deram origem aos Power Rangers no ocidente.


Nesse setor as barreiras se erguem tal como muralhas, desde a falta de financiamento nos quais poucos projetos recebem apoio do governo ou de investidores, equipamentos quase precários que fazem jus a expressão de “feito com uma coxinha e um guaravita”.


No quesito financeiro, o grupo que nossa equipe entrevistou relatou que recebeu apoio das leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc para a criação de seu projeto que será lançado, por fazer uso de um grande repertório cultural, mas essa não é a realidade do cenário. João Brant comenta em entrevista a nossa equipe que “a lei Rouanet não paga muita coisa pra jogos”, quando perguntado sobre a verba que entra para a produção.


Chroma Squad, jogo criado por brasileiros que conquistou grande público mundo a fora.
Chroma Squad, jogo criado por brasileiros que conquistou grande público mundo a fora.

 

Em meio a todo o cenário, a diversidade continua se mostrando essencial para a confecção de narrativas únicas mas continua muito abaixo do esperado das expectativas nas desenvolvedoras, em especial à presença de pessoas pretas. Mesmo sendo um ambiente que esbanja criatividade, ainda é um ambiente predominantemente dominado por homens brancos e héteros, e a participação de outros grupos de pessoas ainda é ínfimo, comparada aos jogadores, que abrangem uma camada mais diversificada.

 

Tais presenças, com vivências e jeitos de ver a vida tão diferentes e cheios de nuances, com a destreza de artífices que pensam em cada detalhe de suas criações, apenas uma cabeça que pensa diferente pode mudar rumos de um projeto e dar um novo olhar à cultura que chega com tudo para ficar e se tornar um ícone atemporal.



João Brant

Criador de Dandara e um dos mais notórios devs no país quando se trata do nicho de jogos independentes, o jogo criado em si começaria apenas como mais um que seria pensado como aliens no espaço, segundo o próprio, mas como ele e seu parceiro de equipe, Lucas Mattos, comeraçam com um jogo de aliens no espaço mas acharam a ideia em si muito “americana” em entrevista a equipe e pensaram em incorporar traços e histórias da cultura Brasileira na mecânica da sobre e nesse samba de ideia, nasceu um dos games mais aclamados no Brasil e mundo afora.

 

João Brant, criador do aclamado Dandara, premiado pelo Brasil Game Awards em seu ano de lançamento.
João Brant, criador do aclamado Dandara, premiado pelo Brasil Game Awards em seu ano de lançamento.

Enganado aquele que pensa que foi fácil atingir esse nível, o caminho foi árduo e cheio de dúvidas chegar onde chegou, como iniciantes na época, ele e seu parceiro não sabiam muito o que fazer mas e não podiam pedir e não só não sabiam muito o que fazer mas ainda tinham o maior inimigo dos artesãos na sociedade contemporânea: o tempo. Criar um jogo além de dinheiro, necessita de muito tempo, beirando anos para ficar em boa qualidade, o que depois de certo período se torna algo maçante de se trabalhar.


Os jogos de João carregam elementos da oralidade, de histórias contadas por povos que nunca deixaram seus ícones morrerem, com e com mecânicas que diferenciaram de tudo aquilo que o mercado acostumado já estava.


Filipe Calixto e as conexões ancestrais

Aluno da UFRJ e funcionário do Odu Studios, Filipe trabalha fazendo jogos e promovendo projetos sociais junto de sua equipe que buscam ampliar e promover as conexões ancestrais por meio dos jogos eletrônicos, os quais grande parte homenageiam a cultura de terreiro e religiões de matriz africana.


Filipe Calixto, um dos membros da equipe do Odu Studios.
Filipe Calixto, um dos membros da equipe do Odu Studios.

 

Calixto até menciona o fato de ter o estúdio ter atraído a atenção de grandes empresas como a Xbox em uma reunião a qual fizeram para que pudessem mostrarem todo o potencial e ainda obtiveram êxito após o episódio, caindo nas graças dos desenvolvedores.


Impacto Sociocultural

O impacto que essas obras tiveram ainda vão ter como o novo jogo que o estúdio de Calixto está trabalhando é único, que além de homenagear a cultura de terreiro, promete um estilo novo e inovador de mecânica para a gameplay, com o uso de controles cinéticos que permitem utilizar batuques como controles remotos. Quando os testes começaram “algumas pessoas que fizeram os testes tiveram que sair porque não se aguentaram e algumas disseram que iam chorar se continuassem ali” comentou Filipe. Toda diversidade e inclusão se inclui os estúdios em vários estados do Brasil, como o Aoca Game Lab, empresa baiana que se especializou em jogos online, cujos quais se caracterizam com forte influência da região nordestina e em especial, do Sertão.




O público e todas as suas facetas


 

As mulheres sempre gostaram de jogos tanto quanto os homens e isso já é um fato, tanto que segundo as pesquisas da PGB (Pesquisa Game Brasil) e da AbraGames (associação brasileira das empresas desenvolvedoras de jogos digitais), mostram com todos os detalhes que o público feminino é o maior consumidor de jogos online no país, chegando até 53% no ano de 2025, mas uma grande diferença se revela quando se para os bastidores.


Relatório oficial feito pela Pesquisa Games Brasil mostrando sua demografia oficial/ Reprodução: PDF oficial
Relatório oficial feito pela Pesquisa Games Brasil mostrando sua demografia oficial/ Reprodução: PDF oficial


Gráfico mostrando a diferença na distribuição de sócios e colaboradores por gênero/ reprodução: relatório oficial Abragames.
Gráfico mostrando a diferença na distribuição de sócios e colaboradores por gênero/ reprodução: relatório oficial Abragames.

As mulheres aparecem com 24,4%, número que cresce anualmente, mas que ainda parece insuficiente diante de uma área que se vende como criativa, livre e aberta ao novo. Há talento, há formação, há interesse mas nem todas conseguem. Já as pessoas não binárias, apenas 1,5% do total, surgem como um fragmento quase invisível nas estatísticas, evidenciando o quanto as dinâmicas de exclusão continuam naturalizadas. Não é ausência de potência; é ausência de espaço.


A concentração no eixo RJ-SP obriga talentos regionais a migrarem ou enfrentarem custos proibitivos para acessar investidores e eventos.
A concentração no eixo RJ-SP obriga talentos regionais a migrarem ou enfrentarem custos proibitivos para acessar investidores e eventos.

No mapa de indústria, a geografia nunca é neutra. Ano após ano, tudo parece apontar sempre para o mesmo espaço da bússola, onde só um canto recebe luz. O eixo RJ-SP sempre teve muito mais do que os outros estados tanto em mão de obra, recursos, indústria, e acima de tudo oportunidades. Afinal, onde os jogos são feitos determina a imagem e a bagagem que eles carregam, desde o sotaque de seus personagens, sua história e toda o nascimento de seus respectivos mundos.




Encerramento

Filipe salva seu projeto e estica os braços, ouvindo o som do ventilador que insiste em vibrar. João fecha o caderno e apaga as luzes do escritório, indo embora pensando no próximo nos planejamentos para o próximo dia . O mercado indie brasileiro ainda é terreno árido para muitos. Mas, enquanto houver criadores como eles, persistentes, sensíveis e guiados por mundos que carregam dentro, os jogos continuarão a nascer diferentes, profundos, marcados pela grande pluralidade de perspectivas que o país tenta negar, mas carrega no coração.















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