A fronteira social formada pelos trilhos de Nova Iguaçu
- Alunos UVA

- 1 de dez. de 2025
- 8 min de leitura
Atualizado: 2 de dez. de 2025
Reportagem multimídia revela como a linha férrea transforma o centro de Nova Iguaçu em territórios desiguais, separando oportunidades, políticas públicas e condições de vida
Por Karolina Costa e Taís Barreto

O primeiro trem do dia passa antes do sol nascer, fazendo o viaduto que cruza a estação de Nova Iguaçu vibrar. O barulho metálico percorre os muros que cercam os trilhos e chega até o pequeno aglomerado de papelões, colchões úmidos e sacolas onde dezenas de pessoas dormem. Entre elas está seu José, 65 anos, que desperta com o tremor e dobra o pedaço de papelão que lhe serviu de cama.
A rodoviária ganha movimento, viaturas deixam a delegacia, trabalhadores seguem para o Restaurante Popular e pessoas em situação de vulnerabilidade procuram o Centro POP (Centro de Referência Especializado para Pessoas em Situação de Rua). A estação, a rodoviária e os muros da linha férrea formam não apenas um conjunto arquitetônico, mas uma fronteira que molda o cotidiano de quem vive ali.
Do outro lado da ponte, a atmosfera já é outra. Lojas de grande porte abrem suas portas, praças arborizadas recebem os primeiros frequentadores, quadras esportivas e academias públicas são usadas antes do trabalho, bancos e farmácias funcionam em ritmo frenético. É uma área mais iluminada, mais cuidada e mais movimentada, um centro urbano construído para circular, consumir e pertencer.
Nesse intervalo tão curto, entre a sombra do viaduto e a área comercial que se estende adiante, a desigualdade aparece de forma quase palpável. Não é preciso percorrer longas distâncias para percebê-la: ela se revela em poucos metros, no trajeto estreito entre os trilhos e a ponte que conecta dois territórios que mal se reconhecem.
Desigualdade que se torna paisagem
Abaixo do viaduto, a cidade assume outra temporalidade. Ali convivem homens e mulheres marcados por perdas de vínculos familiares, desemprego prolongado, adoecimento mental, violência doméstica, dependência química ou anos de informalidade sem qualquer rede de apoio. Para muitos, a rua não é escolha, mas o único território possível diante da ausência de políticas habitacionais.
O contraste surge no instante em que alguém atravessa a ponte que liga os dois lados da estação. Felipe Alvarenga, estudante de 23 anos, faz esse trajeto diariamente em sua motocicleta elétrica. Para ele, a travessia é rápida, quase automática, mas a diferença entre os mundos que ela conecta é evidente:
“Nós sabemos que é desigual, mas se acostuma. Parece que são duas cidades diferentes.”

Seu José, se localiza abaixo do viaduto há pelo menos dois anos, desde que perdeu seu emprego e não teve condições de pagar o aluguel. Ele e os outros que dormem sob o viaduto dificilmente atravessam essa mesma ponte, apesar da proximidade física com o outro lado.
A gente sabe onde pode ficar. Aqui é o nosso canto.
Diz ele, observando o fluxo contínuo de quem passa por cima, rumo ao lado mais estruturado da cidade.
No ponto onde o comércio informal se mistura ao movimento da rodoviária, trabalha Mateus, 28 anos, comerciante. Ele lida diariamente com fluxos intensos e com a presença permanente de pessoas em situação de rua.
As pessoas de fora acham que aqui é perigoso. Mas quem mora aqui não incomoda ninguém. O problema da segurança vem de quem chega de fora. Só que a discriminação sobra pra gente.
As percepções de Felipe, José e Mateus se cruzam e revelam a mesma leitura: não é apenas o espaço físico que muda, mas o tratamento que cada lado recebe, na iluminação, na presença do Estado, no policiamento, na forma como é visto ou ignorado. A desigualdade se transforma em paisagem, repetida diariamente no vai e vem dos trens.
Centro POP
Nesse cenário, o Centro POP funciona como o suporte mais próximo de um abrigo que o município oferece. Ali, pessoas em situação de rua recebem atendimento, tomam banho, lavam roupas, guardam documentos e encontram uma equipe que tenta, dentro das limitações, reconstruir trajetórias interrompidas.

Segundo a assistente social Ana Carla das Neves, 46 anos, a maior demanda é a regularização da identificação civil. Como muitas vezes perderam tudo e não possuem nenhum registro, a equipe precisa reunir informações básicas e iniciar o processo de emissão dos documentos, incluindo a solicitação gratuita pelo site do GOV.
A perda constante desses registros é uma barreira diária:
Eles perdem por roubo, chuva, abordagem policial. Aqui guardamos em pastas individuais, mas alguns querem ficar com o documento e acabam perdendo de novo.
De acordo com o Diário Oficial de Nova Iguaçu, entre os meses de janeiro e agosto de 2024, o equipamento realizou 2.705 atendimentos, sendo uma média de 338,13, conforme o Sistema de Registro Mensal de Atendimentos, mesmo comportando apenas cerca de 80 usuários por dia. A equipe de assistência social realiza triagem, acompanhamento e encaminhamentos contínuos.
Ana Carla reforça que, antes dos números, existem histórias:
As pessoas acham que estão na rua porque querem. Mas quando olhamos as histórias, vemos que não é assim. Cada um tem um motivo.
Para ela, dar visibilidade ao serviço é essencial:
É fundamental dar visibilidade ao Centro, que muitas vezes é retratado de forma negativa pela mídia. Pouco se divulga sobre os serviços oferecidos e o impacto positivo que o Centro gera.
A rotina do Centro POP expõe o esforço de garantir direitos básicos a quem vive em uma cidade que investe e cuida de seus territórios de forma desigual.
A realidade vista sob o viaduto não é um ponto isolado, ela se repete em escala nacional. Flávio Lino, secretário executivo do Movimento Nacional da População de Rua do Rio de Janeiro (MNPR/RJ), apresentou um panorama sobre os países do BRICS e destacou que, no Brasil, com cerca de 216 milhões de habitantes, 9% vive em extrema pobreza e mais de 327 mil pessoas estão em situação de rua, concentradas principalmente nos grandes centros urbanos, como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Em Nova Iguaçu, o CadÚnico registra 662 pessoas nessa condição, um número preocupante para uma cidade que não possui abrigo municipal.
Assistência psicológica na fronteira
O Centro POP funciona como um ponto de reconstrução possível, mas para a equipe o trabalho vai muito além das tarefas operacionais: é lidar com a invisibilidade e o desgaste emocional de vidas marcadas por rupturas, perdas e abandono.
A psicóloga Thuanny Ribeiro, 33 anos, explica que cada processo precisa respeitar a autonomia da pessoa atendida:
Nós damos as possibilidades. Mas a pessoa escolhe se vai participar ou não. Não podemos obrigar ninguém.
Ela conta que muitos chegam ao Centro POP atravessando crises intensas, emocionais, familiares, de saúde mental ou relacionadas ao uso abusivo de álcool e drogas. E, em todos os casos, a falta de compreensão social pesa mais que qualquer diagnóstico:
Falta um olhar mais humano. As pessoas acham que quem está aqui quer estar aqui. Mas eles têm histórias, sofrimentos, direitos.

A psicóloga lembra que, para muitos, até o acesso à alimentação é uma estratégia diária de sobrevivência. O Restaurante Popular de Nova Iguaçu, localizado ao lado da rodoviária, cumpre um papel importante oferecendo refeições a preço simbólico. Mas, embora seja um equipamento essencial, não supre sozinho a demanda crescente.
A comida do Restaurante Popular ajuda, claro. Mas é muita gente disputando pouco recurso. A fila já mostra a desigualdade que a gente tenta enfrentar aqui todos os dias.
Thuanny também destaca como o próprio Centro POP é um serviço invisibilizado, até na formação profissional:
Quando fiz faculdade de Psicologia, meus professores não falaram sobre o Centro POP. É algo pouco conhecido. A mídia só lembra quando é para criticar, mas aqui existe humanização, orientação, cidadania.
Além das atividades internas, o Centro articula ações com o Consultório na Rua, equipe itinerante formada por médicos, psicólogos e assistentes sociais, que atende diretamente nos territórios e encaminha para o CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), para a RAPS (Rede de Atenção Psicossocial) e para outros equipamentos de saúde quando necessário. Para muitos, esse é o único acesso possível ao cuidado.
Mas, apesar do esforço coletivo, a ausência de abrigo municipal permanece como o ponto mais crítico:
É inacreditável uma cidade desse tamanho não ter abrigo. Encaminhamos menores e idosos, mas isso não resolve.
Entre vínculos, escuta e tentativas de reconstrução, o Centro POP revela uma assistência que sustenta diariamente uma desigualdade que se mostra nos trilhos, e nas vidas, que a cidade insiste em não enxergar.
Território e economia
A desigualdade de Nova Iguaçu não é apenas visível, ela é estruturante. Basta observar como os serviços públicos, o comércio, o transporte e até o fluxo de pessoas se organizam em torno dos trilhos.

Essa divisão não é acidental, explica a economista Caroline Moraes, que estuda desenvolvimento urbano e segregação socioeconômica. Para ela, a desigualdade se materializa de forma explícita no centro de Nova Iguaçu:
É quase uma fronteira material. Você olha e vê a divisão acontecendo ali, no próprio centro.
Caroline aponta que a lógica urbana brasileira empurra os mais pobres para regiões periféricas e concentra perto do centro aqueles que já possuem maior renda, ampliando ainda mais o ciclo de concentração de oportunidades, no caso de Nova iguaçu, ao lado direito da estação.
A desigualdade opera como um sistema fechado, que se retroalimenta. Quanto mais distante do centro, mais precárias são as condições de moradia, transporte e saneamento e quanto mais precárias essas condições, mais difícil é ascender socialmente. A mobilidade social é muito baixa, logo permanecer na pobreza é mais fácil do que sair dela.
Acesse o aúdio de entrevista onde economista fala sobre as divisões da cidade.
Para além da organização espacial, Caroline destaca um ponto incisivo: a desigualdade não é apenas tolerada , ela é útil a setores da economia. Muitas profissões que mantêm a cidade funcionando só se mantêm economicamente viáveis porque existe uma massa de pessoas em extrema vulnerabilidade aceitando salários baixíssimos, afirma a economista.
A estrutura urbana, então, não apenas reflete desigualdade: ela a produz e reproduz. Mesmo com investimentos estatais significativos como os R$ 57,2 milhões destinados ao município em 2024, o resultado não se distribui de maneira uniforme. Os recursos tendem a se concentrar em áreas já valorizadas, enquanto regiões como o entorno do viaduto seguem com intervenções lentas, parciais ou inexistentes.
O território revela, portanto, a desigualdade não apenas como um problema social, mas como parte da engrenagem que organiza a cidade. Onde o capital circula, o Estado aparece. Onde o capital não chega, o cuidado público se dissolve, deixando no concreto rachado dos trilhos a marca mais evidente de uma cidade que ainda não conseguiu se reconhecer como uma só.
Entre barreiras e possibilidades
Quando o fim da tarde chega e o trem volta a cortar os trilhos, Nova Iguaçu parece repetir seu próprio padrão: de um lado, a pressa; do outro, a permanência. As fronteiras que se impõem no território são profundas, e não feitas apenas de concreto, mas de decisões políticas, econômicas e sociais.
Esta reportagem mostra que a desigualdade não está escondida nas periferias: ela está exposta no centro, sob o viaduto, diante da estação, entre os prédios revitalizados e as calçadas improvisadas. Mas também revela que, onde há presença do Estado e da comunidade, surgem caminhos possíveis.
Para a economista Caroline Moraes, transformar esse cenário exige uma mudança de lógica:
Nova Iguaçu só vai superar essa divisão quando houver políticas que realmente se preocupem com o pobre, garantindo moradia, saneamento, infraestrutura, serviços públicos de qualidade e acesso ao trabalho.
Além disso, ela destaca que a transformação depende de múltiplos atores:
Projetos comunitários, associações locais e iniciativas sociais mostram que existem pontos de resistência. Quando o Estado se une à comunidade, o território muda. Uma cidade não é inteira enquanto parte dela é deixada para trás.
A economista também deixa uma mensagem para os leitores:
Entre o amanhecer silencioso de José e o andar apressado de Felipe, Nova Iguaçu revela suas fronteiras, mas também suas possibilidades. O futuro dependerá da capacidade de fazer com que a cidade, enfim, se reconheça como uma só.




A fronteira social formada pelos trilhos de Nova Iguaçu. Texto jornalístico de Karolina Costa e Taís Barreto foi escrito em 2025, mas bem poderia ter sido escrito, e com a maioria dos detalhes de hoje, a 50 anos ou mais. A população iguaçuana se refere aos dois lados de Nova Iguaçu, popularmente como: o lado "nobre" e o lado "pobre". A estrada de ferro corta o Centro de Nova Iguaçu delimitando esses dois lados. Do lado pobre encontramos a Av. Marechal Floriano Peixoto. Já o lado Nobre encontramos a rua Coronel Bernardino de Melo. Os pontos que ligam os dois lados são passarelas e viadutos, todavia o que chama atenção está em baixo dessas estruturas de concreto e ferro, s…
Boa reportagem, meninas!