A força do esporte universitário feminino, desafios, conquistas e união dentro e fora das quadras
- Alunos UVA

- 27 de nov. de 2025
- 12 min de leitura
História de mulheres que transformam o esporte universitário em um cenário mais forte e acolhedor, deixando um legado que ultrapassa quadras e medalhas.
Por Davi Inocêncio, Marcel Oliveira e Maria Victoria Chagas
Juliana Baere comemorando na Tuc 2022; Brenda Mosquéra durante semifinal do Jucs 2025 e Carol Miller celebrando após marcar/ Imagens: reprodução, Rick fotografia e Thiago Portix
O esporte universitário feminino vai muito além das competições. Ele vive nas quadras, nos vestiários, nas viagens e nas arquibancadas. É mais do que uma disputa por medalhas, é um espaço de pertencimento, transformação e afeto. Fora da quadra, ele traz outras coisas importantes: as amizades que se formam, as conquistas coletivas e as histórias que moldam quem cada atleta se torna.
Entre treinos, provas e trabalhos, o esporte aparece como ferramenta de equilíbrio. Ajuda na saúde mental e física, cria laços, realiza sonhos e se torna um espaço de convivência e união entre mulheres que compartilham o mesmo amor pelo jogo e enfrentam, lado a lado, os mesmos desafios.
Brenda Mosquéra, presidente da Atlética de Comunicação e Artes da UVA, lembra com felicidade das histórias que já viveu, e carrega o sentimento de gratidão mesmo com os desafios enfrentados. A jovem relembra o encantamento que sentiu desde o início.
"Assim que entrei me identifiquei muito com as pessoas, fiz amizades e comecei a carregar o amor", comenta.
Os antigos presidentes foram fundamentais nesse processo, ensinando e tendo paciência, e o sentimento que permeava seus pensamentos foi tomando forma, era questão de tempo até Brenda assumir a presidência.

Mas o caminho está longe de ser fácil. Mediar sonhos e orçamentos, disputar espaços de decisão, negociar recursos e driblar a escassez de investimento fazem parte da rotina de quem tenta manter o esporte vivo dentro das universidades. Tudo isso enquanto se luta por reconhecimento, estrutura e visibilidade.
Nesse percurso, as mulheres têm ocupado posições cada vez mais centrais. Nas quadras, nas diretorias e nas arquibancadas, elas imprimem novas formas de liderança e gestão, abrindo espaço para outras que virão. Os desafios ainda são muitos, mas é certo que a presença feminina tem transformado o esporte universitário em um ambiente mais plural, diverso e acolhedor.
Entre os gritos da torcida, uniformes que simbolizam cada atlética e o espírito de união que marca os jogos universitários, há também uma realidade que persiste: a dificuldade de manter o esporte universitário feminino ativo e competitivo. Na Universidade Veiga de Almeida (UVA), esse desafio tem raízes estruturais, financeiras e culturais.
Juliana Baere, ex-presidente da Atlética de Comunicação e Artes da UVA, viveu de perto esse cenário. Segundo ela, o período pós-pandemia trouxe um impacto direto nas verbas e na motivação. “O desafio maior do esporte universitário em geral é a falta de espaço de treino, a quadra, né? Durante a pandemia, a verba diminuiu consideravelmente porque os nossos eventos estavam parados e todo dinheiro vinha dos atletas”, relembra. A ex-presidente destaca que, apesar das dificuldades, as atletas mulheres se mostravam mais engajadas e comprometidas nas atividades da Atlética.

A falta de apoio institucional da universidade, no entanto, é uma dor que continua a incomodar os grupos esportivos. “A gente via a quadra ali, a gente sabia da condição financeira da Veiga de Almeida e eles não ajudavam a gente. Não pedíamos dinheiro, pedíamos o uso do espaço”, comenta Juliana. Para ela, enquanto outras universidades particulares tratam o esporte como ferramenta de integração e saúde, a Veiga ainda não definiu uma política clara sobre o tema.
A desigualdade de incentivo entre modalidades masculinas e femininas também é evidente e tem origem anterior à vida universitária, conforme mostra a reportagem “Meninas fora das quadras e o ‘fenômeno arquibancada’”, que cita a falta de diversificação das aulas por parte dos professores. Embora exista essa problemática nas escolas, o estudo “Women and Sports” feito pelo IBOPE Repucom revelou que o interesse médio das mulheres brasileiras pelos esportes cresceu 20% desde 2020.
Mesmo diante desse cenário, Juliana acredita na força do envolvimento feminino para transformar o ambiente esportivo. Ela mesma começou cedo.
“Já jogava handebol desde os nove anos. Quando entrei na Veiga, vi que a Atlética estava montando um time para o INTERUVA, que é uma competição interna entre atléticas de diferentes cursos da UVA, e foi assim que tudo começou”
Sua trajetória simboliza o esforço coletivo de mulheres que, mesmo com pouco apoio, seguem ocupando espaços e mostrando que o esporte universitário também é território delas.
A atual presidente da Atlética de Comunicação e Artes da UVA também falou sobre a falta de investimento e deu ideias para a valorização dos atletas. “A falta de incentivo da própria universidade com o esporte prejudica bastante, eles podiam colocar que participar de esporte poderia valer horas de atividades complementares, ou ceder uma quadra com qualidade para praticar esporte”, opina.
A reportagem buscou contato com a Comunicação Institucional e o Marketing da Veiga de Almeida mas até o momento não teve retorno.
A dificuldade de manter o esporte vivo não é exclusividade de uma única universidade. Em diferentes instituições, o pós-pandemia impôs um desafio comum: reconstruir o vínculo entre atletas, atléticas e a própria comunidade acadêmica. Carol Miller, ex-presidente da Atlética da ESPM e hoje jogadora profissional de handebol, relembra esse período de transição. “Na minha época eles não ajudavam com nada quando fui presidente, ainda mais pelo período e porque a instituição estava mudando de campus”. Carol ainda afirma que entende a falta de auxílio na época devido esses fatores, mas destaca que por mais que fosse limitado, houve incentivo em outras gestões.

A manutenção do esporte universitário envolve custos constantes com uniformes, inscrições, viagens, técnicos, entre outras coisas. E tudo isso recai sobre estudantes que, em grande parte, estão começando a vida adulta e ainda não têm estabilidade financeira.
A rotina e o desafio de conciliar estudos, treinos e trabalho
Provas, estágios, trabalhos e projetos, a vida de muitas universitárias, por si só, já é uma maratona. E, no meio disso, ainda é preciso encontrar tempo para treinar. Isso exige disciplina, dedicação e, acima de tudo, amor pelo que se faz. Há dias que parecem infinitos, marcados por jornadas que começam cedo e terminam tarde. Manhãs de trabalho, aulas e ainda os treinos à noite.
Muitas vezes chegar aos treinos é uma das principais dificuldades das atletas, e o técnico do time de futsal feminino da Veiga de Almeida Fábio Cirazo, mais conhecido como Fabão, aponta esse como um dos principais desafios de treinar um time universitário.
“O mais difícil é fazer a atleta ir ao treino, fazê-la treinar, tem times que se entregam muito e outros com muitas ausências, então a assiduidade é a parte mais desafiadora”.
A rotina é intensa e o tempo para descanso é escasso, pois mesmo depois de chegar em casa exausta, ainda há trabalhos para entregar. Faz parte do processo e esse desafio é retratado pela Agência Brasil ao mostrar como as ligas universitárias desafiam estudantes a conciliar esporte e vida acadêmica.
Mas, entre o cansaço físico e as cobranças da faculdade, o esporte também vira refúgio. O treino se transforma em ponto de encontro, em diversão com as amigas, um respiro no meio do caos. Muitas dessas atletas ainda abrem mão dos fins de semana para estar nas quadras jogando, torcendo ou simplesmente apoiando quem veste a mesma camisa.
O médico desportivo Dr. Marco Bruno mostra a importância dessa prática tanto para saúde física quanto mental dessas atletas.
“Nas últimas décadas, a gente tem estudos consistentes comprovando que ao praticar exercícios principalmente de força, de treinamento ditos resistidos, você consegue produzir substâncias que favorecem o funcionamento da memória, do foco, da atenção e também melhora indicadores de saúde mental, dentre eles a ansiedade, e também diminuiu os índices de depressão”, Marco ainda afirma que estudos comprovam que a prática de exercícios previne doenças neurodegenerativas.
União e amizade dentro e fora das quadras
“A família que eu escolhi, eu ganhei na atlética"
Juliana Baere
É dessa maneira que Juliana resume o que o esporte universitário representa para tanta gente.
O que ele constrói vai muito além dos troféus, porque os campeonatos passam, as medalhas enferrujam, as derrotas são esquecidas, mas o que fica mesmo são as pessoas. O sentimento de pertencimento e de família que nasce dentro da atlética. São as memórias, os aprendizados e os vínculos que ultrapassam o esporte.
Ali no meio dessa rede de afetos também surgem histórias que mudam caminhos. A atual presidente, Brenda, é exemplo disso. Foi na atlética que ela encontrou seus melhores amigos, descobriu sua base profissional e conheceu o amor da sua vida, Marina, hoje sua noiva. O pedido de casamento aconteceu justamente no JUCS, no mesmo lugar onde viveram tantas histórias. “Conheci o amor da minha vida lá e meus melhores amigos. Minha base profissional veio da atlética”, resume. Para ela, a atlética não é só um espaço, é um ponto de virada, um lugar que transformou sua vida dentro e fora das quadras.

A atlética é, antes de tudo, um espaço de identificação e pertencimento. Um lugar onde as pessoas se encontram, se apoiam e aprendem juntas. Onde o companheirismo é essencial, e a amizade se constrói nos bastidores, nas viagens, nas conversas depois dos treinos, nas comemorações, nas derrotas compartilhadas e nas risadas que aliviam o cansaço. É ali que as atletas entendem que o esporte vai muito além da competição.
A atlética, para quem vive, é mais do que um time: é uma casa. Um lugar onde se aprende a liderar, a ter resiliência e, principalmente, a compartilhar o tempo, o amor pelo esporte e os laços que o tornam inesquecível.
Juliana Baere também fala sobre as mulheres que vieram antes e que ajudaram a moldar essa trajetória. “A comunicação Veiga sempre foi uma atlética de mulheres fortes e referências, como a Maria Paula, Vivi, Paixão, Choum e a Letícia. Manter o legado dessas pessoas é muito legal e a coisa vai se misturando: a gente joga, organiza, participa, vai pra festa, e ali dentro daquele universo, você começa a ser a ‘Baere’ que as pessoas torcem”.
Juliana carrega o orgulho de quem viu a atlética crescer e, hoje, é parte essencial dessa história. Depois de tantos anos, ela se tornou também uma referência. É respeitada e admirada por quem veio depois, por aquelas que encontraram nela um exemplo de liderança, entrega e amor pelo que faz. “Como mulher no esporte universitário, chegar em Vassouras depois de 10 anos e ver que as pessoas me respeitam é maneiro. A sensação de ir numa final como diretora e ouvir ‘você merece essa medalha, porque sem você, a gente nem teria vindo pra competição’ é surreal. É dever cumprido mesmo”.
Carol Miller viveu intensamente o esporte universitário e também leva consigo essa sensação de casa. Em seu texto de despedida da gestão, escreveu.
“A Atlética foi e, convenhamos, sempre será uma casa para mim desde 2019. A Carol, que até então tinha 17 anos e precisava de autorização responsável para ir jogar, jamais conseguiria imaginar o tanto de momentos que ela iria viver agarrada nesse sentimento louco e indescritível”.

Assim como Juliana, Carol também reconhece o papel das mulheres que vieram antes e a importância dessas referências no esporte. “Sou eternamente grata àquelas que me abriram as portas para que eu entrasse nesse ‘bando de loucos’ lá em 2019; àquelas que me permitiram representar essa bandeira junto de outra mulher em 2021; e àquelas que celebraram comigo as vitórias e me abraçaram nos meus maiores medos. Ser uma atleta mulher no esporte tem o seu peso, e saber que minha vivência com a atlética foi cercada de mulheres fodas para me servirem de inspiração é uma verdadeira afronta”.
Essas histórias mostram que o esporte universitário é feito de vínculos. De mulheres que se inspiram e se impulsionam, que dividem conquistas e medos, que crescem juntas dentro e fora das quadras. O que permanece são as pessoas que caminharam ao lado, que ajudaram a carregar o peso das responsabilidades e a celebrar as pequenas conquistas do caminho.
Visibilidade e impacto do esporte na vida das atletas
A visibilidade do esporte universitário feminino tem crescido de forma constante, mas ainda enfrenta barreiras históricas que limitam o reconhecimento e o alcance de suas atletas. Em um cenário esportivo dominado por narrativas masculinas, o espaço conquistado pelas mulheres dentro das universidades simboliza mais do que vitórias em quadra, representa a quebra de padrões e a ocupação de lugares que antes pareciam inalcançáveis.
De acordo com a CBDU, o número de mulheres em competições universitárias bateu recorde nos últimos anos com a estreia de modalidades mistas e aumento expressivo na participação feminina, a edição de 2025 dos Jogos Universitários contou com 379 atletas mulheres, representando 44.02% dos participantes, simbolizando um crescimento de 10,34% em comparação à edição anterior.
Para o técnico de futsal feminino da Veiga de Almeida, Fabão, que acompanha de perto essa trajetória, o avanço do esporte universitário feminino foi “muito, muito acelerado”. Ele destaca que hoje a maioria dos times que jogam a federação no futsal feminino conta com atletas universitárias: “Tanto os times grandes, como o Vasco, que são ex-campeões, quanto São Gonçalo e Portuguesa. As atletas universitárias estão predominando e fazendo muito bonito, subindo o nível da competição”.
Apesar disso, o técnico reconhece que o desenvolvimento do feminino foi mais tardio e desafiador. “No masculino, a evolução foi mais rápida. Em 2015, 2016, foi criada uma seleção universitária para disputar a federação, e no feminino, infelizmente, isso não aconteceu. Tentamos, mas não conseguimos”. A fala de Fabão reflete o esforço coletivo de um movimento que, mesmo com menos recursos, se fortalece pela dedicação das próprias atletas e pelo apoio de comunidades esportivas dentro das universidades.

É nesse contexto que surge a trajetória de Carol Miller, ex-presidente da Atlética da ESPM e hoje jogadora profissional de handebol. Sua história representa a continuidade desse movimento de transformação, um símbolo de como o esporte universitário pode ser ponto de partida para carreiras sólidas e inspiradoras.
Carol descobriu o curso quase por acaso, mas foi a Atlética que a fez escolher a faculdade. Ao ver o movimento esportivo da ESPM, ela decidiu que queria fazer parte daquilo. A princípio, se envolveu apenas por gostar do esporte, mas, aos poucos, se identificou e se viu completamente inserida naquele ambiente, nas pessoas, nos valores, nas amizades.
A vivência dentro do esporte universitário ajudou Carol tanto como atleta quanto como pessoa. Não só pela performance, mas pelo pertencimento e pelas oportunidades que ele cria, ali ela conheceu muitas pessoas, aprendeu a lidar com diferentes personalidades, e esse processo de convivência e aprendizado coletivo trouxe não só maturidade, mas também autoconfiança e pertencimento.
Carol conta que, hoje como jogadora, carrega muito do que viveu no universitário.

O corpo e a mente em movimento
O corpo é a primeira ferramenta de uma atleta e também o primeiro campo de batalha. Treinos, competições e a rotina universitária impõem uma cobrança constante, não apenas física, mas também emocional. No esporte feminino, essa equação ganha novas variáveis: o impacto hormonal, a dupla jornada e a necessidade de provar, dia após dia, que o desempenho não depende de gênero, mas de preparo e conhecimento sobre si mesma.
Cuidar do corpo, no entanto, é mais do que buscar performance. É preservar a mente, evitar lesões e garantir o equilíbrio necessário para seguir competindo. De acordo com o Conselho Regional de Educação Física do Rio de Janeiro (CREF11), a prática regular de atividade física tem efeito direto na prevenção de quadros de ansiedade e depressão, além de favorecer a regulação hormonal e o bem-estar geral. Para as atletas universitárias, esse equilíbrio é o que permite atravessar semanas longas, repletas de provas, estágios e treinos noturnos.
A ciência reforça o que muitas mulheres já sentem na prática. Um estudo publicado na PubMed Central em 2021 mostra que as diferentes fases do ciclo menstrual afetam a performance esportiva de forma significativa, mas individual. Na fase folicular, quando o estrogênio está em alta, o corpo tende a utilizar melhor os carboidratos e responde com mais energia e resistência. Já na fase lútea, o aumento da progesterona pode gerar maior fadiga e exigir ajustes de intensidade nos treinos. Entender essas variações é essencial para proteger a saúde e adaptar o desempenho de maneira inteligente.
Por isso, a presença de profissionais de diferentes áreas da saúde é fundamental para o bom desempenho de um atleta, e o Dr. Marco Bruno reforça essa tese.
“É fundamental na abordagem do atleta uma assistência chamada multidisciplinar, onde o atleta tem acesso a médicos do esporte, fisioterapeuta, psicólogo, nutricionista, fisiatra, massoterapeuta e também a interdisciplinaridade, que ocorre quando esses profissionais interagem entre si”, algo pouco valorizado no Brasil, mas que em universidades dos Estados Unidos já acontece.
A intercambista Anna Monglio, que veio ao Brasil de férias, se apaixonou pelo Rio de Janeiro e resolveu ficar na “Cidade Maravilhosa”, era atleta do time de futebol da New York University e falou como era o tratamento com as jogadoras.
“Tínhamos um link disponibilizado para nos inscrevemos antes nas aulas e conciliarmos com os treinos e a rotina. Na parte da saúde tínhamos um psicólogo do esporte, um fisioterapeuta, além de outros funcionários para apoiar nosso desenvolvimento”, a fala de Anna demonstra o quanto o esporte universitário feminino brasileiro é desvalorizado e mesmo assim é marcado por histórias, gerações e vínculos que vão muito além das quadras.
São vidas que se cruzam e se misturam a cada treino, jogo e viagem. São gestões que deixam marcas que vão muito além de qualquer premiação. É sobre as pessoas que constroem esse movimento todos os dias, as que começaram lá atrás, as que continuam hoje e as que ainda vão chegar.
O esporte universitário é amor. E é esse amor que move, que faz valer a pena, que ajuda a seguir mesmo diante das dificuldades estruturais. É o elo em comum entre todas as histórias e o que mantém vivas as atléticas, feitas de pertencimento, amizade e superação.
Porque o esporte universitário é, antes de tudo, sobre pessoas. Sobre as mulheres que se apoiam, se inspiram e se descobrem juntas. E enquanto houver alguém disposta a vestir essa camisa, o legado do esporte seguirá vivo dentro e fora das quadras.
































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