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A conexão do samba com o centro do Rio

  • Foto do escritor: Alunos UVA
    Alunos UVA
  • 2 de dez. de 2025
  • 6 min de leitura

Atualizado: 9 de dez. de 2025

Por Luiz Christo e Rodrigo Pinho


Há duas coisas que marcam a personalidade e história de quase todo carioca: o samba e o centro da cidade. É raro encontrar algum morador da cidade maravilhosa que já não teve sua vida ligada a uma delas, seja por trabalho, entretenimento ou até para fazer umas comprinhas.


O samba é um dos estilos musicais mais tradicionais do Rio e está diretamente ligada a um dos maiores eventos anuais da cidade, que é o carnaval carioca com o desfile das escolas de samba na Marquês de Sapucaí. Curiosamente, o local do desfile é no centro do Rio. Mas será essa a única coisa que conecta o samba ao centro da cidade maravilhosa?


“O samba vai crescendo à medida que a gente tem o processo de reurbanização”, diz Thiago Rodrigues, professor e mestre em ensino de história. Entenda a história, importância e como o samba gira a economia do Centro atualmente.


A História do Samba no Centro


O centro do Rio já passou por diversas transformações. No princípio existia uma disputa entre França e Portugal pelo território e nesse momento o governador geral do Brasil, Mem de Sá, colocou seu sobrinho Estácio de Sá para estabelecer o domínio português na região. O Rio de Janeiro foi construído à beira da Bahia de Guanabara e se tornou sede de governo da colônia, e isso só mudou na década de 60 quando a capital foi transferida para Brasília.


Imagem 1 - Fonte: Viajando pelo Rio


Essa área área Central do Rio se desenvolveu economicamente e se tornou a concentração de moradia dos ex -escravos. Após a realização da lei que aboliu a escravatura (1988), os libertos buscavam locais onde houvesse emprego e moradia barata. O professor Thiago Rodrigues afirma: “E muitos desses homens, no caso, que são os descendentes de escravizados, nessa marginalidade da não inclusão da população negra durante o processo de fim de escravidão e de formação da sociedade e também de uma fragilidade muito grande em torno da industrialização, onde muitos desses homens viam na oportunidade de outras atividades, atividades que não estão ligadas basicamente a uma regulamentação desse trabalho, como jogos de azar, como até mesmo sendo cafetão de mulheres.”


O samba chega ao Rio principalmente pelos descendentes de negros africanos vindo da Bahia e outras regiões do nordeste. Esses grupos migraram para o sudeste em busca de melhores condições sociais e econômicas e consigo trouxeram suas tradições musicais e religiosas que, ao se encontrarem e se adaptarem nas ruas e comunidades do centro do Rio, deram origem ao samba urbano carioca. Assim nasceu o samba no Rio.


O primeiro registro audiovisual de um samba acontece no Centro, na casa da Tia Ciata. Ali, entre rodas de cantores e compositores amadores, ecoavam as primeiras notas do samba que, em 1917, com a música ''Pelo telefone'',de Donga, consolidou-se no Carnaval carioca. A polícia podia prender por até 30 dias quem estivesse na rua sem comprovar que trabalhava — uma lei que criminaliza os ritmos populares. Segundo Thiago Rodrigues, ‘’a tia Ciata ela está dentro desse contexto. Ela é uma das ialorixás, uma mãe pequena. Então ela tem um terreiro. O Pixinguinha mesmo falava que na sua casa existiam vários espaços de construção dessa sociabilidade negra, diferentes formas de execução do próprio ritmo. Na sala tinha o choro, na cozinha a batucada e mais no fundo a pernada’’


O samba acabou sendo enquadrado como um símbolo de criminalidade. Por que essa perseguição? Segundo Ivan Gomes, formado em administração com especialização em entretenimento, era o reflexo do desejo da elite de ser "parecida com Paris". O Rio da época ostentava confeitarias, colégios e prédios que copiavam a Europa, enquanto o samba, música do povo preto e da rua, era visto com preconceito e rejeição. "Naquela época, nós só queríamos ser brancos e parecidos com Paris ao máximo’’, lembra Ivan. Hoje, o samba é não apenas um patrimônio cultural, mas também um motor econômico e símbolo de resistência e identidade do povo carioca. Você sabe por quê o samba não morre? ‘’Porque ele é identidade’’, diz Iván Gomes. Declaração forte, né? Pode-se concordar com ela, no entanto essa frase não se encaixa na categoria ‘’frases de efeito’’ que você lê no Facebook ou algum post do Instagram. Se encaixa melhor em ‘’frases históricas’’, porque esse é o sentimento dos que entendem o que conecta a história do samba com o Rio de Janeiro. O samba não morre, porque ele é nossa identidade, ele é carioca, é cultura e pertence a todos. Esse é o nosso samba.


Imagem 2 - Luiz Christo


Carnaval Carioca e a Sapucaí


Um grande marco da cultura do Rio de Janeiro é o Carnaval no Sambódromo, localizado na Avenida Marquês de Sapucaí. Inaugurado em 1984, o local é um marco na cidade e ponto obrigatório para turistas que vêm curtir a folia.O local é chamado pelos cariocas de Marquês de Sapucaí em homenagem a Cândido José de Araújo Viana, nome importante no meio jurídico e que foi nomeado professor de Dom Pedro II. Lucas Santiago, membro da Bateria Furiosa do Salgueiro e Mestre da Bateria Aprendizes do Salgueiro (mirim), falou um pouco sobre a importância da Sapucaí para as escolas de samba: “Antigamente os desfiles eram feitos nas ruas, não tinha muita organização, nem para as escolas e nem para o público. Com a construção da Sapucaí esse espetáculo que são os desfiles ganha um palco fixo, organizado, com uma estrutura decente, o desfile ganha padrões e proporções nunca vistas, o show ganha o mundo! A Sapucaí possibilita que o carnaval ganhe a grandiosidade e a visibilidade de hoje! Refletindo isso pras comunidades se tem um olhar maior para essas comunidades, para os artistas dessas comunidades! Esses artistas ganham um palco digno do seu espetáculo, e esse palco se chama Sapucaí!”


Segundo dados da Prefeitura do Rio, 5.7 bilhões foi o valor impulsionado pelo Carnaval 2025. Pela primeira vez o estado dedicou sete dias do ano à festa e os resultados vão muito além da folia. Segundo levantamento da equipe do ‘’Carnaval de Dados’’, nos 12 meses de 2024 o Rio movimentou 6.4 bilhões com turismo. E aquele valor cheio de zeros foi impulsionado apenas no mês do Carnaval 2025. O governo do Rio explora e lucra ao usar o feriado como ‘’soft power’’ carioca. Isso significa que o evento é um uso estratégico da influência, imagem e reputação para projetar o Rio no cenário internacional. As escolas de samba constituem um dos principais ativos da imagem do Rio e do Brasil para o mundo.


Imagem 3 - Fonte (Carnaval de Dados e Gov.com)


Atualmente, o Sambódromo é responsável por movimentar a economia e o turismo do Rio de Janeiro e atrair pessoas anualmente para o Centro da cidade com os desfiles das escolas de samba dos grupos especial e de acesso. Ao todo, 27 escolas se apresentam no local, sendo 15 do grupo de acesso em duas noites e 12 do grupo especial em três noites, além do Desfile das Campeãs, que ocorre no sábado e se apresentam novamente as 6 primeiras colocadas do grupo especial, totalizando seis dias de desfile.


“Tem vários desafios que um desfilante enfrenta. Às vezes é a fantasia que está pequena, ou o sapato que não cabe, aí o carnavalesco inventar de pintar o rosto, ou bota um chapéu muito pesado, a fantasia muito quente… mas sem dúvidas o maior desafio é segurar a emoção. Quando você vira pra entrar na avenida e vê aquilo lotado, as alegorias acesas, o povo cantando e vibrando junto com a escola, a emoção bate de uma forma inexplicável! Sem dúvidas esse é o maior desafio.” disse Lucas sobre os desafios de desfilar nesse palco histórico do samba.


Revitalização do Sambódromo


Em maio deste ano, o prefeito Eduardo Paes anunciou a revitalização no centro do Rio e isso atingiu diretamente o berço do samba carioca e seu desenvolvimento. O prefeito afirma ‘’Vamos voltar a fazer do Rio de Janeiro o centro do mundo’’. O projeto foi nomeado de ‘’Reviver centro’’ e promete a demolição do viaduto 31 de março em toda sua extensão, disponibilizando uma área de até 700 mil metros quadrados. O Sambódromo ganhará uma estrutura de logística atrás de cada módulo de arquibancada e permitirá que cada um possa ser alugado para a realização de eventos culturais, festivos, de negócios, durante todo o ano. O Terreirão do Samba terá o seu espaço reformado e receberá uma casa de espetáculos, além de um parque.


Imagem 4 - Fonte (AgenciaBrasil)


Mesmo com as melhorias, ainda existem muitos desafios a serem superados e pontos a serem melhorados na avenida, Vinícius Carneiro, desfilante desde 2010, falou sobre isso: “O que falta para melhorar a experiência na Sapucaí é uma melhor estrutura de som no dia dos desfiles e, também, durante os ensaios técnicos. Além disso, falta um cuidado maior com acessibilidade, ainda mais nesse contexto de nova iluminação da avenida.”





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