Violência explode e afasta torcedores dos estádios do Rio de Janeiro
- Alunos UVA

- 2 de dez. de 2025
- 9 min de leitura
O aumento da violência nos estádios do Rio transformou a paixão em pavor, afastando torcedores e ameaçando a essência do futebol carioca.
Por Joaquim Pinto e Rian Oliveira

Em um jogo que a tensão predominava desde o minuto zero, todos os aficionados pelo Vasco da Gama presentes no estádio de São Januário sabiam que a depender do resultado final, a noite de cada um ali poderia ser muito complicada. Bernardo, acompanhado de seus amigos presenciou mais uma amarga derrota de seu time naquele fatídico ano de dois mil e vinte e dois.
A questão é que além de ver a derrota de seu time, mal sabia ele que logo mais presenciaria uma verdadeira guerra no estádio. Com a revolta de alguns malfeitores disfarçados de torcedores, a polícia foi obrigada a entrar no estádio para tentar contê-los com bombas, gás de pimenta e abusando da violência com seus cassetetes. Muito torcedores horrorizados com as cenas que viam, Bernardo não ficou de fora: “Foi horrível aquele dia, tudo deu errado. Não sei o que foi pior, se foi meu time, a polícia despreparada batendo em torcedores de bem, jogando gases de pimenta na gente que só queria se proteger ou os torcedores descontrolados que só queriam saber de quebrar qualquer coisa que viam pela frente.
Durante décadas, os estádios do Rio de Janeiro foram mais do que palcos esportivos, eram territórios de pertencimento cultural. Ir ao Maracanã ou a São Januário era uma celebração coletiva, passada de pais para filhos, marcadas por cantos, cores e rivalidades que mesmo sendo intensas, raramente ultrapassavam os limites da paixão. No entanto, os últimos anos foram caóticos e a atmosfera mudou completamente. A violência, que antes era marcada por episódios isolados, hoje se trata de algo normal e rotineiro na maioria dos clássicos cariocas. Atualmente, os torcedores sentem que passar pela catraca é cruzar o limite entre o lazer e o risco.
Quando o Medo Substitui a Festa: A Experiência Abalada de Ir ao Estádio
Em meio a todo caos proporcionado em jogos no Rio de Janeiro, os torcedores cada vez mais deixam de pensar em uma partida de futebol de forma alegre e despretensiosa. Agora o mais importante é se preparar para sair e voltar para casa em segurança sem passar por nenhum perrengue ou confusão. A editora do Blog Fim de Jogo e DC Press, Cris Dissat comentou sobre como a violência nos estádios muda a experiência e como isso afeta a convivência nos estádios: “Quando você vai para o estádio com a preocupação do que pode acontecer, você começa uma sensação de insegurança”.
Entre a Paixão e o Medo: O Que Afasta o Torcedor Carioca das Arquibancadas
A sensação de insegurança ainda é um dos principais fatores que afastam torcedores dos estádios brasileiros. A pesquisa O Maior Raio-X do Torcedor 2024, realizada pela Quaest em parceria com CNN Brasil e Rádio Itatiaia, ouviu mais de 6 mil pessoas em 278 cidades e revelou que 33% dos torcedores não se sentem seguros nas arquibancadas. Entre as mulheres, esse número sobe para 40%, enquanto entre os homens fica em 27%. A percepção pesa diretamente no comportamento do público: 1 em cada 5 torcedores afirma deixar de ir ao estádio por medo de episódios violentos, e 76% dizem preferir assistir aos jogos em casa — a maior taxa desde o início das medições.
No Rio de Janeiro, o cenário tem características próprias. Dados do BEPE-PM-RJ mostram que os estádios cariocas receberam 4,88 milhões de torcedores em 2023, um aumento considerável em relação aos 3,6 milhões de 2022, mesmo com menos jogos disputados. Segundo o batalhão, o crescimento está ligado a um esforço para reforçar a sensação de segurança: policiamento ampliado, fiscalização de acesso e ordenamento no entorno dos estádios.
Mas os riscos não estão concentrados apenas dentro das arenas. Relatórios do Observatório Social do Futebol, ligado ao LEME/UERJ, indicam que 37% dos confrontos relacionados ao futebol acontecem no entorno dos estádios — e não nas partidas. Em alguns registros, a violência ocorre a mais de 5 km das arenas, mostrando que o problema se espalha pelo trajeto do torcedor, pelos meios de transporte e pelos pontos de concentração das torcidas. Não se trata apenas de controlar o portão de entrada: é uma questão que envolve mobilidade urbana, planejamento e políticas públicas que excedem o jogo em si.
Além da violência física, cresce também o número de incidentes discriminatórios.
O Observatório da Discriminação Racial no Futebol, da CBF, contabilizou 136 casos de racismo em competições brasileiras em 2023, um aumento de quase 40% em relação ao ano anterior. Destes, 104 aconteceram dentro dos estádios, reforçando que, para muitos torcedores, especialmente grupos vulneráveis, a hostilidade ainda faz parte da experiência.

Conflitos que Começam nas Ruas: A Dinâmica das Torcidas Organizadas
A relação entre conflitos nas arquibancadas e torcidas organizadas costuma ser mostrada de forma muito direta pelos relatos e investigações reunidos em produções como Territórios do Torcer e o episódio Paixão e fúria das torcidas organizadas do programa Caminhos da Reportagem. Esses materiais ajudam a entender como a dinâmica interna das torcidas, somada a rivalidades históricas, acaba criando um ambiente propício a confrontos. Em Territórios do Torcer, líderes de torcidas explicam como a identidade do grupo é moldada por territórios, trajetórias de bairro e símbolos de pertencimento que, ao mesmo tempo em que fortalecem a comunidade, também alimentam disputas antigas.
O documentário mostra que muitos conflitos começam muito antes do jogo, nas ruas, nos trajetos e nas disputas por espaço, e que parte da violência nasce dessa tentativa de afirmação diante do rival.
No Caminhos da Reportagem, o recorte é mais duro. O programa detalha episódios de violência envolvendo torcidas organizadas no Brasil, incluindo casos marcantes no Rio de Janeiro. São mostrados assassinatos, emboscadas, brigas marcadas e a participação de grupos criminosos que se infiltram nas torcidas para usar o espaço do futebol e da arquibancada como forma de influência e poder. Autoridades entrevistadas no episódio explicam como essas ações se conectam diretamente com a insegurança nas ruas e com os riscos que recaem sobre torcedores comuns que apenas tentam chegar ao estádio. O programa expõe também como essas situações impactam a imagem da cidade, a operação dos jogos e a dificuldade de garantir um ambiente seguro, principalmente em clássicos que já carregam rivalidades fortes.
Juntas, essas duas fontes ajudam a compreender que os conflitos nas arquibancadas não acontecem de forma isolada e não se limitam apenas ao momento do jogo. Eles fazem parte de estruturas sociais, disputas por território, relações internas das organizadas, heranças históricas e até interferências externas de grupos criminosos. Essa combinação cria um cenário onde episódios de violência se repetem, ganham repercussão imediata na mídia e influenciam a percepção da população sobre segurança, estádios e a própria experiência de torcer. É um fenômeno que ultrapassa a ideia de torcedores rivais que não se gostam e revela camadas mais profundas sobre como o futebol, a cidade e a cultura das torcidas se cruzam.
A Cidade em Alerta: O Impacto Social da Violência nos Dias de Jogo
A violência ligada ao futebol no Rio de Janeiro ultrapassa os limites dos estádios e interfere diretamente na dinâmica da cidade. Em dias de jogos grandes, especialmente clássicos, o entorno de locais como Maracanã, São Januário e Nilton Santos se transforma: vias ficam bloqueadas, linhas de ônibus mudam de trajeto e estações de metrô precisam controlar acessos. Quando há risco de confrontos entre torcidas, esses ajustes se tornam mais bruscos e a cidade entra em um modo de atenção que atinge até quem não pretende acompanhar a partida.
Relatórios do ISP-RJ (Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro) ajudam a entender esse cenário. O ISP é o órgão oficial do governo responsável por compilar, analisar e divulgar estatísticas de criminalidade e violência no estado. É ele que monitora ocorrências em dias de jogo, registrando aumentos de tumultos, lesões corporais, depredações e conflitos no entorno dos estádios. Esses dados mostram que partidas de maior apelo tendem a gerar picos de registros, impactando trânsito, mobilidade e sensação de segurança.
Pesquisas de campo e análises do Observatório da Violência nos Estádios, ligado ao LEME/UERJ, reforçam essa leitura ao ouvir moradores e comerciantes afetados. Em bairros como Maracanã, Tijuca, Riachuelo e São Cristóvão, moradores relatam mudanças claras na rotina: evitam circular a pé, antecipam ou adiam compromissos e raramente passam próximos aos estádios no período que antecede ou sucede as partidas. Mesmo quem não tem relação com futebol desenvolve um reflexo de “alerta” nesses dias.
O comércio local também sente o impacto de forma direta. Quando a expectativa é de um jogo tranquilo, bares, restaurantes, ambulantes e quiosques veem o movimento crescer e lucram com a presença de torcedores. Mas basta a suspeita de confronto para esse fluxo cair. Comerciantes entrevistados em estudos do LEME relatam que, após episódios de violência, o faturamento despencou porque famílias deixam de ir ao estádio, torcedores chegam em cima da hora para evitar as ruas e muitos estabelecimentos preferem fechar mais cedo por segurança. Em alguns casos, donos de pequenos negócios afirmam que o prejuízo de um único dia de conflito supera o ganho de vários jogos tranquilos.
A percepção da população sobre o futebol também se transforma. Para muitos cariocas, principalmente moradores próximos aos estádios, o dia de jogo deixa de representar festa e passa a ser associado a risco. A presença de policiamento pesado, as brigas entre organizadas e os bloqueios de vias reforçam a ideia de que o espetáculo esportivo não é totalmente seguro. Essa leitura afasta parte do público, especialmente famílias, mulheres e pessoas que já presenciaram algum tumulto e reduz a circulação de quem estaria disposto a consumir no entorno.
No fim, a violência cria uma cadeia de efeitos que vai além do esporte. Ela altera a mobilidade urbana, atrapalha a vida cotidiana, inibe o comércio, reforça a sensação de insegurança e restringe o acesso ao futebol. Os estudos do ISP-RJ e do Observatório do LEME apontam para a mesma conclusão: quando a cidade teme o jogo, ela perde mais do que o espetáculo perde sua capacidade de convivência.
Caminhos para a Paz: Medidas e Transformações no Futebol Carioca
A violência ligada ao futebol no Rio de Janeiro provoca efeitos que ultrapassam o campo e atingem diretamente a cidade, o comércio e a rotina da população. Por isso, diferentes instituições têm buscado caminhos para transformar esse ambiente por meio da mediação, da educação e de campanhas de conscientização, criando alternativas reais para reduzir tensões e melhorar a convivência nos dias de jogo.
A mediação de conflitos tem ganhado importância no cenário carioca. O GEPE, o Grupamento Especial de Policiamento em Estádios, atua em parceria com o Ministério Público do Rio para organizar deslocamentos, separar fluxos de torcidas e intervir antes que situações de risco evoluam para confrontos. Em partidas de maior pressão, equipes formadas por profissionais de segurança, educadores esportivos e psicólogos trabalham diretamente no entorno dos estádios. A presença de mediadores treinados tem contribuído para identificar provocações, orientar torcedores e evitar brigas que antes eram comuns nas ruas que levam ao Maracanã, a São Januário e ao Nilton Santos.
Os projetos educativos também mostram impacto crescente. Os clubes do Rio vêm investindo em ações internas voltadas aos jovens torcedores e atletas da base, discutindo respeito às diferenças, combate ao racismo e convivência nas arquibancadas. Iniciativas externas, como programas comunitários promovidos por organizações sociais como o Esporte pela Paz, aproximam crianças e adolescentes de uma visão mais cidadã do futebol, ajudando a reduzir a ideia de que rivalidade precisa ser sinônimo de violência. Essas atividades, realizadas em escolas, centros esportivos e comunidades próximas aos estádios, contribuem silenciosamente para mudar a cultura do torcer desde cedo.
As campanhas de respeito também se tornaram um recurso importante para clubes e instituições. A FERJ tem incentivado ações conjuntas em clássicos, reforçando mensagens de convivência pacífica e incentivando o torcedor a denunciar agressões e atitudes discriminatórias. Grupos independentes como Futebol Sem Ódio e Anjos da Arquibancada também encontram espaço para atuar distribuindo informativos, cartazes e materiais educativos antes das partidas. Essas campanhas não resolvem o problema sozinhas, mas ajudam a reforçar um clima de cobrança social que desencoraja comportamentos agressivos.
O Rio também reúne experiências bem-sucedidas que mostram que essas iniciativas produzem resultados concretos. Em alguns clássicos recentes, o deslocamento de torcidas foi mais organizado, com menos registros de confusão e maior sensação de segurança entre os torcedores. Em bairros como Maracanã, São Cristóvão e Riachuelo, moradores relataram dias de jogo mais tranquilos quando campanhas educativas e ações de mediação foram realizadas simultaneamente. Projetos comunitários realizados em equipamentos esportivos do entorno, como no Maracanãzinho e em centros culturais próximos, também ajudaram a reduzir tensões e ampliar o diálogo entre torcedores de diferentes perfis.
Essas iniciativas funcionam como um espaço de aprendizado, já que transformam a arquibancada em um local de convivência, e não de rivalidade extrema. Mostram que torcer também pode ensinar sobre respeito, diversidade, limites e responsabilidade coletiva. Quando a educação, a mediação e as campanhas de conscientização atuam juntas, o futebol deixa de ser lembrado apenas pelos riscos e volta a assumir seu papel como ferramenta de encontro social.
Em uma cidade onde a violência afeta diretamente a mobilidade, o comércio e a rotina de quem vive no entorno dos estádios, essas ações oferecem um caminho real para tornar o ambiente do futebol mais seguro, acolhedor e participativo.




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