top of page

Vidas nos EUA revelam efeitos da rivalidade Brasil X EUA

  • Foto do escritor: Alunos UVA
    Alunos UVA
  • 26 de nov. de 2025
  • 6 min de leitura

Pessoas que vivem em Orlando comparam rotinas, oportunidades e desafios entre Brasil e Estados Unidos, revelando nuances por trás da ideia do “país das possibilidades”.



Por Maria Eduarda Menino e Maria Eduarda Frugulhetti


A imagem dos Estados Unidos como terra de oportunidades sempre exerceu fascínio sobre os brasileiros, mas relatos de quem vive no país mostram que a experiência é mais complexa do que a fantasia vendida em redes sociais e filmes. Orlando, uma das regiões com maior crescimento de comunidades latinas na última década, tornou-se um mosaico cultural onde convivem expectativas, dificuldades e adaptações.


Bandeira dos EUA (Reprodução:Maria Eduarda Frugulhetti)
Bandeira dos EUA (Reprodução:Maria Eduarda Frugulhetti)

Entre essas histórias está a de Juliana Gama, brasileira que se mudou em 2016, e a norte-americana Olivia Miller, que observa de perto como a chegada de imigrantes transforma a rotina local. Para contextualizar esses movimentos, o especialista João Prado, bacharel em Relações Internacionais, comenta o cenário histórico e econômico que envolve essa migração bilateral.


Segundo João:

“A migração para os Estados Unidos sempre foi impulsionada pela promessa de estabilidade econômica, mas hoje ela está diretamente ligada à percepção global de insegurança econômica e política. As pessoas estão saindo menos por sonho e mais por necessidade concreta.”


Ele destaca que a imigração brasileira para os EUA cresceu especialmente entre 2018 e 2022, impulsionada pela crise econômica no Brasil, pelo dólar alto e pela busca por segurança.


Quando o sonho encontra a rotina


Juliana revela que sua principal fonte de informação mudou ao chegar aos EUA:


“a gente acompanha muito do lado de cá né, eu particularmente não tenho muito contato com a mídia brasileira, o que a gente acompanha é a mídia americana. Os brasileiros que moram nos EUA quase não falam sobre.”

 

Segundo pesquisas do Pew Research Center, imigrantes latinos tendem mesmo a consumir mais mídia norte-americana após alguns anos no país, o que altera a percepção política e social sobre suas origens.


Ela também comenta a mudança no clima diplomático:


“A gente aqui nos Estados Unidos sente que foi colocado tipo uma barreia entre os países essa linha diplomática que existia, essa cordialidade, já não existe mais.”


João Prado explica que relações Brasil–EUA são historicamente oscilantes, afetadas por interesses comerciais, taxações e mudanças de governo, o que explica essa percepção de instabilidade citada por Juliana.


O brilho das oportunidades

 

Olivia, que trabalha com atendimento ao público, diz:


“Os americanos trabalham muito, às vezes até demais. Não existe essa ideia de viver para aproveitar, como vejo nos brasileiros.”

 

Ela reforça que imigrantes costumam ocupar trabalhos pesados, porém bem remunerados para padrões brasileiros. Dados do Census Bureau mostram que o salário médio de latinos nos EUA é 25% menor que o de americanos nativos, revelando desigualdades persistentes.


Segurança como divisor de águas

 

Juliana interpreta o momento político como conflituoso:


“Sinto que no momento é muito mais uma disputa de poder e ego, de quem tem mais a perder.”

Olivia, por outro lado, destaca riscos locais:


“Sim, os números são diferentes. Mas segurança aqui depende do bairro, da cidade, da renda. Os EUA têm seus próprios medos — tiroteios, tensões raciais, violência em escolas.”


João complementa que os EUA têm índices menores de homicídio que o Brasil, mas muito maiores de crimes com armas de fogo em massa e tensões sociais — o que gera um tipo diferente de insegurança.


Custo de viver: o que pesa no final do mês?


Gráfico ( Reprodução: Maria Eduarda Frugulhetti)
Gráfico ( Reprodução: Maria Eduarda Frugulhetti)

 

Juliana descreve aumento no preço de produtos brasileiros:

 

“Os preços aumentaram aqui, para a gente aumentou bastante coisa de produtos brasileiros, o que me doeu mesmo foi nos envios e nos recebimentos, existe hoje uma insegurança postal, de comprar coisas do Brasil para os EUA ou enviar. Não sabemos se seremos taxados ou se vai chegar.”

 

Isso coincide com o aumento de tarifas internacionais e fiscalização alfandegária implementada nos últimos anos.


Ela também cita movimentos inflacionários:


“Não sabemos aqui se é reflexo direto da taxação que o Trump fez ao Brasil, mas a economia americana tem sofrido uma inflação diferente nos últimos 3 anos…”

 

De fato, segundo o Bureau of Labor Statistics, os EUA tiveram a maior inflação em 40 anos entre 2021 e 2023.


Sobre dependência econômica:


“Não acho que os EUA seja tão dependente dos produtos brasileiros para gerar esse desequilíbrio todo”, diz Juliana.

 

O especialista João Prado explica que a dependência é limitada a setores como carne bovina de base, mas não ao varejo.


Dados oficiais no site da EIA (“Gasoline explained”) há uma seção específica para “preços e perspectivas”,  mostram que os valores da gasolina realmente variam de forma rápida e constante, seguindo tendências de oferta, demanda e flutuações no cenário global. Para imigrantes brasileiros, essa dinâmica pode gerar estranhamento, mas é vista pelos americanos como parte comum da rotina.

 

“A gasolina tem uma característica bem interessante, ela aumenta e diminui…”, diz Juliana.

 

Dados de EIA – Preço de varejo semanal da gasolina confirmam que o preço flutua semanalmente nos EUA devido à política de livre mercado.


Sistema de saúde: eficiência que pesa no bolso

 

Olivia também destaca que, embora o sistema de saúde norte-americano seja eficiente e rápido, seu custo elevado representa um desafio constante. Sem seguro médico, até atendimentos simples podem se tornar inacessíveis, deixando muitas famílias vulneráveis a dívidas altas:


O sistema é eficiente, mas é caro. Muito caro. Quem não tem seguro sofre.”

 

Segundo estudos da Kaiser Family Foundation, cerca de 10% dos americanos vivem sem seguro médico, o que expõe uma parcela significativa da população a riscos financeiros. Esse dado revela um dos contrastes mais marcantes entre a estrutura pública de saúde brasileira e o modelo privado dos EUA.

  

Choque cultural e convivência

 

Juliana descreve sua experiência social destacando que muitos americanos são mais reservados e protetores de seu espaço pessoal. Para ela, Orlando funciona como uma “bolha” multicultural, onde a convivência é mais aberta, mas ainda distante da espontaneidade típica das relações brasileiras:

 

“O americano é muito territorial, uma nação muito fechada entre eles, Orlando é uma bolha, não é a mesma coisa de estar no interior do Wisconsin ou no Kansas, as pessoas acabam conseguindo criar seus espaços aqui, talvez não fosse do mesmo jeito se eu estivesse no interior do Alabama por exemplo”

 

Ela aponta uma realidade comum: regiões turísticas como Orlando são mais abertas a imigrantes que cidades do interior.


Walmart Orlando FL 2025 (Reprodução: Maria Eduarda Frugulhetti)
Walmart Orlando FL 2025 (Reprodução: Maria Eduarda Frugulhetti)

Olivia observa que brasileiros costumam criar redes sociais muito fortes, marcadas por acolhimento, proximidade e senso de comunidade. Ela afirma que essa energia social é uma das características mais admiráveis da cultura brasileira e que faz diferenças reais na adaptação de imigrantes recém-chegados.

 

“Os brasileiros são acolhedores. Vocês têm uma energia social que a gente não tem.”

 

Estudos de convivência multicultural, um trabalho da FGV analisa a migração de brasileiros para o Paraguai e o Japão. E mostram que brasileiros formam redes fortes de apoio, algo que impressiona outros imigrantes.


Saudade, identidade e frustrações

 

Juliana relembra que decidiu deixar o Brasil principalmente pela frustração com questões estruturais, especialmente a corrupção. Ela afirma que, a mudança trouxe a sensação de estar em um ambiente mais estável e organizado do que aquele que vivenciava no Brasil.

 

“Eu escolhi sair de lá por causa do próprio Brasil, por causa da nossa cultura corrupta…”

  

Essa visão está alinhada com pesquisas, a consultoria mencionada pela Gazeta do Povo identificou que instabilidade política ou corrupção aparece entre os motivos para brasileiros deixarem o país que mostram que corrupção é, desde 2015, uma das principais causas citadas por brasileiros que emigram.


Participação política e visão sobre os governos

 

Juliana menciona que não vota no Brasil pois não vivencia plenamente o contexto político local. Para ela, é importante compreender mais profundamente a realidade do país, então prefere não se envolver.

 

“Eu não voto aqui ainda, temos residência permanente, mas não somos cidadãos ainda, nós temos a opção de votar em transito no Brasil, mas preferimos não, pois não estamos lá, não vivemos o que o brasileiros vivem, então não me sinto no direito de votar.”

 

 

Para o futuro, ela afirma que pretende votar quando se tornar cidadã, já que considera os EUA a nação que escolheu para construir sua vida. A participação política, segundo ela, será uma forma de retribuir e contribuir com o país que a acolheu.

 

Juliana Gama (Reprodução: Maria Eduarda Frugulhetti
Juliana Gama (Reprodução: Maria Eduarda Frugulhetti

 

“Eu pretendo votar no futuro porque foi a nação que eu escolhi para viver…”

 

Ela completa dizendo que percebe o sistema político norte-americano como menos polarizado entre direita e esquerda do que o brasileiro, embora também enfrente divisões significativas. Essa visão revela a forma como imigrantes reinterpretam a política a partir de duas realidades distintas:

 

“O que eu sinto aqui, é que não tem a direita e a esquerda tão claramente dividida…”

 

Ela relembra que chegou aos EUA em 2016, período em que o Brasil vivia intensa crise política com o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Esse momento marcou sua saída e influenciou sua visão sobre os rumos do país, impactando também sua adaptação à nova vida:

 

“Em 2016 quando cheguei aqui, a Dilma estava sendo deposta…”

 

João Prado ressalta que imigrantes frequentemente desenvolvem percepções políticas híbridas, influenciadas pelos dois países.


Conclusão — Entre duas culturas


A convivência entre Juliana e Olivia mostra que viver entre Brasil e Estados Unidos é navegar entre ganhos e perdas. É adaptar-se, reavaliar valores e entender que nenhum país entrega o sonho completo. Eles oferecem, no máximo, caminhos — e escolhas.

 

FONTES

 


  

Comentários


LOGO Entrelinhas.png

 

© 2025 Entrelinhas por Laura Gomes. Todos os direitos reservados.

 

Você gostaria de receber as atualizações do Entrelinhas?

Universidade Veiga de Almeida

R. Ibituruna, 108 - Maracanã, Rio de Janeiro - RJ

Av. Gen. Felicíssimo Cardoso, 500 - Bloco A - Barra da Tijuca, Rio de Janeiro - RJ

  • Instagram
bottom of page