Skate, Cultura e Inclusão: como o Recreio em Movimento transforma a Praça Tim Maia
- Alunos UVA

- 1 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Por: Isac Oliveira
Aulas gratuitas de skate e atividades culturais ressignificam o espaço público no Recreio dos Bandeirantes e impactam crianças, adolescentes e pessoas com deficiência.
Todas as manhãs e tardes, o som das rodinhas riscando o concreto da Praça Tim Maia se mistura ao barulho das ondas no Posto 12. A cena revela mais do que treino e diversão. Ali funciona o Recreio em Movimento, um projeto social que oferece aulas gratuitas de skate para moradores do bairro e regiões próximas. A iniciativa, vinculada ao Rio em Forma, da Prefeitura do Rio de Janeiro, usa o esporte como caminho para a inclusão, a convivência e o fortalecimento comunitário. Em meio a crianças, jovens e pessoas com deficiência, a pista se tornou um espaço de pertencimento e de novas possibilidades.
O Recreio em Movimento nasceu de uma percepção simples dos professores e monitores: a essência do skate já carrega os valores necessários para transformar vidas. Segundo a equipe, a proposta foi inspirada no caráter colaborativo do esporte e na sua capacidade de acolher e unir diferentes perfis.
Os responsáveis explicam que recebem apenas um apoio básico do programa Rio em Forma. Ainda assim, mantêm professores e monitores oficialmente registrados, recebendo remuneração fixa de R$ 988. Mesmo com orçamento limitado, a equipe atua de maneira voluntaria e engajada. A maior despesa atual é a compra de água para hidratar os alunos durante as aulas, algo que se soma à necessidade constante de manutenção de skates, capacetes e equipamentos de segurança.
Aulas gratuitas do Recreio em Movimento atraem crianças e jovens de diferentes faixas etárias. Crédito: Arquivo pessoal.
O objetivo inicial não era apenas ensinar manobras. A intenção era criar um ponto de encontro comunitário, aproximar famílias e oferecer oportunidades reais para jovens e pessoas com deficiência que não têm acesso a atividades esportivas na orla.
O projeto ganhou vida em um espaço público que passou por significativas melhorias nos últimos anos. A Praça Tim Maia, no Recreio dos Bandeirantes, recebeu revitalização da Prefeitura do Rio, incluindo nova iluminação, paisagismo, área infantil e uma pista de skate democrática. Segundo informações da Secretaria Municipal de Infraestrutura, a obra ainda está em andamento, mas já transformou a rotina de quem frequenta o local.
A inauguração da pista em 2023 ampliou a movimentação na praça e atraiu praticantes de diferentes níveis. O ambiente se tornou um ponto de encontro e estimulou novas iniciativas de lazer, cultura e esporte. Esse cenário propício permitiu que o Recreio em Movimento se consolidasse como um núcleo comunitário do Rio em Forma, aproximando moradores e reforçando a importância da ocupação qualificada da cidade.
Legenda: Pista revitalizada da Praça Tim Maia se tornou espaço de convivência e prática esportiva. Crédito: Arquivo pessoal.
A reorganização do espaço público dialoga com estudos sobre o impacto de praças ativas na qualidade de vida urbana. Pesquisas como as da Fundação Fiocruz destacam que projetos esportivos comunitários ampliam o convívio social, incentivam hábitos saudáveis e reduzem a sensação de insegurança em áreas frequentadas regularmente.
O Recreio em Movimento se apoia em três eixos fundamentais que se complementam: skate, arte e inclusão. Juntos, formam uma metodologia que ultrapassa o ensino esportivo e alcança dimensões culturais e sociais.
Para muitas crianças, o skate funciona como expressão de identidade. Para pessoas com deficiência, representa autonomia e movimento. A equipe explica que cada aula é adaptada às necessidades individuais dos participantes. Algumas crianças têm TDAH, outras autismo ou déficit de atenção, e a abordagem pedagógica respeita esses ritmos.
Aspas destacadas:
“As adaptações são feitas com atenção individual para cada aluno. Muitos têm TDAH, autismo ou déficit de atenção.”
Além da técnica, o skate ensina convivência, superação e cooperação. A cultura skatista também incentiva apoio mútuo: quando um aluno cai, os outros ajudam; quando alguém acerta uma manobra, o grupo comemora.
O projeto também oferece oficinas de teatro e atividades culturais que complementam o aprendizado esportivo. As ações ampliam o vínculo entre os participantes e estimulam expressão, criatividade e convivência. Famílias acompanham os ensaios, e monitores conduzem dinâmicas artísticas que reforçam o sentimento de comunidade.
A participação de pessoas com deficiência reforça o caráter inclusivo da iniciativa. A Praça Tim Maia passa a ser ocupada de forma mais diversa, refletindo uma cidade que acolhe e protege. A proposta está alinhada aos objetivos do próprio Rio em Forma, que busca democratizar o acesso ao esporte em diferentes regiões do Rio de Janeiro.
Entre os diversos rostos que atravessam a pista, o de Maia se destaca. Ela começou a andar de skate ainda pequena, mas precisou parar por questões familiares. Um dia, passando pela praça, sua avó percebeu a movimentação das aulas e decidiu se informar. No dia seguinte, Maia já estava participando.
A avó explica que a menina encontrou no projeto um espaço para retomar uma paixão antiga. A história da família revela como iniciativas públicas podem aproximar afetos e resgatar experiências que pareciam perdidas.
Legenda: A jovem Maia reencontrou no skate uma paixão antiga, agora com apoio da comunidade.Crédito: Arquivo pessoal.
Histórias como essa mostram que o impacto do projeto é concreto e emocional. Cada vivência compartilhada torna a pista não apenas um espaço de prática esportiva, mas um território de afeto, encontro e possibilidades.
O Recreio em Movimento enfrenta obstáculos comuns a iniciativas gratuitas, como limitação de recursos e necessidade constante de manutenção. Apesar de receber apoio do Rio em Forma, o projeto ainda precisa de:
Financiamento estável.
Renovação frequente de equipamentos.
EPIs adequados para crianças e pessoas com deficiência.
Infraestrutura para suportar turmas em expansão.
O cenário é similar ao de diversos projetos sociais esportivos analisados em estudos do Instituto Brasileiro de Economia da FGV, que apontam que a sustentabilidade financeira é o principal desafio para iniciativas de base comunitária.
Os professores reconhecem os limites, mas destacam que o engajamento da comunidade é o que mantém o projeto funcionando. Famílias colaboram, pais ajudam na organização e alguns moradores contribuem com doações espontâneas.
O impacto do Recreio em Movimento já é perceptível na rotina da praça. Crianças aprendem suas primeiras manobras, pessoas com deficiência ampliam autonomia e confiança, e jovens encontram no esporte um caminho de convivência e disciplina.
Para o futuro, os responsáveis imaginam ampliar o número de turmas, fortalecer parcerias e adquirir novos equipamentos de segurança. Também existe o desejo de criar um ponto fixo de arrecadação de doações e estabelecer relações com empresas e organizações sociais que possam fortalecer a iniciativa.
Essa projeção está alinhada com o conceito de Cidade Educadora, defendido por urbanistas e instituições como o Instituto de Arquitetos do Brasil, que entendem a cidade como espaço de aprendizagem e integração.
O Recreio em Movimento se tornou mais do que um projeto esportivo. É uma experiência comunitária que conecta esporte, arte e inclusão em um dos cenários mais emblemáticos do Recreio dos Bandeirantes. A revitalização da Praça Tim Maia criou a base física para esse encontro, mas é a comunidade que dá vida ao espaço.
A cada criança que aprende a se equilibrar no skate, a cada pessoa com deficiência que encontra autonomia, a cada família que acompanha o desenvolvimento dos filhos, o projeto reafirma a importância da ocupação positiva do espaço urbano.
A iniciativa mostra que políticas públicas, cultura esportiva e mobilização local podem transformar realidades. E, no movimento das rodas sobre o concreto, revela que construir cidadania também pode acontecer sobre um shape.












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